A Bela e a Fera

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Disney renova conto de fadas sem prejudicar sua essência

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Beauty and the Beast
DIREÇÃO: Bill Condon
DURAÇÃO: 129min
GÊNERO: Musical, Fantasia, Romance, Família
PAÍS: EUA
ANO: 2017

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A Bela e a Fera pode ter “apenas” 26 anos, mas é um clássico absoluto, não há como negar. A história de 1991 foi a primeira animação a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme e venceu dois, nas categorias de Trilha Sonora e Canção Original.

Consequentemente, o filme faz parte da memória afetiva de milhares de crianças e adultos, e é centrado em uma história de amor que causa inveja em muitos romances. Em 1993, foi ainda a primeira produção da Disney na Broadway, onde também foi bem-sucedida. Com esse currículo, era apenas questão de tempo até que Bela e a Fera entrasse para o frenesi de live-action do estúdio. A boa notícia é que o projeto fez jus ao seu original.

Bela (Emma Watson) é uma jovem diferente dos moradores de sua aldeia, principalmente de Gaston (Luke Evans), que quer sua mão em casamento. Apaixonada por livros, ela mora com seu pai, Maurice (Kevin Kline), que é aprisionado no castelo da Fera (Dan Stevens) depois de se perder em uma floresta. Bela decide ficar no seu lugar e aos poucos descobre que seu novo lar foi enfeitiçado.

BEAUTY AND THE BEAST

A tarefa de recriar A Bela e a Fera é difícil. Primeiro por se tratar de um filme tão amado por muita gente. Segundo, porque o original de 1991 já é perfeito, um clássico. Mas Bill Condon teve habilidade suficiente para reaproveitar a história da Disney, deixando-a atraente e preservando seus encantos, e ainda soprando ar de novidade à trama.

O live-action é muito parecido com a obra original. Existem diálogos inteiros onde todas as palavras foram preservadas. Para quem quer novidade, Bela e a Fera pode ser frustrante – embora Mogli tenha se dado muito bem ao não ousar em seu roteiro. Mas se o original de 1991 funciona tão bem, não faria sentido distorcê-lo para a nova versão. Mesmo que a trama seja a mesma, existem alguns detalhes que repaginam a história.

BEAUTY AND THE BEAST

Como já foi amplamente divulgado, o capanga LeFou (Josh Gad) nesta versão é gay. Em todo o filme, vemos uma preocupação da Disney em adaptar seu clássico para os novos tempos. Casais interraciais aparecem em diversos momentos e Madame Garderobe (Audra McDonald) veste três vilões como mulheres e diz para eles serem “livres”, para a felicidade de um deles. Tudo é feito de forma sutil e contida. Não é uma revolução, mas é sem dúvidas um importante e necessário passo.

Bela, também, é transformada em uma mulher ainda mais independente – e Emma Watson tem grande influência nisso – , e se consolida como heroína da história, não como princesa. “Ela deve estar chorando em seu quarto”, dizem os objetos mágicos certa hora, e em seguida, vemos Bela amarrando pedaços de pano para tentar fugir pela janela. Em outro momento, ela ensina uma menina a ler, escandalizando sua aldeia e até mesmo um professor.

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A cena, inclusive, ajuda a situar o filme em seu contexto histórico. Ao invés de estar perdido no espaço-tempo, como a maioria dos contos de fadas, A Bela e a Fera faz questão de mostrar que se passa no século XVIII, o que faz muito bem à história. Pequenas referências – como vestimentas e o cravo Maestro Cadenza (Stanley Tucci) – e brincadeiras com a época – como a arcada dentária do mesmo personagem – contribuem para isso.

O filme ainda tapa vários buracos criados em 1991. O motivo pelo qual nenhum aldeão sabe da existência do castelo, a linha temporal dos acontecimentos, a cumplicidade dos conterrâneos de Gaston com sua arrogância e muitas outras questões são solucionadas para tornar esta versão mais madura.

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Outro aspecto que faz deste Bela e a Fera diferente de seu antecessor são as canções. Sim, elas são as mesmas, mas os arranjos musicais foram mudados, algumas letras incrementadas e quatro músicas inéditas adicionadas à trilha sonora. Estas, inclusive, não alcançam o nível de excelência das originais, mas também são muito bonitas, tendo sua função na história. O destaque é para Evermore – cantada por uma Fera que pode causar estranhamento pela voz, mas à qual logo nos adaptamos – , que é extremamente sensível e preenche a falta de música no papel da Fera.

As coreografias e performances também são ótimos, se aproximando de clássicos do gênero musical de forma divertida. Se a reprise de Belle espelha a mais clássicas das cenas de A Noviça Rebelde, Be Our Guest é um banquete aos amantes de musicais. As referências no show de Lumière (Ewan McGregor) são várias: Cabaret, Cantando na Chuva e Moulin Rouge! são só algumas. A cena, inclusive, é um presente para os olhos, extremamente bem feita, colorida, dançante e sofisticada.

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Tecnicamente, o filme é deslumbrante. O design de produção é excelente, combinando elementos do original de 1991 com referências claras ao século XVIII e ainda cenários e objetos elegantes, que invocam um senso de fantasia e imaginação típico dos contos de fadas. Os figurinos de Jacqueline Durran também são belíssimos e o clássico vestido de valsa de Bela é atualizado, não deixando a desejar.

Os efeitos visuais usados para criar os objetos mágicos são perfeitos. As soluções encontradas para seus movimentos são engenhosas e dão credibilidade ao feitiço lançado no castelo – Chip (Nathan Mack), por exemplo, anda como se estivesse em um skate, dando jovialidade ao personagem.

Beauty and the Beast

A Fera deixa a desejar. Seu rosto é bastante humano, tem emoção, mas o seu andar é pesado, visivelmente irreal. Teria sido melhor criar uma Fera a partir de figurino e maquiagem, à la Chewbacca, mas em uma indústria tão enlouquecida com as maravilhas do CGI, é difícil pensar na Disney tomando o caminho dos efeitos práticos em um conto de fadas. Outro pequeno problema é a edição do filme, súbita e com cortes equivocados em determinados momentos,

Mas nada é capaz de parar A Bela e a Fera de ser uma digna e bonita versão de um filme tão amado. Muitos podem criticar a falta de originalidade ou a natureza desnecessária de um filme não tão antigo, mas há espaço em Hollywood para esta versão mais adulta e musical, que ainda confere inventividade e respeito à obra.

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O elenco também contribui para o sucesso do longa. Emma Watson é uma figura forte e que passa um ar de determinação e graça à sua Bela, surpreendendo a todos ao cantar. Luke Evans e Josh Gad formam uma dupla divertidíssima e, enquanto o primeiro tem o ar de arrogância típico de Gaston, o LeFou de Gad rouba as cenas e ainda, de forma sutil, reinventa seu personagem, que agora tem uma quedinha pelo amigo “machão”. Kevin Kline faz um Maurice muito mais profundo, ao contrário do bobalhão pai de Bela de 1991. 

Por fim, o trabalho de vozes é excelente: Audra McDonald e Stanley Tucci são engraçados, Ewan McGregor é charmoso, Ian McKellen dá autoridade ao seu atrapalhado Horloge e Emma Thompson não se deixa intimidar pela difícil tarefa de assumir o papel originado por ninguém menos que Angela Lansbury.

Além de um ótimo entretenimento, um banquete visual e uma trilha sonora emocionante, A Bela e a Fera ainda se mantém fiel à sua mensagem de amor, bastante universal e delicada. Por outro lado, promove a cultura como um elemento tão transformador quanto esse sentimento. É um filme capaz de agradar qualquer um que vá de coração aberto ao cinema, estando envolto em mágica, nostalgia e amor.


La La Land: Cantando Estações

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Musical busca inspiração no passado e surpreende pela beleza e sensibilidade 

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: La La Land
DIREÇÃO: Damien Chazelle
DURAÇÃO: 128min
GÊNERO: Musical, Romance
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2016

5


Os grandes musicais hollywoodianos tiveram sua época de ouro há muitos anos. Hoje, os poucos representantes do gênero que chegam nos cinemas são adaptações de bem sucedidas peças da Broadway, muitas vezes sem originalidade. Foi justamente por isso que Damien Chazelle penou até conseguir ver seu filme, com músicas originais, sendo produzido. Nenhum estúdio queria assumir o risco de financiar um musical à la década de 50, mas La La Land prova que ainda há espaço para inventividade em um gênero que até agora parecia estar morto.

Mia (Emma Stone) é uma aspirante a atriz que trabalha na cafeteria de um dos grandes estúdios cinematográficos de Los Angeles. Após uma série de coincidências, ela conhece Sebastian (Ryan Gosling), um pianista que sonha em abrir seu próprio bar de jazz, e ambos se apaixonam.

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Quando La La Land começa, o público já sabe que assistirá a um grande filme. A cena de abertura, Another Day Of Sun (Mais Um Dia de Sol), é grandiosa e genial. A sequência mostra uma diversidade de pessoas em busca de um sonho em comum: serem reconhecidas por seus talentos. Ironicamente, a letra da música precipita a narrativa que está para ser contada.

A história por trás de La La Land é simples. Jovens em busca de um sonho se apaixonam, uma sinopse nem um pouco estranha aos filmes de Hollywood. A maneira como o longa é narrado, porém, é cheia de originalidade, beleza e charme, o que resulta no melhor filme de 2016 e também em um musical como há muito tempo não visto.

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Chazelle, de apenas 32 anos, é também o responsável pelo roteiro do longa, e combina uma história poderosa com muita técnica e, claro, paixão. La La Land é sentimento do começo ao fim e, justamente por isso, conquista com muita facilidade o seu público, seja pelo romantismo, o visual ou as canções compostas por Justin Hurwitz.

É o tipo de filme que te faz se sentir bem, que te instiga a sonhar. Pode parecer puro escapismo – palavra constantemente associada ao gênero musical – , mas La La Land apresenta uma história poderosa demais para ser reduzido apenas a isso. E escapismo, afinal de contas, não é problema: o cinema não seria o mesmo se não fosse por sua habilidade de transportar o público para novos mundos.

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O romantismo de La La Land é de uma delicadeza ímpar, complementado pela beleza da trilha sonora de Hurwitz e por seu visual nostálgico e colorido. Inocente e poética, é uma história que acha prazer em coisas pequenas, mas nem por isso deixa de acreditar em sonhos grandes.

Formado por Stone e Gosling, o par romântico parece previsível, mas, conforme a história segue, ele acaba fugindo do convencional. O roteiro brinca, de forma genial, com temas que estão além do nosso controle: sorte, acaso, talento e, principalmente, o amor. Todos esses elementos servem de combustível ao casal protagonista.

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Quando o roteiro não encontra palavras para expressar os sentimentos de Mia e Sebastian, o público é agraciado com uma canção ou tema da belíssima trilha sonora de Hurwitz, que adiciona ares de modernidade à grandeza dos musicais do passado. As coreografias, por outro lado, são mais simples, mas capazes de cativar justamente por isso, já que conferem um ar de inocência e diversão à trama.

A trilha sonora de La La Land é imprescindível para fazer o filme funcionar. Uma carta de amor a Los Angeles, o musical ressalta em diversos momentos a riqueza de sons e cores ao nosso redor e, principalmente, a fartura cultural presente na cidade californiana, ponto de encontro de muitos sonhadores, como Mia e Sebastian.

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O filme encontra apoio em uma paleta de cores diferenciada, que realça o aspecto de realismo fantástico próprio dos musicais, com cores bastante saturadas. Na sequência Someone in the Crowd (Alguém na Multidão), os vestidos de Mia e suas três amigas apresentam cada um uma cor vibrante, que ganham ainda mais vida ao serem contrastadas com os ambientes igualmente coloridos do apartamento onde moram.

Por detalhes como estes, La La Land beira a perfeição quanto à sua técnica. Figurino e cenário estão em harmonia, criando momentos mágicos, nostálgicos e surpreendentes.

Stone e Gosling têm perfeita sincronia em cena. O casal, que já trabalhou junto, tem química, e ambos conferem graça e leveza à trama. Ryan Gosling está charmoso e divertido, enquanto Emma Stone prova seu imenso talento com uma atuação encantadora e emocionante.

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Repartido de acordo com as estações do ano, La La Land mostra que, a cada momento da vida, nossas ambições, sentimentos e relacionamentos mudam. Assim como as estações constantemente se alternam, nossa vida também segue em frente. Tendo essa ideia em mente, o roteiro do filme se pergunta, diversas vezes, “e se?” Enquanto isso, homenageia clássicos como Cantando na Chuva, Sinfonia de Paris e Os Guarda-Chuvas do Amor, que brincam com temáticas parecidas.

Chazelle criou em La La Land uma obra-prima, que será lembrada por muito tempo, seja por renovar as forças do gênero musical ou por todos os prêmios que já ganhou – e que ainda deve ganhar no Oscar. Todos são merecidos, afinal, o filme é ousado e dá uma sensação única ao público. La La Land é uma homenagem aos sonhadores, um filme mágico que nos faz levitar, assim como Mia e Sebastian fazem em uma das cenas mais memoráveis e bonitas de Cantando Estações. É um turbilhão de emoções que te faz se sentir incrivelmente bem.


Carol

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Cate Blanchett e Rooney Mara brilham em delicada história de amor

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Carol
DIREÇÃO: Todd Haynes
DURAÇÃO: 118min
GÊNERO: Romance
PAÍS: Reino Unido, EUA
ANO: 2015
5

Quando a Academia anunciou seus indicados à 88a. cerimônia de entrega do Oscar, várias polêmicas surgiram, como já virou costume. Entre a ausência de Ridley Scott na categoria de direção e a de Que Horas Ela Volta no grupo de filmes estrangeiros, a maior controvérsia foi provavelmente a inexistência de atores e atrizes negros nas categorias de atuação. Mais uma vez a Academia deu uma desculpa para ser acusada de conservadora e preconceituosa.

Mas outro grupo menosprezado nessa edição foi o LGBT*. Afinal, o romance Carol, grande sucesso de crítica do ano, ficou de fora das duas principais categorias: Melhor Filme e Melhor Direção. Como se não bastasse ter tirado o Oscar de O Segredo de Brokeback Mountain dez anos atrás – para premiar o esquecível e bagunçado Crash – os membros da Academia agora jogam outra ótima história de amor homossexual para escanteio.

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Ambientado na década de 1950, Carol narra o romance entre a socialite e dona de casa Carol Aird (Cate Blanchett) – que está em um processo de divórcio com o pai de sua filha – e a balconista Therese Belivet (Rooney Mara). Ambas precisam superar as dificuldades impostas por uma sociedade conservadora e também pelo marido da protagonista, Harge (Kyle Chandler).

De todas as histórias de amor do ano, Carol é sem dúvida a mais sensível e bonita. Toda a sua narrativa é construída com delicadeza e a direção de Todd Haynes é excelente, capaz de tratar os impasses da relação das protagonistas com sutileza.

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Desde o primeiro momento, fica clara a atração que Carol e Therese sentem uma pela outra. O caminho até poderem compartilhar seus sentimentos, porém, é longo. Em uma sociedade preenchida de tabus, elas precisam dar pequenos sinais de suas verdadeiras intenções. Uma fotografia ou uma mão no ombro são pequenos gestos, sutis, mas escolhidos de forma inteligente pelo roteirista Phyllis Nagy para preparar terreno para  o florescer daquele romance.

Na cena em que finalmente se declaram e fazem amor – porque seria muito reducionista chamar uma cena tão delicada e bonita simplesmente de “sexo” – temos um dos pontos altos do filme. É um momento sincero, hipnotizante, que para ser tão bom precisa confiar na incrível química entre Blanchett e Mara.

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Por falar nelas, as atrizes estão, como já virou costume, excelentes. Rooney Mara mostra que é uma das melhores jovens atrizes hoje em Hollywood, enquanto Cate Blanchett nos lembra o motivo de ser um dos bastiões de sua geração de atores. Talvez o filme não funcionasse tão bem com outras protagonistas, mas Mara e Blanchett se entregam a seus papeis e comovem o público com todos os sentimentos que estão por trás de seus olhares, gestos e da forma de falar.

Para auxiliar o brilhantismo presente no elenco, direção e roteiro, ainda existe uma parte técnica de altíssima qualidade. A trilha sonora é delicada e encantadora, incorporando a beleza da relação de Therese e Carol em todos os seus acordes. Enquanto isso, a direção de arte nos transporta para uma década de 1950 sem qualquer defeito e os figurinos de Sandy Powell – que também vestiu Blanchett em Cinderela – estão impecáveis e muito elegantes.

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Carol não é uma história piegas, melodramática, de amor. É um relato forte, sobre duas mulheres fortes e uma relação tão forte e verdadeira quanto qualquer outra. É uma pena que não esteja concorrendo ao Oscar de Melhor Filme, primeiro pela visibilidade que daria a seu tema, segundo porque é, sem dúvidas, um dos melhores trabalhos do ano. Em tempos de crescente intolerância, Carol nos mostra a intensidade e a leveza presentes no amor, um sentimento capaz de transformar qualquer coisa a seu redor.


Cidades de Papel

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Nova adaptação de livro de John Green não sabe aproveitar o sucesso do autor

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Paper Towns

DIREÇÃO: Jake Schreier

DURAÇÃO: 109min

GÊNERO: Romance

PAÍS: Estados Unidos

ANO: 2015

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John Green é um dos autores mais populares da geração atual. Seu estrelismo literário reflete no mundo cinematográfico, que, como de costume, se prepara para adaptar páginas bem sucedidas em filmes igualmente rentáveis. É o que aconteceu com A Culpa é das Estrelas, vai acontecer com Onde Está Você, Alaska? e tem como seu mais novo resultado Cidades de Papel. Ao contrário de seu choroso antecessor, porém, o novo longa não sabe embarcar no sucesso de Green e fica preso na mesmice.

papertowns-1-gallery-imageAmigos durante a infância, Margo (Cara Delevingne) e Quentin (Nat Wolff) são vizinhos em uma pacata cidade da Flórida. Na medida em que vão crescendo, os protagonistas se afastam: ela é a garota popular e misteriosa, enquanto ele é motivo de risada no colégio. Quando Margo descobre que seu namorado e sua melhor amiga estão tendo um caso, ela pede ajuda de Quentin para se vingar, mas logo em seguida desaparece. Cabe ao protagonista e seus companheiros, Ben (Austin Abrams) e Radar (Justice Smith), embarcarem em uma viagem com a amiga de Margo, Lacey (Halston Sage), para econtrá-la.

A trama de Cidades de Papel parece boba já de cara. A mesma sensação, porém, foi transmitida por A Culpa é das Estrelas, que no fim surpreendeu muita gente. Havia esperança de que a nova adaptação de John Green também se revelasse um bom filme. Expectativas frustradas. Paper Towns pode ser resumido como um filme calcado em clichês, que não sai da zona de conforto proporcionada pelo êxito de sua trama no meio literário.

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Fica perceptível no roteiro o gigante número de clichês, que não são bem aproveitados, como acontece em Culpa é das Estrelas. No romance de Hazel e Gus, os estereótipos são usados propositalmente, para tirar sarro e até mesmo engrandecer a aparente banalidade de seu romance. No caso de Cidades de Papel, os clichês irritam e dão espaço para uma comparação desleal com clássicos juvenis. É impossível não lembrar de O Clube dos Cinco, cuja premissa de agregar personagens de diferentes tribos pode ser vista, de maneira menor e mais tímida, na obra de John Green.

Outro grande problema de Cidades de Papel são suas personagens principais, despidas de qualquer carisma. Nat Wolff encarna um dos protagonistas mais babacas do cinema, enquanto Margo pode ser descrita como uma maluca. Em qualquer colégio do mundo seu jeito esquisitão seria motivo de bullying, mas aqui ela é a garota popular, desejada por todos. Pesam a mão em seu perfil misterioso e acabam esquecendo de aprofundar a personagem, que é diferente e contrária simplesmente por ser.

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Ainda assim o filme tem seus bons momentos. Em determinada passagem, o trio de amigos protagonista, após uma noite de bebedeira, começa a cantar a música tema de Pokémon, em uma cena inesperada e divertidíssima. Menções a Game Of Thrones e outros momentos focados na comédia também se saem bem, deixando o filme leve e agradável, mesmo com os erros que comete em sua porção dramática.

Paper Towns poderia ser um bom filme sobre a juventude, mas o fraco potencial frente à ambição de seus realizadores o tornam uma sucessão de bobagens. Seu apelo juvenil é subutilizado e o filme parece se perder de tempos em tempos. O objetivo das personagens passa uma sensação falsa de um carpe diem incrivelmente mal trabalhado, que não justifica o desenrolar da história. Chegamos à inevitável conclusão de que a trama de Cidades de Papel rasga facilmente.


A Incrível História de Adaline

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Filme narra jornada amorosa de personagem que deixa de envelhecer

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: The Age of Adaline
DIREÇÃO: Lee Toland Krieger
DURAÇÃO: 110min
GÊNERO: Romance
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2015
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O tempo é objeto de estudo de diversos filmes, ficções científicas ou dramas. Explorar as alterações causadas por ele pela visão de uma personagem que não está submetida ao tempo não é novidade. Temos O Curioso Caso de Benjamin Button e até mesmo a trilogia De Volta Para o Futuro para provar isso. A Incrível História de Adaline, ainda assim, consegue se destacar neste cenário.

theAdaline Bowman (Blake Lively), estadunidense nascida no começo do século XX, tem uma breve vida. Pouco após se casar e ter uma filha, um acidente de carro é responsável por mata-la. Poucos segundos depois de seu coração parar, porém, um raio reanima seu corpo, que volta à vida e para de envelhecer. Adeline então atravessa o século, com a vantagem de ser imortal.

A sinopse é interessante, sem dúvida. O problema, porém, é que assim como este, qualquer outro resumo oficial do filme dá a ele um foco distinto do verdadeiro. Muitos que assistiram a Adaline pensaram que o longa exploraria ao máximo as mudanças decorrentes do tempo. Na verdade, a película não passa de um romance, que usa a condição de sua protagonista para dramatizar ainda mais sua trama.

Falta ambição ao diretor Lee The-Age-Of-Adaline-poster-4Toland Krieger, algo que chama atenção no filme: ao invés de se arriscar, ele prefere se ater ao sentimentalismo e limita o poder da trama que tem em mãos. Ficamos desapontados ao perceber que existe muito mais que uma história de amor para ser explorada em Adaline. Queremos notar as mudanças do mundo com o passar do tempo, as revoluções culturais e tecnológicas, mas nada disso é apresentado. A personagem de Blake Lively surge, inesperadamente, já nos dias atuais, totalmente adaptada ao presente e ressuscitando o passado em ocasiões escassas, nas quais a atenção está completamente voltada para sua vida amorosa, não às mudanças e eventos históricos.

Mesmo assim, é preciso dar crédito para a habilidade do filme em emocionar. Sua esfera romântica é verdadeiramente cativante e mostra, com delicadeza, uma história bonita de amor, sensibilizando o público ao expor os medos de sua protagonista. É justamente quando a vida romântica da personagem é explorada ao máximo que o filme ganha força.

theeExistem algumas incoerências no roteiro de Adaline. A explicação dada para os eventos que proporcionam a ela a imortalidade é bastante rasa, o que definitivamente não interfere na trama e até certo ponto contribui para o seu lado mais poético. Poderia, porém, ter sido melhor embasada.

A Incrível História de Adaline é um filme romântico, que comove o espectador sem grandes esforços. Cumpre seu papel no gênero, mas desperdiça sua capacidade de ir além. Ganha pontos pela originalidade, no que diz respeito à condição da protagonista, mas é também exatamente por isso que deixa a desejar. Para os que gostam do gênero, é um ótimo filme, com uma mensagem leve e bonita. Para os que buscam algo mais, Adaline serve para deixar evidente uma incrível história desperdiçada.


Cinderela

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Brilho da adaptação não se limita aos sapatinhos de cristal

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Cinderella                                       DIREÇÃO: Kenneth Branagh                                       DURAÇÃO: 105min                                                        GÊNERO: Fantasia, Família, Romance                                PAÍS: Estados Unidos                                                               ANO: 2015

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Nada se cria, tudo de copia. Esta é uma frase que resume bem a atual fase de Hollywood. Reboots, continuações e spin-offs têm ganhado força na indústria cinematográfica. Os principais alvos dessa tendência são os contos de fadas. É cada vez mais comum sermos bombardeados por novas versões de nossos clássicos infantis favoritos, principalmente depois do sucesso comercial que eles provaram ser. Essa moda, que foi definitivamente abraçada pela Disney, foi responsável pela reimaginação do clássico Cinderela.

Após a morte de seu carinhoso pai, Ella (Lily James) passa a ser explorada por sua madrasta, Lady Tremaine (Cate Blanchett), e suas meio-irmãs, Anastasia (Holliday Grainger) e Drisella (Sophie McShera). Abandonada, Cinderella descobre que tem uma Fada Madrinha (Helena Bonham Carter), que a ajudará a vencer as dificuldades impostas pela maldade de Tremaine.

Diferente da maioria dos contos de fadas que ganharam adaptações cinematográficas nos últimos anos, Cinderela se destaca por manter praticamente intacta a trama da animação de 1950. O roteiro é, portanto, despido de grandes surpresas. É bem verdade que a história da princesa pode parecer ultrapassada nos dias de hoje e, para aqueles que já a conhecem, revisitar o conto pode ser tedioso. Ao mesmo em que Cinderela perde um pouco do glamour por não se reinventar, porém, não correr riscos faz bem à história, que é poupada das intervenções sem sentido que atingiram A Garota da Capa Vermelha ou Branca de Neve e o Caçador.

10369983_10152456532066193_3967285691346709388_nCinderela cumpre com a sua proposta de conto de fadas: entrega uma trama verdadeiramente bonita e apaixonante. Ao tratar do amor de maneira pura e idealista, a produção facilmente desperta a inocência de todo o público, que logo se sente compelido a torcer pelo desfecho feliz da protagonista. Todas as personagens tentam ser humanizadas, o que abre espaço para fraquezas em todas elas, inclusive no Príncipe. Tremaine é outra que parece ter uma razão para ser tão má. A origem dessa característica, porém, decepciona por não ser explorada.

Falta, também, um número musical: mesmo que Bibbidi-Bobbidi-Boo não estivesse presente, valeria a pena colocar a voz de Lily James para interpretar a clássica A Dream Is A Wish Your Heart Makes.

Cate Blanchett pode não ser a Cinderela, mas certamente rouba a cena no filme. A atriz prova, mais uma vez, que é um dos grandes talentos existentes hoje no cinema. Seus olhares e trejeitos reforçam o lado cruel de sua madrasta, dando ainda mais força para sua personagem. A Tremaine encarnada por Blanchett é deliciosamente má.

984277_10152583966001193_6638264597399450330_nContrariando o que muitos pensaram, Lily James, apesar de novata, sustenta o peso de seu papel: é uma Cinderella graciosa e verdadeiramente encantadora. Helena Bonham Carter deixa a sua marca na Fada Madrinha e é uma pena que não receba mais espaço. Richard Madden, por sua vez, está igualmente convincente no retrato do Príncipe, deixando o casal protagonista bastante carismático. McShera e Granger surpreendem por divertir e ressaltar o papel das irmãs Drizella e Anastasia. Com as exceções de Bonham Carter, Blanchett e Stellan Skarsgard, é um elenco pouco experiente, mas ainda assim grandioso.

O que realmente se destaca no longa, porém, é o visual. Cabelos e maquiagem são ótimos. Design de produção é impressionante. Os figurinos deixam todos de boca aberta. O ano está no começo, mas é provável que Cinderela garanta vagas nas categorias artísticas do próximo Oscar. Sandy Powell faz um trabalho excepcional com os vestidos presentes no longa. O tradicional modelito azul de Cinderella ganha um aspecto novo e elegante. Os figurinos de Tremaine, enquanto isso, são espetaculares.

Cinderela finalmente pôs fim às críticas que assombravam as adaptações de contos de fadas. O filme dá fôlego para a Disney relançar, nos próximos anos, Mogli, A Bela e a Fera e Mulan. O longa é um encanto do começo ao fim: pode ter uma introdução cansativa, mas a trama logo ganha forma e mostra seu potencial. É uma história simples, mas inegavelmente bonita, capaz de cativar o público infantil e também o adulto sem dificuldade. Cinderela se torna uma experiência bastante prazerosa como em um passe de mágica.



Cinquenta Tons de Cinza

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Muito mais dor do que prazer

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Fifty Shades of Grey
DIREÇÃO: Sam Taylor-Johnson
DURAÇÃO: 125min
GÊNERO: Romance
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2015
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Quando E. L. James publicou seu livro Cinquenta Tons de Cinza em 2011, certamente não esperava uma aceitação tão grande por parte do público: a trilogia vendeu mais de quarenta milhões de cópias em todo o mundo. Sua temática “quente” certamente foi responsável por alavancar as vendas, marcadas por inúmeras polêmicas, principalmente aquela que ligava a obra ao pensamento machista. Politicamente correto ou não, a verdade é que as páginas arrecadaram muito, mas muito dinheiro, e garantiram uma adaptação para os cinemas.

Anastasia Steele (Dakota Johnson) é uma estudante de literatura inglesa que, certo dia, a pedido de uma amiga, precisa fazer uma entrevista com o ricaço Christian Grey (Jamie Dornan). Os dois acabam se envolvendo sexualmente, o que faz com que a antes virgem Anastasia mude radicalmente sua personalidade, sendo apresentada ao mundo do sadomasoquismo e se submetendo aos caprichos do empresário.

Cinquenta Tons de Cinza narra uma história completamente rasa. Seu roteiro é pobre e inseguro e, junto com a péssima direção de Sam Taylor-Johnson, coloca o longa em cima do muro, sem permitir que o sadomasoquismo se torne efetivamente presente, mas também bloqueando qualquer tentativa de romantizar a história – mesmo que ela pareça caminhar para tal direção em diversos momentos. O filme seria coeso se partisse do princípio de que, já que a temática do filme é sexual, fosse elaborada uma trama sem amarras conservadoras. A tentativa de suavizar a história faz com que mesmo as cenas de sexo passem longe do erotismo, despertando nenhuma agitação ou surpresa no público. Tudo é muito previsível.

Outro problema é o elenco. Dakota Johnson é a grande responsável por lembrar ao público que Cinquenta Tons foi baseado em uma fan fiction de Crepúsculo: sua atuação, sem graça e nada convincente, remete claramente à de Kristen Stewart na franquia sobrenatural. Dakota confunde o espectador ao aparentar certa perversão mesmo em seus momentos mais profundos de insegurança e inocência, característica que certamente não deveria estar lá. Marcia Gay Harden é porcamente aproveitada no papel da mãe de Grey, enquanto Rita Ora é só mais um atrativo para captar público.

O filme peca também por abordar o sadomasoquismo de forma totalmente superficial. Os adeptos a tal prática, na trama, são vistos como seres anormais: não saem para jantar, não vão ao cinema e vivem nas sombras. Enquanto tal prática sexual implica em prazer para ambos os parceiros, Grey é o único que tira algum proveito daquela relação abusiva. Anastasia se coloca no ultrapassado e descabido papel de “dona do lar”, cujo verdadeiro intuito é servir “seu homem”. Enquanto as funcionárias da empresa de Christian parecem bonecas Barbie padronizadas, reafirmando a necessidade do protagonista de ser constantemente servido pelo sexo oposto, a trama sugere que o passado obscuro e triste de Grey serve como justificativa para seu comportamento abusivo. Alguém precisa dizer à autora dos livros que não, não serve. Nada justifica o machismo violento apresentado em Cinquenta Tons. Em certo momento, Anastasia, após uma noite de sexo, está atrás do fogão, o que, além de clichê, é extremamente machista.

A principal polêmica de Cinquenta Tons de Cinza é o sexo. As cenas picantes, porém, são completamente despidas de qualquer sensualidade, enquanto seu enredo apenas reforça um tipo de pensamento medieval. Grey não tira prazer do contato carnal, mas do simples fato de estar no controle (de uma mulher, no caso). Quando a sessão de Fifty Shades terminou, não tive vontade de simplesmente escrever sobre o filme. Como diz um ridículo Christian Grey, tive vontade de foder. Com força. O filme, claro.