Caminhos da Floresta

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Disney produz adaptação fantasiosa de clássico da Broadway

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Into The Woods

DIREÇÃO: Rob Marshall

DURAÇÃO: 125min

GÊNERO: Musical, Fantasia

PAÍS: Estados Unidos, Reino Unido

ANO: 2014

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Os musicais estão novamente na moda. Desde o começo do século, filmes como Moulin Rouge! e Chicago ajudaram a “repopularizar” o gênero. Não se pode esquecer, também, do papel essencial da Disney nesse processo, com seus clássicos animados da década de 1990. A companhia conhecida por seus desenhos é a responsável pela nova adaptação da Broadway para os cinemas. Caminhos da Floresta é apenas um pedaço dos vários musicais já anunciados para os próximos anos, como o adorado A Bela e a Fera, dessa vez em live-action.

Caminhos da Floresta narra a jornada do Padeiro (James Corden) e sua esposa (Emily Blunt) que, não podendo ter filhos, fazem um acordo com a Bruxa (Meryl Streep): se conseguissem juntar a vaca branca como o leite, a capa vermelha como o sangue, o cabelo amarelo como milho e os sapatinhos puros como ouro, conseguiriam enfim ter uma criança. É aí que os protagonistas têm sua história entrelaçada com a de clássicos como Chapeuzinho Vermelho (Lilla Crawford) e o Lobo Mau (Johnny Depp), João (Daniel Huttlestone), de O Pé de Feijão, Cinderela (Anna Kendrick) e sua Madrasta (Christine Baranski), Rapunzel (Mackenzie Mauzi) e a dos “príncipes encantados” interpretados por Chris Pine e Billy Magnussen.

Quando Caminhos da Floresta começa, a grandiosidade de sua música, a sofisticação de seu visual, o talento de seu elenco e o carisma das personagens passam a sensação de que o público está prestes a ver um filme memorável. Tal impressão, porém, dilui assim que a narrativa efetivamente começa. Inspirada em um dos principais trabalhos de Stephen Sondheim (considerado o maior compositor do teatro musical americano), a obra encontra problemas ao desenvolver a sua história. No que diz respeito à forma, a adaptação é bem executada: a sutileza do teatro não encontra entraves para ganhar força frente às câmeras, lembrando, a priori, a monumentalidade do recente Os Miseráveis. O desenvolvimento da narrativa, porém, mostra que Caminhos da Floresta sofre pela inconsistência de seu roteiro e pelas péssimas escolhas de sua direção.

O longa é tecido a partir de pequenas incoerências que, juntas, enfraquecem a trama. Como exemplo, temos a falta de elaboração da conexão entre Rapunzel e a magia da Bruxa. Diversas reviravoltas nos desejos das personagens também não contribuem para a história: a Bruxa de Streep, por exemplo, literalmente surta em determinado momento, comprometendo duas horas de desenvolvimento da narrativa.

Ainda assim, o filme tem como um de seus trunfos mostrar os contos de fadas tal como foram concebidos, ignorando a abordagem “fofa” dada nas animações da Disney. Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau protagonizam uma cena que beira o erotismo, escancarando a verdadeira intenção por trás deste conto. Da mesma maneira, o desfecho das irmãs de Cinderela também remete à história original. O grande problema da direção de Rob Marshall, porém, é levar o musical muito a sério, enquanto este não passa de um grande deboche à aparente inocência dos contos de fadas. Esse problema garante falta de profundidade às personagens e à história, que perde seu lado cômico e adquire uma falsa ideia de “lição de moral”. Do mesmo problema sofre Sweeney Todd, que também abandona o humor observado nos palcos em sua versão para as telas. Ao contrário de Marshall, porém, Tim Burton soube lidar bem com a porção melancólica e sombria de seu trabalho.

A trilha sonora é boa e o tratamento dado às canções para a versão cinematográfica é excelente, pois as engrandece. O público não acostumado com o gênero, porém, pode facilmente se cansar devido à densidade das composições.

Quanto ao elenco, composto por grandes nomes do cinema atual, existem bons trabalhos. Emily Blunt e Anna Kendrick são adoráveis e têm vozes realmente agradáveis. Os jovens Lilla Crawford e Daniel Huttlestone não encontram dificuldade para se destacar em meio aos atores veteranos, apresentando ótimos trabalhos. Meryl Streep está mais uma vez encantadora em sua atuação, enquanto a malícia presente no olhar de Lobo Mau de Depp é aparente, embora este faça um trabalho pouco marcante. Chris Pine, por sua vez, apresenta um príncipe mal elaborado, talvez não por sua interpretação, mas pela maneira como a personagem foi concebida: a ideia de torná-lo um “charlatão” não é devidamente aprofundada.

No que diz respeito à parte técnica, o filme é excelente. A direção de arte é muito boa, mesclando encantamento com obscuridade. As equipes de cabelo, maquiagem e figurino também fazem ótimos trabalhos, assim como em fotografia e mixagem de som. Um dos destaques do longa são os efeitos especiais, bastante interessantes e bonitos.

Após uma enorme campanha de divulgação, a Disney decepcionou os espectadores, neste que poderia ser um dos grandes sucessos do ano. Adaptar um clássico da Broadway para o cinema nunca é uma tarefa fácil, mas, por ter Rob Marshall em sua direção – alguém que realmente entende de teatro -, as expectativas eram altas. Não que Caminhos da Floresta seja ruim. Algumas de suas cenas são verdadeiramente agradáveis e engraçadas, mas, quando o todo é analisado, o público certamente fica frustrado (e cansado) pelo potencial jogado fora. Into The Woods tomou o caminho errado.


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Mesmo Se Nada Der Certo

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Filme com Keira Knightley apresenta trilha sonora leve e graciosa

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Begin Again
DIREÇÃO: John Carney
DURAÇÃO: 104min
GÊNERO: Romance, Musical
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2014


De tempos em tempos, somos surpreendidos com algum artista, já respeitado no ramo cinematográfico, demonstrando suas habilidades para a música. A atriz Nicole Kidman e a britânica Helena Bonham Carter, por exemplo, foram algumas das celebridades que exibiram talento musical em Moulin Rouge! e Sweeney Todd, respectivamente. Em 2014, é a vez da conterrânea de Carter mostrar a sua voz para as telas. Keira Knightley estrela o longa de John Carney dando vida a uma cantora amadora.

Mesmo Se Nada Der Certo tem como cenário a cidade de Nova York. Por meio de digressões, o romance mostra os acontecimentos recentes nas vidas de Gretta (Keira Knightley) e Dan (Mark Ruffalo), até o momento em que suas histórias se entrelaçam. A protagonista feminina, nascida na Inglaterra, estava nos Estados Unidos para acompanhar o namorado, o cantor Dave Kohl (Adam Levine), que alcança o estrelato e se afasta de Gretta. Dan, por sua vez, é um renomado produtor musical, cuja carreira está em declínio devido a problemas pessoais. Na noite em que se encontram, Gretta é chamada ao palco de um bar por seu amigo Steve (James Corden) para apresentar uma de suas canções. Esse é o momento em que Dan vê o talento da moça e também uma solução para sua decadente carreira.

De maneira extremamente graciosa, Begin Again é uma análise da indústria musical, mas que não perde a poeticidade e o romance, elementos tão marcantes em seu roteiro. Com uma história simples, mas bem pensada, o filme evidencia fatos interessantes sobre o universo da música. Caçoando de maneira inteligente essa indústria, o longa evidencia tendências bastante comuns no ramo atualmente. Efeitos de voz, a plasticidade dos artistas e a comercialização da arte entram em conflito com o espírito leve e autêntico da protagonista Gretta. É bacana pensar que a personagem de Keira Knightley, antes par romântico de Dave Kohl, é o oposto do artista interpretado por Adam Levine. A escolha deste último para o papel é um fato a ser pontuado: vocalista da banda Maroon 5, Levine brinca com seu próprio estilo musical ao encarnar o artificial e deslumbrado Kohl.

Os primeiros minutos do filme, com vários flashbacks, são extremamente bem executados. De maneira suave e cautelosa, as voltas ao passado são bem articuladas e não comprometem o dinamismo da obra. O roteiro de Mesmo Se Nada Der Certo parece ser óbvio, mas pode surpreender em algumas pequenas reviravoltas que cria. Conta também com um certo equilíbrio proporcionado por cenas de humor sutis e que harmonizam com o enredo.

Tendo a música como principal foco, o longa analisa o tema de diversos aspectos, sem tirar a atenção de seu lado romântico. A vida amorosa da personagem de Knightley é abordada de forma delicada e bonita. Junto com a “fofice” de suas músicas, o filme é uma ótima diversão e facilmente conquista seu público por sua atmosfera leve e agradável.

A trama peca por alguns estereótipos que cria, principalmente quanto a seus personagens, que podiam ser mais profundos. Temos aqui a filha adolescente e rebelde; o artista cego pela fama que na primeira oportunidade trai a namorada; o pai negligente e com uma carreira que vai de mal a pior; os cantores de hip hop extremamente caricatos. Com exceção de Gretta, todas as personagens acabam sendo rasas, o que não compromete o enredo, mas ainda assim representa uma característica que podia ser melhorada.

A atuação de Keira Knightley é excelente. Seu papel pode não ser muito desafiador, mas ainda assim sua encarnação de Gretta é harmoniosa, carismática e oscila com perfeição entre os momentos de entusiasmo e melancolia. A atriz é equilibrada e marcante, sendo ainda dona de uma voz encantadora. Mark Ruffalo também faz um bom trabalho e James Corden é divertido em sua interpretação de Steve. Adam Levine, por sua vez, mostra intimidade com seu papel e, assim como Knightley, empresta sua voz para ótimas performances musicais.

A trilha sonora de Begin Again é fantástica. Com músicas suaves e realmente boas, a trilha gruda na cabeça do espectador e facilmente o conquista. Seja nas apresentações mais triviais observadas no começo do longa ou naquelas mais produzidas, as canções combinam perfeitamente com a graça e delicadeza do roteiro.

Mesmo Se Nada Der Certo é simples em sua forma, mas bastante carismático. Com um roteiro bonito e um bom elenco, o filme é equilibrado e flui bem. Apoiado em uma trilha sonora criada com maestria, a obra de John Carney é “fofa” e ainda assim tece comentários curiosos acerca do mundo da música. Um longa que, sem grandes ambições, entrega uma boa história, agradável e despida de qualquer vaidade. Begin Again é um filme que deu certo.


Vale a pena escutar um pouco da trilha sonora do filme, que é realmente muito boa: