It – A Coisa

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Adaptação da obra de Stephen King foge do terror e triunfa como filme de aventura

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: It
DIREÇÃO: Andy Muschietti
DURAÇÃO: 135min
GÊNERO: Terror, Aventura
PAÍS: EUA
ANO: 2017
4

As obras do estadunidense Stephen King já renderam várias adaptações memoráveis para o cinema. Carrie, a Estranha (1976) e O Iluminado (1980), por exemplo, são até hoje lembrados como clássicos do terror. Na televisão, a história não é diferente: o palhaço Pennywise aterrorizou muita gente na década de 1990, quando foi vivido por Tim Curry. Agora, o sádico vilão volta às telas para assustar uma nova geração, dessa vez na pele do sueco Bill Skarsgård.

Em It, pré-adolescentes que se auto-denominam o “clube dos perdedores” decidem investigar desaparições de crianças na pacata cidade de Derry. O grupo então começa a ser assombrado por um misterioso palhaço capaz de invocar seus maiores medos.

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Apesar de toda a roupagem de filme de terror, It triunfa justamente onde menos se espera: em seu lado mais aventureiro, que explora o amadurecimento dos protagonistas. A trama espelha clássicos do cinema “coming of age” —aquele que discute a passagem da infância para a vida adulta— e tem referências claras a Goonies (1985) e a E.T. (1982), por exemplo.

O que mais desperta curiosidade no longa não é a origem do macabro Pennywise, mas a maneira como o grupo de amigos precisa se unir para, juntos, contra-atacarem a criatura, em uma jornada em que enfrentam suas próprias inseguranças.

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Outro trunfo do filme é sua ambientação, mudada da década de 1950, nos livros, para a de 1980. It bebe da fonte da nostalgia —e é impossível não lembrar da série Stranger Things durante a sessão— , mas ainda assim tem personalidade própria. Referências aos filmes já citados e a tantos outros —sendo A Hora do Pesadelo (1984) talvez a mais notável— são feitas de forma sutil, deixando o saudosismo como detalhe, não permitindo que ele tome as rédeas da trama.

É dessa forma lúdica, brincando com a inocência dos protagonistas, que conhecemos o vilão da trama. Pennywise não dá medo pelos sustos, mas pela expectativa que gera, principalmente quanto às inseguranças que o palhaço explora —de forma muito inteligente, a propósito. Mesmo quando suas aparições são óbvias, é impossível não se sentir aterrorizado, graças a seu olhar sádico e irônico. É das caras e bocas do personagem que surge o único ponto de terror do filme, ancorado no incômodo que “a coisa” gera.

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Tecnicamente, o longa apresenta uma ótima reconstituição de época, com trilha sonora adequada, mas nem um pouco emblemática. A atuação dos adultos está no piloto automático —o que parece ter sido uma escolha da direção, para evidenciar ainda mais a negligência dos habitantes com a sobrenaturalidade de Derry. Em contrapartida, isso realça o trabalho das crianças, cheias de personalidade, de talento e de carisma. 

Indispensável para o funcionamento da trama, o ótimo elenco infantil apresenta personagens bem definidos, mesmo que alguns sejam pouco explorados. O hipocondríaco Eddie (Jack Dylan Grazer) diverte com naturalidade, enquanto Richie (Finn Wolfhard, de Stranger Things) gera desconforto com suas piadas sujas, mas que são aproveitadas de maneira certeira.

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Beverly (Sophia Lillis) dá ares de feminismo ao roteiro como a única garota do grupo e seus interesses amorosos, Bill (Jaeden Lieberher) e Ben (Jeremy Ray Taylor), são extremamente simpáticos graças à inocência que transmitem.

It pode ser uma frustração para quem está em busca de sustos. Mas, se a visita ao cinema for feita de forma despretensiosa, o filme pode se tornar uma ótima surpresa, como foi o caso de Invocação do Mal em 2013, outro longa que triunfa muito mais pelo clima de mistério e incerteza do que pelo terror em si. A adaptação do clássico de Stephen King é uma ótima fábula adolescente sobre amadurecimento, companheirismo e insegurança, e nem por isso deixa de atingir todos os tipos de público. Tem pitadas muito bem dosadas de perversidade, que o tornam uma ótima experiência cinematográfica.


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Guardiões da Galáxia Vol. 2

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Trama espacial continua sendo o que há de mais criativo na Marvel

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Guardians of the Galaxy Vol. 2
DIREÇÃO: James Gunn
DURAÇÃO: 136min
GÊNERO: Ação, Aventura, Ficção, Comédia
PAÍS: EUA
ANO: 2017
4

Fugindo de uma fórmula segura e já cansativa seguida pela Disney desde que assumiu o controle da Marvel, Guardiões da Galáxia inovou e surpreendeu quando foi lançado em 2014. Não à toa, sua sequência gerou grande expectativa entre os fãs e, por sorte, não decepcionou, investindo significativamente em um roteiro cada vez mais bem-humorado e driblando o politicamente correto tão entediante do mundo dos heróis.

Depois de salvarem a galáxia e se firmarem como anti-heróis, Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Groot (Vin Diesel) embarcam em uma missão que levará o Senhor das Estrelas (ou Star-Lord) a descobrir a verdade sobre seus pais.

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Dar continuidade a um filme que recebeu um mar de elogios não somente dos fãs da Marvel, mas também da crítica e daqueles que torcem o nariz para a maioria das tramas de heróis é uma tarefa difícil. Por sorte, James Gunn, diretor do primeiro Guardiões da Galáxia, encabeçou também sua sequência e manteve o ritmo e o tom já vistos nas telonas em 2014. Dessa forma, a margem para erro era pequena – mas ainda assim possível.

Se o primeiro Guardiões se encarregou de introduzir o quinteto de criminosos formado pelos protagonistas, seu segundo volume retorna ao passado de Peter Quill, explorando suas origens metade terráqueas e resolvendo também um mistério criado no desfecho do filme anterior. A trama é interessante e não tende ao sentimentalismo, como muitas histórias de origem, mas peca por pequenos detalhes.

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Falta lapidar o roteiro de Guardiões. Sua primeira parte e o clímax são ótimos, mas seu terceiro ato deixa a desejar. O desfecho encontrado para o problema que acomete a equipe de anti-heróis não convence e é resolvido de forma muito simples se considerado o tamanho da ameaça. Pequenas mudanças fariam bem à história.

O que realmente importa em Guardiões, porém, são os meios, não o fim. A abordagem das aventuras de Peter Quill é o que fez com que seu primeiro filme se destacasse. Mais uma vez, é a maneira como tudo é mostrado que faz também desta sequência um diferencial em meio ao super-explorado mundo dos heróis.

Com muito bom humor, o segundo volume de Guardiões conta sua história com um visual colorido, uma trilha sonora dançante e piadas que passam despercebidas pelas crianças, mas não por seus pais. É um filme hilário, com sequências de comédia muito bem planejadas e que superam seu antecessor. James Gunn pode até achar algumas cenas mais engraçadas do que realmente são, mas isso é compensado por vários momentos de um humor bobo, mas que arranca risadas sem grande esforço.

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Todas as personagens têm uma personalidade própria, bastante distinta, que contribui para a harmonia do filme. Neste volume, o público ainda passa mais tempo com a versão baby de Groot, responsável por momentos de fofura aliados às trapalhadas da planta. Também é introduzido um planeta “coxinha”, marcado por uma ideologia fascista e por um complexo de superioridade que rende cenas de chacota geniais. Por fim, conhecemos também Mantis (Pom Klementieff), responsável por alguns dos melhores momentos da trama. Ela e Drax têm uma estranha e errada química, que funciona maravilhosamente bem.

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Mais uma vez, Guardiões se destaca porque gira em torno de anti-heróis, criminosos que aparentam ter se regenerado, mas que continuam narcisistas e ambiciosos. Algumas de suas piadas, inclusive, escancaram o quão patéticas suas personagens podem ser, apelando a comentários mais adultos e a um sentimentalismo pautado por uma atmosfera de intriga para tornar a história mais madura e envolvente.

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É ótimo ter um filme como esse para dar um alívio da ideia de bom moço dos filmes de heróis, onde protagonistas como Capitão América causam exaustão por serem perfeitos e politicamente corretos demais. A Marvel está tentando fugir desse padrão, mas ainda recorre a ele como uma aposta segura para suas tramas.

Com efeitos especiais de tirar o fôlego, um design criativo, ótimas atuações e um timing cômico ímpar, Guardiões da Galáxia ainda representa o que há de melhor em seu subgênero. Existe um universo de possibilidades imenso à frente dos anti-heróis, que podem até ter suas aventuras encerradas com um terceiro filme, mas que já deixam um ótimo legado para o que está por vir na Marvel e até na DC.


Moana: Um Mar de Aventuras

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Disney apresenta nova heroína em mais uma volta à era dos musicais

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Moana
DIREÇÃO: Ron Clements e John Musker
DURAÇÃO: 107min
GÊNERO: Aventura, Animação, Família, Musical
PAÍS: EUA
ANO: 2016
4

 O período mais fértil e bem-sucedido dos estúdios de animação Disney começou com A Pequena Sereia, em 1989, e se estendeu até o fim da década de 90.

Durante dez anos, a empresa viu a popularidade de seus filmes alcançarem níveis inimagináveis e parte desse sucesso está nas mãos dos músicos que passaram pela companhia, tornando filmes como A Bela e a Fera e O Rei Leão não somente clássicos animados, mas também musicais. Novas tentativas de produzir filmes à la Broadway vêm ocorrendo desde 2009 e Moana é o novo resultado dessa volta ao passado.

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Nas ilhas da Polinésia mora uma comunidade chefiada por Tui (Temuera Morrison), pai de Moana (Auli’i Cravalho), que logo terá que herdar as responsabilidades de cuidar de seu povo. Mas uma praga começa a tomar conta da ilha em que moram e a heroína precisa responder ao chamado do oceano e procurar o semideus Maui (Dwayne Johnson) para buscar uma solução.

Criar uma “princesa” da Polinésia foi um grande passo dado pela Disney. Mas criar uma nova protagonista feminina forte, determinada e independente foi um passo maior ainda.

Depois que Frozen provou, em 2013, que meninas não precisam de príncipes para fazer de uma história um filme popular e lucrativo, o estúdio parece ter entendido o recado de que a velha fórmula “donzela em apuros” já está ultrapassada. Só esse ano, a companhia lançou Zootopia e Moana, dois sucessos de bilheteria que têm personagens femininas fortes à frente.

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Moana até mesmo tira sarro da fórmula de princesa da Disney em uma cena engraçada e genial – “se você usa um vestido e tem um animalzinho, é uma princesa”, provoca Maui, para logo depois descobrir que havia subestimado a heroína.

Com uma mensagem feminista, de lutar pelo que deseja independente de quem você for, Moana é mais uma obra-prima da empresa de Mickey Mouse. É uma história tão contagiante quanto a de Frozen – um dos melhores filmes na história da Disney – e com personagens tão interessantes e inspiradores quanto as irmãs Anna e Elsa.

Trazer lendas antigas da Polinésia para o filme foi uma ótima decisão dos veteranos Clements e Musker, que fizeram algo parecido em Hércules. O material que ambos tinham em mãos foi muito bem aproveitado e toda a riqueza dessa cultura acabou se tornando uma animação bastante divertida e original.

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As personagens do filme também são muito bem desenvolvidas. Moana é aventureira, uma líder nata, mas que está dividida entre as responsabilidades para com a sua comunidade e seu desejo de explorar o oceano. Maui é uma personagem arrogante, mas ainda assim carismática e é interessante ver como, aos poucos, ele vai se tornando uma pessoa melhor graças à heroína do filme. Os “sidekicks” Heihei e Pua, um galo e um porquinho, são engraçados e fofos.

O filme só perde pela ausência de um vilão clássico. O carangueijo Tamatoa protagoniza um dos momentos mais aleatórios do cinema em 2016, e seu papel no filme nunca fica muito claro. Enquanto isso, a praga que atinge a ilha de Moana tem motivos pouco convincentes para acontecer e, por isso, o desfecho do filme acaba sendo o único momento em que a história perde qualidade. Nada que prejudique o filme como um todo, mas seria um ponto a melhorar.

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O grande trunfo de Moana acaba sendo sua trilha sonora, composta pelo queridinho do momento Lin-Manuel Miranda, criador do sucesso da Broadway Hamilton, e por Opetaia Foa’i e Mark Mancina. A trilha é uma ótima sucessora para Frozen e contém canções criativas, bonitas e de qualidade semelhante à dos clássicos da década de 90. O destaque fica para How Far I’ll Go, um novo Let it Go tão encantador quanto.

O estúdio de animação da Disney emplacou dois filmes incríveis no ano de 2016. Zootopia e Moana são ambos excelentes e é difícil escolher para quem torcer na temporada de premiações. Os dois são divertidos e tratam de temas importantes e maduros de forma sutil e didática, com Moana tendo a necessária renovação da linha de princesas da Disney como um de seus principais objetivos. A protagonista do filme é forte, tornando o longa uma verdadeira inspiração para as milhares de crianças que crescem assistindo às animações da companhia.


Animais Fantásticos e Onde Habitam

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J.K. Rowling abre novas possibilidades para o universo de Harry Potter

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Fantastic Beasts and Where to Find Them
DIREÇÃO: David Yates
DURAÇÃO: 113min
GÊNERO: Aventura, Fantasia
PAÍS: Reino Unido, EUA
ANO: 2016
4

 Os fãs de Harry Potter tiveram um ano agitado, cheio de novidades: de um novo parque temático em Hollywood a uma peça em Londres sobre o que acontece anos após o bruxo deixar Hogwarts. Nos cinemas, o grande acontecimento foi a estreia de Animais Fantásticos e Onde Habitam, que apesar de ter outro protagonista, é igualmente fascinante.

Newt Scamander (Eddie Redmayne) é um magizoologista inglês que viaja a Nova York, na década de 1920, com uma maleta cheia de criaturas mágicas, que acabam se perdendo pela cidade. Junto com Tina Goldstein (Katherine Waterston), que trabalha para o Congresso Mágico dos Estados Unidos da América, ele precisa recuperar os animais antes que eles exponham a comunidade bruxa estadunidense para o mundo trouxa.

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Novas histórias dentro de universos populares sempre são motivo de temor. Na maioria das vezes, diretores e produtores não acertam, fazendo dos spin-offs jogadas de marketing lucrativas, mas puramente comerciais e insatisfatórias. Foi o que aconteceu com a trilogia O Hobbit, precária frente à qualidade de O Senhor dos Anéis, apesar de também ser baseada na obra de Tolkien.

Animais Fantásticos, porém, é uma história diferente e criativa, que consegue se destacar em meio aos oito filmes da saga Harry Potter com uma narrativa original e igualmente encantadora. O protagonista Newt Scamander pode não ser tão forte quanto Harry, mas Animais Fantásticos não tem como principal objetivo narrar as aventuras da personagem.

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O propósito por trás da história de J.K. Rowling é justamente expandir seu universo e dar uma ideia geral da situação da comunidade bruxa não somente em outras épocas, mas também em outros países e culturas. Os bruxos estadunidenses têm uma forma diferente de governo, chamam os trouxas por outro nome e ainda têm leis rígidas que ecoam momentos históricos do país – das Bruxas de Salem às leis segregacionistas e racistas em vigor até poucos anos atrás.

Ambientar um filme da mente de J.K. Rowling em um lugar que não o Reino Unido parecia uma heresia, mas o resultado é fascinante e faz com que o público tenha uma ideia mais completa e real do funcionamento do universo bruxo.

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A narrativa aborda os mesmos temas já presentes em Harry Potter – autoritarismo, intolerância, amizade – mas faz isso de forma original. Não somente por se passar nos Estados Unidos, mas também pelo carisma e pelas personalidades distintas de suas novas personagens.

Eddie Redmayne faz um ótimo papel como Newt Scamander, passando para o público a excentricidade e timidez do protagonista com facilidade. Alison Sudol traz charme à narrativa com sua gentil Queenie, enquanto Dan Fogler arranca risadas com o divertido Kowalski. Katherine Waterson, por sua vez, é a grande surpresa do filme e está perfeita como Tina. Ezra Miller e Colin Farrell fazem trabalhos igualmente bons.

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Em termos técnicos, o filme é acompanhado de uma trilha sonora que faz constantes menções aos temas de Harry Potter, trazendo frescor ao filme sem fazê-lo perder sua parte nostálgica. Os figurinos e cenários são incríveis, mesclando o visual à la Grande Gatsby da década de 1920 com o estilo próprio do universo de J.K. Rowling. Os efeitos especiais são de primeira e todas as criaturas apresentadas no filme impressionam.

O único problema de Animais Fantásticos é que ele pode parecer confuso em alguns momentos. Sua trama não é das mais fáceis e um bom conhecimento da saga Harry Potter é necessário para entender o novo filme por completo.

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Ainda assim, uma das coisas mais fascinantes da história de Newt Scamander é justamente a sutileza com a qual ela se conecta com os livros de Harry Potter. Passagens menores, rapidamente mencionadas pela autora – como a ideia por trás dos Obscuros – ganham novo significado e dimensão neste lançamento. Enquanto isso, personagens como Grindelwald e Dumbledore devem receber histórias interessantes nas sequências desta nova série cinematográfica.

Animais Fantásticos e Onde Habitam abre uma porta de possibilidades para o universo mágico de J.K. Rowling. Com criatividade, a nova história fascina tanto quanto seus predecessores e deve explicar melhor os eventos que antecipam o nascimento de Harry Potter e a ascensão de Lorde Voldemort. É uma nova série de filmes que promete ser realmente fantástica.


Meu Amigo, O Dragão

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Disney traz personagem de volta às telas em conto de fadas moderno

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Pete’s Dragon
DIREÇÃO: David Lowery
DURAÇÃO: 103min
GÊNERO: Aventura, Família, Fantasia
PAÍS: EUA
ANO: 2016
4

A onda de live-actions da Disney não sobrevive somente de princesas. Depois de lançar o incrível Mogli – O Menino Lobo e mais uma versão decepcionante de Alice no País das Maravilhas, o estúdio emplaca mais uma adaptação em seu 2016. Dessa vez são as personagens de Meu Amigo o Dragão, de 1977, que voltaram às telas, para recontar uma história que já caiu no esquecimento de muita gente.

Depois que seus pais morrem em um acidente de carro, Pete (Oakes Fegley) se vê sozinho no meio de uma floresta no Oregon, Estados Unidos. Anos se passam até que o garoto é descoberto pela guarda florestal Grace (Bryce Dallas Howard), que teve a infância marcada pelas histórias de seu pai, Meacham (Robert Redford), que jura já ter visto um dragão naquele mesmo local. Pete pode ser a prova de que a criatura realmente existe.

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Meu Amigo, O Dragão se apoia em um tipo de encantamento típico dos filmes de Steven Spielberg, capazes de dialogar tanto com os pequenos, quanto com os adultos. Coincidência ou não, o diretor estadunidense lançou há poucos meses, em parceria com a própria Disney, seu 30º filme, O Bom Gigante Amigo. Os dois títulos são parecidos em diversos momentos. Ambos falam sobre a inocência e a criatividade da infância e têm efeitos visuais de tirar o fôlego. Mas pelo incrível que pareça, David Lowery é quem sucede ao transformar um roteiro familiar em um verdadeiro conto de fadas moderno.

A história de Pete e seu dragão faz o que Spielberg não conseguiu alcançar com sua releitura da obra de Roald Dahl. É inteligente e divertida, apela para o público infantil e para o adulto e ainda ecoa a obra prima de Spielberg, E.T. – O Extraterrestre, de uma maneira bastante autêntica e nostálgica. O filme somente ajuda o público a ver o tamanho do desastre que O Bom Gigante Amigo é.

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No começo de Pete’s Dragon, o público tem a impressão de que está para ver mais um filme caça-níqueis da Disney, cujos executivos parecem não querer abandonar a onda de live-actions tão cedo. Mas não é preciso muito tempo de tela para notarmos que o filme é uma bonita história sobre amizade.

É impossível não fazer a conexão entre os meninos Elliott e Pete e as criaturas E.T. e – veja só! – Elliot. A versão original para o dragão da Disney chegou aos cinemas cinco anos antes de Spielberg debutar sua obra prima, mas é difícil não sentir estranhamento pela similaridade no nome das duas personagens.

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O roteiro de Meu Amigo, O Dragão faz de uma história relativamente simples uma narrativa que combina aventura, drama e fantasia. É um filme que definitivamente tem alma e sabe equilibrar bem seu sentimentalismo para não cair no exagero. Existe uma discussão bonita sobre infância e amadurecimento, executada com a maestria de E.T. ou Peter Pan. O texto, porém, não é à prova de balas.

Alguns deslizes são cometidos. A falta de explicação e aprofundamento na história dos irmãos interpretados por Wes Bentley e Karl Urban é um deles. Da mesma forma, existe uma temática interessante sobre desmatamento escondida e subutilizada no filme e, em uma época em que questões ecológicas são e precisam ser amplamente discutidas, é uma pena não ver a Disney abordar o assunto com comprometimento para sua jovem audiência – é a ela que o futuro do planeta pertence, afinal.

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No geral, David Lowery faz um maravilhoso trabalho e Pete’s Dragon é diversão garantida para todos os tipos de público. É inevitável não se emocionar com a bonita mensagem presente na história – não estranhe uma lágrima ou outra caindo durante a sessão. A impressão que fica é que a Disney tem melhorado cada vez mais sua habilidade para traduzir seus clássicos para o live-action. No caso de Meu Amigo, O Dragão, o desafio era ainda maior, já que a história não é mais um de seus exuberantes épicos fantasiosos, como Cinderela ou A Bela e a Fera.

É exatamente isso que faz de Pete’s Dragon único. É um filme que se passa na atualidade, não está perdido no espaço-tempo, e, mesmo assim, provoca encantamento como poucas obras são capazes de fazer. É um envolvente e delicado conto de fadas moderno, que merece um lugar ao lado dos sucessos da empresa de Mickey Mouse.


Zootopia

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Disney volta a dar voz aos animais

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO: Zootopia: Essa Cidade é o Bicho
DIREÇÃO: Byron Howard, Rich Moore
DURAÇÃO: 108min
GÊNERO: Animação, Família, Aventura
PAÍS: EUA
ANO: 2016
4

Algumas das animações mais memoráveis da Walt Disney são aquelas protagonizadas por animais. Sejam eles antropomórficos – ou seja, que assumem a forma humana – como em Robin Hood, ou mais “primitivos”, como é o caso de Bambi, os bichos sempre ocuparam um lugar especial nos filmes da empresa de Mickey Mouse. Depois de cinco anos do lançamento de O Ursinho Pooh, o estúdio resolveu, mais uma vez, dar voz aos animais e o resultado é uma divertida sátira de nossa sociedade.

Judy Hopps (Ginnifer Goodwin / Monica Iozzi) é uma coelha que nasceu e cresceu na área rural. Ela sempre teve o sonho de ser policial e, quando enfim consegue se tornar a primeira oficial coelho da cidade de Zootopia, vê seus sonhos frustrados ao saber que ficará encarregada de fiscalizar o trânsito. Mas quando vários predadores começam a desaparecer, Judy vê a oportunidade perfeita para provar seu valor, mas para isso precisa contar com a ajuda da raposa Nick Wilde (Jason Bateman / Rodrigo Lombardi), seu inimigo natural.

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Zootopia reúne originalidade, diversão e um visual de tirar o fôlego. Diferente de seus antecessores mais recentes no departamento animalesco da Disney – como Nem que a Vaca Tussa ou O Galinho Chicken Little -, Essa Cidade é o Bicho é um filme para a família toda. Suas personagens, a estética colorida e as brincadeiras no roteiro encantam as crianças, mas por outro lado, suas críticas à nossa própria sociedade e as paródias aos nossos filmes e marcas só podem ser totalmente compreendidas pelos mais velhos.

O roteiro de Zootopia é interessante pela sutileza com a qual propõe debates importantes. Se por um lado temos uma sociedade aparentemente perfeita – “Zootopia” não deriva de “utopia” à toa -, por outro parece existir uma tensão natural entre as diferentes espécies que habitam a cidade que leva o nome da animação.

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Esse desconforto parece muitas vezes ecoar problemas bastante comuns da nossa própria realidade. Em determinada cena, Judy explica que “só um coelho pode chamar outro de fofo”, e é inevitável não pensar nas inúmeras discussões sobre estereótipos que estão tão presentes no século XXI.

Mesmo que essa seja a face mais interessante do filme, talvez seja ela também a mais problemática. Não pela maneira como esses debates são desenvolvidos, mas pela falta de protagonismo que recebem. Seria ótimo ver Zootopia se aprofundar mais ainda nesses assuntos, ao invés de se ater às soluções infantilizadas que muitas vezes aparecem para resolver os impasses da investigação de Judy Hopps.

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Isso, claro, deixaria o filme mais importante e inteligente, mas não chega a comprometer a trama, que conta com divertidas paródias do filme O Poderoso Chefão, da série Breaking Bad e até mesmo da burocracia presente em nosso dia a dia. Um dos pontos altos da animação é com certeza a cena em que descobrimos que o “Detran” de Zootopia é comandado por preguiças lentas e irritantes.

O visual dos bichos de Zootopia é divertido e Judy Hopps e Nick Wilde formam uma dupla bastante carismática. A cidade em si, por sua vez, é de tirar o fôlego. O design de produção do filme é extremamente competente ao criar um ambiente humano, mas que leva em consideração as peculiaridades e a riqueza existentes no mundo animal. Quando chega a Zootopia, o trem de Judy percorre diferentes áreas – como Tundralândia -, cada uma destinada a um tipo de animal.

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Zootopia tem uma mensagem importante e inspiradora, já que a história de Judy, no fim, não podia ser mais parecida com a de seu próprio predador natural, Nick Wilde. Sua trama mostra, em todos os momentos, a importância de abrir a mente e abandonar os estereótipos que parecem se fortalecer cada dia mais em nossa sociedade e ainda faz isso de maneira bastante divertida, contando com personagens como Gazelle – a antílope cantora interpretada por Shakira – para dar musicalidade e cor ao filme.


Interestelar

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Novo filme de Christopher Nolan se perde em sua própria complexidade

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Interstellar

DIREÇÃO: Christopher Nolan

DURAÇÃO: 169min

GÊNERO: Ficção, Aventura, Drama

PAÍS: Estados Unidos, Reino Unido

ANO: 2014


Christopher Nolan é hoje um diretor com uma base de fãs bastante fiel. A notoriedade veio após sucessos como A Origem, Amnésia e a trilogia O Cavaleiro das Trevas. Uma de suas marcas registradas, portanto, são os altos orçamentos de suas produções, todas responsáveis também por grandes lucros. O investimento em Interestelar não foi diferente: filmes de ficção científica sempre custam caro, principalmente quando falamos de um projeto tão ambicioso quanto esse. Pensando que a sofisticação de sua obra e sua credibilidade enquanto diretor seriam suficientes para que o público digerisse qualquer coisa, Christopher Nolan apresenta um filme confuso e recheado de falhas.

Interestelar é protagonizado por Cooper (Matthew McConaughey), um antigo empregado da NASA que, em um futuro apocalíptico onde a tecnologia é rejeitada a fim de concentrar esforços na produção de alimentos, torna-se fazendeiro e pai de dois filhos. Um dia, Cooper recebe um sinal gravitacional que o guia até o esconderijo da Agência Espacial, que o escolhe para participar de sua última missão, a fim de encontrar um planeta habitável para os humanos. McConaughey então deixa para trás a filha Murph (Mackenzie Foy e Jessica Chastain) e se junta à doutora Brand (Anne Hathaway) na missão coordenada pelo personagem de Michael Caine.

Com um roteiro bastante complexo, Interestelar é interessante por se pautar em temáticas com forte apelo científico e também emocional: um dos pontos sensíveis do filme é o pouso feito por Cooper em um planeta onde uma hora equivale a sete anos terrestres. A passagem não somente faz o espectador refletir um conceito astronômico, como também problematiza o enredo, uma vez que a personagem de McConaughey se mantém jovem, ao contrário de seus filhos. São muitos os aspectos da história que conquistam o espectador por sua profundidade e novidade. O roteiro, porém, tem falhas significativas.

Os diálogos trocados entre os cientistas da trama são demasiadamente densos, de difícil compreensão e, por isso, acabam se tornando cansativos. O foco dado às falas acaba por tirar o encantamento presente nas imagens. Existem também vários problemas de lógica, como a repentina escolha de Cooper para chefiar a última missão espacial da NASA. Sem qualquer preparação ou burocracia, a personagem sai do planeta dez anos após abandonar sua carreira e, ainda assim, não encontra dificuldades para operar equipamentos de alta tecnologia ou para se adaptar às condições extremas presentes fora da Terra. A incoerência também está presente na travessia de um milharal em alta velocidade com um pneu furado e no aspecto rudimentar dado aos softwares dos computadores da NASA.

Na mesma semana em que os europeus aterrissam um robô na superfície de um cometa – algo histórico – a relevância das agências espaciais mundiais é ignorada. Mesmo em um futuro apocalíptico, onde não há verba para a ciência, a supremacia estadunidense se faz presente ao manter o monopólio daquela que seria a última ida ao espaço, tomando um rumo oposto a Gravidade, que salientou a importância da China, da Rússia e da União Europeia no campo espacial. Esse é um aspecto que incomoda em Interestelar: o caos parece restrito ao sul dos Estados Unidos e o espectador não sabe se aquele futuro apocalíptico se repete em outras regiões.

O grande ponto negativo de Interestelar é que, ao se apoiar em uma séries de eventos complexos, a solução para todos os problemas levantados pela trama é justamente a criação de um novo problema. Ao final do filme, temos a sensação de que a história é um ciclo, sem começo ou fim definidos. O longa tem um desfecho confuso, mal explicado e que abandona toda a racionalidade com a qual sua primeira parte foi construída.

Ainda assim, o projeto é ambicioso e justamente por isso tem aspectos realmente bons. O conceito de criação ou de “deus” dado ao longa é bonito e original e algumas de suas passagens causam um tipo de tensão pautada por pontos bem desenvolvidos do roteiro. Os erros da obra estão concentrados em cenas específicas, o que não compromete a história em sua totalidade. São diversas as passagens interessantes, com ênfase naquelas em que Nolan soube, com maestria, conciliar o científico com o emocional. A enorme capacidade de entreter de Interestelar é algo que releva muitos de seus erros e, apesar de quase três horas de duração, o espectador continua atento ao desenrolar dos fatos, com interesse, sendo habilmente cativado pela história de Cooper.

O elenco, com grandes nomes, acaba se concentrando na incrível interpretação de Matthew McConaughey. O ator encarna Cooper de forma consistente e carismática. Anne Hathaway e Michael Caine também entregam boas atuações, mas seus papeis são muito rasos e pouco desenvolvidos para permitir performances realmente grandes. Jessica Chastain mostra seu talento cada vez mais reconhecido, embora sua personagem sofra do mesmo problema.

Hans Zimmer faz, como é costume, um maravilhoso trabalho de sonorização. A trilha de Interestelar é intensa e acompanha com naturalidade a trama. Aliada à equipe de edição, a alternância entre a tensão das músicas e o silêncio do espaço é feita de maneira sublime. Ainda quanto aos aspectos técnicos, é importante ressaltar a ambiguidade de sua fotografia. Algumas das cenas são enquadradas de forma bonita e prática, mas a escolha por manter o foco nas personagens e diálogos diminui o número de cenas amplas, que abririam espaço para a equipe de efeitos especiais mostrar sua criações. Essa parte gráfica, inclusive, é excelente, pecando apenas em sua ilustração de Saturno, que passa uma sensação de artificialidade.

De maneira geral, Interestelar cumpre seu papel de entreter com facilidade. Prende a atenção do público e é bem elaborado em diversos aspectos. Os problemas levantados no caminho para o desfecho, porém, mostram uma certa desorientação por parte de Christopher Nolan. É uma boa história, mas de uma complexidade e ambição que acabam encaminhando o roteiro para um fim irregular, que poderia ser evitado com um pouco mais de cautela. O tom realista dado à ficção científica encanta, mas não é o suficiente para salvá-la. A ideia em si é fascinante, pena que mal acabada.