Homem-Aranha: De Volta ao Lar

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Marvel coloca ordem na casa depois de seis filmes do heróis em 15 anos

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Spider-Man: Homecoming
DIREÇÃO: Jon Watts
DURAÇÃO: 133min
GÊNERO: Ação, Aventura
PAÍS: EUA
ANO: 2017
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Em apenas 15 anos, Homem-Aranha protagonizou seis filmes – e ainda fez uma participação especial em Capitão América: Guerra Civil. Mas, diferente de Hugh Jackman e seu Wolverine, Peter Parker teve três diferentes identidades ao longo de sua jornada cinematográfica.

Tudo estava bem na trilogia estrelada por Tobey Maguire, até que Andrew Garfield vestiu o uniforme vermelho e azul em dois filmes que deixaram o futuro da franquia incerto. A Marvel então viu que era hora de entrar no jogo e firmou uma parceria com a Sony, atual detentora dos direitos do personagem, para trazer uma versão mais jovem dele às telas. O resultado não poderia ser melhor.

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Depois de ajudar Tony Stark (Robert Downey Jr.) em Capitão América: Guerra Civil, Peter Parker (Tom Holland) volta para sua rotina como estudante em Nova York. O garoto precisa balancear sua vida de adolescente com seus poderes, enquanto espera ser chamado novamente para participar da equipe de heróis. Um dia, descobre um grupo comandado pelo vilão Abutre (Michael Keaton), que vende armas com tecnologia extraterrestre para criminosos da cidade, e decide intervir.

Jovial. Esta é a palavra ideal para descrever esse novo capítulo na saga de Homem-Aranha. O público é apresentado a um Peter Parker com obrigações no colégio, amores adolescentes, que precisa dar satisfações à sua tia May e é tratado como criança por Tony Stark. Essa combinação não podia ter um resultado melhor, gerando um longa que, além de divertido e cheio de ação, se destaca por ser, em sua essência, um filme de “coming of age”.

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O subgênero engloba aqueles longas que destacam a passagem da infância para a vida adulta, que falam sobre amadurecimento, como em O Clube dos Cinco e Curtindo a Vida Adoidado, ambos referenciados pela trama ou até mesmo pela campanha de publicidade de De Volta ao Lar.

Peter Parker está, no filme, desesperadamente buscando por sua verdadeira identidade, algo comum a qualquer adolescente, com ou sem superpoderes. A temática acaba fazendo com que Homem-Aranha se sobressaia quando comparado a outros filmes da Marvel, preocupados com cenas de luta e destruição em vez de acrescentar narrativas mais aprofundadas em seus roteiros. Tudo isso sem perder a marca registrada do estúdio: cenas bem-humoradas quando menos se espera.

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O maior desafio do filme certamente foi tornar sua história original e atraente, depois de seis incursões do Aranha nos cinemas. Mas De Volta ao Lar tira isso de letra, e em grande parte devido a seu astro. Tom Holland está perfeito no papel e foi capaz de atualizar o personagem sem fazer muito esforço.

O ator transborda carisma e, apesar dos 20 anos de idade, se encaixa com naturalidade nos dilemas adolescentes de Peter Parker, um personagem mais jovem. Holland une com maestria as diferentes faces do protagonista: ele é inocente, brincalhão, atrapalhado e bondoso, uma personalidade com muito potencial para se destacar em meio a tantos Vingadores.

Tom Holland

Marvel e Sony ainda acertaram em cheio no vilão do longa-metragem. Michael Keaton está excelente em um papel igualmente bom. O Abutre foge dos maniqueísmos tão comuns ao subgênero de heróis. Ele não quer dominar o mundo ou acumular poder absoluto: ele é apresentado como um homem comum que, frente às adversidades, recorre ao crime. Ele tem uma vida normal – o que fica claro em uma cena incrível, inesperada e muito bem executada – e não dava bola para os Vingadores até Peter Parker resolver se intrometer nos seus negócios.

Com esses e tantos outros personagens interessantes – o que inclui tia May, cujo passado nunca é explicado, poupando o público de uma já conhecida história de origem – , as mais de duas horas de filme voam. Cenas de ação, momentos cômicos e dramas adolescentes se alternam, deixando a trama multifacetada, rica em detalhes e com uma complexidade rara nos filmes do gênero. Resta saber se o Aranha dos cinemas continuará honrando um dos heróis mais queridos dos quadrinhos. Por enquanto, tudo indica que Peter Parker está no caminho certo.


Vingadores: Era de Ultron

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Marvel expõe maior seriedade em sua “Fase Dois”

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Avengers: Age of Ultron
DIREÇÃO: Joss Whedon
DURAÇÃO: 141min
GÊNERO: Ação, Aventura
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2015

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Todos já notaram que a Marvel é uma máquina de fazer dinheiro. Se a criação do Marvel Cinematic Universe, a partir de Homem de Ferro, em 2008, consolidou o poderio financeiro da empresa, sua nova leva de filmes, da chamada “Fase Dois”, tem méritos muito maiores que aqueles alcançados anteriormente. Isso porque desde Thor: Mundo Sombrio, segundo filme deste novo agrupamento, tornou-se evidente um maior comprometimento da Marvel com suas produções. Vingadores: Era de Ultron chega para consolidar a seriedade com a qual o estúdio passou a tratar seus personagens e suas histórias.

Depois de recuperar o cetro do nórdico Loki, Tony Stark (Robert Downey Jr.) e Bruce Banner (Mark Ruffalo) começam a estuda-lo para colocar em prática um plano para estabelecer a paz mundial. A experiência, porém, dá errado, quando a inteligência artificial desenvolvida pelos cientistas resolve tomar um rumo oposto ao de seus criadores. Cabe ao Homem de Ferro, o Hulk, Thor (Chris Hemsworth), Viúva Negra (Scarlett Johansson), Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) e Capitão América (Chris Evans) impedir os planos do chamado Ultron (James Spader).

Depois de passar pela tediosa – porém necessária – tarefa de apresentar os heróis de seu universo, a Marvel dá continuidade a Vingadores com uma trama envolvente e melhor elaborada que aquela apresentada em 2012. As particularidades das personagens aparecem aqui já encaixadas, enquanto seus objetivos tornaram-se definidos. Talvez o que chame mais atenção em Era de Ultron é justamente o maior desenvolvimento dos heróis: Gavião Arqueiro tem uma família, enquanto Natasha Romanoff (ou Viúva Negra) dá indícios de um passado sombrio e curioso.

Enquanto os seis protagonistas ganham mais espaço, porém, novas personagens são apresentadas: Feiticeira Escarlate / Wanda (Elizabeth Olsen), Mercúrio / Pietro (Aaron-Taylor Johnson), Visão (Paul Bettany) e o vilão Ultron (voz de James Spader, brilhante em sua fala sarcástica e ao mesmo tempo cruel) são apresentados ao público e, apesar de serem extremamente interessantes, cada um à sua maneira, a junção deste quarteto com personagens periféricos, como James Rhodes (Don Cheadle), parece precipitada e abre espaço para um “quem é quem” no meio da trama. A confusão fica evidente na cena final. A aparição de Erik (Stellan Skarsgard), do universo de Thor, é  particularmente desconexa, desvia o foco e é completamente desnecessária.

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O roteiro continua com falhas de lógica, comuns no subgênero heróico. As visões de Thor, por exemplo, são confusas e não contribuem para a trama – e não importa se a passagem servirá para o terceiro volume de seu filme solo, é preciso ater-se ao longa atual. A rede na qual o vilão Ultron de desenvolve, enquanto isso, não convence e, apesar de sua aparente complexidade, não parece ser de tecnologia tão avançada quanto sugere. Mesmo com esses pequenos problemas, fica evidente a decisão do estúdio em levar o roteiro a sério: a maior cautela usada na produção de Ultron garante que a continuação drible erros antes mascarados pelo fator “ficção” do universo dos super-heróis.

O maior equívoco de Vingadores, porém, remete a uma questão social. Em um período no qual o papel das mulheres no cinema é tão questionado, a Marvel, com a incrível Viúva Negra como representante feminina, opta pelo clichê. Em determinada cena, Natasha Romanoff precisa ser salva por Banner, algo que ele faz de maneira banal, sem esforço. Isso depois de ser reduzida a interesse romântico em diversos momentos. É a “síndrome da princesa no castelo”, algo que poderia ser facilmente evitado.

No que diz respeito ao foco do filme, que é a ação, existem cenas muito bem coordenadas. Pancadaria e drama finalmente harmonizam em Ultron, que prova ter uma história por trás de todos os socos, tiros e explosões proferidos por suas personagens. Fica evidente uma tentativa de quebra do maniqueísmo tão comum no gênero. A continuação de Vingadores certamente chega para consolidar a “Era da Marvel”: uma empresa que, mesmo tendo alcançado a fórmula para o sucesso comercial, não desistiu de buscar o aperfeiçoamento.