A Bela e a Fera

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Disney renova conto de fadas sem prejudicar sua essência

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Beauty and the Beast
DIREÇÃO: Bill Condon
DURAÇÃO: 129min
GÊNERO: Musical, Fantasia, Romance, Família
PAÍS: EUA
ANO: 2017

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A Bela e a Fera pode ter “apenas” 26 anos, mas é um clássico absoluto, não há como negar. A história de 1991 foi a primeira animação a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme e venceu dois, nas categorias de Trilha Sonora e Canção Original.

Consequentemente, o filme faz parte da memória afetiva de milhares de crianças e adultos, e é centrado em uma história de amor que causa inveja em muitos romances. Em 1993, foi ainda a primeira produção da Disney na Broadway, onde também foi bem-sucedida. Com esse currículo, era apenas questão de tempo até que Bela e a Fera entrasse para o frenesi de live-action do estúdio. A boa notícia é que o projeto fez jus ao seu original.

Bela (Emma Watson) é uma jovem diferente dos moradores de sua aldeia, principalmente de Gaston (Luke Evans), que quer sua mão em casamento. Apaixonada por livros, ela mora com seu pai, Maurice (Kevin Kline), que é aprisionado no castelo da Fera (Dan Stevens) depois de se perder em uma floresta. Bela decide ficar no seu lugar e aos poucos descobre que seu novo lar foi enfeitiçado.

BEAUTY AND THE BEAST

A tarefa de recriar A Bela e a Fera é difícil. Primeiro por se tratar de um filme tão amado por muita gente. Segundo, porque o original de 1991 já é perfeito, um clássico. Mas Bill Condon teve habilidade suficiente para reaproveitar a história da Disney, deixando-a atraente e preservando seus encantos, e ainda soprando ar de novidade à trama.

O live-action é muito parecido com a obra original. Existem diálogos inteiros onde todas as palavras foram preservadas. Para quem quer novidade, Bela e a Fera pode ser frustrante – embora Mogli tenha se dado muito bem ao não ousar em seu roteiro. Mas se o original de 1991 funciona tão bem, não faria sentido distorcê-lo para a nova versão. Mesmo que a trama seja a mesma, existem alguns detalhes que repaginam a história.

BEAUTY AND THE BEAST

Como já foi amplamente divulgado, o capanga LeFou (Josh Gad) nesta versão é gay. Em todo o filme, vemos uma preocupação da Disney em adaptar seu clássico para os novos tempos. Casais interraciais aparecem em diversos momentos e Madame Garderobe (Audra McDonald) veste três vilões como mulheres e diz para eles serem “livres”, para a felicidade de um deles. Tudo é feito de forma sutil e contida. Não é uma revolução, mas é sem dúvidas um importante e necessário passo.

Bela, também, é transformada em uma mulher ainda mais independente – e Emma Watson tem grande influência nisso – , e se consolida como heroína da história, não como princesa. “Ela deve estar chorando em seu quarto”, dizem os objetos mágicos certa hora, e em seguida, vemos Bela amarrando pedaços de pano para tentar fugir pela janela. Em outro momento, ela ensina uma menina a ler, escandalizando sua aldeia e até mesmo um professor.

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A cena, inclusive, ajuda a situar o filme em seu contexto histórico. Ao invés de estar perdido no espaço-tempo, como a maioria dos contos de fadas, A Bela e a Fera faz questão de mostrar que se passa no século XVIII, o que faz muito bem à história. Pequenas referências – como vestimentas e o cravo Maestro Cadenza (Stanley Tucci) – e brincadeiras com a época – como a arcada dentária do mesmo personagem – contribuem para isso.

O filme ainda tapa vários buracos criados em 1991. O motivo pelo qual nenhum aldeão sabe da existência do castelo, a linha temporal dos acontecimentos, a cumplicidade dos conterrâneos de Gaston com sua arrogância e muitas outras questões são solucionadas para tornar esta versão mais madura.

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Outro aspecto que faz deste Bela e a Fera diferente de seu antecessor são as canções. Sim, elas são as mesmas, mas os arranjos musicais foram mudados, algumas letras incrementadas e quatro músicas inéditas adicionadas à trilha sonora. Estas, inclusive, não alcançam o nível de excelência das originais, mas também são muito bonitas, tendo sua função na história. O destaque é para Evermore – cantada por uma Fera que pode causar estranhamento pela voz, mas à qual logo nos adaptamos – , que é extremamente sensível e preenche a falta de música no papel da Fera.

As coreografias e performances também são ótimos, se aproximando de clássicos do gênero musical de forma divertida. Se a reprise de Belle espelha a mais clássicas das cenas de A Noviça Rebelde, Be Our Guest é um banquete aos amantes de musicais. As referências no show de Lumière (Ewan McGregor) são várias: Cabaret, Cantando na Chuva e Moulin Rouge! são só algumas. A cena, inclusive, é um presente para os olhos, extremamente bem feita, colorida, dançante e sofisticada.

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Tecnicamente, o filme é deslumbrante. O design de produção é excelente, combinando elementos do original de 1991 com referências claras ao século XVIII e ainda cenários e objetos elegantes, que invocam um senso de fantasia e imaginação típico dos contos de fadas. Os figurinos de Jacqueline Durran também são belíssimos e o clássico vestido de valsa de Bela é atualizado, não deixando a desejar.

Os efeitos visuais usados para criar os objetos mágicos são perfeitos. As soluções encontradas para seus movimentos são engenhosas e dão credibilidade ao feitiço lançado no castelo – Chip (Nathan Mack), por exemplo, anda como se estivesse em um skate, dando jovialidade ao personagem.

Beauty and the Beast

A Fera deixa a desejar. Seu rosto é bastante humano, tem emoção, mas o seu andar é pesado, visivelmente irreal. Teria sido melhor criar uma Fera a partir de figurino e maquiagem, à la Chewbacca, mas em uma indústria tão enlouquecida com as maravilhas do CGI, é difícil pensar na Disney tomando o caminho dos efeitos práticos em um conto de fadas. Outro pequeno problema é a edição do filme, súbita e com cortes equivocados em determinados momentos,

Mas nada é capaz de parar A Bela e a Fera de ser uma digna e bonita versão de um filme tão amado. Muitos podem criticar a falta de originalidade ou a natureza desnecessária de um filme não tão antigo, mas há espaço em Hollywood para esta versão mais adulta e musical, que ainda confere inventividade e respeito à obra.

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O elenco também contribui para o sucesso do longa. Emma Watson é uma figura forte e que passa um ar de determinação e graça à sua Bela, surpreendendo a todos ao cantar. Luke Evans e Josh Gad formam uma dupla divertidíssima e, enquanto o primeiro tem o ar de arrogância típico de Gaston, o LeFou de Gad rouba as cenas e ainda, de forma sutil, reinventa seu personagem, que agora tem uma quedinha pelo amigo “machão”. Kevin Kline faz um Maurice muito mais profundo, ao contrário do bobalhão pai de Bela de 1991. 

Por fim, o trabalho de vozes é excelente: Audra McDonald e Stanley Tucci são engraçados, Ewan McGregor é charmoso, Ian McKellen dá autoridade ao seu atrapalhado Horloge e Emma Thompson não se deixa intimidar pela difícil tarefa de assumir o papel originado por ninguém menos que Angela Lansbury.

Além de um ótimo entretenimento, um banquete visual e uma trilha sonora emocionante, A Bela e a Fera ainda se mantém fiel à sua mensagem de amor, bastante universal e delicada. Por outro lado, promove a cultura como um elemento tão transformador quanto esse sentimento. É um filme capaz de agradar qualquer um que vá de coração aberto ao cinema, estando envolto em mágica, nostalgia e amor.


Tudo o que você precisa saber sobre o novo ‘A Bela e a Fera’

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A Walt Disney Pictures finalmente decidiu quando vai lançar A Bela e a Fera em live-action (com atores de verdade). Pode marcar no calendário: dia 17 de março de 2017 nós finalmente assistiremos à super esperada adaptação do clássico animado. Levado aos cinemas originalmente em 1991, se tornando um dos filmes mais amados de sua geração, A Bela e a Fera já teve vários detalhes confirmados e esperamos que novas informações apareçam nos próximos dias. Confira o que a Disney já disse sobre a nova produção!

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Emma Watson fará o papel de uma das princesas mais queridas da Walt Disney: Bela. A bruxinha de Harry Potter sairá do universo de Hogwarts diretamente para o interior da França. A atriz já afirmou em sua página no Facebook que em breve começará a fazer aulas de canto para viver a heroína. 

Bônus: pouca gente sabe, mas apesar de britânica, Emma nasceu mesmo em Paris. É francesa assim como Bela.

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Dan Stevens, do seriado Downton Abbey, emprestará o seu sotaque britânico para a Fera. O ator também marcou presença em Uma Noite no Museu 3.

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Luke Evans, de Drácula, será o arrogante Gaston. O que pouca gente sabe é que o ator canta. Ela já estrelou diversas produções na West End (a Broadway londrina), como Rent e Miss Saigon.

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Kevin Kline, veterano vencedor do Oscar, será Maurice, o inventor pai de Bela.

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Emma Thompson, também vencedora do Oscar e que foi vista no filme da Disney Walt Nos Bastidores de Mary Poppins, cantará a inesquecível música tema de Bela e a Fera. Ela dará vida ao bule Senhora Potts (ou Madame Samovar) e já mostrou que tem voz em uma produção do musical Sweeney Todd, no ano passado.

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Josh Gad, o comediante que deu vida ao Olaf, de Frozen, está cotado para arrancar risadas como LeFou, o ajudante de Gaston.

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Audra McDonald, veterana da Broadway e vencedora de 6 prêmios Tony, foi anunciada como a intérprete do guarda-roupa Madame de la Grande Bouche, ou Garderobe, na versão em inglês. Audra é, de todos os nomes do elenco, aquele com mais experiência no ramo musical, algo que provavelmente dará maior destaque para a sua personagem na nova versão do filme.

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Conhecido por dar vida ao Gandalf, de O Senhor dos Anéis, e ao Magneto, da saga X-Men, Ian McKellen terá um novo papel adorado no seu currículo. O britânico intepretará Horloge (ou Dim Dom, como é chamado no teatro), o relógio que é  mordomo do castelo da Fera e vive implicando com Lumière.

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O candelabro, por sua vez, será encarnado por um ator que já soltou a voz nas telas: Ewan McGregor, protagonista do musical Moulin Rouge!, será o responsável por dar vida a Lumière. Será que o escocês vai dar conta de Be Our Guest (À Vontade / Pra Você), o número que é carro chefe do musical?

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A namorada do candelabro, o espanador de pó Babette (ou Plumette) ficará a cargo de Gugu Mbatha-Raw, atriz vista em O Destino de Júpiter.

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Adrian Schiller, ator pouco conhecido, é o responsável pelo sádico Monsieur D’Arque, dono do hospício no qual Gaston tenta internar o pai de Bela.

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Uma nova personagem já foi confirmada: Stanley Tucci, o Caesar Flickerman de Jogos Vorazes, interpretará Cadenza, um criado transformado em piano, descrito como um “maestro neurótico”.

Alan Menken, compositor responsável por garantir à Disney 8 Oscars, voltará à Bela e a Fera para fazer o score da adaptação, além de regravar os clássicos que criou na década de 90. O estúdio também confirmou novas canções, além daquelas compostas especialmente para a Broadway, como Home e If I Can’t Love Her.

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Bill Condon, de A Saga Crepúsculo: Amanhecer, é o responsável pela direção, enquanto Stephen Chbosky, que já trabalhou com Emma Watson em As Vantagens de Ser Invisível, escreverá o roteiro.

Fique de olho nesse post para saber das últimas notícias do longa! Com tantos clássicos no currículo, qual é a música que você mal pode esperar para ouvir de novo?



Mary Poppins completa 50 anos “praticamente perfeitos em todos os sentidos”

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Por Leonardo Sanchez
Mary Poppins (Julie Andrews) e Bert (Dick Van Dyke) dançam na cena “Jolly Holiday”, marcante por misturar elementos de animação e atores reais. (FOTO: Divulgação / Walt Disney Pictures).

Mary Poppins (Julie Andrews) e Bert (Dick Van Dyke) dançam na cena “Jolly Holiday”, marcante por misturar elementos de animação e atores reais. (FOTO: Divulgação / Walt Disney Pictures).

Há 50 anos, a babá Mary Poppins voava das páginas da escritora P. L. Travers para as telas de Walt Disney, para protagonizar o que se tornou um dos maiores clássicos do cinema mundial. No dia 27 de agosto de 1964, a cidade de Los Angeles estendia seus tapetes vermelhos para todo o encantamento e tecnologia de um dos mais bem sucedidos musicais de todos os tempos.

A história de Mary Poppins gira em torno dos Banks, uma família disciplinada e tradicional de Londres. As crianças Jane e Michael, negligenciadas por seus pais, após espantar uma série de babás, recebem em sua casa a personagem do título, que, com a ajuda de Bert, apresenta os jovens a um mundo de fantasia e diversão. Aos poucos, aquele ambiente familiar problemático vai se transformando e Mary Poppins faz da família Banks, antes desunida, um núcleo de carinho e compreensão.

Inspirado no primeiro livro da série da autora Pamela Lyndon Travers, o longa de 1964 foi uma promessa do cineasta e produtor Walt Disney às suas filhas, que ainda pequenas pediram ao pai que adaptasse a literatura da australiana para as telas. Após cerca de vinte anos tentando comprar os direitos autorais da obra, o americano finalmente teve permissão para produzir sua versão cinematográfica, embora Pamela visse com desconfiança qualquer tipo de adaptação de seus livros.

Escalada para o papel principal, Julie Andrews já era famosa nos palcos na década de 1960. O sucesso em Hollywood, porém, só teve início com Mary Poppins, sua primeira participação no cinema. Dick Van Dyke, ao contrário da atriz britânica, encontrou resistência em sua encarnação de Bert. Travers, que não gostava do humor praticado pelo americano, se opôs à sua participação no elenco, mas não obteve sucesso.

Julie Andres como a babá Mary Poppins na cena de "Spoonful Of Sugar". (FOTO: Divulgação / Walt Disney Pictures).

Julie Andrews como a babá Mary Poppins na cena de “A Spoonful Of Sugar”. (FOTO: Divulgação / Walt Disney Pictures).

Grande parte do sucesso de Mary Poppins é creditado aos irmãos Richard e Robert Sherman. Responsáveis pela trilha sonora do longa, os artistas imortalizaram diversas canções no imaginário das crianças e também dos adultos. Por meio de passagens divertidas e fantasiosas, as melodias alegres e as letras bem humoradas marcaram forte presença no filme de 1964 e continuam a cativar o público mesmo após 50 anos. Supercalifragilisticexpialidocious, apesar da difícil pronúncia, é uma palavra extremamente familiar para as muitas pessoas que tiveram sua infância (ou vida adulta) entrelaçada à trama da babá britânica.

Mary Poppins, além de uma belíssima história, foi um filme singular por toda a tecnologia envolvida em sua produção. Na época foi considerado o projeto mais caro da Walt Disney Pictures, mas os US$ 6 milhões investidos (um alto valor para o período) tiveram um imenso retorno: Mary Poppins foi um dos filmes mais lucrativos em seu ano de lançamento, ao lado de fortes títulos, como Goldfinger e Minha Bela Dama. Sem contar com os avanços da técnica do chroma key (tela verde) que ocorreriam nos anos seguintes, um dos grandes méritos da companhia foi ambientar a nova trama tanto em cenários reais quanto em animados. Outro destaque são os pássaros vistos na cena “A Spoonful Of Sugar”, a primeira aparição da animatrônica no cinema. A técnica, que combina eletrônica e robótica, foi aprimorada pelo próprio Walt Disney para enriquecer a magia das atrações da Disneyland, parque temático na Califórnia.

Julie Andrews (esquerda), Walt Disney (centro) e P. L. Travers (direita) na première de Mary Poppins em 1964. (FOTO: Divulgação).

Julie Andrews (esquerda), Walt Disney (centro) e P. L. Travers (direita) na première de Mary Poppins em 1964. (FOTO: Divulgação).

Aclamado pelo público e também pela crítica, Mary Poppins foi louvado por todo o seu conjunto. Do roteiro aos efeitos especiais, passando pelo elenco, direção de arte e trilha sonora, tudo na adaptação da obra de Travers estava à altura da magia dos estúdios Disney. Os especialistas já em 1964 reconheceram a importância e a qualidade do longa, assim como as principais premiações da área fizeram. A 37ª edição do Academy Awards escolheu Mary Poppins para concorrer em 13 categorias. O filme levou cinco estatuetas na noite de gala: melhor atriz principal para Julie Andrews, canção original por Chim Chim Che-ree, trilha sonora para os irmãos Sherman, efeitos especiais e melhor edição. Até hoje o conto da babá britânica é o filme da Disney com mais Oscars no currículo.

Apesar do sucesso, o produto final da versão cinematográfica de Mary Poppins nunca foi aprovado pela autora Pamela Travers. A australiana não era fã de desenhos animados e após a première do filme, chegou a pedir a Walt que cortasse as ilustrações do longa. A personalidade gentil e harmoniosa da babá foi duramente repreendida, uma vez que os livros da escritora apresentavam uma personagem muito mais fria e disciplinada. A difícil relação entre Pamela e os estúdios americanos foi retratada em 2013, no drama Walt nos Bastidores de Mary Poppins, que conta com Tom Hanks e Emma Thompson no elenco e ainda desmembra a história por trás da autora australiana.

Emma Thompson como P. L. Travers e Tom Hanks como Walt Disney em Walt nos Bastidores de Mary Poppins. (FOTO: Divulgação / Walt Disney Pictures).

Emma Thompson como P. L. Travers e Tom Hanks como Walt Disney em Walt nos Bastidores de Mary Poppins. (FOTO: Divulgação / Walt Disney Pictures).

Travers nunca mais permitiria outra adaptação de seus trabalhos durante sua vida. A versão dos estúdios Disney para a babá britânica, porém, permanece viva na memória de várias gerações, marcadas pelo encantamento do longa. Mary Poppins é um clássico do cinema, cuja magia persiste mesmo após seus 50 anos. As cores vibrantes e alegres de 1964 jamais serão apagadas da história da cinematografia e as melodias harmoniosas dos irmãos Sherman acompanharão nossos ouvidos por muitos outros anos.

TEATRO

Cena de "Step In Time" da montagem de Mary Poppins na Broadway. (FOTO: Divulgação / Disney Theatrical Productions).

Cena de “Step In Time” da montagem de Mary Poppins na Broadway. (FOTO: Divulgação / Disney Theatrical Productions).

Em 2004 estreava em Londres a versão teatral do musical Mary Poppins. A adaptação para os palcos era um desejo do produtor britânico Cameron Mackintosh desde a década de 1990, época na qual suas expectativas foram frustradas pelas exigências da autora Pamela Travers.

Primeiro musical da Disney a estrear nas terras da rainha, Mary Poppins permaneceu nos palcos ingleses por mais de três anos e ainda contou com uma turnê nacional. Assim como o filme de 1964, inúmeras inovações tecnológicas estiveram presentes na peça. A montagem rendeu duas vitórias no Laurence Olivier Awards, premiação máxima do teatro britânico.

O musical chegou à Broadway em 2006, onde foi encenado por cerca de seis bem sucedidos anos. O New Amsterdam Theatre, lar da montagem estadunidense, disse então adeus à Mary Poppins para que a adaptação de Aladdin estreasse em 2014.

Depois de passar pela América do Norte, Ásia, Europa e Oceania, especula-se que uma versão brasileira estreará em 2015 em São Paulo, após o fim da aclamada temporada de O Rei Leão. Kiara Sasso, que já encarnou a protagonista de A Bela e a Fera, outro êxito do departamento teatral da Disney, é um dos principais nomes cotados para viver a babá britânica em terras tupiniquins.

Walt nos Bastidores de Mary Poppins

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Disney retorna à década de 1960 e relata a verdadeira história de Mary Poppins

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Saving Mr. Banks
DIREÇÃO: John Lee Hancock
DURAÇÃO: 125min
GÊNERO: Drama, Comédia, Biografia
PAÍS: Estados Unidos, Reino Unido, Austrália
ANO: 2013

Mary Poppins não é apenas um clássico dos estúdios Disney, mas de toda a história do cinema. Seja pelas canções, os efeitos especiais, as personagens ou a história, a magia que envolve o mundo da babá britânica já fascinou e continua a fascinar milhares de crianças – e até mesmo adultos – de todo o globo. Quem nunca ouviu, mesmo desconhecendo a procedência, a palavraSupercalifragilisticexpialidocious? Nem mesmo o corretor do computador no qual esta crítica é escrita ousa acusar o verbete de inexistência.

Saving Mr. Banks retorna à Disney dos anos de 1960 e apresenta a tentativa do cineasta e empresário Walt Disney (Tom Hanks) em persuadir P.L. Travers (Emma Thompson), autora de Mary Poppins, a ceder os direitos de seus livros para o que se tornaria o clássico longa-metragem protagonizado por Julie Andrews. Em paralelo com essa documentação, porém, é narrada a conflituosa infância da escritora australiana, que está em constante embate com a descontraída atmosfera do estúdio de animação.

O cativante de Saving Mr. Banks é sua capacidade de não se restringir à apresentação dos “bastidores de Mary Poppins”. Ao contrário do que pode parecer, o longa é muito mais profundo e delicado. Enquanto a complicada relação de Disney e Pamela Travers se desenrola, a infância desta última é revelada, a fim de traçar um paralelo com as páginas de sua autoria.

Existem dois planos narrativos interessantíssimos em Saving Mr. Banks e que se complementam ao longo da história. Por meio de flashbacks que retornam à sua vida na Áustralia, as frustrações e manias de Travers são explicados de forma implícita, o que requer certa atenção por parte do público. Tal fato é evidenciado na aversão de Pamela à cor vermelha, mesmo utilizando esta para colorir suas unhas, mas que tem como explicação o sangue presente nas constantes tosses de seu pai.

Para aqueles que têm lembranças frescas do filme original de 1964, é interessante reparar na apropriação que a personagem de Thompson faz do discurso do senhor Banks, patrão da babá Mary Poppins. Ambos seguem uma linha de pensamento similar, tratando com severidade tudo o que os cerca. Outro ponto a ser destacado é o fato de muitas falas de Saving Mr. Banks ecoarem exatamente as mesmas linhas pertencentes ao roteiro do musical. Até mesmo os personagens do clássico são reproduções de elementos da infância de Travers, como Katie Nanna e Tio Albert.

Apesar de relatar um drama, o humor marca presença no filme, servindo até mesmo para atenuar sua forte carga emocional. Com situações divertidas trabalhadas cautelosamente para não comprometer o objetivo da trama, o longa arranca risadas de sua platéia em diversos momentos.

A trilha sonora faz jus à indicação recebida no Oscar. Thomas Newman apresenta mais um trabalho extremamente competente, capaz de acompanhar as mudanças de humor da história. O design de produção também é outro ponto a ser considerado, devido ao cuidado utilizado na recriação da Los Angeles da década de 1960. Os figurinos, igualmente bem projetados, mostram o contraste entre a tradicional cultura britânica – representada por Travers – e a descontração da Califórnia de maneira esplêndida.

Emma Thompson e Tom Hanks fazem um trabalho louvável. Hanks personifica um Disney exibicionista e divertido, tal como realmente era, enquanto Thompson incorpora a frivolidade e os costumes de Travers de maneira extremamente convincente. É vergonhosa a falta de uma indicação da atriz britânica ao Oscar desse ano.

O filme talvez peque na exagerada rabugice de Travers, que poderia ser atenuada, apesar de ser uma das principais fontes de humor da trama. Outro aborrecimento é a falta de uniformidade nas tosses de Walt, que denunciam o câncer de pulmão que causaria sua morte. Apesar de seu vício em cigarros ser apresentado de forma sutil, tal como deveria por se tratar de uma produção da Disney, a falta de continuidade dada à essa característica não é nada convincente. Fato similar ocorre na abordagem do alcoolismo do pai de Travers, que contraria os sintomas reais de tal problema.

Outra questão é o ufanismo em relação à Disney. Ao exaltar seu império e sua capacidade de influenciar as pessoas, pode parecer exagerado o otimismo com o qual a empresa é exposta. Essa característica, porém, é esperada, afinal, estamos falando de um filme sobre a produção de um dos maiores sucessos da companhia. São poucos os estúdios que têm a chance de realizar um projeto como este, o que mostra a importância que a Walt Disney Pictures incontestavelmente tem no cenário mundial.

É interessante observar o final dado ao longa. É de comum conhecimento que P.L. não aprovou o produto final da adaptação de seus livros. Tratando-se de um filme da Disney sobre um de seus maiores clássicos, porém, era esperado que este fato não fosse contemplado. De maneira bem trabalhada, a cena final não simula uma inexistente simpatia da autora em relação ao musical, mas tampouco escancara sua desaprovação. 

Apesar de gravações e fotos originais exibidas durante os créditos, é errado acreditar que o filme tem a ambição de se tornar um documentário. Esses elementos estão lá unicamente para contemplar a produção de Poppins e engana-se quem toma a narrativa como uma verdade absoluta.

Existem aqui dois filmes a serem assistidos: Walt nos Bastidores de Mary Poppins e Saving Mr. Banks (Salvando Senhor Banks), ambos completamente diferentes. Enquanto o primeiro se limita a relatar o que está por trás da produção do clássico, o segundo é muito mais poético e bonito. Dependendo não somente da interpretação feita, mas também levando em conta o que Mary Poppins representa para o público, o espectador será apresentado a uma dessas obras, que levam a opiniões e críticas distintas. Para aqueles que não se sentem pessoalmente tocados pela história da babá britânica, o longa talvez pareça enfadonho, mas Saving Mr. Banks pode ser muito mais profundo e significativo se você acrescentar um pouco de sua individualidade à narrativa.


Para aqueles interessados em imergir ainda mais no mundo de Mary Poppins, a Disney disponibilizou, gratuitamente, um e-book com áudios, fotos e vídeos originais da produção do musical, além de informações e curiosidades a respeito de Saving Mr. Banks. O download pode ser feito na Apple Store no link abaixo:

https://itunes.apple.com/us/book/saving-mr.-banks-official/id775411203?mt=11