Guardiões da Galáxia Vol. 2

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Trama espacial continua sendo o que há de mais criativo na Marvel

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Guardians of the Galaxy Vol. 2
DIREÇÃO: James Gunn
DURAÇÃO: 136min
GÊNERO: Ação, Aventura, Ficção, Comédia
PAÍS: EUA
ANO: 2017
4

Fugindo de uma fórmula segura e já cansativa seguida pela Disney desde que assumiu o controle da Marvel, Guardiões da Galáxia inovou e surpreendeu quando foi lançado em 2014. Não à toa, sua sequência gerou grande expectativa entre os fãs e, por sorte, não decepcionou, investindo significativamente em um roteiro cada vez mais bem-humorado e driblando o politicamente correto tão entediante do mundo dos heróis.

Depois de salvarem a galáxia e se firmarem como anti-heróis, Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Groot (Vin Diesel) embarcam em uma missão que levará o Senhor das Estrelas (ou Star-Lord) a descobrir a verdade sobre seus pais.

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Dar continuidade a um filme que recebeu um mar de elogios não somente dos fãs da Marvel, mas também da crítica e daqueles que torcem o nariz para a maioria das tramas de heróis é uma tarefa difícil. Por sorte, James Gunn, diretor do primeiro Guardiões da Galáxia, encabeçou também sua sequência e manteve o ritmo e o tom já vistos nas telonas em 2014. Dessa forma, a margem para erro era pequena – mas ainda assim possível.

Se o primeiro Guardiões se encarregou de introduzir o quinteto de criminosos formado pelos protagonistas, seu segundo volume retorna ao passado de Peter Quill, explorando suas origens metade terráqueas e resolvendo também um mistério criado no desfecho do filme anterior. A trama é interessante e não tende ao sentimentalismo, como muitas histórias de origem, mas peca por pequenos detalhes.

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Falta lapidar o roteiro de Guardiões. Sua primeira parte e o clímax são ótimos, mas seu terceiro ato deixa a desejar. O desfecho encontrado para o problema que acomete a equipe de anti-heróis não convence e é resolvido de forma muito simples se considerado o tamanho da ameaça. Pequenas mudanças fariam bem à história.

O que realmente importa em Guardiões, porém, são os meios, não o fim. A abordagem das aventuras de Peter Quill é o que fez com que seu primeiro filme se destacasse. Mais uma vez, é a maneira como tudo é mostrado que faz também desta sequência um diferencial em meio ao super-explorado mundo dos heróis.

Com muito bom humor, o segundo volume de Guardiões conta sua história com um visual colorido, uma trilha sonora dançante e piadas que passam despercebidas pelas crianças, mas não por seus pais. É um filme hilário, com sequências de comédia muito bem planejadas e que superam seu antecessor. James Gunn pode até achar algumas cenas mais engraçadas do que realmente são, mas isso é compensado por vários momentos de um humor bobo, mas que arranca risadas sem grande esforço.

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Todas as personagens têm uma personalidade própria, bastante distinta, que contribui para a harmonia do filme. Neste volume, o público ainda passa mais tempo com a versão baby de Groot, responsável por momentos de fofura aliados às trapalhadas da planta. Também é introduzido um planeta “coxinha”, marcado por uma ideologia fascista e por um complexo de superioridade que rende cenas de chacota geniais. Por fim, conhecemos também Mantis (Pom Klementieff), responsável por alguns dos melhores momentos da trama. Ela e Drax têm uma estranha e errada química, que funciona maravilhosamente bem.

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Mais uma vez, Guardiões se destaca porque gira em torno de anti-heróis, criminosos que aparentam ter se regenerado, mas que continuam narcisistas e ambiciosos. Algumas de suas piadas, inclusive, escancaram o quão patéticas suas personagens podem ser, apelando a comentários mais adultos e a um sentimentalismo pautado por uma atmosfera de intriga para tornar a história mais madura e envolvente.

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É ótimo ter um filme como esse para dar um alívio da ideia de bom moço dos filmes de heróis, onde protagonistas como Capitão América causam exaustão por serem perfeitos e politicamente corretos demais. A Marvel está tentando fugir desse padrão, mas ainda recorre a ele como uma aposta segura para suas tramas.

Com efeitos especiais de tirar o fôlego, um design criativo, ótimas atuações e um timing cômico ímpar, Guardiões da Galáxia ainda representa o que há de melhor em seu subgênero. Existe um universo de possibilidades imenso à frente dos anti-heróis, que podem até ter suas aventuras encerradas com um terceiro filme, mas que já deixam um ótimo legado para o que está por vir na Marvel e até na DC.


Logan

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Violência e sentimentalismo marcam despedida de Hugh Jackman

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Logan
DIREÇÃO: James Mangold
DURAÇÃO: 137min
GÊNERO: Drama, Ficção, Ação
PAÍS: EUA
ANO: 2017

5


Por 17 anos, Hugh Jackman viveu o mutante Wolverine nos cinemas. Sua atuação é certamente uma das mais icônicas – ou talvez a mais icônica – da história dos filmes de heróis. Foram anos de desenvolvimento do personagem, um dos mais completos do gênero, e o ator australiano não deixou a desejar, se mostrando cada vez mais maduro no papel. Para se despedir deste marco do cinema, Hugh Jackman protagoniza Logan, um dos filmes mais interessantes do mundo dos heróis e com performances emocionantes.

Em 2029, os mutantes se tornam raridade após uma série de mortes, aliada ao fim do nascimento de novos humanos superdotados. Logan (Hugh Jackman) vive recluso, cuidando de um já debilitado e doente professor Xavier (Patrick Stewart). Quando uma mulher pede sua ajuda, os dois precisam pegar a estrada para levar Laura (Dafne Keen), uma menina com as mesmas habilidades de Wolverine, para um lugar seguro.

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Logan é um filme bastante incomum. O subgênero dos super-heróis têm sido marcado, nos últimos anos, por uma abordagem divertida e jovial – resultado do comando da Disney sobre a Marvel. Além disso, os filmes desse hall raramente dão espaço a uma trama que tende ao sentimentalismo. Mas a despedida de Hugh Jackman da saga mutante vai na contramão de tudo isso: é extremamente violenta, mas cheia de momentos realmente profundos e emocionantes, capazes de levar até o mais durão dos fãs às lágrimas.

X-Men já é uma franquia que se destaca por trazer muito mais do que ação e aventura à história de seus heróis. Enquanto filmes como Capitão América e Homem-Formiga se concentram em roteiros fictícios, muitas vezes sem qualquer ambição, a jornada dos mutantes no cinema é marcada por uma história que traça diversos paralelos com a nossa realidade. É uma trama muito mais madura, que antes de qualquer coisa, busca falar sobre intolerância e aceitação.

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Logan não podia ser diferente. Mais uma vez os mutantes aparecem como uma raça fadada à extinção, graças ao preconceito e ao medo do desconhecido que os humanos têm. O longa explora isso de uma maneira diferente, mostrando do que o ser humano é capaz de fazer por poder, em sua ridícula obsessão por armas e controle. Em uma sequência que incomoda e choca, o público é apresentado a um projeto científico que retrata a dureza do ambiente ao qual os X-Men – e todos os marginalizados que eles representam – estão destinados.

É justamente essa mistura entre o contexto bruto e impiedoso no qual Wolverine cresceu e sua personalidade que fazem de Logan um filme genial. O filme apresenta a última etapa do desenvolvimento de Wolverine – uma espécie de redenção. A violência do longa pode parecer exagerada, mas ela é fundamental para tornar sua mensagem eficaz. Afinal, como pode um mutante tratado com tanta agressividade ser solidário e carinhoso? É essa questão que Logan tenta responder – e faz isso muito bem.

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Sem exageros no que diz respeito ao drama de sua história, Logan tem ótimas cenas de ação, com uma trilha sonora e fotografia que complementam o dualismo do filme. O destaque no elenco é a pequena Dafne Keen, que atua em inglês, em espanhol e em silêncio, se mostrando talentosa o suficiente para passar todo o poder e a carga dramática de sua personagem com excelência.

Patrick Stewart está mais uma vez incrível e Hugh Jackman encerra sua participação no universo mutante com maestria. O australiano soube inovar e se superar todas as vezes em que entrou na pele de Wolverine. Em Logan, Jackman entrega uma atuação fantástica, talvez a melhor de sua carreira.

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Com uma história bastante centrada no principal herói dos X-Men, Logan não se dá ao trabalho de explicar minuciosamente o contexto no qual se passa. O público tem que deduzir e até mesmo imaginar o que terá acontecido aos outros personagens da saga e ao mundo no qual o protagonista vive.

A linha temporal totalmente confusa da franquia também não ajuda, mas Logan é um trabalho isolado. Apesar de estar conectado a seus antecessores, o foco aqui é exclusivamente a relação de Wolverine e Laura com o mundo que os cerca – e, lógico, um com o outro. É um filme forte, extremamente bonito e que será lembrado pela originalidade e ousadia com a qual foi conduzido. É realmente a história que Hugh Jackman precisava para aposentar suas garras de adamantium.


A Chegada

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Ficção científica surpreende ao se afastar de aliens e tomar rumo muito mais sensível

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Arrival
DIREÇÃO: Denis Villeneuve
DURAÇÃO: 116min
GÊNERO: Drama, Ficção, Suspense
PAÍS: EUA
ANO: 2016

5


Vez ou outra um filme de ficção científica chama a atenção durante o ano e acaba parando na lista de indicados ao Oscar de Melhor Filme. Foi assim com Perdido em Marte e Gravidade, por exemplo. O gênero, que tende a ser esquecido por muitas premiações, tem se reinventado e conquistado justamente seus votantes. Com roteiros cada vez mais desenvolvidos e efeitos especiais sempre mais inovativos, esses filmes têm apostado em sua parte dramática tanto quanto na parte ficcional, como é o caso de A Chegada.

Doze espaçonaves aparecem em pontos misteriosos ao redor do mundo, comprovando assim a existência de vida fora da terra. Para tentar fazer contato com seus tripulantes, o governo estadunidense contrata a linguista Louise Banks (Amy Adams) e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) para desvendarem o idioma dos extraterrestres, até que a missão começa a afetar as vidas pessoais dos dois.

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Como a tendência sugere, A Chegada alcançou o Oscar ao se desprender de sua face mais ficcional em direção a um arco dramático complexo e que é o verdadeiro motor da história. Muitos vão se surpreender – e até mesmo se frustrar – ao descobrir que o filme de Denis Villeneuve é qualquer coisa, menos um filme sobre aliens. O que há de mais inventivo e carismático em A Chegada é justamente a relação humana sobre a qual o filme fala.

O público é levado a acreditar que as doze naves posicionadas em cantos específicos do planeta estão ali para iniciar uma guerra, roubar recursos terráqueos ou qualquer outro objetivo mais previsível em filmes de ficção científica. Mas na verdade A Chegada é, do começo ao fim, um filme que discute o que há de mais intrínseco à raça humana. Louise Banks serve como o fio condutor para que se discuta noções exclusivamente nossas, como amor, coragem e afeição.

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Com uma linha do tempo não linear – algo que só fica claro no fim da trama – , A Chegada é um filme difícil de discutir sem entregar muito de sua história. A graça do longa está justamente nas descobertas que o público faz, todas elas chocantes e muito bem trabalhadas.

Um dos assuntos mais pertinentes para a história é a comunicação. O filme escancara como, em um mundo onde tudo é tão efêmero, violento e insensível, o simples ato de conversar pode gerar soluções e um convívio muito mais pacífico e inteligente. Em tempos de Trump, A Chegada prega temas como solidariedade e cooperação, condenando o egoísmo e a concorrência que marcam o mundo capitalista atual. O próprio filme se comunica com seu público de uma maneira diferente.

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É essa parte humana que faz de A Chegada uma ficção científica diferente. O roteiro faz com que o público reflita sobre diversos temas enquanto busca entender também sua complexa trama. A mensagem que fica é a de que, afinal, devemos viver com medo de nos arriscarmos, de sermos felizes? Ou devemos nos jogar nos acontecimentos, “colher o dia”? É uma temática bonita, extremamente delicada, que é positiva, apesar de um final que parece – mas de maneira alguma é – infeliz. A vida é feita de momentos, de lembranças.

A Chegada é ambição do começo ao fim. Denis Villeneuve faz um belíssimo trabalho de direção, enquanto Amy Adams brilha ao dar vida a uma história tão misteriosa. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas merece ser condenada para todo o sempre por não ter indicado a atriz ao Oscar. É sem dúvida uma das melhores atuações do ano e uma das maiores da carreira de Amy Adams, que já é repleta de performances de tirar o fôlego, apesar de nunca ter sido reconhecida com a estatueta dourada de Hollywood. É, no mínimo, vergonhoso não vê-la indicada.

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Ao entregar o jogo de sua trama, Villeneuve faz com que o público sinta uma verdadeira confusão de emoções. Seu existencialismo aborda temas muito mais pertinentes para o agora do que para a origem ou o pós-vida. Nem por isso o filme deixa de ter tensão. Se há uma coisa presente do começo ao fim em A Chegada, ela é justamente o suspense e a incerteza.

Arrival surpreende por ser um dos filmes mais humanos dos últimos tempos. Ao fim da sessão, somos atingidos por um sentimento de, primeiro, incompreensão, segundo, emoção, para, enfim, sermos inspirados pela beleza por trás de uma aparente invasão alienígena. É um filme carregado de interpretações e significados, abordando sua narrativa de uma maneira sensível, sutil e muito emocionante.


Star Trek: Sem Fronteiras

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Saga intergalática perde J.J. Abrams, mas não o brilho

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO: Star Trek Beyond
DIREÇÃO: Justin Lin
DURAÇÃO: 122min
GÊNERO: Aventura, Ficção Científica
PAÍS: EUA
ANO: 2016
4

J.J. Abrams já pode ser considerado um dos principais nomes da ficção científica atual. Seu incrível trabalho em Star Trek e Além da Escuridão: Star Trek permitiram que o americano ganhasse a honra – e a difícil tarefa – de reviver a franquia Star Wars nos cinemas. O Despertar da Força foi um sucesso, mas fez com que Abrams deixasse a direção da saga de Kirk e Spock.

Sem Fronteiras é dirigido por Justin Lin, conhecido por Velozes e Furiosos. Com a franquia no currículo, é difícil imaginar que o terceiro filme da retomada de Jornada nas Estrelas poderia se aproximar de seus antecessores – tanto em termos de qualidade quanto em criatividade. Mas Justin Lin faz um ótimo trabalho, além de dar um novo tom à saga intergalática.

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Ao tentar ajudar a tripulação de uma outra nave, os membros da USS Enterprise são atraídos para uma armadilha e acabam caindo em um planeta governado por uma espécie hostil, que quer destruir a Federação. Para impedir seus planos, Capitão Kirk (Chris Pine) e Spock (Zachary Quinto) precisam se unir a Jaylah (Sofia Boutella), que há anos vive escondida no planeta.

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Star Trek: Sem Fronteiras segue um rumo completamente diferente de seus antecessores. Enquanto os filmes dirigidos por J.J. Abrams dão atenção ao papel da USS Enterprise nas missões de Kirk, Justin Lin começa seu longa explodindo a icônica nave. Assim, de uma hora para outra, os trekkers vêem o principal símbolo da franquia sendo destruído, no melhor estilo Titanic. Ao fazer isso, Lin abre espaço para novas possibilidades para a saga.

Ao invés de focar em tecnologia e nas perseguições espaciais, Sem Fronteiras joga seus personagens no solo e, a partir daí, precisa reinventar seus heróis. Essa escolha pode acabar frustrando os fãs mais fiéis, mas abre um leque de possibilidades que inclui Kirk usando uma moto para libertar prisioneiros e cenas de ação dignas de filmes de espionagem.

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É justamente no imprevisível que o filme se apoia e, mesmo que seu roteiro não seja dos mais complexos, Sem Fronteiras conta com momentos suficientemente tensos e emocionantes para prender a atenção do público. Um dos pontos altos é uma discreta homenagem a Leonard Nimoy, intérprete original de Spock, morto em fevereiro de 2015 aos 83 anos. O ator havia aparecido nos dois antecessores de Sem Fronteiras.

O terceiro capítulo da retomada de Star Trek nos cinemas ainda tem a seu favor o incrível elenco reunido em 2009 por J.J. Abrams. Zachary Quinto, Chris Pine, Zoe Saldana, Karl Urban, Simon Pegg e Anton Yelchin – morto em um trágico acidente em junho – continuam ótimos e carismáticos em seus papeis, enquanto Sofia Boutella encarna uma Jaylah poderosa e interessante.

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Sem Fronteiras pode não se igualar a Star Trek (2009) e Além da Escuridão (2013), mas é suficientemente bom para comemorar os 50 anos da franquia, em setembro deste ano. Se o filme perde por ter uma história relativamente rasa, ganha por bons momentos espalhados pela trama, que juntam com maestria o bom humor e o encantamento característicos da saga. Só podemos desejar que Star Trek continue tendo uma vida longa e próspera nos cinemas.


Star Wars: O Despertar da Força

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Os Jedi retornam ao cinema com o mesmo encantamento da trilogia original

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Star Wars: The Force Awakens
DIREÇÃO: J.J. Abrams
DURAÇÃO: 135min
GÊNERO: Ficção, Aventura
PAÍS: EUA
ANO: 2015
5

Star Wars provocou nos cinemas ao redor do mundo algo não visto desde o lançamento do último Harry Potter. Talvez nunca visto em toda a história da sétima arte. A espera frenética que tomou conta dos fãs – e criou novos – desde o anúncio do Episódio VII fez com que O Despertar da Força fosse o filme mais aguardado de 2015, ano com fim de Jogos Vorazes e novo Vingadores.

Com promessas de se firmar entre as três maiores bilheterias mundiais de todos os tempos, junto com Avatar e Titanic, o sétimo capítulo da saga intergaláctica volta às origens em grande estilo e deixa para trás o melodrama da trilogia mais recente. A direção de J.J. Abrams fez bem à franquia, que volta às telas com ação, aventura, comédia, drama e todos os sentimentos já provocados em 1977.

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Três décadas após derrotar o Império, em O Retorno do Jedi, a Aliança Rebelde está de volta, dessa vez apelidada de Resistência. Enquanto o lado negro da Força tenta retomar o poder por meio da Primeira Ordem, liderada por Snoke (Andy Serkins), Kylo Ren (Adam Driver) e General Hux (Domhall Gleeson), o stormtrooper Finn (John Boyega) deserta e foge para o planeta Jakku, com a ajuda do piloto Poe Dameron (Oscar Isaac).

Lá ele se junta à catadora de lixo Rey (Daisy Ridley) e ao droide BB-8, que precisa retornar para as mãos da General Leia (Carrie Fisher) com a ajuda de Han Solo (Harrison Ford) e, claro, de Chewbacca (Peter Mayhew).

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Os calafrios começam, como não podia ser diferente, nos primeiros segundos, quando a icônica introdução de Star Wars aparece na tela, acompanhada pelos acordes do gênio John Williams. Com bastante ação, somos apresentados ao caos que novamente tomou conta de galáxia – ou nunca deixou de existir. O estilo aventuresco próprio da trilogia original se faz presente a todo momento e um misto de tensão e nostalgia toma conta da plateia com facilidade.

J.J. Abrams não desaponta e dirige O Despertar da Força de maneira ao mesmo tempo ousada e respeitosa. Vemos um novo trio de mocinhos extremamente carismáticos, encarnados por Rey, cheia de personalidade, pelo divertido Finn e o heróico Poe Dameron.

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A liderança e a atenção que Rey recebe são essenciais para situar Star Wars no século XXI, em meio ao movimento de empoderamento feminino que cada vez mais toma conta do cinema.

Além disso, a velha disputa entre jedis e o lado negro da Força continua tão inteligente e bem trabalhada quanto no passado. O mérito disso é, em grande parte, do vilão Kylo Ren.

Talvez o personagem mais interessante do sétimo episódio, Ren ainda precisa ser dissecado nos filmes que estão por vir, mas sua malevolência, combinada à ótima atuação de Adam Driver, dão sustância à trama e mostram que ainda há muito para ser explorado nesse universo intergaláctico.

Star Wars surpreende mais uma vez pelo visual. Dos figurinos aos planetas, tudo é esteticamente bonito, bem feito. Também na parte técnica, não poderia faltar uma menção à exuberante trilha sonora de John Williams, capaz de provocar os mais variados sentimentos na menor fração de segundo.

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O Despertar da Força pode até parecer ter requentado alguns aspectos da trilogia original. Enquanto o mistério em torno de sua campanha de lançamento deixou os fãs com inúmeras perguntas sobre o novo trio de filmes, o roteiro do Episódio VII serve muito mais para gerar novas dúvidas do que solucionar as que já foram levantadas.

De forma geral, O Despertar da Força mais estabelece o tom para os próximos filmes do que acalma os ânimos dos fãs. Mas faz isso com maestria, reproduzindo todas as qualidades que imortalizaram Star Wars há mais de três décadas. Além disso, fica nítido que, além do interesse financeiro por trás da retomada da franquia, as pessoas que participaram da produção do longa fizeram seu trabalho com amor e dedicação. É seguro dizer que enfim a Força despertou.


A Esperança – O Final

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Saga de Katniss chega ao fim sem deixar a atualidade e o tom político para trás

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: The Hunger Games: Mockingjay – Part 2
DIREÇÃO: Francis Lawrence
DURAÇÃO: 137min
GÊNERO: Aventura, Ficção
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2015
4

Quando a saga literária de Suzanne Collins resolveu que era hora de migrar para as telas, precisou convencer Hollywood que colocar crianças em uma arena para morrer não era uma ideia tão ruim. Katniss Everdeen teve, então, que se contentar com a Lionsgate, estúdio bem menor que a Warner Bros de Harry Potter, para chegar aos cinemas. Hoje, com uma bilheteria de mais de US$ 2,5 bilhões para os três primeiros filmes, a franquia Jogos Vorazes se tornou a “queridinha” do estúdio, e nem por isso abandonou a inteligência das páginas de Collins.

A Esperança – O Final começa exatamente onde seu antecessor termina. Para quem não se lembra, após ir para a arena dos Jogos Vorazes duas vezes, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) é resgatada pelo Distrito 13, onde rebeldes querem depor o Presidente Snow (Donald Sutherland), que controla a fictícia Panem com truculência e desigualdade. Lá, ela se torna a líder da revolução, mas não deixa de se preocupar com a segurança de sua família e de Peeta (Josh Hutcherson), o companheiro que foi sequestrado pela Capital.

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Na primeira parte de Esperança, Peeta é resgatado, mas acaba se tornando uma máquina feita para matar Katniss. Dessa forma, o “tordo” precisa ir para o campo de batalha, junto com Gale (Liam Hemsworth) e a “aliança rebelde”, para se vingar de Snow e colocar um fim à sua tirania.

Prometendo um desfecho épico, com direito a uma guerra – algo que parece ser unanimidade entre as adaptações literárias dos últimos anos (Harry Potter, Crepúsculo e Senhor dos Anéis estão aí para provar isso) -, Esperança mantém o tom político que está presente desde o começo da franquia, mas que ganhou vigor em sua Parte 1.

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Esta característica, que é a principal razão para que Jogos Vorazes destoe do vazio de outras obras “adolescentes” (como é o caso de Cidades de Papel ou, novamente, Crepúsculo) faz com que a heroína Katniss denuncie, ao longo de sua jornada, os horrores da tirania, da opressão e da desigualdade. O discurso anti-belicista serve como crítica não somente à ficção, mas à própria realidade que vivemos hoje, na qual discursos de violência e intolerância se tornam cada vez mais cotidianos.

Mas o grande trunfo da obra é questionar quem, em meio ao caos que tomou conta de Panem, é verdadeiramente o vilão. Se de um lado Snow representa uma sociedade abusiva e fútil, de outro temos a Presidente Alma Coin (Julianne Moore), com fome de poder e tão radical quanto seu inimigo. O filme deixa claro, desde o princípio, que o maniqueísmo corrompe qualquer sistema, que é preciso achar um meio termo entre Capital e Distrito 13, ou até mesmo entre direita e esquerda.

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As cenas de ação de Esperança são boas, deixam o público, mais uma vez, tenso e, em meio aos momentos de agitação, encontra brechas para propor discussões inteligentes ou para focar em aspectos mais emotivos da trama. Mas esse, talvez, seja o grande problema do capítulo final de Jogos Vorazes.

Francis Lawrence pareceu segurar as rédeas do “drama adolescente” nos últimos dois filmes. Mas, justo no encerramento, acaba pesando a mão em alguns dos momentos do triângulo formado por Katniss, Peeta e Gale. Há um claro desconforto nas cenas em que os protagonistas insistem em falar sobre sua vida amorosa, que não parece se encaixar no contexto de guerra e morte que toma conta da trama. É frustrante ver a inteligente e heróica história de Katniss reduzida ao sentimentalismo.

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Mesmo assim, o filme sempre acaba voltando para a cruel realidade na qual se passa e não abandona os questionamentos que levanta ao longo do roteiro.

Outro destaque, como sempre, é o elenco. Da determinação de Jennifer Lawrence ao sadismo de Donald Sutherland, passando pela ironia de Jena Malone (Johanna), a tirania disfarçada de Julianne Moore, a amabilidade de Sam Claflin (Finnick) e pelo carisma de Nathalia Dormer (Cressida) – que fez de um pequeno papel literário uma oportunidade para brilhar – as estrelas de Jogos Vorazes são responsáveis por criar um vínculo forte entre a trama e o público.

Die Tribute von Panem - Mockingjay Teil 2E, mesmo que com tempo de tela reduzido, vale ressaltar os ótimos trabalhos de Elizabeth Banks (Effie), Woody Harrelson (Haymitch) e do falecido Philip Seymour Hoffman (Plutarch) ao longo de toda a saga.

Com ação, drama e uma bela mensagem, chega ao fim uma das franquias “jovens” mais inteligentes do cinema. E, mesmo que sua cena final não seja tão aberta a discussões quanto deveria, em seus últimos minutos, a saga termina com poesia em meio à dor dos Jogos Vorazes. A mensagem de esperança do filme é forte e bonita, mesmo que sua visão não seja sempre otimista. Que a sorte esteja sempre a seu favor.


Perdido em Marte

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Ridley Scott volta a surpreender após uma série de trabalhos medianos

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: The Martian
DIREÇÃO: Ridley Scott
DURAÇÃO: 141min
GÊNERO: Drama, Ficção
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2015
5

Ridley Scott nos deu alguns sustos nos últimos anos. Sua versão para Robin Hood, de 2010, foi somente mais um daqueles blockbusters vazios, que embarcam em alguma aventura fantasiosa do passado. Êxodo, de 2014, deixava muitas questões em aberto e não soube aproveitar uma boa história. Prometheus, de 2012, era só mais uma ficção caça-níqueis sem sentido. Não foi à toa que Perdido em Marte, mesmo com uma boa campanha de divulgação, levantou muitas dúvidas. No fim, não esperarmos muito dele somente ajudou a engrandecer a belíssima história de um diretor que volta a fazer jus aos clássicos que criou no passado.

Durante uma missão mal sucedida a Marte, o astronauta Mark Watney (Matt Damon) é deixado sozinho no planeta vermelho por sua equipe, liderada por Melissa Lewis (Jessica Chastain), que acha que o companheiro morreu durante uma tempestade. O protagonista precisa achar maneiras de se manter vivo até que a Nasa consiga enviar uma missão de resgate para trazê-lo de volta para a Terra, algo que pode levar anos.

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Em primeiro momento, a trama de Perdido em Marte pode parecer forçada, afinal, sobreviver no planeta vermelho é uma loucura grande demais para ser lançada em meio a filmes tão racionais como Gravidade. Esse, talvez, seja o elemento surpresa da obra: quando você menos espera, lá está Mark Watney, ensinando ciência para o público e usando também a imaginação para sobreviver à hostilidade do local.

Quando achamos ser impossível cultivar comida fora da Terra, o botânico nos surpreende e dá ao público uma plantação de batatas. Quando questionamos a falta de água, Watney entrega à plateia uma fórmula química capaz de produzir o elemento. Quando tudo parece perdido, Matt Damon senta na frente de seu computador, conversa com o diário de viagem eletrônico, surta e acaba achando uma solução. Mais impressionante que a inteligência de Mark é vermos como a ciência, misturada a um pouco de esperança, pode fazer “milagres”.

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Do começo ao fim, por meio de suas inúmeras reviravoltas, Perdido em Marte prende a atenção do público, mesmo com seus diálogos um tanto complexos. A escolha de narrar a história por meio do diário de viagem de Mark é excelente, impedindo que o filme se torne um grande monólogo – ou até mesmo um silêncio absoluto. Enquanto isso, as inserções do que está acontecendo na sede da Nasa ou na nave onde está a antiga equipe de Mark são igualmente bem feitas, deixando o filme dinâmico e envolvente.

Bem humorado na medida certa, Perdido em Marte concilia ciência e drama com facilidade, tendo alívios cômicos bem planejados e nos momentos certos. Isso, em parte, devido ao carisma de Matt Damon, que encarna seu astronauta com perfeição. Um ator menos talentoso talvez não fosse capaz de suportar, sozinho, o peso dramático das mais de duas horas de filme. Mas Damon está brilhante, se entregando ao desespero de Watney e migrando facilmente para seus momentos de epifania, dando veracidade e graça ao papel.

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O filme ainda tem como mérito frear os ufanismos normalmente presentes em grandes produções do gênero. Em sua mensagem de esperança, Perdido em Marte se destaca por solucionar o seu problema através de uma cooperação que envolve a China, pintada aqui como uma nova potência e que acaba, eventualmente, salvando a pele do governo estadunidense.

É um filme que, apesar da ficção, tem um lado humano muito forte e se compromete demais com a sua mensagem para permitir exageros ou maniqueísmos. Por exemplo: não existem vilões. As ações de todas as personagens são explicadas cuidadosamente e o público pode ver que elas, mesmo que tenham consequências ruins, tiveram um motivo justo e compreensível. É o caso de Lewis, que, muito racional, deixa Watney para trás e acaba se remoendo pelo resto do longa, sendo que em nenhum momento a vemos como uma pessoa má.

Perdido em Marte é diversão garantida. Faz rir, nos deixa tensos, emociona e carrega uma visão bonita de otimismo quanto ao futuro. Do roteiro aos efeitos especiais, nada decepciona na ficção científica, que consegue se destacar mesmo em meio à crescente onda de filmes no estilo “sozinho no espaço”. Depois de alguns trabalhos de qualidade questionável, Ridley Scott não parece mais perdido.