Peter Pan

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Nem influência teatral salva versão apática de clássico literário

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Pan
DIREÇÃO: Joe Wright
DURAÇÃO: 111min
GÊNERO: Aventura, Fantasia, Família
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2015

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A maioria das pessoas já deve ter visto pelo menos uma versão cinematográfica de Peter Pan ao longo da vida. Seja o clássico animado da Disney, de 1953, ou o longa-metragem de Steven Spielberg, Hook, o menino que não queria crescer está destinado a encantar gerações por tempo indeterminado. O problema é que, muitas vezes, a obra de J. M. Barrie é transformada em histórias banais e cheias de clichês. Pan, de Joe Wright, é mais um exemplo dessa tendência.

Durante a Segunda Guerra Mundial, um orfanato em Londres serve de lar para um grupo de meninos, entre eles Peter (Levi Miller), que são vendidos a piratas da Terra do Nunca. Lá, eles são obrigados por Barba Negra (Hugh Jackman) a trabalhar em minas cheias de pó mágico. Mas o menino descobre que faz parte de uma antiga profecia e precisará da ajuda de Tigrinha (Rooney Mara) e Gancho (Garrett Hedlund) para salvar o reino das fadas e libertar a ilha das mãos dos piratas.

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Pan é o tipo de filme que te faz ir ao cinema com um pé atrás. Peter amigo de Gancho, um Barba Negra no meio da história e o velho ditado do “toda lenda tem um começo” levantam suspeitas antes mesmo de pisarmos na sala do cinema. Apesar de iniciar bem, a história rapidamente prova que nosso medo não é em vão.

Com a velha premissa clichê de que uma profecia diz que fulano está pré-destinado a salvar tal povo, Pan embarca na onda de filmes como Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, que apesar de partir do mesmo ponto, conta com personagens bons o suficiente para sustentar a trama. Já a adaptação de seu compatriota literário desperdiça toda a magia e encantamento presentes no livro de J.M. Barrie. A riqueza das páginas do britânico é transformada em um caça-níquel qualquer, daqueles que investem demais no design e de menos na essência de sua história.

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Com um roteiro preguiçoso, Pan está decepcionando nas bilheterias americanas. Mas nem tudo são trevas. A mente talentosa de Joe Wright para juntar teatro e cinema, como já havia feito em Anna Karenina, proporciona alguns ótimos momentos. Cenas como o rapto das crianças órfãs ou a batalha entre índios e piratas podem parecer infantis, mas na verdade estão recheadas de maneirismos do teatro, que funcionam nas telas tão bem quanto funcionariam nos palcos. Do ponto de vista da direção, o filme é diferente e extremamente imaginativo, como a obra original propõe.

Mas o grande problema está no roteiro. Se a história é muito simples, a falta de aprofundamento das personagens não a compensa. E, além de partir de um ponto já batido, o texto ainda finaliza de forma banal. O vilão é toscamente derrotado, enquanto o sentimentalismo piegas e forçado apaga qualquer traço de carisma do longa.

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Curiosamente, o principal erro do filme é justamente sua falta de emoção. A história de Peter Pan, que deveria encantar e instigar nossa imaginação, é muito mal utilizada. É difícil para o público criar laços afetivos com a trama, que parece pedir, a cada instante, um pouco mais de sentimento aos seus realizadores. Tudo soa muito artificial.

O ponto alto do filme, além do teatro, acaba ficando com Hugh Jackman e seu Barba Negra, caricato e divertido. É uma pena vermos a ótima atuação de Jackman, junto com as ideias de Wright, sendo desperdiçadas dessa forma. Infelizmente, o brilho da Terra do Nunca criada para o filme contrasta a todo momento com a falta de cor de seu roteiro.


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Peter Pan Live!

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Versão televisiva do musical tem erros, mas mesmo assim encanta

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Peter Pan Live!

EMISSORA: NBC

GÊNERO: Musical, Família

PAÍS: Estados Unidos

ANO: 2014


Em 2013, a emissora americana NBC levou para a televisão o clássico A Noviça Rebelde, encenado ao vivo em rede nacional. O programa foi visto por quase 20 milhões de pessoas e o sucesso fez com que a produtora anunciasse planos de continuar adaptando clássicos teatrais para a TV como parte da programação especial de Natal. Em 2014, foi a vez do musical Peter Pan, já transmitido ao vivo em outros anos, ganhar uma nova versão. A conclusão é que, independente da montagem, o clássico escrito por J. M. Barrie tem um imenso potencial para encantar tanto as crianças quanto os adultos.

Tradicionalmente, o papel de Peter Pan é interpretado por uma mulher e, diferente de 2013, a NBC escolheu bem a protagonista da montagem desse ano. Enquanto a interpretação de Carrie Underwood em A Noviça Rebelde foi uma das coisas mais assustadoras já exibidas na televisão, Allison Williams encarna o “menino que não queria crescer” maravilhosamente bem. A atriz da série Girls é afinadíssima e, mesmo que seu sotaque britânico não seja tão convincente, a americana constrói um Peter Pan com personalidade e carisma. Williams brilha sempre que aparece na tela.

Kelli O’Hara, veterana da Broadway, mesmo interpretando a periférica senhora Darling, encanta com sua voz e se entrega completamente ao papel. O ensemble todo é talentoso, encenando os números musicais com naturalidade e vivacidade. A grande decepção no elenco, porém, fica a cargo de Christopher Walken e seu Capitão Gancho, que muitas vezes pareceu entediado. Entre falas esquecidas e números de sapateado de mentirinha, Walken só é salvo pela marca própria que dá ao vilão, que não deixa de ser interessante.

A direção de arte é linda. As imagens de Londres são boas e a Terra do Nunca enche os olhos do espectador. A artificialidade do visual da ilha não é um ponto negativo. Muito pelo contrário: explora de maneira criativa o imaginário infantil e adiciona graça à produção. Da mesma maneira, os figurinos são muito bem trabalhados, com exceção dos Meninos Perdidos, cujas roupas pecam pela falta de sujeira e de rasgos. Ainda na parte técnica, é inegável a existência de falhas na fotografia, na edição e também na mixagem de som. Esses problemas, porém, são esperados em uma produção ao vivo de uma peça tão complexa.

Os números musicais são contagiantes e, com pouco esforço, emocionam. As melodias são belíssimas e a coreografia é realmente esplêndida. A primeira dança protagonizada pelos Meninos Perdidos e os índios é montada de forma inteligente, assim como muitos dos outros números. O roteiro preserva o brilhantismo da peça original e conta com boas pitadas de humor, encantando crianças e adultos, de maneiras diferentes, mas com igual sensibilidade.

Existem alguns outros erros que, infelizmente, quebram a naturalidade do enredo. A cena em que a personagem de Williams pede para o público bater palmas e salvar Sininho chega a ser tosca. Com uma plateia ao vivo, a ideia talvez funcionasse. No caso da televisão, fica sem sentido e não convence.

De maneira geral, Peter Pan Live! é encantador. É verdade que a história original de J. M. Barrie é responsável por grande parte do sucesso da montagem, mas, ainda assim, a equipe passou por cima de qualquer problema esperado em uma transmissão ao vivo como esta, entregando um programa divertido e bonito. Os números musicais e suas interpretações despertam sensações únicas e conquistam o público sem qualquer dificuldade. A produção tem personalidade e o jeito caseiro que a narrativa adquire a deixa ainda mais interessante. Peter Pan Live! foi a maneira perfeita que a emissora NBC encontrou para unir a família, honrando não somente o musical original, mas também o livro.