A Chegada

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Ficção científica surpreende ao se afastar de aliens e tomar rumo muito mais sensível

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Arrival
DIREÇÃO: Denis Villeneuve
DURAÇÃO: 116min
GÊNERO: Drama, Ficção, Suspense
PAÍS: EUA
ANO: 2016

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Vez ou outra um filme de ficção científica chama a atenção durante o ano e acaba parando na lista de indicados ao Oscar de Melhor Filme. Foi assim com Perdido em Marte e Gravidade, por exemplo. O gênero, que tende a ser esquecido por muitas premiações, tem se reinventado e conquistado justamente seus votantes. Com roteiros cada vez mais desenvolvidos e efeitos especiais sempre mais inovativos, esses filmes têm apostado em sua parte dramática tanto quanto na parte ficcional, como é o caso de A Chegada.

Doze espaçonaves aparecem em pontos misteriosos ao redor do mundo, comprovando assim a existência de vida fora da terra. Para tentar fazer contato com seus tripulantes, o governo estadunidense contrata a linguista Louise Banks (Amy Adams) e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) para desvendarem o idioma dos extraterrestres, até que a missão começa a afetar as vidas pessoais dos dois.

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Como a tendência sugere, A Chegada alcançou o Oscar ao se desprender de sua face mais ficcional em direção a um arco dramático complexo e que é o verdadeiro motor da história. Muitos vão se surpreender – e até mesmo se frustrar – ao descobrir que o filme de Denis Villeneuve é qualquer coisa, menos um filme sobre aliens. O que há de mais inventivo e carismático em A Chegada é justamente a relação humana sobre a qual o filme fala.

O público é levado a acreditar que as doze naves posicionadas em cantos específicos do planeta estão ali para iniciar uma guerra, roubar recursos terráqueos ou qualquer outro objetivo mais previsível em filmes de ficção científica. Mas na verdade A Chegada é, do começo ao fim, um filme que discute o que há de mais intrínseco à raça humana. Louise Banks serve como o fio condutor para que se discuta noções exclusivamente nossas, como amor, coragem e afeição.

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Com uma linha do tempo não linear – algo que só fica claro no fim da trama – , A Chegada é um filme difícil de discutir sem entregar muito de sua história. A graça do longa está justamente nas descobertas que o público faz, todas elas chocantes e muito bem trabalhadas.

Um dos assuntos mais pertinentes para a história é a comunicação. O filme escancara como, em um mundo onde tudo é tão efêmero, violento e insensível, o simples ato de conversar pode gerar soluções e um convívio muito mais pacífico e inteligente. Em tempos de Trump, A Chegada prega temas como solidariedade e cooperação, condenando o egoísmo e a concorrência que marcam o mundo capitalista atual. O próprio filme se comunica com seu público de uma maneira diferente.

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É essa parte humana que faz de A Chegada uma ficção científica diferente. O roteiro faz com que o público reflita sobre diversos temas enquanto busca entender também sua complexa trama. A mensagem que fica é a de que, afinal, devemos viver com medo de nos arriscarmos, de sermos felizes? Ou devemos nos jogar nos acontecimentos, “colher o dia”? É uma temática bonita, extremamente delicada, que é positiva, apesar de um final que parece – mas de maneira alguma é – infeliz. A vida é feita de momentos, de lembranças.

A Chegada é ambição do começo ao fim. Denis Villeneuve faz um belíssimo trabalho de direção, enquanto Amy Adams brilha ao dar vida a uma história tão misteriosa. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas merece ser condenada para todo o sempre por não ter indicado a atriz ao Oscar. É sem dúvida uma das melhores atuações do ano e uma das maiores da carreira de Amy Adams, que já é repleta de performances de tirar o fôlego, apesar de nunca ter sido reconhecida com a estatueta dourada de Hollywood. É, no mínimo, vergonhoso não vê-la indicada.

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Ao entregar o jogo de sua trama, Villeneuve faz com que o público sinta uma verdadeira confusão de emoções. Seu existencialismo aborda temas muito mais pertinentes para o agora do que para a origem ou o pós-vida. Nem por isso o filme deixa de ter tensão. Se há uma coisa presente do começo ao fim em A Chegada, ela é justamente o suspense e a incerteza.

Arrival surpreende por ser um dos filmes mais humanos dos últimos tempos. Ao fim da sessão, somos atingidos por um sentimento de, primeiro, incompreensão, segundo, emoção, para, enfim, sermos inspirados pela beleza por trás de uma aparente invasão alienígena. É um filme carregado de interpretações e significados, abordando sua narrativa de uma maneira sensível, sutil e muito emocionante.


Inferno

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Livro de Dan Brown perde inventividade em versão hollywoodiana

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Inferno
DIREÇÃO: Ron Howard
DURAÇÃO: 121min
GÊNERO: Ação, Suspense
PAÍS: Estados Unidos, Hungria
ANO: 2016

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Dan Brown é um autor que causa controvérsias. Apesar dos milhares de exemplares vendidos e da popularidade de seus livros, muita gente não gosta da obra do autor por considerá-la comercial. No cinema, O Código da Vinci e Anjos e Demônios funcionaram bem, atraindo a atenção do público. Mas nem Tom Hanks consegue salvar o terceiro filme da série, Inferno.

Após acordar em um hospital em Florença, na Itália, com amnésia, o professor universitário Robert Langdon (Tom Hanks) precisa fugir do que parece ser um complô envolvendo governos e organizações para matá-lo. Junto com a médica Sienna Brooks (Felicity Jones), ele precisa seguir pistas para impedir uma arma biológica de ser ativada.

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Inferno é uma decepção. Para aqueles que leram o livro de Dan Brown, a decepção é ainda maior. Depois do tenso e interessante Anjos e Demônios, lançado há sete anos, é triste ver Robert Langdon voltando às telas em um filme tão pobre.

Não há nada de errado em alterar uma história quando ela passa das páginas – ou do palco – para o cinema. O problema, porém, é quando a adaptação é para pior. Ron Howard fez exatamente isso em Inferno: pegou um material riquíssimo e o empobreceu, comprometendo pontos centrais da trama.

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O grande problema do filme estrelado por Tom Hanks está justamente em sua necessidade de se adaptar a padrões hollywoodianos do gênero de ação. Ao invés de investir no suspense e no cérebro de Langdon para solucionar seus problemas, o longa-metragem decide se encaixar em uma fórmula clichê, despida de inventividade.

O Langdon de Inferno não é testado tanto quanto em seus dois primeiros filmes e suas especialidades, história da arte e simbologia, não são peças chaves para solucionar a ameaça biológica do filme.

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Da mesma forma, o desfecho credível e questionador do livro é descartado em prol de um final feliz que não convence. Um romance para Langdon também é criado e as coincidências que o envolvem beiram o ridículo.

É uma pena que um livro tão cheio de suspense e detalhes acabe se tornando só mais um filme de ação, sem nenhum brilhantismo que o faça se destacar entre os lançamentos do ano.

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Ainda assim, Inferno é ótimo entretenimento. Se os clichês e soluções fáceis são ignorados, o público pode sim ter uma experiência agradável no cinema. É um longa que prende a atenção com facilidade e as ótimas atuações de Tom Hanks e Felicity Jones conduzem a saga com maestria.

É bem verdade que as mudanças de trama e personagens empobrecem o material criado por Dan Brown, mas, como filme de ação e suspense, Inferno é decente. Seu roteiro pode ser bruto e confuso muitas vezes, mas não é ruim o suficiente para comprometer a obra em sua totalidade. É uma pena ver os pontos mais intrigantes e inteligentes do livro serem cortados na versão hollywoodiana, demasiadamente caricata e maniqueísta. Pelo menos é uma boa diversão – mas nada além disso.


Invocação do Mal 2

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Clima de tensão se mantém em continuação com muito mais sustos

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: The Conjuring 2
DIREÇÃO: James Wan
DURAÇÃO: 134min
GÊNERO: Terror, Suspense
PAÍS: EUA
ANO: 2016
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Quando Invocação do Mal foi lançado, em 2013, foi ovacionado por muita gente que já havia perdido as esperanças com o terror produzido nos Estados Unidos. Depois do sucesso que foi Atividade Paranormal, de 2007, todos os filmes populares do gênero pareceram estagnar no chamado “found footage”: aqueles filmes que tentam passar a ideia de serem baseados em fatos reais, de terem filmado algo que de fato ocorreu. Quando o sucesso de James Wan foi lançado, porém, reintroduziu nos rumos do terror o cuidado com a trama e o suspense, agradando público e crítica.

Invocação do Mal 2 acompanha o casal Lorraine (Vera Farmiga) e Ed Warren (Patrick Wilson) em mais uma investigação sobrenatural. Desta vez, uma família de Enfield, na Inglaterra, passa a ser assombrada pelo espírito de um idoso, antigo morador de sua casa, e que está determinado a destruir a vida dos Hodgson.

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O primeiro filme da franquia Invocação do Mal surpreendeu pela riqueza de sua trama. Não se limitava aos sustos e ao “gore”, estilo marcado pelo excesso de sangue e violência. Pelo contrário: estava muito mais preocupado em reproduzir um nível de tensão próprio do suspense e raro nos filmes de terror atuais. A imprevisibilidade dos acontecimentos e a profundidade de suas personagens rompeu totalmente com o terror que a geração atual estava acostumada a consumir e tornou o filme um verdadeiro sucesso.

Em sua continuação, esse cuidado é mantido – porém, reduzido. Mais uma vez encontramos sequências imprevisíveis e é impossível ficar desinteressado ao longo da trama. É o típo de filme que te faz ter vontade de fechar os olhos, antecipando os sustos que vai levar, mas é simplesmente impossível perder um único segundo da exibição.

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O problema, porém, é justamente a maneira como as personagens são retratadas no segundo capítulo de Invocação do Mal. Os Warren já foram apresentados no filme anterior, mas, ao desenvolver a relação do casal, o roteiro exagera um pouco no sentimentalismo. O vínculo que une Ed e Lorraine é extremamente forte – está nos campos afetivo, profissional e até mesmo no sobrenatural. Mas essa informação não é novidade e os dois acabam protagonizando algumas cenas com excesso de ternura para o tipo de filme em questão.

Enquanto isso, os espíritos, demônios e qualquer outro tipo de entidade presente na trama acabam ficando muito caricaturais. A estética deles é exagerada e, uma vez que a história é inspirada em registros reais, pesar a mão na maquiagem e no caricato acaba comprometendo o debate sobre a veracidade daqueles eventos.

Outra característica em destaque no filme é a vontade do diretor James Wan de assustar o público. Enquanto o primeiro longa metragem da franquia tinha no suspense seu principal aliado, Invocação do Mal 2 quer dar susto atrás de susto, mas sem deixar de lado a tensão e o perfeccionismo.

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Em vários momentos vemos pessoas tentando refutar os acontecimentos na residência dos Hodgson, o que colabora para os tons de realismo do filme. Além disso, a objetividade da trama é algo raro no gênero: mesmo que pesquisadores insistam em chamar os Warren de charlatões, os eventos sobrenaturais que perturbam Enfield não são escondidos das personagens periféricas do longa. A polícia, por exemplo, é justamente quem aconselha a família Hodgson a pedir a ajuda da Igreja.

Entre sustos e reviravoltas, Invocação do Mal 2 acaba se tornando um ótimo terror. Tem qualidade e um roteiro bem costurado, com uma história original e interessante. A franquia adquire uma outra personalidade graças à ótima ambientação do longa na Inglaterra dos anos 70 e a freira demoníaca que assola o filme é garantia de perda de sono para o público.


Os Oito Odiados

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Tarantino volta para um velho oeste cheio de sangue e sarcasmo

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: The Hateful Eight
DIREÇÃO: Quentin Tarantino
DURAÇÃO: 187min
GÊNERO: Western, Comédia, Suspense
PAÍS: EUA
ANO: 2015
5

Tarantino é uma das maiores grifes do cinema atual. Com uma marca registrada – manchada de muito sangue -, o diretor sempre imprimiu em seus filmes sua personalidade bastante distinta. Com violência e humor ácido, Os Oito Odiados se junta às outras sete produções do cineasta como mais uma evidência da imaginação fértil – e ousada – do antigo balconista de locadora.

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Em meio a um inverno rigoroso no oeste dos Estados Unidos, o caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell) precisa levar a criminosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) à justiça. No caminho, ele encontra o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), seu colega de profissão, e também o futuro xerife Chris Mannix (Walton Goggins).

Presos em uma estalagem após uma tempestade de neve, o quarteto se junta aos misteriosos Oswaldo Mobray (Tim Roth), Joe Gage (Michael Madsen), General Smithers (Bruce Dern) e ao mexicano Bob (Demián Bichir).

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 O grande problema de Os Oito Odiados é sua duração. As mais de três horas de filme já assustam antes mesmo do começo da sessão. Isso faz com que a primeira metade do filme seja bem lenta. Ocupando boa parte do começo do longa, o detalhismo dos diálogos e a trilha de Ennio Morricone são excelentes, mas não evitam o cansaço.

Já a segunda parte, quando o sangue enfim começa a jorrar da tela, passa voando. O roteiro é construído com cuidado, permitindo diversas surpresas ao longo da história e, mesmo que exista um narrador um pouco deslocado ou uma personagem mal explorada, o texto é interessante e tem personalidade.

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Além da escrita de Tarantino, outro ponto forte de Os Oito Odiados é, como de praxe, o elenco. O destaque da vez não é Tim Roth ou Samuel L. Jackson – que ao lado de Bruce Dern protagoniza uma cena incômoda, cruel e muito bem conduzida. Quem rouba os holofotes é Jennifer Jason Leigh, extremamente divertida em sua encarnação da criminosa Domergue.

Ambientada poucos anos após o fim da Guerra Civil estadunidense, a trama deixa bem claro que os ânimos de sulistas e yankees continuaram à flor da pele por um bom tempo (ou seria até os dias de hoje?). Pode muito bem parecer que Tarantino está interessado unicamente na violência, mas existem reflexões interessantes e sutis sobre racismo e justiça enfiados por entre os litros de sangue que jorram do roteiro.

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No geral, Os Oito Odiados não chega ao brilhantismo de Django Livre ou Bastardos Inglórios, últimos dois longas de Tarantino. Mas, ainda assim, é muito melhor que a maioria dos lançamentos por aí. Seu estilo sangrento está presente, mas existe também uma ótima história por trás de toda a violência.

Os Oito Odiados é mais uma prova de que Tarantino continua sendo um dos melhores, com uma assinatura única, por mais politicamente incorretas que suas obras possam parecer.


Jurassic World

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Herdeiro da trilogia Jurassic Park fascina, mesmo cometendo erros

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Jurassic World
DIREÇÃO: Colin Trevorrow
DURAÇÃO: 124min
GÊNERO: Ficção, Aventura, Suspense
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2015

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Dinossauros encantaram geração atrás de geração até meados do século XXI. Com o avanço cada vez mais ligeiro da tecnologia, perdeu-se um pouco da cultura jurássica, que já teve dias melhores. Jurassic World surge para resgatar não somente um dos melhores títulos de Steven Spielberg, mas também todo o fascínio que envolve um mundo povoado por dinossauros. Desta vez com mais tecnologia, o longa dirigido por Colin Trevorrow emociona os fãs da trilogia original, mesmo cometendo uma grave série de equívocos no meio do caminho.

Vinte e dois anos após os eventos de Jurassic Park (1993), a Isla Nublar finalmente passou a abrigar um parque temático, do jeito que John Hammond imaginou. Preocupados com o aumento do desinteresse do público pelos dinossauros já existentes na atração, os pesquisadores da empresa, coordenados por Claire (Bryce Dallas Howard), resolvem criar um híbrido, maior e mais forte que qualquer outro animal que já existiu. Tudo dá errado quando o experimento foge de sua área de contenção e instaura o caos no parque, aterrorizando os sobrinhos de Claire, Gray (Ty Simpkins) e Zach (Nick Robinson) e sendo perseguido pelo ex-oficial da marinha Owen (Chris Pratt).

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O ponto alto do filme se dá em seus primeiros minutos. Logo após chegar à Isla Nublar, Gray atravessa seu quarto de hotel correndo, ao som tímido e baixo do tema composto em 1993, abre as janelas e… lá está, o parque dos dinossauros do jeito que John Hammond sempre sonhou. A música cresce instantaneamente, preenche todo o espaço e toma o espectador de maneira arrebatadora. Não há palavras para descrever o conjunto de emoções que toma conta do público nesta cena. Os calafrios se contrapõem à potência que somente uma trilha sonora de John Williams consegue alcançar. Uau, bem-vindos ao Jurassic Park!

Pena que o tom de fascínio não se mantém de forma regular até o fim do filme. Contando com efeitos visuais incríveis, o roteiro de Jurassic World deixa a desejar em alguns aspectos. A transição do fracasso inicial do projeto apresentado em 1993 para o sucesso comercial de um parque já pronto, em 2015, é muito bem pensada. Tudo é planejado, o parque temático é uma versão cinematográfica perfeita de uma Disneylândia, as atrações são de tirar o fôlego e temos aqui até mesmo uma releitura da baleia Shamu, do SeaWorld, o famoso parque da Flórida.

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Toda a preocupação em criar este universo de maneira detalhada, porém, é posta à prova quando nos deparamos com soluções rápidas e pouco convincentes para os problemas apresentados pela trama de Jurassic World. Isto dá margem para algumas incoerências que podem até ser esperadas em blockbusters, mas que são exageradamente escancaradas para não nos incomodarmos. Falamos aqui de fósforos molhados que se acendem e de sapatos de salto alto que só podem ter sido produzidos pela Nike. Apesar de não comprometerem o roteiro, estes aspectos são erros primários, que poderiam e deveriam ter sido eliminados.

53ab0250-a8e5-0132-4527-0ebc4eccb42fDa mesma forma, clichês se manifestam nos momentos em que a trama tem preguiça de se aprofundar. O mocinho e a mocinha já tiveram um caso; ela é razão, ele é sensibilidade; a mulher que mergulha de tal forma no mercado de trabalho que precisa afirmar constantemente o quão absurda é a ideia de ter filhos; o adolescente que chateia o irmãozinho e só quer saber de paquera; e por aí vai. São saídas rápidas que, apesar de interessantes no momento de contrapor as personagens de Chris Pratt e Bryce Dallas Howard, poderiam ter sido mais originais.

Colocando estes problemas à parte, é surpreendente o quão mágico aquele universo de dinossauros pode ser. Após ficarmos deslumbrados com a concepção do Jurassic World, ficamos tensos e assustados com as cenas de perseguição e suspense que se seguem. De forma muito bem coordenada, a ação toma conta daquela trama antes delicada e agora tão perigosa. Jurassic World não encontra problemas ao deixar seu público vidrado, na ponta da poltrona e roendo as unhas. As duas horas de filme passam rapidamente e cumprem, de longe, com a sua promessa de diversão. O longa ainda concilia muito bem o aspecto de caos e terror que acomete o filme, sem comprometer o apelo infantil da franquia.

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Jurassic World fascina, diverte, gera expectativa e tensão e, o mais importante: se mantém fiel à mensagem de seu original, de 1993. Não é tão simples brincar com a natureza, principalmente quando isto é feito para saciar o apetite grosseiro por dinheiro. Enquanto nossos olhos brilham com aquela possibilidade surreal de vivermos em meio às espécies extintas, o longa cumpre com a ousadia à qual se propôs: transporta o público de volta à sua infância, fascinando-o com aqueles seres enormes e indestrutíveis de 225 milhões de anos.


Garota Exemplar

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David Fincher dirige adaptação literária bem elaborada e fascinante

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Gone Girl
DIREÇÃO: David Fincher
DURAÇÃO: 149min
GÊNERO: Drama, Suspense
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2014


Ao longo de sua carreira, o diretor David Fincher mostrou que tem um ótimo gosto literário. Muitos de seus filmes foram inspirados em obras de grande sucesso e de qualidade incontestável. Em O Curioso Caso de Benjamin Button ou A Rede Social, por exemplo, Fincher soube conduzir com maestria adaptações de páginas para as telas. Garota Exemplar é mais um grande acerto do diretor.

No dia em que comemoravam cinco anos de casados, a esposa de Nick Dunne (Ben Affleck), Amy (Rosamund Pike), é dada como desaparecida. Protagonista de uma relação aparentemente amorosa, Nick acaba sendo perseguido pela imprensa e pela polícia após informações sobre uma crise em seu casamento virem à tona. A personagem precisa então decifrar o mistério em torno do sumiço de Amy, contando com a ajuda de sua irmã, Margo (Carrie Coon), para provar sua inocência.

Garota Exemplar é dono de um roteiro detalhado, cauteloso e extremamente bem elaborado. A história retratada se apoia em passagens inteligentes, que colocam o espectador em dúvida inúmeras vezes. Ainda joga com a personalidade de suas personagens, apresentando reviravoltas surpreendentes. A trama é tão bem redigida que, apesar da tensão que cria, abre espaço para leves tons de humor, escassos, mas que facilmente harmonizam com a seriedade de Gone Girl. As passagens complexas que contribuem para a cena do crime são muito bem pensadas, atentas a cada detalhe, fazendo com que todos os fatos se encaixem de forma satisfatória.

A montagem do filme é muito bem feita. Há várias alternâncias entre os momentos posteriores ao desaparecimento de Amy e aqueles que revelam a natureza de seu casamento. Todos eles são conduzidos de maneira leve, compreensível, sem comprometer o andamento da história. Ainda na parte técnica, a fotografia de Garota Exemplar revela-se surpreendente, destacando detalhes importantes para a trama e ajudando o elenco a transmitir o drama e a tensão envolvidos em seu roteiro.

A trilha sonora de Gone Girl é bastante apreensiva e se destaca sempre em que aparece. Contribui de maneira significativa para o bom funcionamento do filme enquanto suspense e seu tom misterioso e sombrio é diferente, moderno, realmente bom. Instiga a curiosidade do público com facilidade.

O casal protagonista é outro aspecto que merece ênfase. Ben Affleck está ótimo em sua interpretação do suspeito, mas inseguro, Nick Dunne. A grande estrela do longa, porém, é Rosamund Pike, que em sua Amy combina os mais diversos sentimentos e expressões. A enigmática personagem é sedutora ao mesmo tempo em que é casual, obscura mesmo parecendo ser tão óbvia. Pike transita com facilidade entre linhas emocionais muito distintas, entregando um trabalho esplêndido. É sem dúvida uma das melhores atuações femininas do ano.

Um ponto interessante do longa é a pintura feita da mídia. O jornalismo mostrado em cena é sensacionalista, superficial e reflete bem os problemas que afetam a profissão atualmente. Os jornalistas de Gone Girl são indispensáveis para conduzir não somente a opinião das personagens do filme, mas a do próprio espectador. É nesse triângulo não tão amoroso entre Nick, a polícia e a opinião pública (mediada pela imprensa) que reside a fragilidade da investigação do desaparecimento de Amy.

Garota Exemplar deixa seu público em dúvida muitas vezes. Mesmo quando este começa a desconfiar de seu desfecho, a trama se apresenta de uma maneira tão envolvente e fascinante que convence o espectador de que o fim pode não ser tão óbvio. David Fincher mostra que é cada vez mais competente, sendo talentoso ao conduzir uma obra tão complexa e rica para as telas com tamanha naturalidade. Tudo no filme se apresenta com excelência, aspectos técnicos ou não. Viciante do começo ao fim, Gone Girl é um candidato exemplar ao Oscar.


Transcendence – A Revolução

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Johnny Depp estrela filme que transcende os limites da incoerência

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Transcendence
DIREÇÃO: Wally Pfister
DURAÇÃO: 119min
GÊNERO: Drama, Ficção, Suspense
PAÍS: China, EUA, Reino Unido
ANO: 2014

Todos os anos as salas de cinema são bombardeadas com novas ficções científicas, todas com ambição em excesso e poucas com real qualidade. Em 2013, as telas tiveram a felicidade de receber Gravidade, filme certamente responsável por levantar a moral do gênero. Em 2014, em compensação, um dos mais aguardados lançamentos da categoria, Transcendence, prova-se não somente um grande fracasso de crítica, mas um verdadeiro atentado ao gênero científico.

Transcendence inicia sua história momentos antes da morte de Will Caster (Johnny Depp), um cientista responsável por um dos maiores laboratórios de inteligência artificial do planeta. Envenenado por um grupo radical – e com uma pitada de fundamentalismo religioso – que se opõe ao desenvolvimento de tais tecnologias, Caster auxilia sua esposa e parceira de trabalho Evelyn (Rebecca Hall), juntamente com seu amigo Max (Paul Bettany), a transportar sua mente e suas lembranças para um computador de tecnologia avançada. Max logo percebe que as ambições da plataforma não correspondem à personalidade de Will, mas Evelyn acredita cegamente que a máquina realmente é seu marido. Determinada a ajudá-lo, a personagem conecta Will à internet, permitindo que ele controle todos os dados da rede e, mais tarde, também o mundo material. Max então se junta ao grupo de “terroristas” responsável pela morte do amigo e, com a ajuda do FBI e do cientista Joseph Tagger (Morgan Freeman), tenta cessar a influência de Caster na esfera virtual e material.

Com roteiro e direção absurdamente fracos, Transcendence é irritante do começo ao fim. Não consegue cativar o público em nenhum momento, fazendo com que suas duas horas pareçam nunca acabar. Ao roteiro, falta objetividade. O longa começa com o foco no desenvolvimento de inteligência artificial, mas no desenrolar da trama, temas como nanotecnologia e regeneração de células tornam-se prioritários, causando confusão e resumindo toda a obra em uma longa e cansativa orgia tecnológica, que tenta abordar diversos segmentos científicos sem entrelaça-los ou contextualiza-los. Colabora para a desorientação do espectador a terminologia do roteiro, que, em sua busca por falsos termos técnicos, camufla a superficialidade do enredo.

Um grave problema é a incoerência da trama, característica que acompanha o filme do começo ao fim. Se o roteiro já confunde o público em seus momentos iniciais, que deveriam ser introdutórios e, portanto, claros, o espectador fica muito mais perdido a partir do momento em que Will se transforma em máquina. Começa então uma verdadeira sucessão de possibilidades absurdas e nada convincentes, como a construção de um laboratório de alta tecnologia no meio do deserto, que passa despercebido pelas autoridades por pelo menos dois anos.

A falta de definição dos alcances da máquina que Will Caster incorpora é um dos grandes problemas do filme. Preso na rede, o protagonista é capaz de interagir e dar ordens ao cidadãos da cidade que compra e possui até mesmo uma extensão indefinida no mundo físico, que fica clara quando Evelyn é presenteada com um vinil. Em seus momentos finais, o controle que Caster adquire sobre o meio ambiente extrapola os limites da ficção científica, por não contar com explicações, e enche o filme de um surrealismo ridículo e frágil.

Pelo incrível que pareça, nem o elenco de Transcendence se salva. Johnny Depp, ao longo de toda a trama, atua como se tentasse parecer um pirata alcoolizado, com uma fala arrastada e irritante, que nos dá uma vaga lembrança de um Jack Sparrow moderno e civilizado. A atuação de Depp não sofre qualquer tipo de alteração ao longo da narrativa, mesmo interpretando uma personagem que passa por mudanças tão brutais. O Dr. Caster do ator, quando doente, apresenta a mesma aparência cansada, tediosa e apática presente no resto do filme. Da mesma forma, Rebecca Hall incorpora uma personagem insossa, graças a uma atuação pouco convincente e que poderia ser facilmente superada por um grupo de teatro escolar.

Nem mesmo o veterano Morgan Freeman merece elogios. Sua personagem, Dr. Tagger,  assim como o resto da classe científica do enredo, provavelmente coleciona graduações, pois aparenta ter conhecimentos nas áreas de biologia, tecnologia, medicina, engenharia, empresarial e até mesmo na policial, vide a inexplicável subordinação do FBI à personagem. Para complementar essa lógica absurda, destaca-se o trabalho inexpressivo de Freeman. O vazio psicológico não somente de Tagger, mas de todas as personagens, é vergonhoso.

O único ponto que poderia salvar parcialmente Transcendence é o interessante questionamento sobre a humanidade do computador incorporado por Will Caster. Tal dúvida, porém, é sanada de forma insignificante e nada eloquente nos minutos finais da trama. Teria sido muito mais interessante sustentar a dúvida para além das duas horas de filme, permitindo uma aproximação do público com a história. O questionamento também sofre por ter um papel secundário, cujo potencial não é reconhecido pela péssima direção de Wally Pfister. O estreante diretor deveria continuar na indústria como cinegrafista, papel que desempenha bem, e nunca mais se aventurar no comando de um longa metragem.

A cinematografia do filme agrada, mas não é o suficiente para sustentar toda a asneira e incoerência do conjunto. A direção de arte, do mesmo modo, é boa e propõe um interessante contraste entre a modernidade presente nos laboratórios e o aconchego dos ambientes domésticos.

Transcendence revela-se um dos piores trabalhos de ficção científica dos últimos anos, mesmo com uma concorrência acirrada. Diversos são os aspectos do filme que merecem destaque por seu amadorismo e sua falta de inteligência. A maneira como a incoerência acompanha todo o longa cansa e afasta qualquer possibilidade de divertimento por parte do público. Tão aborrecedor quanto, é a tentativa pretensiosa e inconveniente de estender a trama para os gêneros de drama e romance. Tudo em Transcendence incomoda.