A Bela e a Fera

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Disney renova conto de fadas sem prejudicar sua essência

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Beauty and the Beast
DIREÇÃO: Bill Condon
DURAÇÃO: 129min
GÊNERO: Musical, Fantasia, Romance, Família
PAÍS: EUA
ANO: 2017

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A Bela e a Fera pode ter “apenas” 26 anos, mas é um clássico absoluto, não há como negar. A história de 1991 foi a primeira animação a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme e venceu dois, nas categorias de Trilha Sonora e Canção Original.

Consequentemente, o filme faz parte da memória afetiva de milhares de crianças e adultos, e é centrado em uma história de amor que causa inveja em muitos romances. Em 1993, foi ainda a primeira produção da Disney na Broadway, onde também foi bem-sucedida. Com esse currículo, era apenas questão de tempo até que Bela e a Fera entrasse para o frenesi de live-action do estúdio. A boa notícia é que o projeto fez jus ao seu original.

Bela (Emma Watson) é uma jovem diferente dos moradores de sua aldeia, principalmente de Gaston (Luke Evans), que quer sua mão em casamento. Apaixonada por livros, ela mora com seu pai, Maurice (Kevin Kline), que é aprisionado no castelo da Fera (Dan Stevens) depois de se perder em uma floresta. Bela decide ficar no seu lugar e aos poucos descobre que seu novo lar foi enfeitiçado.

BEAUTY AND THE BEAST

A tarefa de recriar A Bela e a Fera é difícil. Primeiro por se tratar de um filme tão amado por muita gente. Segundo, porque o original de 1991 já é perfeito, um clássico. Mas Bill Condon teve habilidade suficiente para reaproveitar a história da Disney, deixando-a atraente e preservando seus encantos, e ainda soprando ar de novidade à trama.

O live-action é muito parecido com a obra original. Existem diálogos inteiros onde todas as palavras foram preservadas. Para quem quer novidade, Bela e a Fera pode ser frustrante – embora Mogli tenha se dado muito bem ao não ousar em seu roteiro. Mas se o original de 1991 funciona tão bem, não faria sentido distorcê-lo para a nova versão. Mesmo que a trama seja a mesma, existem alguns detalhes que repaginam a história.

BEAUTY AND THE BEAST

Como já foi amplamente divulgado, o capanga LeFou (Josh Gad) nesta versão é gay. Em todo o filme, vemos uma preocupação da Disney em adaptar seu clássico para os novos tempos. Casais interraciais aparecem em diversos momentos e Madame Garderobe (Audra McDonald) veste três vilões como mulheres e diz para eles serem “livres”, para a felicidade de um deles. Tudo é feito de forma sutil e contida. Não é uma revolução, mas é sem dúvidas um importante e necessário passo.

Bela, também, é transformada em uma mulher ainda mais independente – e Emma Watson tem grande influência nisso – , e se consolida como heroína da história, não como princesa. “Ela deve estar chorando em seu quarto”, dizem os objetos mágicos certa hora, e em seguida, vemos Bela amarrando pedaços de pano para tentar fugir pela janela. Em outro momento, ela ensina uma menina a ler, escandalizando sua aldeia e até mesmo um professor.

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A cena, inclusive, ajuda a situar o filme em seu contexto histórico. Ao invés de estar perdido no espaço-tempo, como a maioria dos contos de fadas, A Bela e a Fera faz questão de mostrar que se passa no século XVIII, o que faz muito bem à história. Pequenas referências – como vestimentas e o cravo Maestro Cadenza (Stanley Tucci) – e brincadeiras com a época – como a arcada dentária do mesmo personagem – contribuem para isso.

O filme ainda tapa vários buracos criados em 1991. O motivo pelo qual nenhum aldeão sabe da existência do castelo, a linha temporal dos acontecimentos, a cumplicidade dos conterrâneos de Gaston com sua arrogância e muitas outras questões são solucionadas para tornar esta versão mais madura.

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Outro aspecto que faz deste Bela e a Fera diferente de seu antecessor são as canções. Sim, elas são as mesmas, mas os arranjos musicais foram mudados, algumas letras incrementadas e quatro músicas inéditas adicionadas à trilha sonora. Estas, inclusive, não alcançam o nível de excelência das originais, mas também são muito bonitas, tendo sua função na história. O destaque é para Evermore – cantada por uma Fera que pode causar estranhamento pela voz, mas à qual logo nos adaptamos – , que é extremamente sensível e preenche a falta de música no papel da Fera.

As coreografias e performances também são ótimos, se aproximando de clássicos do gênero musical de forma divertida. Se a reprise de Belle espelha a mais clássicas das cenas de A Noviça Rebelde, Be Our Guest é um banquete aos amantes de musicais. As referências no show de Lumière (Ewan McGregor) são várias: Cabaret, Cantando na Chuva e Moulin Rouge! são só algumas. A cena, inclusive, é um presente para os olhos, extremamente bem feita, colorida, dançante e sofisticada.

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Tecnicamente, o filme é deslumbrante. O design de produção é excelente, combinando elementos do original de 1991 com referências claras ao século XVIII e ainda cenários e objetos elegantes, que invocam um senso de fantasia e imaginação típico dos contos de fadas. Os figurinos de Jacqueline Durran também são belíssimos e o clássico vestido de valsa de Bela é atualizado, não deixando a desejar.

Os efeitos visuais usados para criar os objetos mágicos são perfeitos. As soluções encontradas para seus movimentos são engenhosas e dão credibilidade ao feitiço lançado no castelo – Chip (Nathan Mack), por exemplo, anda como se estivesse em um skate, dando jovialidade ao personagem.

Beauty and the Beast

A Fera deixa a desejar. Seu rosto é bastante humano, tem emoção, mas o seu andar é pesado, visivelmente irreal. Teria sido melhor criar uma Fera a partir de figurino e maquiagem, à la Chewbacca, mas em uma indústria tão enlouquecida com as maravilhas do CGI, é difícil pensar na Disney tomando o caminho dos efeitos práticos em um conto de fadas. Outro pequeno problema é a edição do filme, súbita e com cortes equivocados em determinados momentos,

Mas nada é capaz de parar A Bela e a Fera de ser uma digna e bonita versão de um filme tão amado. Muitos podem criticar a falta de originalidade ou a natureza desnecessária de um filme não tão antigo, mas há espaço em Hollywood para esta versão mais adulta e musical, que ainda confere inventividade e respeito à obra.

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O elenco também contribui para o sucesso do longa. Emma Watson é uma figura forte e que passa um ar de determinação e graça à sua Bela, surpreendendo a todos ao cantar. Luke Evans e Josh Gad formam uma dupla divertidíssima e, enquanto o primeiro tem o ar de arrogância típico de Gaston, o LeFou de Gad rouba as cenas e ainda, de forma sutil, reinventa seu personagem, que agora tem uma quedinha pelo amigo “machão”. Kevin Kline faz um Maurice muito mais profundo, ao contrário do bobalhão pai de Bela de 1991. 

Por fim, o trabalho de vozes é excelente: Audra McDonald e Stanley Tucci são engraçados, Ewan McGregor é charmoso, Ian McKellen dá autoridade ao seu atrapalhado Horloge e Emma Thompson não se deixa intimidar pela difícil tarefa de assumir o papel originado por ninguém menos que Angela Lansbury.

Além de um ótimo entretenimento, um banquete visual e uma trilha sonora emocionante, A Bela e a Fera ainda se mantém fiel à sua mensagem de amor, bastante universal e delicada. Por outro lado, promove a cultura como um elemento tão transformador quanto esse sentimento. É um filme capaz de agradar qualquer um que vá de coração aberto ao cinema, estando envolto em mágica, nostalgia e amor.


La La Land: Cantando Estações

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Musical busca inspiração no passado e surpreende pela beleza e sensibilidade 

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: La La Land
DIREÇÃO: Damien Chazelle
DURAÇÃO: 128min
GÊNERO: Musical, Romance
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2016

5


Os grandes musicais hollywoodianos tiveram sua época de ouro há muitos anos. Hoje, os poucos representantes do gênero que chegam nos cinemas são adaptações de bem sucedidas peças da Broadway, muitas vezes sem originalidade. Foi justamente por isso que Damien Chazelle penou até conseguir ver seu filme, com músicas originais, sendo produzido. Nenhum estúdio queria assumir o risco de financiar um musical à la década de 50, mas La La Land prova que ainda há espaço para inventividade em um gênero que até agora parecia estar morto.

Mia (Emma Stone) é uma aspirante a atriz que trabalha na cafeteria de um dos grandes estúdios cinematográficos de Los Angeles. Após uma série de coincidências, ela conhece Sebastian (Ryan Gosling), um pianista que sonha em abrir seu próprio bar de jazz, e ambos se apaixonam.

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Quando La La Land começa, o público já sabe que assistirá a um grande filme. A cena de abertura, Another Day Of Sun (Mais Um Dia de Sol), é grandiosa e genial. A sequência mostra uma diversidade de pessoas em busca de um sonho em comum: serem reconhecidas por seus talentos. Ironicamente, a letra da música precipita a narrativa que está para ser contada.

A história por trás de La La Land é simples. Jovens em busca de um sonho se apaixonam, uma sinopse nem um pouco estranha aos filmes de Hollywood. A maneira como o longa é narrado, porém, é cheia de originalidade, beleza e charme, o que resulta no melhor filme de 2016 e também em um musical como há muito tempo não visto.

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Chazelle, de apenas 32 anos, é também o responsável pelo roteiro do longa, e combina uma história poderosa com muita técnica e, claro, paixão. La La Land é sentimento do começo ao fim e, justamente por isso, conquista com muita facilidade o seu público, seja pelo romantismo, o visual ou as canções compostas por Justin Hurwitz.

É o tipo de filme que te faz se sentir bem, que te instiga a sonhar. Pode parecer puro escapismo – palavra constantemente associada ao gênero musical – , mas La La Land apresenta uma história poderosa demais para ser reduzido apenas a isso. E escapismo, afinal de contas, não é problema: o cinema não seria o mesmo se não fosse por sua habilidade de transportar o público para novos mundos.

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O romantismo de La La Land é de uma delicadeza ímpar, complementado pela beleza da trilha sonora de Hurwitz e por seu visual nostálgico e colorido. Inocente e poética, é uma história que acha prazer em coisas pequenas, mas nem por isso deixa de acreditar em sonhos grandes.

Formado por Stone e Gosling, o par romântico parece previsível, mas, conforme a história segue, ele acaba fugindo do convencional. O roteiro brinca, de forma genial, com temas que estão além do nosso controle: sorte, acaso, talento e, principalmente, o amor. Todos esses elementos servem de combustível ao casal protagonista.

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Quando o roteiro não encontra palavras para expressar os sentimentos de Mia e Sebastian, o público é agraciado com uma canção ou tema da belíssima trilha sonora de Hurwitz, que adiciona ares de modernidade à grandeza dos musicais do passado. As coreografias, por outro lado, são mais simples, mas capazes de cativar justamente por isso, já que conferem um ar de inocência e diversão à trama.

A trilha sonora de La La Land é imprescindível para fazer o filme funcionar. Uma carta de amor a Los Angeles, o musical ressalta em diversos momentos a riqueza de sons e cores ao nosso redor e, principalmente, a fartura cultural presente na cidade californiana, ponto de encontro de muitos sonhadores, como Mia e Sebastian.

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O filme encontra apoio em uma paleta de cores diferenciada, que realça o aspecto de realismo fantástico próprio dos musicais, com cores bastante saturadas. Na sequência Someone in the Crowd (Alguém na Multidão), os vestidos de Mia e suas três amigas apresentam cada um uma cor vibrante, que ganham ainda mais vida ao serem contrastadas com os ambientes igualmente coloridos do apartamento onde moram.

Por detalhes como estes, La La Land beira a perfeição quanto à sua técnica. Figurino e cenário estão em harmonia, criando momentos mágicos, nostálgicos e surpreendentes.

Stone e Gosling têm perfeita sincronia em cena. O casal, que já trabalhou junto, tem química, e ambos conferem graça e leveza à trama. Ryan Gosling está charmoso e divertido, enquanto Emma Stone prova seu imenso talento com uma atuação encantadora e emocionante.

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Repartido de acordo com as estações do ano, La La Land mostra que, a cada momento da vida, nossas ambições, sentimentos e relacionamentos mudam. Assim como as estações constantemente se alternam, nossa vida também segue em frente. Tendo essa ideia em mente, o roteiro do filme se pergunta, diversas vezes, “e se?” Enquanto isso, homenageia clássicos como Cantando na Chuva, Sinfonia de Paris e Os Guarda-Chuvas do Amor, que brincam com temáticas parecidas.

Chazelle criou em La La Land uma obra-prima, que será lembrada por muito tempo, seja por renovar as forças do gênero musical ou por todos os prêmios que já ganhou – e que ainda deve ganhar no Oscar. Todos são merecidos, afinal, o filme é ousado e dá uma sensação única ao público. La La Land é uma homenagem aos sonhadores, um filme mágico que nos faz levitar, assim como Mia e Sebastian fazem em uma das cenas mais memoráveis e bonitas de Cantando Estações. É um turbilhão de emoções que te faz se sentir incrivelmente bem.


Moana: Um Mar de Aventuras

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Disney apresenta nova heroína em mais uma volta à era dos musicais

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Moana
DIREÇÃO: Ron Clements e John Musker
DURAÇÃO: 107min
GÊNERO: Aventura, Animação, Família, Musical
PAÍS: EUA
ANO: 2016
4

 O período mais fértil e bem-sucedido dos estúdios de animação Disney começou com A Pequena Sereia, em 1989, e se estendeu até o fim da década de 90.

Durante dez anos, a empresa viu a popularidade de seus filmes alcançarem níveis inimagináveis e parte desse sucesso está nas mãos dos músicos que passaram pela companhia, tornando filmes como A Bela e a Fera e O Rei Leão não somente clássicos animados, mas também musicais. Novas tentativas de produzir filmes à la Broadway vêm ocorrendo desde 2009 e Moana é o novo resultado dessa volta ao passado.

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Nas ilhas da Polinésia mora uma comunidade chefiada por Tui (Temuera Morrison), pai de Moana (Auli’i Cravalho), que logo terá que herdar as responsabilidades de cuidar de seu povo. Mas uma praga começa a tomar conta da ilha em que moram e a heroína precisa responder ao chamado do oceano e procurar o semideus Maui (Dwayne Johnson) para buscar uma solução.

Criar uma “princesa” da Polinésia foi um grande passo dado pela Disney. Mas criar uma nova protagonista feminina forte, determinada e independente foi um passo maior ainda.

Depois que Frozen provou, em 2013, que meninas não precisam de príncipes para fazer de uma história um filme popular e lucrativo, o estúdio parece ter entendido o recado de que a velha fórmula “donzela em apuros” já está ultrapassada. Só esse ano, a companhia lançou Zootopia e Moana, dois sucessos de bilheteria que têm personagens femininas fortes à frente.

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Moana até mesmo tira sarro da fórmula de princesa da Disney em uma cena engraçada e genial – “se você usa um vestido e tem um animalzinho, é uma princesa”, provoca Maui, para logo depois descobrir que havia subestimado a heroína.

Com uma mensagem feminista, de lutar pelo que deseja independente de quem você for, Moana é mais uma obra-prima da empresa de Mickey Mouse. É uma história tão contagiante quanto a de Frozen – um dos melhores filmes na história da Disney – e com personagens tão interessantes e inspiradores quanto as irmãs Anna e Elsa.

Trazer lendas antigas da Polinésia para o filme foi uma ótima decisão dos veteranos Clements e Musker, que fizeram algo parecido em Hércules. O material que ambos tinham em mãos foi muito bem aproveitado e toda a riqueza dessa cultura acabou se tornando uma animação bastante divertida e original.

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As personagens do filme também são muito bem desenvolvidas. Moana é aventureira, uma líder nata, mas que está dividida entre as responsabilidades para com a sua comunidade e seu desejo de explorar o oceano. Maui é uma personagem arrogante, mas ainda assim carismática e é interessante ver como, aos poucos, ele vai se tornando uma pessoa melhor graças à heroína do filme. Os “sidekicks” Heihei e Pua, um galo e um porquinho, são engraçados e fofos.

O filme só perde pela ausência de um vilão clássico. O carangueijo Tamatoa protagoniza um dos momentos mais aleatórios do cinema em 2016, e seu papel no filme nunca fica muito claro. Enquanto isso, a praga que atinge a ilha de Moana tem motivos pouco convincentes para acontecer e, por isso, o desfecho do filme acaba sendo o único momento em que a história perde qualidade. Nada que prejudique o filme como um todo, mas seria um ponto a melhorar.

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O grande trunfo de Moana acaba sendo sua trilha sonora, composta pelo queridinho do momento Lin-Manuel Miranda, criador do sucesso da Broadway Hamilton, e por Opetaia Foa’i e Mark Mancina. A trilha é uma ótima sucessora para Frozen e contém canções criativas, bonitas e de qualidade semelhante à dos clássicos da década de 90. O destaque fica para How Far I’ll Go, um novo Let it Go tão encantador quanto.

O estúdio de animação da Disney emplacou dois filmes incríveis no ano de 2016. Zootopia e Moana são ambos excelentes e é difícil escolher para quem torcer na temporada de premiações. Os dois são divertidos e tratam de temas importantes e maduros de forma sutil e didática, com Moana tendo a necessária renovação da linha de princesas da Disney como um de seus principais objetivos. A protagonista do filme é forte, tornando o longa uma verdadeira inspiração para as milhares de crianças que crescem assistindo às animações da companhia.


A Escolha Perfeita 2

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Barden Bellas voltam mais divertidas e abrem caminho para a franquia

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Pitch Perfect 2
DIREÇÃO: Elizabeth Banks
DURAÇÃO: 115min
GÊNERO: Comédia, Musical
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2015
4

O grupo de a capella mais engraçado do cinema está de volta. Depois do sucesso do primeiro filme, A Escolha Perfeita retorna às telas em uma continuação que marca a estreia de Elizabeth Banks, que ainda interpreta Gail, na direção de um longa-metragem. Combinação entre humor e música, Pitch Perfect tem um elenco que garante risadas do começo ao fim.

Após se tornarem tricampeãs de a capella nos Estados Unidos, as Barden Bellas recebem a honra de se apresentar para o presidente, em seu aniversário. As coisas saem do controle quando Fat Amy (Rebel Wilson) fica acidentalmente nua no palco, causando a expulsão do grupo de todas as cerimônias e campeonatos dos quais fariam parte no país. Lideradas por Beca (Anna Kendrick), a equipe musical, que ainda conta com a repetente Chloe (Brittany Snow) e a novata Emily (Hailee Steinfeld), precisa vencer os alemães do Das Sound Machine no campeonato mundial para serem aceitas de volta pela associação americana de a capella.

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Assim como seu antecessor, este Escolha Perfeita sofre alguns tropeços – os clichês às vezes são muito carregados, algumas personagens são muito planas e o roteiro pega alguns atalhos por pura preguiça. De qualquer forma, a continuação cumpre a proposta de divertir e fica no mesmo patamar de seu primeiro capítulo, mantendo um nível de qualidade que esperamos ver até o fim da franquia (lembrando que um terceiro longa já tem lançamento previsto para 2017).

Se o primeiro Escolha Perfeita peca principalmente por ter vilões – Bumper (Adam DeVine) e seus Troublemakers – fracos e que são facilmente jogados para escanteio, a continuação da comédia surge com o ótimo Das Sound Machine, grupo alemão que rivaliza com as Barden Bellas. A equipe, além de funcionar muito bem como o lado antipático da trama, ainda é terreno fértil para boas sequências musicais – que são em inglês, mas fazem questão de deixar evidente um sotaque escrachado e divertido – e para algumas risadas decorrentes do constrangimento das Bellas quando estão perto dos inimigos. “Seu suor cheira como… canela!”, diz uma Beca confusa e frustrada, que não consegue caçoar da aparente perfeição das personagens germânicas.

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Kendrick está mais uma vez ótima em seu papel. Diferente do primeiro Pitch Perfect, quando precisou encarnar uma Becca rebelde e às vezes sem graça, a atriz agora protagoniza cenas engraçadíssimas, além de transbordar carisma. Banks e John Michael Higgins voltam a interpretar a dupla de apresentadores preconceituosos e, pelo incrível que pareça, conseguem se superar. Brittany Snow, Birgitte Hjort Sørensen e Flula Borg (os dois últimos do Das Sound Machine) também se saem muito bem em seus papeis cômicos, mas é Rebel Wilson que rouba a cena sempre que está presente. Suas piadas, trejeitos e até o olhar são peças chave para o sucesso de Escolha Perfeita enquanto comédia.

É uma pena, porém, vermos o potencial musical de Pitch Perfect tão pouco explorado. Faltam sequências de música e dança que realmente empolguem. As que já estão no filme são boas, mas não seria nada mal vermos um pouco mais de cantoria. Afinal, Kendrick tem uma voz bonita demais para mostrá-la tão pouco. Outro pequeno problema é a incoerência que algumas cenas têm entre si. O espectador, por exemplo, pode ficar perdido quanto às regras e à cultura do a capella.

Investindo um pouco demais na ridicularização dos clubes de canto, mas por outro lado apresentado um tipo de humor bem bolado e ao mesmo tempo escrachado, Escolha Perfeita 2 é uma ótima comédia. Ao abraçar sua condição de ‘besteirol’, o filme abre espaço para momentos que surpreendem, seja pela bonita mensagem de amizade ou pelo enfoque dado ao feminismo. As Bellas são personagens que representam muito bem um tipo de girl power jovial, carismático e divertido. É a escolha perfeita para quem quer dar boas risadas.


Caminhos da Floresta

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Disney produz adaptação fantasiosa de clássico da Broadway

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Into The Woods

DIREÇÃO: Rob Marshall

DURAÇÃO: 125min

GÊNERO: Musical, Fantasia

PAÍS: Estados Unidos, Reino Unido

ANO: 2014

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Os musicais estão novamente na moda. Desde o começo do século, filmes como Moulin Rouge! e Chicago ajudaram a “repopularizar” o gênero. Não se pode esquecer, também, do papel essencial da Disney nesse processo, com seus clássicos animados da década de 1990. A companhia conhecida por seus desenhos é a responsável pela nova adaptação da Broadway para os cinemas. Caminhos da Floresta é apenas um pedaço dos vários musicais já anunciados para os próximos anos, como o adorado A Bela e a Fera, dessa vez em live-action.

Caminhos da Floresta narra a jornada do Padeiro (James Corden) e sua esposa (Emily Blunt) que, não podendo ter filhos, fazem um acordo com a Bruxa (Meryl Streep): se conseguissem juntar a vaca branca como o leite, a capa vermelha como o sangue, o cabelo amarelo como milho e os sapatinhos puros como ouro, conseguiriam enfim ter uma criança. É aí que os protagonistas têm sua história entrelaçada com a de clássicos como Chapeuzinho Vermelho (Lilla Crawford) e o Lobo Mau (Johnny Depp), João (Daniel Huttlestone), de O Pé de Feijão, Cinderela (Anna Kendrick) e sua Madrasta (Christine Baranski), Rapunzel (Mackenzie Mauzi) e a dos “príncipes encantados” interpretados por Chris Pine e Billy Magnussen.

Quando Caminhos da Floresta começa, a grandiosidade de sua música, a sofisticação de seu visual, o talento de seu elenco e o carisma das personagens passam a sensação de que o público está prestes a ver um filme memorável. Tal impressão, porém, dilui assim que a narrativa efetivamente começa. Inspirada em um dos principais trabalhos de Stephen Sondheim (considerado o maior compositor do teatro musical americano), a obra encontra problemas ao desenvolver a sua história. No que diz respeito à forma, a adaptação é bem executada: a sutileza do teatro não encontra entraves para ganhar força frente às câmeras, lembrando, a priori, a monumentalidade do recente Os Miseráveis. O desenvolvimento da narrativa, porém, mostra que Caminhos da Floresta sofre pela inconsistência de seu roteiro e pelas péssimas escolhas de sua direção.

O longa é tecido a partir de pequenas incoerências que, juntas, enfraquecem a trama. Como exemplo, temos a falta de elaboração da conexão entre Rapunzel e a magia da Bruxa. Diversas reviravoltas nos desejos das personagens também não contribuem para a história: a Bruxa de Streep, por exemplo, literalmente surta em determinado momento, comprometendo duas horas de desenvolvimento da narrativa.

Ainda assim, o filme tem como um de seus trunfos mostrar os contos de fadas tal como foram concebidos, ignorando a abordagem “fofa” dada nas animações da Disney. Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau protagonizam uma cena que beira o erotismo, escancarando a verdadeira intenção por trás deste conto. Da mesma maneira, o desfecho das irmãs de Cinderela também remete à história original. O grande problema da direção de Rob Marshall, porém, é levar o musical muito a sério, enquanto este não passa de um grande deboche à aparente inocência dos contos de fadas. Esse problema garante falta de profundidade às personagens e à história, que perde seu lado cômico e adquire uma falsa ideia de “lição de moral”. Do mesmo problema sofre Sweeney Todd, que também abandona o humor observado nos palcos em sua versão para as telas. Ao contrário de Marshall, porém, Tim Burton soube lidar bem com a porção melancólica e sombria de seu trabalho.

A trilha sonora é boa e o tratamento dado às canções para a versão cinematográfica é excelente, pois as engrandece. O público não acostumado com o gênero, porém, pode facilmente se cansar devido à densidade das composições.

Quanto ao elenco, composto por grandes nomes do cinema atual, existem bons trabalhos. Emily Blunt e Anna Kendrick são adoráveis e têm vozes realmente agradáveis. Os jovens Lilla Crawford e Daniel Huttlestone não encontram dificuldade para se destacar em meio aos atores veteranos, apresentando ótimos trabalhos. Meryl Streep está mais uma vez encantadora em sua atuação, enquanto a malícia presente no olhar de Lobo Mau de Depp é aparente, embora este faça um trabalho pouco marcante. Chris Pine, por sua vez, apresenta um príncipe mal elaborado, talvez não por sua interpretação, mas pela maneira como a personagem foi concebida: a ideia de torná-lo um “charlatão” não é devidamente aprofundada.

No que diz respeito à parte técnica, o filme é excelente. A direção de arte é muito boa, mesclando encantamento com obscuridade. As equipes de cabelo, maquiagem e figurino também fazem ótimos trabalhos, assim como em fotografia e mixagem de som. Um dos destaques do longa são os efeitos especiais, bastante interessantes e bonitos.

Após uma enorme campanha de divulgação, a Disney decepcionou os espectadores, neste que poderia ser um dos grandes sucessos do ano. Adaptar um clássico da Broadway para o cinema nunca é uma tarefa fácil, mas, por ter Rob Marshall em sua direção – alguém que realmente entende de teatro -, as expectativas eram altas. Não que Caminhos da Floresta seja ruim. Algumas de suas cenas são verdadeiramente agradáveis e engraçadas, mas, quando o todo é analisado, o público certamente fica frustrado (e cansado) pelo potencial jogado fora. Into The Woods tomou o caminho errado.


Peter Pan Live!

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Versão televisiva do musical tem erros, mas mesmo assim encanta

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Peter Pan Live!

EMISSORA: NBC

GÊNERO: Musical, Família

PAÍS: Estados Unidos

ANO: 2014


Em 2013, a emissora americana NBC levou para a televisão o clássico A Noviça Rebelde, encenado ao vivo em rede nacional. O programa foi visto por quase 20 milhões de pessoas e o sucesso fez com que a produtora anunciasse planos de continuar adaptando clássicos teatrais para a TV como parte da programação especial de Natal. Em 2014, foi a vez do musical Peter Pan, já transmitido ao vivo em outros anos, ganhar uma nova versão. A conclusão é que, independente da montagem, o clássico escrito por J. M. Barrie tem um imenso potencial para encantar tanto as crianças quanto os adultos.

Tradicionalmente, o papel de Peter Pan é interpretado por uma mulher e, diferente de 2013, a NBC escolheu bem a protagonista da montagem desse ano. Enquanto a interpretação de Carrie Underwood em A Noviça Rebelde foi uma das coisas mais assustadoras já exibidas na televisão, Allison Williams encarna o “menino que não queria crescer” maravilhosamente bem. A atriz da série Girls é afinadíssima e, mesmo que seu sotaque britânico não seja tão convincente, a americana constrói um Peter Pan com personalidade e carisma. Williams brilha sempre que aparece na tela.

Kelli O’Hara, veterana da Broadway, mesmo interpretando a periférica senhora Darling, encanta com sua voz e se entrega completamente ao papel. O ensemble todo é talentoso, encenando os números musicais com naturalidade e vivacidade. A grande decepção no elenco, porém, fica a cargo de Christopher Walken e seu Capitão Gancho, que muitas vezes pareceu entediado. Entre falas esquecidas e números de sapateado de mentirinha, Walken só é salvo pela marca própria que dá ao vilão, que não deixa de ser interessante.

A direção de arte é linda. As imagens de Londres são boas e a Terra do Nunca enche os olhos do espectador. A artificialidade do visual da ilha não é um ponto negativo. Muito pelo contrário: explora de maneira criativa o imaginário infantil e adiciona graça à produção. Da mesma maneira, os figurinos são muito bem trabalhados, com exceção dos Meninos Perdidos, cujas roupas pecam pela falta de sujeira e de rasgos. Ainda na parte técnica, é inegável a existência de falhas na fotografia, na edição e também na mixagem de som. Esses problemas, porém, são esperados em uma produção ao vivo de uma peça tão complexa.

Os números musicais são contagiantes e, com pouco esforço, emocionam. As melodias são belíssimas e a coreografia é realmente esplêndida. A primeira dança protagonizada pelos Meninos Perdidos e os índios é montada de forma inteligente, assim como muitos dos outros números. O roteiro preserva o brilhantismo da peça original e conta com boas pitadas de humor, encantando crianças e adultos, de maneiras diferentes, mas com igual sensibilidade.

Existem alguns outros erros que, infelizmente, quebram a naturalidade do enredo. A cena em que a personagem de Williams pede para o público bater palmas e salvar Sininho chega a ser tosca. Com uma plateia ao vivo, a ideia talvez funcionasse. No caso da televisão, fica sem sentido e não convence.

De maneira geral, Peter Pan Live! é encantador. É verdade que a história original de J. M. Barrie é responsável por grande parte do sucesso da montagem, mas, ainda assim, a equipe passou por cima de qualquer problema esperado em uma transmissão ao vivo como esta, entregando um programa divertido e bonito. Os números musicais e suas interpretações despertam sensações únicas e conquistam o público sem qualquer dificuldade. A produção tem personalidade e o jeito caseiro que a narrativa adquire a deixa ainda mais interessante. Peter Pan Live! foi a maneira perfeita que a emissora NBC encontrou para unir a família, honrando não somente o musical original, mas também o livro.


Mesmo Se Nada Der Certo

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Filme com Keira Knightley apresenta trilha sonora leve e graciosa

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Begin Again
DIREÇÃO: John Carney
DURAÇÃO: 104min
GÊNERO: Romance, Musical
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2014


De tempos em tempos, somos surpreendidos com algum artista, já respeitado no ramo cinematográfico, demonstrando suas habilidades para a música. A atriz Nicole Kidman e a britânica Helena Bonham Carter, por exemplo, foram algumas das celebridades que exibiram talento musical em Moulin Rouge! e Sweeney Todd, respectivamente. Em 2014, é a vez da conterrânea de Carter mostrar a sua voz para as telas. Keira Knightley estrela o longa de John Carney dando vida a uma cantora amadora.

Mesmo Se Nada Der Certo tem como cenário a cidade de Nova York. Por meio de digressões, o romance mostra os acontecimentos recentes nas vidas de Gretta (Keira Knightley) e Dan (Mark Ruffalo), até o momento em que suas histórias se entrelaçam. A protagonista feminina, nascida na Inglaterra, estava nos Estados Unidos para acompanhar o namorado, o cantor Dave Kohl (Adam Levine), que alcança o estrelato e se afasta de Gretta. Dan, por sua vez, é um renomado produtor musical, cuja carreira está em declínio devido a problemas pessoais. Na noite em que se encontram, Gretta é chamada ao palco de um bar por seu amigo Steve (James Corden) para apresentar uma de suas canções. Esse é o momento em que Dan vê o talento da moça e também uma solução para sua decadente carreira.

De maneira extremamente graciosa, Begin Again é uma análise da indústria musical, mas que não perde a poeticidade e o romance, elementos tão marcantes em seu roteiro. Com uma história simples, mas bem pensada, o filme evidencia fatos interessantes sobre o universo da música. Caçoando de maneira inteligente essa indústria, o longa evidencia tendências bastante comuns no ramo atualmente. Efeitos de voz, a plasticidade dos artistas e a comercialização da arte entram em conflito com o espírito leve e autêntico da protagonista Gretta. É bacana pensar que a personagem de Keira Knightley, antes par romântico de Dave Kohl, é o oposto do artista interpretado por Adam Levine. A escolha deste último para o papel é um fato a ser pontuado: vocalista da banda Maroon 5, Levine brinca com seu próprio estilo musical ao encarnar o artificial e deslumbrado Kohl.

Os primeiros minutos do filme, com vários flashbacks, são extremamente bem executados. De maneira suave e cautelosa, as voltas ao passado são bem articuladas e não comprometem o dinamismo da obra. O roteiro de Mesmo Se Nada Der Certo parece ser óbvio, mas pode surpreender em algumas pequenas reviravoltas que cria. Conta também com um certo equilíbrio proporcionado por cenas de humor sutis e que harmonizam com o enredo.

Tendo a música como principal foco, o longa analisa o tema de diversos aspectos, sem tirar a atenção de seu lado romântico. A vida amorosa da personagem de Knightley é abordada de forma delicada e bonita. Junto com a “fofice” de suas músicas, o filme é uma ótima diversão e facilmente conquista seu público por sua atmosfera leve e agradável.

A trama peca por alguns estereótipos que cria, principalmente quanto a seus personagens, que podiam ser mais profundos. Temos aqui a filha adolescente e rebelde; o artista cego pela fama que na primeira oportunidade trai a namorada; o pai negligente e com uma carreira que vai de mal a pior; os cantores de hip hop extremamente caricatos. Com exceção de Gretta, todas as personagens acabam sendo rasas, o que não compromete o enredo, mas ainda assim representa uma característica que podia ser melhorada.

A atuação de Keira Knightley é excelente. Seu papel pode não ser muito desafiador, mas ainda assim sua encarnação de Gretta é harmoniosa, carismática e oscila com perfeição entre os momentos de entusiasmo e melancolia. A atriz é equilibrada e marcante, sendo ainda dona de uma voz encantadora. Mark Ruffalo também faz um bom trabalho e James Corden é divertido em sua interpretação de Steve. Adam Levine, por sua vez, mostra intimidade com seu papel e, assim como Knightley, empresta sua voz para ótimas performances musicais.

A trilha sonora de Begin Again é fantástica. Com músicas suaves e realmente boas, a trilha gruda na cabeça do espectador e facilmente o conquista. Seja nas apresentações mais triviais observadas no começo do longa ou naquelas mais produzidas, as canções combinam perfeitamente com a graça e delicadeza do roteiro.

Mesmo Se Nada Der Certo é simples em sua forma, mas bastante carismático. Com um roteiro bonito e um bom elenco, o filme é equilibrado e flui bem. Apoiado em uma trilha sonora criada com maestria, a obra de John Carney é “fofa” e ainda assim tece comentários curiosos acerca do mundo da música. Um longa que, sem grandes ambições, entrega uma boa história, agradável e despida de qualquer vaidade. Begin Again é um filme que deu certo.


Vale a pena escutar um pouco da trilha sonora do filme, que é realmente muito boa: