It – A Coisa

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Adaptação da obra de Stephen King foge do terror e triunfa como filme de aventura

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: It
DIREÇÃO: Andy Muschietti
DURAÇÃO: 135min
GÊNERO: Terror, Aventura
PAÍS: EUA
ANO: 2017
4

As obras do estadunidense Stephen King já renderam várias adaptações memoráveis para o cinema. Carrie, a Estranha (1976) e O Iluminado (1980), por exemplo, são até hoje lembrados como clássicos do terror. Na televisão, a história não é diferente: o palhaço Pennywise aterrorizou muita gente na década de 1990, quando foi vivido por Tim Curry. Agora, o sádico vilão volta às telas para assustar uma nova geração, dessa vez na pele do sueco Bill Skarsgård.

Em It, pré-adolescentes que se auto-denominam o “clube dos perdedores” decidem investigar desaparições de crianças na pacata cidade de Derry. O grupo então começa a ser assombrado por um misterioso palhaço capaz de invocar seus maiores medos.

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Apesar de toda a roupagem de filme de terror, It triunfa justamente onde menos se espera: em seu lado mais aventureiro, que explora o amadurecimento dos protagonistas. A trama espelha clássicos do cinema “coming of age” —aquele que discute a passagem da infância para a vida adulta— e tem referências claras a Goonies (1985) e a E.T. (1982), por exemplo.

O que mais desperta curiosidade no longa não é a origem do macabro Pennywise, mas a maneira como o grupo de amigos precisa se unir para, juntos, contra-atacarem a criatura, em uma jornada em que enfrentam suas próprias inseguranças.

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Outro trunfo do filme é sua ambientação, mudada da década de 1950, nos livros, para a de 1980. It bebe da fonte da nostalgia —e é impossível não lembrar da série Stranger Things durante a sessão— , mas ainda assim tem personalidade própria. Referências aos filmes já citados e a tantos outros —sendo A Hora do Pesadelo (1984) talvez a mais notável— são feitas de forma sutil, deixando o saudosismo como detalhe, não permitindo que ele tome as rédeas da trama.

É dessa forma lúdica, brincando com a inocência dos protagonistas, que conhecemos o vilão da trama. Pennywise não dá medo pelos sustos, mas pela expectativa que gera, principalmente quanto às inseguranças que o palhaço explora —de forma muito inteligente, a propósito. Mesmo quando suas aparições são óbvias, é impossível não se sentir aterrorizado, graças a seu olhar sádico e irônico. É das caras e bocas do personagem que surge o único ponto de terror do filme, ancorado no incômodo que “a coisa” gera.

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Tecnicamente, o longa apresenta uma ótima reconstituição de época, com trilha sonora adequada, mas nem um pouco emblemática. A atuação dos adultos está no piloto automático —o que parece ter sido uma escolha da direção, para evidenciar ainda mais a negligência dos habitantes com a sobrenaturalidade de Derry. Em contrapartida, isso realça o trabalho das crianças, cheias de personalidade, de talento e de carisma. 

Indispensável para o funcionamento da trama, o ótimo elenco infantil apresenta personagens bem definidos, mesmo que alguns sejam pouco explorados. O hipocondríaco Eddie (Jack Dylan Grazer) diverte com naturalidade, enquanto Richie (Finn Wolfhard, de Stranger Things) gera desconforto com suas piadas sujas, mas que são aproveitadas de maneira certeira.

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Beverly (Sophia Lillis) dá ares de feminismo ao roteiro como a única garota do grupo e seus interesses amorosos, Bill (Jaeden Lieberher) e Ben (Jeremy Ray Taylor), são extremamente simpáticos graças à inocência que transmitem.

It pode ser uma frustração para quem está em busca de sustos. Mas, se a visita ao cinema for feita de forma despretensiosa, o filme pode se tornar uma ótima surpresa, como foi o caso de Invocação do Mal em 2013, outro longa que triunfa muito mais pelo clima de mistério e incerteza do que pelo terror em si. A adaptação do clássico de Stephen King é uma ótima fábula adolescente sobre amadurecimento, companheirismo e insegurança, e nem por isso deixa de atingir todos os tipos de público. Tem pitadas muito bem dosadas de perversidade, que o tornam uma ótima experiência cinematográfica.


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Homem-Aranha: De Volta ao Lar

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Marvel coloca ordem na casa depois de seis filmes do heróis em 15 anos

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Spider-Man: Homecoming
DIREÇÃO: Jon Watts
DURAÇÃO: 133min
GÊNERO: Ação, Aventura
PAÍS: EUA
ANO: 2017
4
 

Em apenas 15 anos, Homem-Aranha protagonizou seis filmes – e ainda fez uma participação especial em Capitão América: Guerra Civil. Mas, diferente de Hugh Jackman e seu Wolverine, Peter Parker teve três diferentes identidades ao longo de sua jornada cinematográfica.

Tudo estava bem na trilogia estrelada por Tobey Maguire, até que Andrew Garfield vestiu o uniforme vermelho e azul em dois filmes que deixaram o futuro da franquia incerto. A Marvel então viu que era hora de entrar no jogo e firmou uma parceria com a Sony, atual detentora dos direitos do personagem, para trazer uma versão mais jovem dele às telas. O resultado não poderia ser melhor.

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Depois de ajudar Tony Stark (Robert Downey Jr.) em Capitão América: Guerra Civil, Peter Parker (Tom Holland) volta para sua rotina como estudante em Nova York. O garoto precisa balancear sua vida de adolescente com seus poderes, enquanto espera ser chamado novamente para participar da equipe de heróis. Um dia, descobre um grupo comandado pelo vilão Abutre (Michael Keaton), que vende armas com tecnologia extraterrestre para criminosos da cidade, e decide intervir.

Jovial. Esta é a palavra ideal para descrever esse novo capítulo na saga de Homem-Aranha. O público é apresentado a um Peter Parker com obrigações no colégio, amores adolescentes, que precisa dar satisfações à sua tia May e é tratado como criança por Tony Stark. Essa combinação não podia ter um resultado melhor, gerando um longa que, além de divertido e cheio de ação, se destaca por ser, em sua essência, um filme de “coming of age”.

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O subgênero engloba aqueles longas que destacam a passagem da infância para a vida adulta, que falam sobre amadurecimento, como em O Clube dos Cinco e Curtindo a Vida Adoidado, ambos referenciados pela trama ou até mesmo pela campanha de publicidade de De Volta ao Lar.

Peter Parker está, no filme, desesperadamente buscando por sua verdadeira identidade, algo comum a qualquer adolescente, com ou sem superpoderes. A temática acaba fazendo com que Homem-Aranha se sobressaia quando comparado a outros filmes da Marvel, preocupados com cenas de luta e destruição em vez de acrescentar narrativas mais aprofundadas em seus roteiros. Tudo isso sem perder a marca registrada do estúdio: cenas bem-humoradas quando menos se espera.

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O maior desafio do filme certamente foi tornar sua história original e atraente, depois de seis incursões do Aranha nos cinemas. Mas De Volta ao Lar tira isso de letra, e em grande parte devido a seu astro. Tom Holland está perfeito no papel e foi capaz de atualizar o personagem sem fazer muito esforço.

O ator transborda carisma e, apesar dos 20 anos de idade, se encaixa com naturalidade nos dilemas adolescentes de Peter Parker, um personagem mais jovem. Holland une com maestria as diferentes faces do protagonista: ele é inocente, brincalhão, atrapalhado e bondoso, uma personalidade com muito potencial para se destacar em meio a tantos Vingadores.

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Marvel e Sony ainda acertaram em cheio no vilão do longa-metragem. Michael Keaton está excelente em um papel igualmente bom. O Abutre foge dos maniqueísmos tão comuns ao subgênero de heróis. Ele não quer dominar o mundo ou acumular poder absoluto: ele é apresentado como um homem comum que, frente às adversidades, recorre ao crime. Ele tem uma vida normal – o que fica claro em uma cena incrível, inesperada e muito bem executada – e não dava bola para os Vingadores até Peter Parker resolver se intrometer nos seus negócios.

Com esses e tantos outros personagens interessantes – o que inclui tia May, cujo passado nunca é explicado, poupando o público de uma já conhecida história de origem – , as mais de duas horas de filme voam. Cenas de ação, momentos cômicos e dramas adolescentes se alternam, deixando a trama multifacetada, rica em detalhes e com uma complexidade rara nos filmes do gênero. Resta saber se o Aranha dos cinemas continuará honrando um dos heróis mais queridos dos quadrinhos. Por enquanto, tudo indica que Peter Parker está no caminho certo.


Guardiões da Galáxia Vol. 2

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Trama espacial continua sendo o que há de mais criativo na Marvel

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Guardians of the Galaxy Vol. 2
DIREÇÃO: James Gunn
DURAÇÃO: 136min
GÊNERO: Ação, Aventura, Ficção, Comédia
PAÍS: EUA
ANO: 2017
4

Fugindo de uma fórmula segura e já cansativa seguida pela Disney desde que assumiu o controle da Marvel, Guardiões da Galáxia inovou e surpreendeu quando foi lançado em 2014. Não à toa, sua sequência gerou grande expectativa entre os fãs e, por sorte, não decepcionou, investindo significativamente em um roteiro cada vez mais bem-humorado e driblando o politicamente correto tão entediante do mundo dos heróis.

Depois de salvarem a galáxia e se firmarem como anti-heróis, Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Groot (Vin Diesel) embarcam em uma missão que levará o Senhor das Estrelas (ou Star-Lord) a descobrir a verdade sobre seus pais.

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Dar continuidade a um filme que recebeu um mar de elogios não somente dos fãs da Marvel, mas também da crítica e daqueles que torcem o nariz para a maioria das tramas de heróis é uma tarefa difícil. Por sorte, James Gunn, diretor do primeiro Guardiões da Galáxia, encabeçou também sua sequência e manteve o ritmo e o tom já vistos nas telonas em 2014. Dessa forma, a margem para erro era pequena – mas ainda assim possível.

Se o primeiro Guardiões se encarregou de introduzir o quinteto de criminosos formado pelos protagonistas, seu segundo volume retorna ao passado de Peter Quill, explorando suas origens metade terráqueas e resolvendo também um mistério criado no desfecho do filme anterior. A trama é interessante e não tende ao sentimentalismo, como muitas histórias de origem, mas peca por pequenos detalhes.

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Falta lapidar o roteiro de Guardiões. Sua primeira parte e o clímax são ótimos, mas seu terceiro ato deixa a desejar. O desfecho encontrado para o problema que acomete a equipe de anti-heróis não convence e é resolvido de forma muito simples se considerado o tamanho da ameaça. Pequenas mudanças fariam bem à história.

O que realmente importa em Guardiões, porém, são os meios, não o fim. A abordagem das aventuras de Peter Quill é o que fez com que seu primeiro filme se destacasse. Mais uma vez, é a maneira como tudo é mostrado que faz também desta sequência um diferencial em meio ao super-explorado mundo dos heróis.

Com muito bom humor, o segundo volume de Guardiões conta sua história com um visual colorido, uma trilha sonora dançante e piadas que passam despercebidas pelas crianças, mas não por seus pais. É um filme hilário, com sequências de comédia muito bem planejadas e que superam seu antecessor. James Gunn pode até achar algumas cenas mais engraçadas do que realmente são, mas isso é compensado por vários momentos de um humor bobo, mas que arranca risadas sem grande esforço.

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Todas as personagens têm uma personalidade própria, bastante distinta, que contribui para a harmonia do filme. Neste volume, o público ainda passa mais tempo com a versão baby de Groot, responsável por momentos de fofura aliados às trapalhadas da planta. Também é introduzido um planeta “coxinha”, marcado por uma ideologia fascista e por um complexo de superioridade que rende cenas de chacota geniais. Por fim, conhecemos também Mantis (Pom Klementieff), responsável por alguns dos melhores momentos da trama. Ela e Drax têm uma estranha e errada química, que funciona maravilhosamente bem.

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Mais uma vez, Guardiões se destaca porque gira em torno de anti-heróis, criminosos que aparentam ter se regenerado, mas que continuam narcisistas e ambiciosos. Algumas de suas piadas, inclusive, escancaram o quão patéticas suas personagens podem ser, apelando a comentários mais adultos e a um sentimentalismo pautado por uma atmosfera de intriga para tornar a história mais madura e envolvente.

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É ótimo ter um filme como esse para dar um alívio da ideia de bom moço dos filmes de heróis, onde protagonistas como Capitão América causam exaustão por serem perfeitos e politicamente corretos demais. A Marvel está tentando fugir desse padrão, mas ainda recorre a ele como uma aposta segura para suas tramas.

Com efeitos especiais de tirar o fôlego, um design criativo, ótimas atuações e um timing cômico ímpar, Guardiões da Galáxia ainda representa o que há de melhor em seu subgênero. Existe um universo de possibilidades imenso à frente dos anti-heróis, que podem até ter suas aventuras encerradas com um terceiro filme, mas que já deixam um ótimo legado para o que está por vir na Marvel e até na DC.


A Bela e a Fera

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Disney renova conto de fadas sem prejudicar sua essência

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Beauty and the Beast
DIREÇÃO: Bill Condon
DURAÇÃO: 129min
GÊNERO: Musical, Fantasia, Romance, Família
PAÍS: EUA
ANO: 2017

5


A Bela e a Fera pode ter “apenas” 26 anos, mas é um clássico absoluto, não há como negar. A história de 1991 foi a primeira animação a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme e venceu dois, nas categorias de Trilha Sonora e Canção Original.

Consequentemente, o filme faz parte da memória afetiva de milhares de crianças e adultos, e é centrado em uma história de amor que causa inveja em muitos romances. Em 1993, foi ainda a primeira produção da Disney na Broadway, onde também foi bem-sucedida. Com esse currículo, era apenas questão de tempo até que Bela e a Fera entrasse para o frenesi de live-action do estúdio. A boa notícia é que o projeto fez jus ao seu original.

Bela (Emma Watson) é uma jovem diferente dos moradores de sua aldeia, principalmente de Gaston (Luke Evans), que quer sua mão em casamento. Apaixonada por livros, ela mora com seu pai, Maurice (Kevin Kline), que é aprisionado no castelo da Fera (Dan Stevens) depois de se perder em uma floresta. Bela decide ficar no seu lugar e aos poucos descobre que seu novo lar foi enfeitiçado.

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A tarefa de recriar A Bela e a Fera é difícil. Primeiro por se tratar de um filme tão amado por muita gente. Segundo, porque o original de 1991 já é perfeito, um clássico. Mas Bill Condon teve habilidade suficiente para reaproveitar a história da Disney, deixando-a atraente e preservando seus encantos, e ainda soprando ar de novidade à trama.

O live-action é muito parecido com a obra original. Existem diálogos inteiros onde todas as palavras foram preservadas. Para quem quer novidade, Bela e a Fera pode ser frustrante – embora Mogli tenha se dado muito bem ao não ousar em seu roteiro. Mas se o original de 1991 funciona tão bem, não faria sentido distorcê-lo para a nova versão. Mesmo que a trama seja a mesma, existem alguns detalhes que repaginam a história.

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Como já foi amplamente divulgado, o capanga LeFou (Josh Gad) nesta versão é gay. Em todo o filme, vemos uma preocupação da Disney em adaptar seu clássico para os novos tempos. Casais interraciais aparecem em diversos momentos e Madame Garderobe (Audra McDonald) veste três vilões como mulheres e diz para eles serem “livres”, para a felicidade de um deles. Tudo é feito de forma sutil e contida. Não é uma revolução, mas é sem dúvidas um importante e necessário passo.

Bela, também, é transformada em uma mulher ainda mais independente – e Emma Watson tem grande influência nisso – , e se consolida como heroína da história, não como princesa. “Ela deve estar chorando em seu quarto”, dizem os objetos mágicos certa hora, e em seguida, vemos Bela amarrando pedaços de pano para tentar fugir pela janela. Em outro momento, ela ensina uma menina a ler, escandalizando sua aldeia e até mesmo um professor.

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A cena, inclusive, ajuda a situar o filme em seu contexto histórico. Ao invés de estar perdido no espaço-tempo, como a maioria dos contos de fadas, A Bela e a Fera faz questão de mostrar que se passa no século XVIII, o que faz muito bem à história. Pequenas referências – como vestimentas e o cravo Maestro Cadenza (Stanley Tucci) – e brincadeiras com a época – como a arcada dentária do mesmo personagem – contribuem para isso.

O filme ainda tapa vários buracos criados em 1991. O motivo pelo qual nenhum aldeão sabe da existência do castelo, a linha temporal dos acontecimentos, a cumplicidade dos conterrâneos de Gaston com sua arrogância e muitas outras questões são solucionadas para tornar esta versão mais madura.

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Outro aspecto que faz deste Bela e a Fera diferente de seu antecessor são as canções. Sim, elas são as mesmas, mas os arranjos musicais foram mudados, algumas letras incrementadas e quatro músicas inéditas adicionadas à trilha sonora. Estas, inclusive, não alcançam o nível de excelência das originais, mas também são muito bonitas, tendo sua função na história. O destaque é para Evermore – cantada por uma Fera que pode causar estranhamento pela voz, mas à qual logo nos adaptamos – , que é extremamente sensível e preenche a falta de música no papel da Fera.

As coreografias e performances também são ótimos, se aproximando de clássicos do gênero musical de forma divertida. Se a reprise de Belle espelha a mais clássicas das cenas de A Noviça Rebelde, Be Our Guest é um banquete aos amantes de musicais. As referências no show de Lumière (Ewan McGregor) são várias: Cabaret, Cantando na Chuva e Moulin Rouge! são só algumas. A cena, inclusive, é um presente para os olhos, extremamente bem feita, colorida, dançante e sofisticada.

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Tecnicamente, o filme é deslumbrante. O design de produção é excelente, combinando elementos do original de 1991 com referências claras ao século XVIII e ainda cenários e objetos elegantes, que invocam um senso de fantasia e imaginação típico dos contos de fadas. Os figurinos de Jacqueline Durran também são belíssimos e o clássico vestido de valsa de Bela é atualizado, não deixando a desejar.

Os efeitos visuais usados para criar os objetos mágicos são perfeitos. As soluções encontradas para seus movimentos são engenhosas e dão credibilidade ao feitiço lançado no castelo – Chip (Nathan Mack), por exemplo, anda como se estivesse em um skate, dando jovialidade ao personagem.

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A Fera deixa a desejar. Seu rosto é bastante humano, tem emoção, mas o seu andar é pesado, visivelmente irreal. Teria sido melhor criar uma Fera a partir de figurino e maquiagem, à la Chewbacca, mas em uma indústria tão enlouquecida com as maravilhas do CGI, é difícil pensar na Disney tomando o caminho dos efeitos práticos em um conto de fadas. Outro pequeno problema é a edição do filme, súbita e com cortes equivocados em determinados momentos,

Mas nada é capaz de parar A Bela e a Fera de ser uma digna e bonita versão de um filme tão amado. Muitos podem criticar a falta de originalidade ou a natureza desnecessária de um filme não tão antigo, mas há espaço em Hollywood para esta versão mais adulta e musical, que ainda confere inventividade e respeito à obra.

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O elenco também contribui para o sucesso do longa. Emma Watson é uma figura forte e que passa um ar de determinação e graça à sua Bela, surpreendendo a todos ao cantar. Luke Evans e Josh Gad formam uma dupla divertidíssima e, enquanto o primeiro tem o ar de arrogância típico de Gaston, o LeFou de Gad rouba as cenas e ainda, de forma sutil, reinventa seu personagem, que agora tem uma quedinha pelo amigo “machão”. Kevin Kline faz um Maurice muito mais profundo, ao contrário do bobalhão pai de Bela de 1991. 

Por fim, o trabalho de vozes é excelente: Audra McDonald e Stanley Tucci são engraçados, Ewan McGregor é charmoso, Ian McKellen dá autoridade ao seu atrapalhado Horloge e Emma Thompson não se deixa intimidar pela difícil tarefa de assumir o papel originado por ninguém menos que Angela Lansbury.

Além de um ótimo entretenimento, um banquete visual e uma trilha sonora emocionante, A Bela e a Fera ainda se mantém fiel à sua mensagem de amor, bastante universal e delicada. Por outro lado, promove a cultura como um elemento tão transformador quanto esse sentimento. É um filme capaz de agradar qualquer um que vá de coração aberto ao cinema, estando envolto em mágica, nostalgia e amor.


Jackie

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Natalie Portman discute luto e legado em performance memorável

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Jackie
DIREÇÃO: Pablo Larraín
DURAÇÃO: 100min
GÊNERO: Drama
PAÍS: EUA, Chile, França
ANO: 2016

5


Os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas adoram atores que encarnam personagens históricas – principalmente se forem bastiões da cultura norte-americana. Daniel Day-Lewis levou seu último Oscar graças a seu papel como Abraham Lincoln, e Meryl Streep pela performance como a britânica Margaret Thatcher. Agora é a vez da já oscarizada Natalie Portman calçar os sapatos de uma das figuras mais icônicas do último século, Jacqueline Kennedy, papel que a rendeu mais uma indicação à estatueta de ouro.

Após o trágico assassinato do presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy (Caspar Phillipson), a então primeira-dama Jacqueline Kennedy (Natalie Portman) trava uma batalha com a classe política e consigo mesma, oscilando entre luto e fé, na tentativa de preservar o legado de seu marido.

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Assim como seu companheiro de Oscar Manchester à Beira-Mar, Jackie é um filme que lida com o luto, embora de uma perspectiva diferente. A biografia está centrada no morto, ao contrário de Manchester. Jacqueline conduz a narrativa, mas sua dor e preocupações estão estritamente conectados ao falecido marido. O que está em jogo em Jackie é o que sobra de Kennedy após sua morte.

Lento, Jackie abre portas para diversas reflexões. A que está mais presente é aquela relacionada ao legado. O que será de nós e daquilo que fizemos em vida depois que morrermos? Essa é uma das questões que martelam a cabeça da protagonista, que quer ver seu marido sendo lembrado pelo mundo não como um presidente qualquer, mas com toda a glória que ela acredita merecer.

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Jacqueline acaba decidindo que um grande funeral, que chame a atenção do mundo, é o caminho mais fácil para preservar o legado de John F. Kennedy, e precisa batalhar com a classe política ao seu redor para garantir a grandiosidade do evento – mesmo que isso inclua colocar não somente ela em risco, mas também líderes mundiais e até mesmo seus filhos.

Jackie discute a efemeridade da vida. Não da maneira simplista que a frase sugere, mas de uma forma muito mais complexa. Pouco importa o que será de seu futuro ou do futuro de seu país. As energias de Jacqueline estão totalmente concentradas no show que deveria se tornar o funeral do marido, feito à imagem do de Abraham Lincoln, para, quem sabe dessa forma, Kennedy ser igualmente alçado ao status de um dos maiores líderes da nação.

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Apesar de se tratar de uma figura pública e mundialmente conhecida, Pablo Larraín dirige um filme bastante intimista. O espectador é colocado dentro da cabeça de Jacqueline e, em todos os momentos de solidão da protagonista, se sensibiliza, se solidariza e até mesmo se incomoda com o que vê.

Das lembranças ressuscitadas por Jacqueline até os momentos em que ela esfrega, desesperadamente, o sangue já seco de suas roupas após o assassinato do marido, o espectador tem a sensação de estar vivenciando aquele turbilhão de emoções junto com ela. Da mesma forma que a personagem oscila em relação à sua fé, o público também questiona o que fazer frente a tamanha tragédia.

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A fotografia e a trilha sonora contribuem para o sentimento de intimidade. Várias imagens de Jackie propiciam um retrato solitário de Jacqueline, vagando sozinha pela opulência dos cômodos da Casa Branca, enquanto a música de Mica Levi é reducionista, servindo como um necessário apoio para os sentimentos que o filme busca passar. Ela invade o individualismo e o sofrimento da protagonista de forma bastante pontual e eficiente.

Com uma performance visceral, sensível e extremamente forte, Natalie Portman é a chave para o sucesso de Jackie. Se no primeiro momento sua performance parece caricatural demais, seguindo à risca os maneirismos de Jacqueline Kennedy, ao longo do filme fica claro que o realismo da atuação é essencial para mergulhar na cabeça da personagem. Portman entrega um trabalho memorável e é razoável dizer que, não fosse por seu talento, o filme não funcionaria tão bem ou nem mesmo seria fácil de ser assistido.

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Há certa artificialidade em Jackie, mas isso não serve como ponto negativo, como seria em muitas outras biografias. Essa característica funciona muito bem nesse caso justamente pelo que o filme se propõe a discutir. As aparências que Jacqueline precisa manter e até mesmo a grandiosidade que ela quer para o funeral do marido jogam com essa questão, tornando a artificialidade outro tema dissecado pelo roteiro de Noah Oppenheim.

O sentimento que fica ao fim de Jackie é o de perda. Assim como o assassinato de John F. Kennedy é lembrado como o fim de uma possível era de ouro para os Estados Unidos, graças ao modernismo não somente do presidente, mas, claro, também de sua esposa, Jackie deixa uma mensagem de desilusão e incerteza em relação à morte e o que vem depois dela. É um filme ousado e de uma qualidade absurda.


Star Trek: Sem Fronteiras

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Saga intergalática perde J.J. Abrams, mas não o brilho

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO: Star Trek Beyond
DIREÇÃO: Justin Lin
DURAÇÃO: 122min
GÊNERO: Aventura, Ficção Científica
PAÍS: EUA
ANO: 2016
4

J.J. Abrams já pode ser considerado um dos principais nomes da ficção científica atual. Seu incrível trabalho em Star Trek e Além da Escuridão: Star Trek permitiram que o americano ganhasse a honra – e a difícil tarefa – de reviver a franquia Star Wars nos cinemas. O Despertar da Força foi um sucesso, mas fez com que Abrams deixasse a direção da saga de Kirk e Spock.

Sem Fronteiras é dirigido por Justin Lin, conhecido por Velozes e Furiosos. Com a franquia no currículo, é difícil imaginar que o terceiro filme da retomada de Jornada nas Estrelas poderia se aproximar de seus antecessores – tanto em termos de qualidade quanto em criatividade. Mas Justin Lin faz um ótimo trabalho, além de dar um novo tom à saga intergalática.

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Ao tentar ajudar a tripulação de uma outra nave, os membros da USS Enterprise são atraídos para uma armadilha e acabam caindo em um planeta governado por uma espécie hostil, que quer destruir a Federação. Para impedir seus planos, Capitão Kirk (Chris Pine) e Spock (Zachary Quinto) precisam se unir a Jaylah (Sofia Boutella), que há anos vive escondida no planeta.

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Star Trek: Sem Fronteiras segue um rumo completamente diferente de seus antecessores. Enquanto os filmes dirigidos por J.J. Abrams dão atenção ao papel da USS Enterprise nas missões de Kirk, Justin Lin começa seu longa explodindo a icônica nave. Assim, de uma hora para outra, os trekkers vêem o principal símbolo da franquia sendo destruído, no melhor estilo Titanic. Ao fazer isso, Lin abre espaço para novas possibilidades para a saga.

Ao invés de focar em tecnologia e nas perseguições espaciais, Sem Fronteiras joga seus personagens no solo e, a partir daí, precisa reinventar seus heróis. Essa escolha pode acabar frustrando os fãs mais fiéis, mas abre um leque de possibilidades que inclui Kirk usando uma moto para libertar prisioneiros e cenas de ação dignas de filmes de espionagem.

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É justamente no imprevisível que o filme se apoia e, mesmo que seu roteiro não seja dos mais complexos, Sem Fronteiras conta com momentos suficientemente tensos e emocionantes para prender a atenção do público. Um dos pontos altos é uma discreta homenagem a Leonard Nimoy, intérprete original de Spock, morto em fevereiro de 2015 aos 83 anos. O ator havia aparecido nos dois antecessores de Sem Fronteiras.

O terceiro capítulo da retomada de Star Trek nos cinemas ainda tem a seu favor o incrível elenco reunido em 2009 por J.J. Abrams. Zachary Quinto, Chris Pine, Zoe Saldana, Karl Urban, Simon Pegg e Anton Yelchin – morto em um trágico acidente em junho – continuam ótimos e carismáticos em seus papeis, enquanto Sofia Boutella encarna uma Jaylah poderosa e interessante.

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Sem Fronteiras pode não se igualar a Star Trek (2009) e Além da Escuridão (2013), mas é suficientemente bom para comemorar os 50 anos da franquia, em setembro deste ano. Se o filme perde por ter uma história relativamente rasa, ganha por bons momentos espalhados pela trama, que juntam com maestria o bom humor e o encantamento característicos da saga. Só podemos desejar que Star Trek continue tendo uma vida longa e próspera nos cinemas.


Esquadrão Suicida

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DC tem seus dois filmes de 2016 entre os piores do ano

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Suicide Squad
DIREÇÃO: David Ayer
DURAÇÃO: 123min
GÊNERO: Ação
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2016
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Já é público e notório que a DC Comics está correndo atrás do tempo perdido e tentando alcançar a Marvel na construção de um universo cinematográfico aclamado por público e crítica e que, ao mesmo tempo, encha os cofres da Warner Bros. Mas apesar do vanguardismo e da qualidade de filmes do passado, como os Batmans de Tim Burton e Christopher Nolan, a DC ainda está muito atrás de sua concorrente controlada pela Disney, e seus dois lançamentos de 2016 não geram grandes expectativas para o futuro.

Com medo de que super heróis usem seus poderes contra a humanidade, Amanda Waller (Viola Davis) consegue autorização do governo dos Estados Unidos para montar um grupo de elite formado por alguns dos maiores vilões da humanidade. Junto com o soldado Rick Flag (Joel Kinnaman), ela recruta Pistoleiro (Will Smith), Arlequina (Margot Robbie), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), El Diablo (Jay Hernandez), Amarra (Adam Beach) e Katana (Karen Fukuhara), que juntos precisam deter Magia (Cara Delevingne), uma entidade poderosa.

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A característica mais marcante do roteiro de Esquadrão Suicida é o gigantesco número de furos. Procurar incoerências e absurdos ao longo do filme acaba se tornando sua parte mais divertida. A ideia geral do grupo de super vilões por si só já é exagerada. Em nenhum momento Amanda Waller cogita montar uma equipe formada por heróis preocupados em salvar a humanidade, um caminho que certamente seria mais fácil. Encaremos a falha como uma licença poética, para não estragar a premissa do filme.

Ainda assim, o esquadrão vilanesco é completamente desequilibrado: tanto no tempo de tela e destaque dados a cada personagem, quanto na contribuição deles para o grupo. Enquanto El Diablo pode incendiar qualquer coisa, Arlequina tem… um taco de baseball. Crocodilo é forte e parece indestrutível, mas Capitão Bumerangue sabe… fazer comentários machistas. Em sua ambição de partir para a porrada e mostrar que vilões também são legais, David Ayer acaba tornando suas personagens – que estão cheias de potencial – em figuras rasas e desequilibradas. O ápice é alcançado com Amarra, que foi colocado na trama para morrer, literalmente.

SUICIDE SQUAD

Outro aspecto irritante em Esquadrão Suicida é sua necessidade de esfregar na cara do público que vilões podem ser gente boa. É interessante quebrar com o maniqueísmo do mundo dos heróis, mas não há qualquer tipo de sutileza na abordagem desse aspecto da trama. Existe uma insistência em escancarar a incerteza sobre quem representa o “mal” na história que faz com que o espectador pareça burro, incapaz de chegar à qualquer interpretação sem ajuda. A vontade de deixar essa dúvida em evidência é tanta que muitas das ações da personagem Amanda Waller acabam sendo aleatórias, sem fazer qualquer sentido.

SUICIDE SQUAD

Da mesma forma, a abordagem do romance de Coringa (Jared Leto) e Arlequina é totalmente desconexa. Fica evidente o medo do diretor em mostrar a relação abusiva que as duas personagens mantêm no mundo dos quadrinhos. Dessa forma, a dupla acaba sendo romantizada, mesmo que não haja explicação suficiente para entender seu relacionamento. Faltou coragem à equipe de Esquadrão Suicida na hora de colocar um problema tão sério e recorrente em pauta.

Enquanto isso, o Coringa de Jared Leto fica entre o ridículo e o vergonhoso. Depois de toda a publicidade em torno da escolha do ator para o papel, Leto entrega bem menos do que promete. Sabemos que muitas de suas cenas foram cortadas do longa, mas mesmo assim, o que vemos é suficiente para não termos qualquer empatia por seu Coringa. Diferente da excentricidade e do brilhantismo demonstrados por Jack Nicholson e Heath Ledger em suas encarnações do inimigo do Batman, Jared Leto mais parece um drogado. Seu Coringa não tem qualquer tom de loucura, que é tão importante para a personagem, e passa uma constante sensação de alguém que simplesmente está bêbado. É exageradamente forçado.

Joker

Nada realmente faz sentido em Esquadrão Suicida. Entre a sexualização exagerada e desnecessária de Arlequina e suas péssimas cenas de ação, o filme acaba confirmando o medo com o futuro do universo cinematográfico da DC. Tudo parece ser feito às pressas e suas melhores cenas já foram apresentadas ao público nos trailers do filme. A real ameaça que surge na história é boba e acaba sendo solucionada de uma hora para a outra, sem qualquer tipo de emoção. O resultado é, em resumo, triste. Depois de tanta expectativa, o que resta é a frustração em relação a um filme com um material rico e original em mãos, mas que não aprendeu nada com o desastre de Batman v Superman.