Guardiões da Galáxia Vol. 2

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Trama espacial continua sendo o que há de mais criativo na Marvel

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Guardians of the Galaxy Vol. 2
DIREÇÃO: James Gunn
DURAÇÃO: 136min
GÊNERO: Ação, Aventura, Ficção, Comédia
PAÍS: EUA
ANO: 2017
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Fugindo de uma fórmula segura e já cansativa seguida pela Disney desde que assumiu o controle da Marvel, Guardiões da Galáxia inovou e surpreendeu quando foi lançado em 2014. Não à toa, sua sequência gerou grande expectativa entre os fãs e, por sorte, não decepcionou, investindo significativamente em um roteiro cada vez mais bem-humorado e driblando o politicamente correto tão entediante do mundo dos heróis.

Depois de salvarem a galáxia e se firmarem como anti-heróis, Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Groot (Vin Diesel) embarcam em uma missão que levará o Senhor das Estrelas (ou Star-Lord) a descobrir a verdade sobre seus pais.

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Dar continuidade a um filme que recebeu um mar de elogios não somente dos fãs da Marvel, mas também da crítica e daqueles que torcem o nariz para a maioria das tramas de heróis é uma tarefa difícil. Por sorte, James Gunn, diretor do primeiro Guardiões da Galáxia, encabeçou também sua sequência e manteve o ritmo e o tom já vistos nas telonas em 2014. Dessa forma, a margem para erro era pequena – mas ainda assim possível.

Se o primeiro Guardiões se encarregou de introduzir o quinteto de criminosos formado pelos protagonistas, seu segundo volume retorna ao passado de Peter Quill, explorando suas origens metade terráqueas e resolvendo também um mistério criado no desfecho do filme anterior. A trama é interessante e não tende ao sentimentalismo, como muitas histórias de origem, mas peca por pequenos detalhes.

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Falta lapidar o roteiro de Guardiões. Sua primeira parte e o clímax são ótimos, mas seu terceiro ato deixa a desejar. O desfecho encontrado para o problema que acomete a equipe de anti-heróis não convence e é resolvido de forma muito simples se considerado o tamanho da ameaça. Pequenas mudanças fariam bem à história.

O que realmente importa em Guardiões, porém, são os meios, não o fim. A abordagem das aventuras de Peter Quill é o que fez com que seu primeiro filme se destacasse. Mais uma vez, é a maneira como tudo é mostrado que faz também desta sequência um diferencial em meio ao super-explorado mundo dos heróis.

Com muito bom humor, o segundo volume de Guardiões conta sua história com um visual colorido, uma trilha sonora dançante e piadas que passam despercebidas pelas crianças, mas não por seus pais. É um filme hilário, com sequências de comédia muito bem planejadas e que superam seu antecessor. James Gunn pode até achar algumas cenas mais engraçadas do que realmente são, mas isso é compensado por vários momentos de um humor bobo, mas que arranca risadas sem grande esforço.

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Todas as personagens têm uma personalidade própria, bastante distinta, que contribui para a harmonia do filme. Neste volume, o público ainda passa mais tempo com a versão baby de Groot, responsável por momentos de fofura aliados às trapalhadas da planta. Também é introduzido um planeta “coxinha”, marcado por uma ideologia fascista e por um complexo de superioridade que rende cenas de chacota geniais. Por fim, conhecemos também Mantis (Pom Klementieff), responsável por alguns dos melhores momentos da trama. Ela e Drax têm uma estranha e errada química, que funciona maravilhosamente bem.

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Mais uma vez, Guardiões se destaca porque gira em torno de anti-heróis, criminosos que aparentam ter se regenerado, mas que continuam narcisistas e ambiciosos. Algumas de suas piadas, inclusive, escancaram o quão patéticas suas personagens podem ser, apelando a comentários mais adultos e a um sentimentalismo pautado por uma atmosfera de intriga para tornar a história mais madura e envolvente.

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É ótimo ter um filme como esse para dar um alívio da ideia de bom moço dos filmes de heróis, onde protagonistas como Capitão América causam exaustão por serem perfeitos e politicamente corretos demais. A Marvel está tentando fugir desse padrão, mas ainda recorre a ele como uma aposta segura para suas tramas.

Com efeitos especiais de tirar o fôlego, um design criativo, ótimas atuações e um timing cômico ímpar, Guardiões da Galáxia ainda representa o que há de melhor em seu subgênero. Existe um universo de possibilidades imenso à frente dos anti-heróis, que podem até ter suas aventuras encerradas com um terceiro filme, mas que já deixam um ótimo legado para o que está por vir na Marvel e até na DC.


14 cenas românticas do cinema

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14. O Lado Bom da Vida – Pat persegue Tiffany (2012)
Patrick Solano (Bradley Cooper) & Tiffany Maxwell (Jennifer Lawrence)

Um drama disfarçado por um roteiro bem humorado, o romance de Tiffany e Patrick é interessante devido às circunstâncias casuais nas quais floresce. É encantador acompanhar o desenvolvimento do sentimento das duas personagens ao longo da trama e a cena final, absurdamente esperada, é bonita justamente pelo alívio que causa não somente nas personagens, mas também no público. A maneira como Patrick se declara, com certa comicidade, é verdadeiramente emocionante e romântica.


 

13. A Jovem Rainha Victoria – “Stay with me” (2009)
Rainha Victoria (Emily Blunt) & Príncipe Albert (Rupert Friend)

O mais bonito de Jovem Rainha Victoria é pensar na potencial veracidade do amor entre a rainha do Reino Unido e o Príncipe Albert. As marcas deixadas pela relação dos dois na capital britânica enchem a trama do filme de credibilidade, vide o famoso e suntuoso Albert Memorial, construído pela monarca após a morte do marido. A cena na qual os dois mostram o quão apaixonados estão, por sua espontaneidade e até mesmo pela acidentalidade do sentimento, é simples e delicada, principalmente por ficar evidente o alívio e felicidade de ambos por poderem ficar juntos, sem a necessidade de um pretexto, como ocorria até então.


 

12. Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças – Cena final (2004)
Clementine Kruczynski (Kate Winslet) & Joel Barish (Jim Carrey)

Uma ficção que gira em torno da relação de Clementine e Joel, Brilho Eterno evidencia o amor das personagens por meio de cenas bem humoradas, diferentes e surreais, sem perder o drama e o romance da trama. O trecho final do longa, que problematiza a relação do casal, mostra que a perfeição não é o que importa em uma história de amor. Todos os casais têm seus problemas e superá-los somente fortalece o sentimento de um pelo outro, como acontece com as personagens de Winslet e Carrey. A abordagem de Brilho Eterno é completamente ficcional, mas sua essência beira a realidade.


 

11. Ghost – Unchained Melody (1990)
Sam Wheat (Patrick Swayze) & Molly Jensen (Demi Moore)

Assim como Ghost é um clássico do cinema, Unchained Melody é um clássico musical. A combinação dos dois funciona perfeitamente para ilustrar a vida simples, mas cheia de romance de Sam e Molly.  A cena sonorizada pela composição não tem nada de grandioso e sua casualidade é exatamente o que a torna tão interessante: o destaque, despido de qualquer superficialidade, dado à relação dos protagonistas mostra a verdadeira essência do sentimento ali representado, fazendo uso de uma sensualidade sutil e bonita.


 

10. Pocahontas – Cena final (1995)
Pocahontas (Irene Bedard) & John Smith (Mel Gibson)

Clássico da animação, Pocahontas tem em sua cena final um momento repleto de simbolismo e romantismo. A maneira como a história acaba, apesar de dramática, conta com os detalhes, como o vento, para legitimar a sobrevivência do amor entre a índia e o inglês. A profundidade da relação das duas personagens fica evidente quando o público percebe que aquele amor independe de qualquer materialidade, sendo sustentado por um sentimento verdadeiro e transcendente. A sensibilidade utilizada para registrar os laços que um cria pelo outro deixam o final do filme emocionante e poético.


 

9. O Grande Gatsby – “I’m certainly glad to see you again” (2013)
Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio) & Daisy Buchanan (Carey Mulligan)

Encher a sala do seu vizinho com flores de todos os tipos e cores certamente é uma prova de amor inesperada e inovadora. Não somente o ato e a intenção do protagonista são surpreendentes, como também seu reencontro com a personagem de Carey Mulligan, que demonstra que o amor dos dois, apesar de antigo e distante, continuava tão forte e verdadeiro quanto em seu início. A troca de olhares entre Gatsby e Daisy, na cena, é tão significativa e bem executada que facilmente convence o público do sentimento dos dois.


 

8. Across The Universe – All You Need Is Love (2007)
Jude (Jim Sturgess) & Lucy (Evan Rachel Wood)

Com um ar alternativo, Across The Universe é uma história de amor jovial e que acompanha, com excelência, a temática dos clássicos dos Beatles. O reencontro de Jude e Lucy, criativo e na eminência do fim do filme, não somente alivia o espectador, que certamente torce para que o casal dê certo, como também é coeso quanto à letra de All You Need Is Love, sendo inevitável não acreditar no significado do título da composição após assistir à história dos protagonistas. “Tudo o que você precisa é amor”.


 

7. O Fantasma da Ópera – All I Ask Of You (2004)
Raoul, Visconde de Chagny (Patrick Wilson) & Christine Daaé (Emmy Rossum)

Grande sucesso dos palcos, a adaptação de O Fantasma da Ópera para as telas sofreu um pouco por conta de sua direção despretensiosa, que não condiz com o caráter suntuoso da peça. Apesar disso, o triângulo amoroso entre o Fantasma, Christine e Raoul manteve-se autêntico e a essência do amor dos dois últimos foi habilmente captada no dueto interpretado no telhado do Opera Populaire, teatro no qual a história se passa. All I Ask Of You, além de uma bela melodia, tem uma letra excepcionalmente romântica, que representa o forte sentimento que Christine e Raoul compartilham.


 

6. Amor, Sublime Amor – Somewhere (1961)
Maria (Natalie Wood) & Tony (Richard Beymer)

O grande musical americano West Side Story não podia deixar de aparecer na lista, afinal, foi inspirado no maior romance da história da literatura: Romeu e Julieta. O amor entre Tony e a porto-riquenha Maria prova-se verdadeiro e profundo no desenrolar da trama. O dueto Somewhere, no qual os protagonistas prometem dedicar-se um ao outro, superando qualquer adversidade, é um ícone do cinema musical e reflete o quão inabalável e eterno é o amor que desenvolvem.


 

5. A Dama e o Vagabundo – Bella Notte (1955)
Dama (Peggy Lee) & Vagabundo (Larry Roberts)

Um clássico do cinema, a cena em que os dois cachorros da Disney compartilham uma refeição romântica à luz das estrelas já encantou – e continua encantando – inúmeras gerações. Tudo na passagem é muito bem pensado: a música italiana, a última almôndega do prato e o beijo tímido e delicado que a Dama e o Vagabundo trocam ao dividir um fio de espaguete fazem com que essa demonstração de afeto, diferente e inocente, se destaque na história do cinema.


 

4. Luzes da Cidade – Cena final (1931)
O Vagabundo (Charles Chaplin) & Florista Cega (Virginia Cherrill)

O final de Luzes da Cidade é, certamente, um dos mais bonitos proporcionados pela cinematografia. Chaplin, verdadeiro gênio na abordagem de temas universais, desenvolve no filme um puro e ingênuo romance entre a clássica personagem O Vagabundo e uma florista simples e cega. O desfecho da história, após inúmeras cenas de dificuldades e comicidade, não poderia ser retratado de forma mais esplêndida: o reencontro das duas protagonistas não é moldado por Chaplin, permitindo que o público fantasie sobre o destino do casal, cuja última cena é de uma beleza genuína e singela.


 

3. A Bela e a Fera – Beauty And The Beast (1991)
Bela (Paige O’Hara) & Fera (Robby Benson)

Todos sabem que A Bela e a Fera é um clássico da animação e do cinema musical. Antes de se destacar nesses dois gêneros, porém, o filme da Disney é uma pura e verdadeira história de amor, que obedece aos critérios necessários para qualificá-lo como um grandioso romance. O interessante do longa é o desenvolvimento, lento e cauteloso, da relação do casal, que vai do ódio ao mais terno amor. A cena da valsa entre a Bela e a Fera não somente solidifica o sentimento dos dois, mas é acompanhada por uma das músicas mais bonitas já compostas para as telas, com um visual extremamente moderno e detalhado para a época em que o filme foi lançado.


 

2. Titanic – “I’m flying!” (1997)
Jack Dawson (Leonardo DiCaprio) & Rose Bukater (Kate Winslet)

Titanic é o grande queridinho de uma considerável parcela da população. O título, porém, é merecido. Jack e Rose estão, com toda certeza, entre os casais mais apaixonados da cinematografia e juntos desenvolvem uma história bonita e transcendente de amor. São diversas cenas que funcionam como verdadeiras provas do sentimento de uma personagem pela outra. Ícone do cinema, a cena de amor que se destaca no longa é o famoso “vôo” que Jack proporciona à Rose na ponta do navio, momento no qual o afeto de um pelo outro se consolida, a fim de dar continuidade ao resto da trama.


 

1. Moulin Rouge! – Your Song (2001)
Christian (Ewan McGregor) & Satine (Nicole Kidman)

Uma obra-prima do cinema musical, Moulin Rouge! é, do começo ao fim, uma verdadeira sucessão de poéticas e encantadoras cenas de amor. Nicole Kidman e Ewan McGregor têm uma sincroniza perfeita em cena, que enche seu romance de credibilidade, deixando o público sensibilizado com o seu desenrolar. É difícil escolher, das cerca de duas horas de filme, qual passagem é a mais romântica, devido à pureza e profundidade da relação dos protagonistas. A escolha acabou refletindo em Your Song, a música na qual Christian e Satine se apaixonam e que, certamente, representa o que há de mais lírico e poético na cinematografia romântica.

Trapaça

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Retrato da criminalidade na década de 1970 se apoia em grandes atuações

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: American Hustle
DIREÇÃO: David O. Russell
DURAÇÃO: 138min
GÊNERO: Drama, Policial
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2013

Dois bons filmes sobre o submundo da costa leste americana concorrem ao grande prêmio do Academy Awards desse ano. O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, retrata a verídica ascensão e queda de Jordan Belfort, corretor da bolsa de valores na década de 1980. Também baseado em fatos reais, Trapaça, de David O. Russell, explica a investigação ABSCAM, ocorrida no fim da década de 1970, responsável pelo flagrante de corrupção de importantes políticos norte-americanos. Enquanto O Lobo é mais ousado, utilizando as imagens como grande aliado na apresentação da sujeira do mercado financeiro nova-iorquino, Trapaça se prende aos diálogos cautelosamente elaborados e requer uma maior atenção de seu espectador.

Ambientado na incrivelmente bem retratada década de 1970, American Hustle acompanha a jornada da dupla romântica – e golpista – Irving Rosenfeld (Christian Bale) e Sydney Prosser (Amy Adams) pela criminalidade dos Estados Unidos. Da venda de peças de arte falsificadas à inexistentes rendimentos bancários, o casal é surpreendido quando o investigador Richie DiMaso (Bradley Cooper) desmascara sua rede de ilegalidade, deixando-os com uma única saída: ajudar o FBI a prender o prefeito corrupto de Camden, Carmine Polito (Jeremy Renner).

Por meio de uma narrativa bem-humorada – muitas das vezes graças à nova queridinha de Hollywood, Jennifer Lawrence, que interpreta a esposa de Irving, Rosalyn – o filme oscila entre o drama e o humor. Com grandes atuações de todo o elenco, as transições emotivas pela temática ocorrem de maneira sutil. Tais mudanças ficam evidentes em cenas como a dança espalhafatosa de Jennifer Lawrence ao som de Live And Let Die, momentos depois da personagem derramar lágrimas ao entregar informações sigilosas de seu marido como forma de vingança. Do flagelo sentimental à caricata comicidade: é por meio dessa colcha de retalhos emotivos que o filme ganha vivacidade e sustância. Falamos aqui de um trabalho de extrema competência, onde os artistas tiveram grande espaço para desenvolver suas interpretações, formando um dos melhores elencos de 2013. O brilhantismo das atuações de Amy Adams e Christian Bale só não ofusca os atores secundários devido ao semelhante talento apresentado por estes.

Destaque merecido para a trilha sonora, que embala o longa com sua áurea vintage, recheada de célebres e imortalizados sucessos. Tão saudosista quanto, a direção de arte faz um memorável trabalho, retratando a era da Discocom elegantes figurinos e penteados extremamente caprichados. A década de 1970 não poderia ser melhor representada.

Quando nos aproximamos de sua reta final, porém, a história vacila ao acrescentar mais informações do que o roteiro é capaz de absorver. Com uma imensa complexidade, a trama abandona as bases sólidas nas quais se apoia em seu começo, deixando as reviravoltas de sua segunda parte frágeis e sem a devida contextualização. Esse é talvez o único erro cometido por David O. Russell, além da falta de espaço concedida à Jennifer Lawrence, que funciona basicamente como um elemento para agregar humor à obra. Apesar disso, a atriz é habilidosa o suficiente para destacar suas aparições em meio à tantas notáveis performances.

Preso aos detalhes tanto da trama quanto da parte artística, Trapaça é uma excelente reunião de talentos. David O. Russell iguala – ou até supera – a qualidade obtida em seu último trabalho, O Lado Bom Da Vida, também indicado ao Oscar, com semelhante dedicação e cautela. American Hustle nos apresenta à uma realidade existente até os dias de hoje, não quanto à forma, mas quanto à essência, frisando a incessante busca do ser humano por prestígio e como ele pode ser facilmente corrompido. Afinal, a qualquer momento, quem você menos espera pode se tornar um verdadeiro trapaceiro.