It – A Coisa

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Adaptação da obra de Stephen King foge do terror e triunfa como filme de aventura

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: It
DIREÇÃO: Andy Muschietti
DURAÇÃO: 135min
GÊNERO: Terror, Aventura
PAÍS: EUA
ANO: 2017
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As obras do estadunidense Stephen King já renderam várias adaptações memoráveis para o cinema. Carrie, a Estranha (1976) e O Iluminado (1980), por exemplo, são até hoje lembrados como clássicos do terror. Na televisão, a história não é diferente: o palhaço Pennywise aterrorizou muita gente na década de 1990, quando foi vivido por Tim Curry. Agora, o sádico vilão volta às telas para assustar uma nova geração, dessa vez na pele do sueco Bill Skarsgård.

Em It, pré-adolescentes que se auto-denominam o “clube dos perdedores” decidem investigar desaparições de crianças na pacata cidade de Derry. O grupo então começa a ser assombrado por um misterioso palhaço capaz de invocar seus maiores medos.

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Apesar de toda a roupagem de filme de terror, It triunfa justamente onde menos se espera: em seu lado mais aventureiro, que explora o amadurecimento dos protagonistas. A trama espelha clássicos do cinema “coming of age” —aquele que discute a passagem da infância para a vida adulta— e tem referências claras a Goonies (1985) e a E.T. (1982), por exemplo.

O que mais desperta curiosidade no longa não é a origem do macabro Pennywise, mas a maneira como o grupo de amigos precisa se unir para, juntos, contra-atacarem a criatura, em uma jornada em que enfrentam suas próprias inseguranças.

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Outro trunfo do filme é sua ambientação, mudada da década de 1950, nos livros, para a de 1980. It bebe da fonte da nostalgia —e é impossível não lembrar da série Stranger Things durante a sessão— , mas ainda assim tem personalidade própria. Referências aos filmes já citados e a tantos outros —sendo A Hora do Pesadelo (1984) talvez a mais notável— são feitas de forma sutil, deixando o saudosismo como detalhe, não permitindo que ele tome as rédeas da trama.

É dessa forma lúdica, brincando com a inocência dos protagonistas, que conhecemos o vilão da trama. Pennywise não dá medo pelos sustos, mas pela expectativa que gera, principalmente quanto às inseguranças que o palhaço explora —de forma muito inteligente, a propósito. Mesmo quando suas aparições são óbvias, é impossível não se sentir aterrorizado, graças a seu olhar sádico e irônico. É das caras e bocas do personagem que surge o único ponto de terror do filme, ancorado no incômodo que “a coisa” gera.

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Tecnicamente, o longa apresenta uma ótima reconstituição de época, com trilha sonora adequada, mas nem um pouco emblemática. A atuação dos adultos está no piloto automático —o que parece ter sido uma escolha da direção, para evidenciar ainda mais a negligência dos habitantes com a sobrenaturalidade de Derry. Em contrapartida, isso realça o trabalho das crianças, cheias de personalidade, de talento e de carisma. 

Indispensável para o funcionamento da trama, o ótimo elenco infantil apresenta personagens bem definidos, mesmo que alguns sejam pouco explorados. O hipocondríaco Eddie (Jack Dylan Grazer) diverte com naturalidade, enquanto Richie (Finn Wolfhard, de Stranger Things) gera desconforto com suas piadas sujas, mas que são aproveitadas de maneira certeira.

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Beverly (Sophia Lillis) dá ares de feminismo ao roteiro como a única garota do grupo e seus interesses amorosos, Bill (Jaeden Lieberher) e Ben (Jeremy Ray Taylor), são extremamente simpáticos graças à inocência que transmitem.

It pode ser uma frustração para quem está em busca de sustos. Mas, se a visita ao cinema for feita de forma despretensiosa, o filme pode se tornar uma ótima surpresa, como foi o caso de Invocação do Mal em 2013, outro longa que triunfa muito mais pelo clima de mistério e incerteza do que pelo terror em si. A adaptação do clássico de Stephen King é uma ótima fábula adolescente sobre amadurecimento, companheirismo e insegurança, e nem por isso deixa de atingir todos os tipos de público. Tem pitadas muito bem dosadas de perversidade, que o tornam uma ótima experiência cinematográfica.


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