A Bela e a Fera

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Disney renova conto de fadas sem prejudicar sua essência

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Beauty and the Beast
DIREÇÃO: Bill Condon
DURAÇÃO: 129min
GÊNERO: Musical, Fantasia, Romance, Família
PAÍS: EUA
ANO: 2017

5


A Bela e a Fera pode ter “apenas” 26 anos, mas é um clássico absoluto, não há como negar. A história de 1991 foi a primeira animação a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme e venceu dois, nas categorias de Trilha Sonora e Canção Original.

Consequentemente, o filme faz parte da memória afetiva de milhares de crianças e adultos, e é centrado em uma história de amor que causa inveja em muitos romances. Em 1993, foi ainda a primeira produção da Disney na Broadway, onde também foi bem-sucedida. Com esse currículo, era apenas questão de tempo até que Bela e a Fera entrasse para o frenesi de live-action do estúdio. A boa notícia é que o projeto fez jus ao seu original.

Bela (Emma Watson) é uma jovem diferente dos moradores de sua aldeia, principalmente de Gaston (Luke Evans), que quer sua mão em casamento. Apaixonada por livros, ela mora com seu pai, Maurice (Kevin Kline), que é aprisionado no castelo da Fera (Dan Stevens) depois de se perder em uma floresta. Bela decide ficar no seu lugar e aos poucos descobre que seu novo lar foi enfeitiçado.

BEAUTY AND THE BEAST

A tarefa de recriar A Bela e a Fera é difícil. Primeiro por se tratar de um filme tão amado por muita gente. Segundo, porque o original de 1991 já é perfeito, um clássico. Mas Bill Condon teve habilidade suficiente para reaproveitar a história da Disney, deixando-a atraente e preservando seus encantos, e ainda soprando ar de novidade à trama.

O live-action é muito parecido com a obra original. Existem diálogos inteiros onde todas as palavras foram preservadas. Para quem quer novidade, Bela e a Fera pode ser frustrante – embora Mogli tenha se dado muito bem ao não ousar em seu roteiro. Mas se o original de 1991 funciona tão bem, não faria sentido distorcê-lo para a nova versão. Mesmo que a trama seja a mesma, existem alguns detalhes que repaginam a história.

BEAUTY AND THE BEAST

Como já foi amplamente divulgado, o capanga LeFou (Josh Gad) nesta versão é gay. Em todo o filme, vemos uma preocupação da Disney em adaptar seu clássico para os novos tempos. Casais interraciais aparecem em diversos momentos e Madame Garderobe (Audra McDonald) veste três vilões como mulheres e diz para eles serem “livres”, para a felicidade de um deles. Tudo é feito de forma sutil e contida. Não é uma revolução, mas é sem dúvidas um importante e necessário passo.

Bela, também, é transformada em uma mulher ainda mais independente – e Emma Watson tem grande influência nisso – , e se consolida como heroína da história, não como princesa. “Ela deve estar chorando em seu quarto”, dizem os objetos mágicos certa hora, e em seguida, vemos Bela amarrando pedaços de pano para tentar fugir pela janela. Em outro momento, ela ensina uma menina a ler, escandalizando sua aldeia e até mesmo um professor.

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A cena, inclusive, ajuda a situar o filme em seu contexto histórico. Ao invés de estar perdido no espaço-tempo, como a maioria dos contos de fadas, A Bela e a Fera faz questão de mostrar que se passa no século XVIII, o que faz muito bem à história. Pequenas referências – como vestimentas e o cravo Maestro Cadenza (Stanley Tucci) – e brincadeiras com a época – como a arcada dentária do mesmo personagem – contribuem para isso.

O filme ainda tapa vários buracos criados em 1991. O motivo pelo qual nenhum aldeão sabe da existência do castelo, a linha temporal dos acontecimentos, a cumplicidade dos conterrâneos de Gaston com sua arrogância e muitas outras questões são solucionadas para tornar esta versão mais madura.

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Outro aspecto que faz deste Bela e a Fera diferente de seu antecessor são as canções. Sim, elas são as mesmas, mas os arranjos musicais foram mudados, algumas letras incrementadas e quatro músicas inéditas adicionadas à trilha sonora. Estas, inclusive, não alcançam o nível de excelência das originais, mas também são muito bonitas, tendo sua função na história. O destaque é para Evermore – cantada por uma Fera que pode causar estranhamento pela voz, mas à qual logo nos adaptamos – , que é extremamente sensível e preenche a falta de música no papel da Fera.

As coreografias e performances também são ótimos, se aproximando de clássicos do gênero musical de forma divertida. Se a reprise de Belle espelha a mais clássicas das cenas de A Noviça Rebelde, Be Our Guest é um banquete aos amantes de musicais. As referências no show de Lumière (Ewan McGregor) são várias: Cabaret, Cantando na Chuva e Moulin Rouge! são só algumas. A cena, inclusive, é um presente para os olhos, extremamente bem feita, colorida, dançante e sofisticada.

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Tecnicamente, o filme é deslumbrante. O design de produção é excelente, combinando elementos do original de 1991 com referências claras ao século XVIII e ainda cenários e objetos elegantes, que invocam um senso de fantasia e imaginação típico dos contos de fadas. Os figurinos de Jacqueline Durran também são belíssimos e o clássico vestido de valsa de Bela é atualizado, não deixando a desejar.

Os efeitos visuais usados para criar os objetos mágicos são perfeitos. As soluções encontradas para seus movimentos são engenhosas e dão credibilidade ao feitiço lançado no castelo – Chip (Nathan Mack), por exemplo, anda como se estivesse em um skate, dando jovialidade ao personagem.

Beauty and the Beast

A Fera deixa a desejar. Seu rosto é bastante humano, tem emoção, mas o seu andar é pesado, visivelmente irreal. Teria sido melhor criar uma Fera a partir de figurino e maquiagem, à la Chewbacca, mas em uma indústria tão enlouquecida com as maravilhas do CGI, é difícil pensar na Disney tomando o caminho dos efeitos práticos em um conto de fadas. Outro pequeno problema é a edição do filme, súbita e com cortes equivocados em determinados momentos,

Mas nada é capaz de parar A Bela e a Fera de ser uma digna e bonita versão de um filme tão amado. Muitos podem criticar a falta de originalidade ou a natureza desnecessária de um filme não tão antigo, mas há espaço em Hollywood para esta versão mais adulta e musical, que ainda confere inventividade e respeito à obra.

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O elenco também contribui para o sucesso do longa. Emma Watson é uma figura forte e que passa um ar de determinação e graça à sua Bela, surpreendendo a todos ao cantar. Luke Evans e Josh Gad formam uma dupla divertidíssima e, enquanto o primeiro tem o ar de arrogância típico de Gaston, o LeFou de Gad rouba as cenas e ainda, de forma sutil, reinventa seu personagem, que agora tem uma quedinha pelo amigo “machão”. Kevin Kline faz um Maurice muito mais profundo, ao contrário do bobalhão pai de Bela de 1991. 

Por fim, o trabalho de vozes é excelente: Audra McDonald e Stanley Tucci são engraçados, Ewan McGregor é charmoso, Ian McKellen dá autoridade ao seu atrapalhado Horloge e Emma Thompson não se deixa intimidar pela difícil tarefa de assumir o papel originado por ninguém menos que Angela Lansbury.

Além de um ótimo entretenimento, um banquete visual e uma trilha sonora emocionante, A Bela e a Fera ainda se mantém fiel à sua mensagem de amor, bastante universal e delicada. Por outro lado, promove a cultura como um elemento tão transformador quanto esse sentimento. É um filme capaz de agradar qualquer um que vá de coração aberto ao cinema, estando envolto em mágica, nostalgia e amor.


Spotlight – Segredos Revelados

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Com história já conhecida, filme sobre reportagem do Boston Globe surpreende

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Spotlight
DIREÇÃO: Tom McCarthy
DURAÇÃO: 128min
GÊNERO: Drama
PAÍS: EUA
ANO: 2015
5

Spotlight é uma das promessas para o Oscar de Melhor Filme. De forma tímida, o longa foi ganhando apoio da crítica e se tornou o grande favorito para a estatueta. Pelo menos até a cerimônia do Globo de Ouro, que deixou o filme de mãos vazias. Ainda assim, Segredos Revelados continua na disputa como um forte concorrente ao Academy Award. E isso não pelo murmurinho que tem provocado, mas por ser realmente bom.

Baseado em fatos reais, Spotlight leva às telas a história da equipe de Jornalismo investigativo do Boston Globe, que em 2002 abalou a confiança na Igreja Católica após a descoberta de uma série de casos de pedofilia cometidos por padres e acobertados pelo alto escalão clerical.

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Spotlight é, antes de mais nada, um filme sobre Jornalismo. Os escândalos de pedofilia e a blindagem da Igreja Católica em Boston são temas importantes, que estão presentes, mas que estão subordinados ao real objetivo do diretor Tom McCarthy, que é acompanhar os bastidores de uma grande reportagem.

Como outros filmes com essa proposta, Spotlight precisa segurar as rédeas para não se render à tentação de pintar seus jornalistas como heróis. Com isso, a trama certamente estaria marcada por um maniqueísmo simplista e tedioso. Ainda bem que esse não é o caso em Segredos Revelados.

É difícil não engrandecer as personagens por trás da reportagem do Boston Globe. Mas, com um roteiro que busca explorar seus mocinhos em detalhes, mostrando-os em situações rotineiras, com todas as suas imperfeições, Spotlight não romantiza seus jornalistas mais do que deveria, deixando sua história convincente e empolgante.

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Parte desse mérito é, sem dúvida, do excelente elenco. De Michael Keaton a Stanley Tucci, todos estão perfeitos em seus papeis. O destaque da vez é para a ex-menina malvada Rachel McAdams e para o maravilhoso trabalho de Mark Ruffalo, que está irrepreensível.

Spotlight trata de um assunto delicado, e faz isso de forma complexa. Seus diálogos podem até parecer confusos em determinados momentos, graças à gigante quantidade de nomes presentes no roteiro – reflexo da extensão da rede de pedofilia da Igreja Católica em Boston – mas são muito inteligentes.

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Mesmo assim, seu dinamismo e a quantidade de choques aos quais o público é submetido cada vez que se descobre um novo caso de abuso sexual, deixam a história empolgante, gerando tensão e até mesmo certo incômodo pela violência envolvida na reportagem de Spotlight.

Além de ser uma excelente história no geral, Segredos Revelados ainda é recheado de ótimas cenas. A personagem de Rachel McAdams, que assim como a maioria de seus colegas vem de uma família católica, protagoniza uma delas, quando precisa mostrar à sua avó, que vai à missa três vezes por semana, as monstruosidades cometidas por vários padres da região. De forma individualizada e impactante, vemos as dimensões daquela reportagem.

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Outro momento chocante e que vale ser mencionado acontece quando a jornalista encontra um dos padres acusados de pedofilia. Ela faz perguntas à ele relacionadas aos abusos e recebe todas as respostas que quer ouvir, como se aquilo fosse a coisa mais natural possível. É um tapa na cara no público, que fica sem palavras.

Spotlight está entre os melhores de 2015. Cumpre com a proposta e dramatiza na medida certa sua história verídica. Sabe tratar de um tema delicado sem desrespeitar as milhares de vítimas dos escândalos sexuais envolvendo a Igreja Católica. Algo que precisa ser visto por todos que se interessam por uma boa história.


A Esperança – O Final

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Saga de Katniss chega ao fim sem deixar a atualidade e o tom político para trás

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: The Hunger Games: Mockingjay – Part 2
DIREÇÃO: Francis Lawrence
DURAÇÃO: 137min
GÊNERO: Aventura, Ficção
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2015
4

Quando a saga literária de Suzanne Collins resolveu que era hora de migrar para as telas, precisou convencer Hollywood que colocar crianças em uma arena para morrer não era uma ideia tão ruim. Katniss Everdeen teve, então, que se contentar com a Lionsgate, estúdio bem menor que a Warner Bros de Harry Potter, para chegar aos cinemas. Hoje, com uma bilheteria de mais de US$ 2,5 bilhões para os três primeiros filmes, a franquia Jogos Vorazes se tornou a “queridinha” do estúdio, e nem por isso abandonou a inteligência das páginas de Collins.

A Esperança – O Final começa exatamente onde seu antecessor termina. Para quem não se lembra, após ir para a arena dos Jogos Vorazes duas vezes, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) é resgatada pelo Distrito 13, onde rebeldes querem depor o Presidente Snow (Donald Sutherland), que controla a fictícia Panem com truculência e desigualdade. Lá, ela se torna a líder da revolução, mas não deixa de se preocupar com a segurança de sua família e de Peeta (Josh Hutcherson), o companheiro que foi sequestrado pela Capital.

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Na primeira parte de Esperança, Peeta é resgatado, mas acaba se tornando uma máquina feita para matar Katniss. Dessa forma, o “tordo” precisa ir para o campo de batalha, junto com Gale (Liam Hemsworth) e a “aliança rebelde”, para se vingar de Snow e colocar um fim à sua tirania.

Prometendo um desfecho épico, com direito a uma guerra – algo que parece ser unanimidade entre as adaptações literárias dos últimos anos (Harry Potter, Crepúsculo e Senhor dos Anéis estão aí para provar isso) -, Esperança mantém o tom político que está presente desde o começo da franquia, mas que ganhou vigor em sua Parte 1.

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Esta característica, que é a principal razão para que Jogos Vorazes destoe do vazio de outras obras “adolescentes” (como é o caso de Cidades de Papel ou, novamente, Crepúsculo) faz com que a heroína Katniss denuncie, ao longo de sua jornada, os horrores da tirania, da opressão e da desigualdade. O discurso anti-belicista serve como crítica não somente à ficção, mas à própria realidade que vivemos hoje, na qual discursos de violência e intolerância se tornam cada vez mais cotidianos.

Mas o grande trunfo da obra é questionar quem, em meio ao caos que tomou conta de Panem, é verdadeiramente o vilão. Se de um lado Snow representa uma sociedade abusiva e fútil, de outro temos a Presidente Alma Coin (Julianne Moore), com fome de poder e tão radical quanto seu inimigo. O filme deixa claro, desde o princípio, que o maniqueísmo corrompe qualquer sistema, que é preciso achar um meio termo entre Capital e Distrito 13, ou até mesmo entre direita e esquerda.

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As cenas de ação de Esperança são boas, deixam o público, mais uma vez, tenso e, em meio aos momentos de agitação, encontra brechas para propor discussões inteligentes ou para focar em aspectos mais emotivos da trama. Mas esse, talvez, seja o grande problema do capítulo final de Jogos Vorazes.

Francis Lawrence pareceu segurar as rédeas do “drama adolescente” nos últimos dois filmes. Mas, justo no encerramento, acaba pesando a mão em alguns dos momentos do triângulo formado por Katniss, Peeta e Gale. Há um claro desconforto nas cenas em que os protagonistas insistem em falar sobre sua vida amorosa, que não parece se encaixar no contexto de guerra e morte que toma conta da trama. É frustrante ver a inteligente e heróica história de Katniss reduzida ao sentimentalismo.

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Mesmo assim, o filme sempre acaba voltando para a cruel realidade na qual se passa e não abandona os questionamentos que levanta ao longo do roteiro.

Outro destaque, como sempre, é o elenco. Da determinação de Jennifer Lawrence ao sadismo de Donald Sutherland, passando pela ironia de Jena Malone (Johanna), a tirania disfarçada de Julianne Moore, a amabilidade de Sam Claflin (Finnick) e pelo carisma de Nathalia Dormer (Cressida) – que fez de um pequeno papel literário uma oportunidade para brilhar – as estrelas de Jogos Vorazes são responsáveis por criar um vínculo forte entre a trama e o público.

Die Tribute von Panem - Mockingjay Teil 2E, mesmo que com tempo de tela reduzido, vale ressaltar os ótimos trabalhos de Elizabeth Banks (Effie), Woody Harrelson (Haymitch) e do falecido Philip Seymour Hoffman (Plutarch) ao longo de toda a saga.

Com ação, drama e uma bela mensagem, chega ao fim uma das franquias “jovens” mais inteligentes do cinema. E, mesmo que sua cena final não seja tão aberta a discussões quanto deveria, em seus últimos minutos, a saga termina com poesia em meio à dor dos Jogos Vorazes. A mensagem de esperança do filme é forte e bonita, mesmo que sua visão não seja sempre otimista. Que a sorte esteja sempre a seu favor.


A Esperança – Parte 1

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Filme politizado prepara terreno para o desfecho de Katniss

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: The Hunger Games: Mockingjay – Part 1

DIREÇÃO: Francis Lawrence

DURAÇÃO: 123min

GÊNERO: Ficção, Aventura

PAÍS: Estados Unidos

ANO: 2014


Ultimamente, ecoam no mundo cinematográfico críticas de leitores feitas às adaptações mal executadas de seus livros preferidos. Percy Jackson, por exemplo, é um filme horroroso tanto para aqueles que desconhecem a história original, como também para aqueles que a leram. Nesse ambiente de descontentamento, Jogos Vorazes, desde Em Chamas, é exceção: não somente é fiel aos livros, como também conta com uma excelente equipe para fazer a transição das páginas para as telas.

A primeira parte do último capítulo da franquia Jogos Vorazes encaminha a história da saga para o seu fim. Em Chamas termina com Katniss (Jennifer Lawrence) sendo resgatada da arena do Massacre Quaternário e descobrindo que está no Distrito 13, já que o 12, seu lar, foi destruído. A Esperança narra o processo de transformação da protagonista nO Tordo, símbolo de uma revolução que alcança toda Panem, contra a elite da Capital. Da mesma forma que Katniss é a arma dos rebeldes, Peeta (Josh Hutcherson), sequestrado pelo presidente Snow (Donald Sutherland), é explorado a fim de cessar a insatisfação nos distritos. Katniss conta com a ajuda de sua irmã Prim (Willow Shields) e de Gale (Liam Hemsworth) para acatar os desejos de Alma Coin (Julianne Moore) e de Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman) na rebelião.

Esperança é um filme muito mais reflexivo do que para diversão. Ao preparar terreno para o último capítulo da franquia, Francis Lawrence opta pela falta de clímax, criando situações que o desencadearão no próximo ano. Dessa forma, o longa não é recheado de ação, como seus antecessores, estando muito mais voltado para a guerra midiática protagonizada pela Capital e o Distrito 13. A escolha foi perigosa, pois facilmente tornaria o filme exaustivo, o que não ocorre, graças à habilidade empregada na tradução do livro para o cinema.

A guerra de propaganda, que explora as imagens de Katniss e Peeta, é construída de maneira substancial e extremamente inteligente. A atmosfera do filme nos lembra uma polarização como a observada nos anos de Guerra Fria: de um lado a extrema direita, encarnada pelo fascismo e elitismo da Capital, cujo autoritarismo se reflete também no Distrito 13. Este seria a esquerda totalitária. A lembrança que Alma Coin traz do comunismo é evidente: todos em seu distrito tem uma função, usam uniformes, tem alojamentos idênticos. Todos os esforços estão concentrados em sua causa. Logo notamos as falhas existentes nos dois lados da guerra e a batalha que Katniss trava consigo mesma entre ajudar a rebelião ou rejeitá-la. Enquanto isso, as táticas panfletárias  empregadas por Snow e Coin são convincentes, puro marketing político, contando até mesmo com cineastas para sustentá-lo.

Mais uma vez, fica evidente a complexidade e inteligência da franquia Jogos Vorazes: sua qualidade vai muito além dos gritos adolescentes que a acompanham. Toda a base ideológica utilizada para a construção de Panem é brilhante. Temas como totalitarismo e organicismo estão presentes na maioria dos discursos apresentados pela série. É maravilhoso e até mesmo divertido associar as passagens de Esperança com temas políticos, traçando paralelos com a nossa própria história.

Algumas das cenas, porém, poderiam ter um pouco mais de ação e, mesmo aquelas que a tem, poderiam ser melhores. Todo o clímax de Esperança ficará a cargo da segunda parte. Justamente por isso, as cenas de drama são as que ganham destaque nesse filme. São emocionantes e inspiram um desejo de vitória até mesmo no público. As passagens em que diferentes distritos se rebelam chegam a dar calafrios de tão intensas. O diretor utilizou a música Hanging Tree, presente no livro, com maestria, transformando sua simplicidade em algo muito mais forte, emocionante. Conduziu a cena de maneira tão brilhante que fez com que esta fosse uma das melhores sequências de toda a franquia.

Mais uma vez, Jogos Vorazes prova ter uma equipe de arte extremamente competente. Mesmo sem as cores e exageros observados nos dois primeiros filmes, a criação dos ambientes frios e cinzas desse novo filme ganha destaque. Os cenários passam com facilidade a ideia de opressão tão presente no roteiro, enquanto os responsáveis pela maquiagem fazem um trabalho esplêndido. As mudanças físicas de Peeta ao longo da trama são de uma veracidade impressionante. A trilha sonora também é boa, conciliando com facilidade as cenas de ação e de drama.

Um dos destaques mais importantes de toda a franquia Jogos Vorazes é seu elenco. Em Esperança, Jennifer Lawrence está, mais uma vez, maravilhosa em sua encarnação de Katniss Everdeen. A atriz é capaz de transitar entre os momentos de confiança e insegurança com naturalidade. Elizabeth Banks, que com sua interpretação destacou a personagem Effie Trinket, confere graça e leveza à trama, enquanto Donald Sutherland comanda seu presidente e toda a Panem com braço de ferro. Ao lado de atores já consolidados no cinema, Sam Claflin consegue fazer um trabalho incrível com seu Finnick Odair. Enquanto em Em Chamas o ator precisou vender a imagem segura e atraente do tributo, em Esperança ele convence ao apresentar o lado perturbado e melancólico da personagem. O longa ainda dá as boas vindas à talentosa Natalie Dormer e à incrível Julianne Moore, que cria uma Alma Coin substancial e fiel ao livro. A perda que a morte de Philip Seymour Hoffman foi para o cinema, graças à sua brilhante interpretação, também é destaque no longa.

Diferente de seus antecessores, A Esperança é muito mais reflexivo, tendo uma narrativa lenta, com pouca ação. Esse é o preço que o estúdio paga por querer dividir um livro com uma história bem delineada e ininterrupta. Um grande erro. Apesar disso, enquanto Em Chamas foi essencial para consolidar a franquia, Mockingjay é responsável por manter sua qualidade e evidenciar ainda mais o caráter político da obra. É justamente por ser construído sobre uma base ideológica sólida que A Esperança tem suas qualidades muito mais ressaltadas e é hábil em tensionar o público para o seu capítulo final.