A Bela e a Fera

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Disney renova conto de fadas sem prejudicar sua essência

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Beauty and the Beast
DIREÇÃO: Bill Condon
DURAÇÃO: 129min
GÊNERO: Musical, Fantasia, Romance, Família
PAÍS: EUA
ANO: 2017

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A Bela e a Fera pode ter “apenas” 26 anos, mas é um clássico absoluto, não há como negar. A história de 1991 foi a primeira animação a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme e venceu dois, nas categorias de Trilha Sonora e Canção Original.

Consequentemente, o filme faz parte da memória afetiva de milhares de crianças e adultos, e é centrado em uma história de amor que causa inveja em muitos romances. Em 1993, foi ainda a primeira produção da Disney na Broadway, onde também foi bem-sucedida. Com esse currículo, era apenas questão de tempo até que Bela e a Fera entrasse para o frenesi de live-action do estúdio. A boa notícia é que o projeto fez jus ao seu original.

Bela (Emma Watson) é uma jovem diferente dos moradores de sua aldeia, principalmente de Gaston (Luke Evans), que quer sua mão em casamento. Apaixonada por livros, ela mora com seu pai, Maurice (Kevin Kline), que é aprisionado no castelo da Fera (Dan Stevens) depois de se perder em uma floresta. Bela decide ficar no seu lugar e aos poucos descobre que seu novo lar foi enfeitiçado.

BEAUTY AND THE BEAST

A tarefa de recriar A Bela e a Fera é difícil. Primeiro por se tratar de um filme tão amado por muita gente. Segundo, porque o original de 1991 já é perfeito, um clássico. Mas Bill Condon teve habilidade suficiente para reaproveitar a história da Disney, deixando-a atraente e preservando seus encantos, e ainda soprando ar de novidade à trama.

O live-action é muito parecido com a obra original. Existem diálogos inteiros onde todas as palavras foram preservadas. Para quem quer novidade, Bela e a Fera pode ser frustrante – embora Mogli tenha se dado muito bem ao não ousar em seu roteiro. Mas se o original de 1991 funciona tão bem, não faria sentido distorcê-lo para a nova versão. Mesmo que a trama seja a mesma, existem alguns detalhes que repaginam a história.

BEAUTY AND THE BEAST

Como já foi amplamente divulgado, o capanga LeFou (Josh Gad) nesta versão é gay. Em todo o filme, vemos uma preocupação da Disney em adaptar seu clássico para os novos tempos. Casais interraciais aparecem em diversos momentos e Madame Garderobe (Audra McDonald) veste três vilões como mulheres e diz para eles serem “livres”, para a felicidade de um deles. Tudo é feito de forma sutil e contida. Não é uma revolução, mas é sem dúvidas um importante e necessário passo.

Bela, também, é transformada em uma mulher ainda mais independente – e Emma Watson tem grande influência nisso – , e se consolida como heroína da história, não como princesa. “Ela deve estar chorando em seu quarto”, dizem os objetos mágicos certa hora, e em seguida, vemos Bela amarrando pedaços de pano para tentar fugir pela janela. Em outro momento, ela ensina uma menina a ler, escandalizando sua aldeia e até mesmo um professor.

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A cena, inclusive, ajuda a situar o filme em seu contexto histórico. Ao invés de estar perdido no espaço-tempo, como a maioria dos contos de fadas, A Bela e a Fera faz questão de mostrar que se passa no século XVIII, o que faz muito bem à história. Pequenas referências – como vestimentas e o cravo Maestro Cadenza (Stanley Tucci) – e brincadeiras com a época – como a arcada dentária do mesmo personagem – contribuem para isso.

O filme ainda tapa vários buracos criados em 1991. O motivo pelo qual nenhum aldeão sabe da existência do castelo, a linha temporal dos acontecimentos, a cumplicidade dos conterrâneos de Gaston com sua arrogância e muitas outras questões são solucionadas para tornar esta versão mais madura.

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Outro aspecto que faz deste Bela e a Fera diferente de seu antecessor são as canções. Sim, elas são as mesmas, mas os arranjos musicais foram mudados, algumas letras incrementadas e quatro músicas inéditas adicionadas à trilha sonora. Estas, inclusive, não alcançam o nível de excelência das originais, mas também são muito bonitas, tendo sua função na história. O destaque é para Evermore – cantada por uma Fera que pode causar estranhamento pela voz, mas à qual logo nos adaptamos – , que é extremamente sensível e preenche a falta de música no papel da Fera.

As coreografias e performances também são ótimos, se aproximando de clássicos do gênero musical de forma divertida. Se a reprise de Belle espelha a mais clássicas das cenas de A Noviça Rebelde, Be Our Guest é um banquete aos amantes de musicais. As referências no show de Lumière (Ewan McGregor) são várias: Cabaret, Cantando na Chuva e Moulin Rouge! são só algumas. A cena, inclusive, é um presente para os olhos, extremamente bem feita, colorida, dançante e sofisticada.

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Tecnicamente, o filme é deslumbrante. O design de produção é excelente, combinando elementos do original de 1991 com referências claras ao século XVIII e ainda cenários e objetos elegantes, que invocam um senso de fantasia e imaginação típico dos contos de fadas. Os figurinos de Jacqueline Durran também são belíssimos e o clássico vestido de valsa de Bela é atualizado, não deixando a desejar.

Os efeitos visuais usados para criar os objetos mágicos são perfeitos. As soluções encontradas para seus movimentos são engenhosas e dão credibilidade ao feitiço lançado no castelo – Chip (Nathan Mack), por exemplo, anda como se estivesse em um skate, dando jovialidade ao personagem.

Beauty and the Beast

A Fera deixa a desejar. Seu rosto é bastante humano, tem emoção, mas o seu andar é pesado, visivelmente irreal. Teria sido melhor criar uma Fera a partir de figurino e maquiagem, à la Chewbacca, mas em uma indústria tão enlouquecida com as maravilhas do CGI, é difícil pensar na Disney tomando o caminho dos efeitos práticos em um conto de fadas. Outro pequeno problema é a edição do filme, súbita e com cortes equivocados em determinados momentos,

Mas nada é capaz de parar A Bela e a Fera de ser uma digna e bonita versão de um filme tão amado. Muitos podem criticar a falta de originalidade ou a natureza desnecessária de um filme não tão antigo, mas há espaço em Hollywood para esta versão mais adulta e musical, que ainda confere inventividade e respeito à obra.

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O elenco também contribui para o sucesso do longa. Emma Watson é uma figura forte e que passa um ar de determinação e graça à sua Bela, surpreendendo a todos ao cantar. Luke Evans e Josh Gad formam uma dupla divertidíssima e, enquanto o primeiro tem o ar de arrogância típico de Gaston, o LeFou de Gad rouba as cenas e ainda, de forma sutil, reinventa seu personagem, que agora tem uma quedinha pelo amigo “machão”. Kevin Kline faz um Maurice muito mais profundo, ao contrário do bobalhão pai de Bela de 1991. 

Por fim, o trabalho de vozes é excelente: Audra McDonald e Stanley Tucci são engraçados, Ewan McGregor é charmoso, Ian McKellen dá autoridade ao seu atrapalhado Horloge e Emma Thompson não se deixa intimidar pela difícil tarefa de assumir o papel originado por ninguém menos que Angela Lansbury.

Além de um ótimo entretenimento, um banquete visual e uma trilha sonora emocionante, A Bela e a Fera ainda se mantém fiel à sua mensagem de amor, bastante universal e delicada. Por outro lado, promove a cultura como um elemento tão transformador quanto esse sentimento. É um filme capaz de agradar qualquer um que vá de coração aberto ao cinema, estando envolto em mágica, nostalgia e amor.


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Moana: Um Mar de Aventuras

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Disney apresenta nova heroína em mais uma volta à era dos musicais

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Moana
DIREÇÃO: Ron Clements e John Musker
DURAÇÃO: 107min
GÊNERO: Aventura, Animação, Família, Musical
PAÍS: EUA
ANO: 2016
4

 O período mais fértil e bem-sucedido dos estúdios de animação Disney começou com A Pequena Sereia, em 1989, e se estendeu até o fim da década de 90.

Durante dez anos, a empresa viu a popularidade de seus filmes alcançarem níveis inimagináveis e parte desse sucesso está nas mãos dos músicos que passaram pela companhia, tornando filmes como A Bela e a Fera e O Rei Leão não somente clássicos animados, mas também musicais. Novas tentativas de produzir filmes à la Broadway vêm ocorrendo desde 2009 e Moana é o novo resultado dessa volta ao passado.

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Nas ilhas da Polinésia mora uma comunidade chefiada por Tui (Temuera Morrison), pai de Moana (Auli’i Cravalho), que logo terá que herdar as responsabilidades de cuidar de seu povo. Mas uma praga começa a tomar conta da ilha em que moram e a heroína precisa responder ao chamado do oceano e procurar o semideus Maui (Dwayne Johnson) para buscar uma solução.

Criar uma “princesa” da Polinésia foi um grande passo dado pela Disney. Mas criar uma nova protagonista feminina forte, determinada e independente foi um passo maior ainda.

Depois que Frozen provou, em 2013, que meninas não precisam de príncipes para fazer de uma história um filme popular e lucrativo, o estúdio parece ter entendido o recado de que a velha fórmula “donzela em apuros” já está ultrapassada. Só esse ano, a companhia lançou Zootopia e Moana, dois sucessos de bilheteria que têm personagens femininas fortes à frente.

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Moana até mesmo tira sarro da fórmula de princesa da Disney em uma cena engraçada e genial – “se você usa um vestido e tem um animalzinho, é uma princesa”, provoca Maui, para logo depois descobrir que havia subestimado a heroína.

Com uma mensagem feminista, de lutar pelo que deseja independente de quem você for, Moana é mais uma obra-prima da empresa de Mickey Mouse. É uma história tão contagiante quanto a de Frozen – um dos melhores filmes na história da Disney – e com personagens tão interessantes e inspiradores quanto as irmãs Anna e Elsa.

Trazer lendas antigas da Polinésia para o filme foi uma ótima decisão dos veteranos Clements e Musker, que fizeram algo parecido em Hércules. O material que ambos tinham em mãos foi muito bem aproveitado e toda a riqueza dessa cultura acabou se tornando uma animação bastante divertida e original.

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As personagens do filme também são muito bem desenvolvidas. Moana é aventureira, uma líder nata, mas que está dividida entre as responsabilidades para com a sua comunidade e seu desejo de explorar o oceano. Maui é uma personagem arrogante, mas ainda assim carismática e é interessante ver como, aos poucos, ele vai se tornando uma pessoa melhor graças à heroína do filme. Os “sidekicks” Heihei e Pua, um galo e um porquinho, são engraçados e fofos.

O filme só perde pela ausência de um vilão clássico. O carangueijo Tamatoa protagoniza um dos momentos mais aleatórios do cinema em 2016, e seu papel no filme nunca fica muito claro. Enquanto isso, a praga que atinge a ilha de Moana tem motivos pouco convincentes para acontecer e, por isso, o desfecho do filme acaba sendo o único momento em que a história perde qualidade. Nada que prejudique o filme como um todo, mas seria um ponto a melhorar.

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O grande trunfo de Moana acaba sendo sua trilha sonora, composta pelo queridinho do momento Lin-Manuel Miranda, criador do sucesso da Broadway Hamilton, e por Opetaia Foa’i e Mark Mancina. A trilha é uma ótima sucessora para Frozen e contém canções criativas, bonitas e de qualidade semelhante à dos clássicos da década de 90. O destaque fica para How Far I’ll Go, um novo Let it Go tão encantador quanto.

O estúdio de animação da Disney emplacou dois filmes incríveis no ano de 2016. Zootopia e Moana são ambos excelentes e é difícil escolher para quem torcer na temporada de premiações. Os dois são divertidos e tratam de temas importantes e maduros de forma sutil e didática, com Moana tendo a necessária renovação da linha de princesas da Disney como um de seus principais objetivos. A protagonista do filme é forte, tornando o longa uma verdadeira inspiração para as milhares de crianças que crescem assistindo às animações da companhia.


Meu Amigo, O Dragão

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Disney traz personagem de volta às telas em conto de fadas moderno

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Pete’s Dragon
DIREÇÃO: David Lowery
DURAÇÃO: 103min
GÊNERO: Aventura, Família, Fantasia
PAÍS: EUA
ANO: 2016
4

A onda de live-actions da Disney não sobrevive somente de princesas. Depois de lançar o incrível Mogli – O Menino Lobo e mais uma versão decepcionante de Alice no País das Maravilhas, o estúdio emplaca mais uma adaptação em seu 2016. Dessa vez são as personagens de Meu Amigo o Dragão, de 1977, que voltaram às telas, para recontar uma história que já caiu no esquecimento de muita gente.

Depois que seus pais morrem em um acidente de carro, Pete (Oakes Fegley) se vê sozinho no meio de uma floresta no Oregon, Estados Unidos. Anos se passam até que o garoto é descoberto pela guarda florestal Grace (Bryce Dallas Howard), que teve a infância marcada pelas histórias de seu pai, Meacham (Robert Redford), que jura já ter visto um dragão naquele mesmo local. Pete pode ser a prova de que a criatura realmente existe.

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Meu Amigo, O Dragão se apoia em um tipo de encantamento típico dos filmes de Steven Spielberg, capazes de dialogar tanto com os pequenos, quanto com os adultos. Coincidência ou não, o diretor estadunidense lançou há poucos meses, em parceria com a própria Disney, seu 30º filme, O Bom Gigante Amigo. Os dois títulos são parecidos em diversos momentos. Ambos falam sobre a inocência e a criatividade da infância e têm efeitos visuais de tirar o fôlego. Mas pelo incrível que pareça, David Lowery é quem sucede ao transformar um roteiro familiar em um verdadeiro conto de fadas moderno.

A história de Pete e seu dragão faz o que Spielberg não conseguiu alcançar com sua releitura da obra de Roald Dahl. É inteligente e divertida, apela para o público infantil e para o adulto e ainda ecoa a obra prima de Spielberg, E.T. – O Extraterrestre, de uma maneira bastante autêntica e nostálgica. O filme somente ajuda o público a ver o tamanho do desastre que O Bom Gigante Amigo é.

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No começo de Pete’s Dragon, o público tem a impressão de que está para ver mais um filme caça-níqueis da Disney, cujos executivos parecem não querer abandonar a onda de live-actions tão cedo. Mas não é preciso muito tempo de tela para notarmos que o filme é uma bonita história sobre amizade.

É impossível não fazer a conexão entre os meninos Elliott e Pete e as criaturas E.T. e – veja só! – Elliot. A versão original para o dragão da Disney chegou aos cinemas cinco anos antes de Spielberg debutar sua obra prima, mas é difícil não sentir estranhamento pela similaridade no nome das duas personagens.

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O roteiro de Meu Amigo, O Dragão faz de uma história relativamente simples uma narrativa que combina aventura, drama e fantasia. É um filme que definitivamente tem alma e sabe equilibrar bem seu sentimentalismo para não cair no exagero. Existe uma discussão bonita sobre infância e amadurecimento, executada com a maestria de E.T. ou Peter Pan. O texto, porém, não é à prova de balas.

Alguns deslizes são cometidos. A falta de explicação e aprofundamento na história dos irmãos interpretados por Wes Bentley e Karl Urban é um deles. Da mesma forma, existe uma temática interessante sobre desmatamento escondida e subutilizada no filme e, em uma época em que questões ecológicas são e precisam ser amplamente discutidas, é uma pena não ver a Disney abordar o assunto com comprometimento para sua jovem audiência – é a ela que o futuro do planeta pertence, afinal.

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No geral, David Lowery faz um maravilhoso trabalho e Pete’s Dragon é diversão garantida para todos os tipos de público. É inevitável não se emocionar com a bonita mensagem presente na história – não estranhe uma lágrima ou outra caindo durante a sessão. A impressão que fica é que a Disney tem melhorado cada vez mais sua habilidade para traduzir seus clássicos para o live-action. No caso de Meu Amigo, O Dragão, o desafio era ainda maior, já que a história não é mais um de seus exuberantes épicos fantasiosos, como Cinderela ou A Bela e a Fera.

É exatamente isso que faz de Pete’s Dragon único. É um filme que se passa na atualidade, não está perdido no espaço-tempo, e, mesmo assim, provoca encantamento como poucas obras são capazes de fazer. É um envolvente e delicado conto de fadas moderno, que merece um lugar ao lado dos sucessos da empresa de Mickey Mouse.


O Bom Gigante Amigo

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Steven Spielberg desaponta em filme sem emoção

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: The BFG
DIREÇÃO: Steven Spielberg
DURAÇÃO: 117min
GÊNERO: Família, Fantasia
PAÍS: EUA, Reino Unido e Canadá
ANO: 2016

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Um dos diretores mais bem sucedidos e respeitados do cinema mundial, Steven Spielberg é pai de clássicos atemporais, que sempre foram capazes de atingir pessoas das mais diversas idades e origens. Com um currículo cheio de brilhantismo, encabeçado por obras como E.T. – O Extraterrestre, a franquia Indiana Jones e Tubarão, fica difícil acreditar que Spielberg seria capaz de errar feio, muito menos em um filme voltado para as crianças. Mas O Bom Gigante Amigo é prova de que até os gênios cometem deslizes.

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Uma menina chamada Sophie (Ruby Barnhill), que vive em um orfanato em Londres, é raptada por uma criatura enorme e levada para a Terra dos Gigantes. Lá, ela e BGA (Mark Rylance) – o Bom Gigante Amigo – constroem uma forte amizade e precisam buscar a ajuda da rainha da Inglaterra (Penelope Wilton) para impedir que outros gigantes sequestrem criancinhas pelo país.

O BFG é o tipo de filme no qual você aposta todas as suas fichas. Além de ser dirigido por Spielberg, é fruto de uma parceria entre uma especialista em crianças, a Walt Disney Pictures, e a produtora responsável por vários clássicos estadunidenses, a Amblin Entertainment. Para completar a equação, ainda é inspirado no livro homônimo de Roal Dahl, um dos principais nomes da literatura infantil de todos os tempos e cuja obra já deu origem a ótimos filmes, como A Fantástica Fábrica de Chocolate, Matilda, O Fantástico Sr. Raposo e James e o Pêssego Gigante. Nada disso, porém, salva a bagunça que é O Bom Gigante Amigo.

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The BFG tem uma fotografia e efeitos especiais incríveis, mas que são os únicos pontos positivos de uma obra sem alma e sem coração. Despido de qualquer carisma, o filme não tem encantamento: nem mesmo seu gigante protagonista é capaz de impressionar o público, que se entedia facilmente com a chatice e monotonia da história.  A sensação que temos é que Spielberg, cuja carreira é marcada por filmes emocionantes, cheios de sensibilidade, dormiu durante a produção de BFG ou simplesmente não teve tempo para se dedicar ao longa.

THE BFG

O filme podia muito bem ser dirigido por algum estreante, desconhecido por todos, mas assusta saber que a marca Spielberg é que está por trás dele. Um dos poucos diretores que consolidaram sua assinatura em Hollywood, o estadunidense não foi capaz de dar um toque especial ao longa da Disney, que acaba sendo extremamente infantil – ao contrário do que acontece na obra prima de Spielberg, E.T., que até hoje encanta crianças e adultos, graças ao seu apelo universal.

Talvez o grande problema da adaptação da obra de Roal Dahl esteja, antes de qualquer coisa, no próprio livro. O Bom Gigante Amigo é o tipo de história que você pode tranquilamente ver em um livro infantil, mas que definitivamente não funciona nas telas.

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Em meio às muitas – muitas mesmo! – cenas icônicas dos filmes de Spielberg, BFG surge como uma obra completamente esquecível, que não deixará uma marca ou qualquer lembrança na mente de grande parte de seu público. Não há o sentimento observado em E.T., o senso de aventura de Indiana Jones, o impacto de Tubarão ou o fascínio de Jurassic Park. Dessa forma, O Bom Gigante Amigo é um emaranhado de cenas apáticas, sem qualquer apelo – tanto para os pequenos, quanto para os adultos. Nem mesmo a trilha sonora, mais uma parceria feita com o mestre John Williams e parte marcante em toda a obra de Spielberg, se destaca.

No último ato de BFG, as coisas ainda pioram. A conclusão dada para o filme é belicista, de uma violência desnecessária. Seu desfecho exalta o militarismo e é totalmente desproporcional ao resto do filme, marcado pelo excesso de infantilidade. No fim, a mensagem dada é que a ordem e o medo são mais poderosos que a imaginação e a inocência das crianças. O Bom Gigante Amigo acaba servindo somente como um ponto fraco no currículo de um dos gigantes de Hollywood.


Procurando Dory

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Pixar acerta em continuação do adorado Procurando Nemo

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO: Finding Dory
DIREÇÃO: Andrew Stanton
DURAÇÃO: 97min
GÊNERO: Aventura, Família
PAÍS: EUA
ANO: 2016
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A Pixar sempre foi um estúdio pautado pela originalidade. Desde os avanços tecnológicos na área de animação até a riqueza e criatividade de suas histórias, a companhia sempre se destacou no cenário cinematográfico pela sensibilidade e o perfeccionismo de suas histórias. Mas ninguém em Hollywood está imune à lógica capitalista da sétima arte e, em 2011 e 2013, a Pixar deu sequência às tramas de Carros e Monstros S.A., respectivamente.

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O resultado não poderia ser mais frustrante: enquanto Carros 2 é um desastre em todos os sentidos, Universidade Monstros deixou a desejar. Agora, a Pixar se aventura mais uma vez no campo das franquias, mas, desta vez, o resultado conseguiu superar expectativas.

Um ano após Dory (Ellen DeGeneres) e Marlin (Albert Brooks) atravessarem o oceano em busca do pequeno Nemo (Hayden Rolence), a peixinha azul começa a lembrar de momentos vividos durante a sua infância e decide sair em busca de seus pais. No caminho, além de conhecer novos animais marinhos, ela ainda vai reencontrar antigas amizades.

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Quando os primeiros materiais de Procurando Dory começaram a ser divulgados, a sensação de “dejà vu” ficou clara: mais uma vez, o peixe-palhaço Marlin correria riscos inimagináveis para encontrar alguém querido. Somado ao comercialismo de Carros 2 e Universidade Monstros, a continuação parecia ser mais um caça níquel, longe do brilhantismo das sequências de Toy Story.

Como dizem: não se deve julgar um livro pela capa. Ou, no caso, um filme pelo trailer. Procurando Dory acabou se revelando uma animação tão inspiradora e emocionante quanto o antecessor Procurando Nemo. A jornada da peixinha em busca de sua família é tão empolgante e, ao mesmo tempo, comovente, que faz jus à grandiosidade de Nemo.

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O filme é um novo acerto da Pixar, que mais uma vez mistura comédia com drama de forma ímpar. Andrew Stanton não ousa e mesmo assim dirige um filme que se sobressai no ramo da animação. É fato que Procurando Dory não traz novidades e segue uma fórmula que já se provou bem sucedida no currículo do estúdio, mas consegue superar até mesmo alguns dos filmes originais da empresa.

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Procurando Dory é divertido do começo ao fim, com personagens carismáticas e piadas inseridas com sutileza, capazes de agradar crianças e adultos. Os peixes de Procurando Nemo certamente não precisavam de uma continuação, mas é bom ver que o resultado deste segundo capítulo da saga aquática da Pixar acabou sendo positivo, fazendo jus à bonita mensagem presente na animação vencedora do Oscar.

O filme volta a ressaltar a importância de família e amigos em um cenário totalmente diferente, cheio de novas possibilidades, e surpreende pela qualidade de seu roteiro.


Alice Através do Espelho

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Adaptação do clássico literário sofre com mais um roteiro fraco

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Alice Through The Looking Glass
DIREÇÃO: James Bobin
DURAÇÃO: 113min
GÊNERO: Aventura, Fantasia, Família
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2016

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Dirigido por Tim Burton e com um elenco de primeira, Alice no País das Maravilhas, de 2010, não agradou muito a crítica. Seus efeitos especiais e toda a parte técnica, pelo menos, foram elogiadas e garantiram dois Oscar para a produção, mas a decisão de fugir da história escrita por Lewis Carroll e eternizada na animação de 1951 não foi muito popular. Mesmo assim, a continuação do longa-metragem também resolveu ter certa liberdade criativa e, mais uma vez, teve um resultado frustrante.

Alguns anos após salvar o País das Maravilhas, Alice (Mia Wasikowska) é mais uma vez atraída para o mundo encantado, desta vez pela borboleta Absolem (Alan Rickman). A inglesa então descobre que seu amigo Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) está doente e precisa ir atrás do Tempo (Sacha Baron Cohen) para voltar ao passado e corrigir os erros que Mirana (Anne Hathaway) e Iracebeth (Helena Bonham Carter), a Rainha de Copas, cometeram.

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Mais uma vez a adaptação do trabalho de Lewis Carroll surpreende pelo visual. Em todos os momentos de Alice Através do Tempo, somos atraídos pelos efeitos especiais e figurinos sofisticados e imaginativos que fazem parte da trama. O filme começa em meio à aristocracia britânica do século XIX, com seus figurinos elegantes mas sem originalidade. Mas logo que a heroína aparece pela primeira vez, os tons de fantasia de Wonderland são introduzidos à história.

Enquanto isso, porém, o roteiro deixa a desejar. A insistência em criar novas tramas em cima do trabalho de Lewis Carroll faz com que a jornada de Alice se torne vazia e desconexa. Se por um lado o texto faz um bom trabalho ao reforçar a força da protagonista na sociedade machista em que vive, por outro Alice continua sendo tratado como criança e a mensagem do filme acaba sucumbindo às regras e convenções do mundo adulto ao seu redor.

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Além disso, a “história de origem” da Rainha de Copas e do Chapeleiro Maluco pode até acertar no sentimentalismo, mas acaba exagerando na inocência e na apelação que justifica quem as personagens se tornam no futuro. A solução encontrada para a ausência da família do Chapeleiro é bastante artificial, enquanto o motivo que leva a monarca a ter uma cabeça desproporcional é, no mínimo, tosco.

Para complementar a tentativa fracassada de aprofundar a história da melhor personagem da obra, Alice Através do Espelho ainda pega carona na onda de justificativas que a Disney insiste em dar para  seus vilões, buscando um motivo para a crueldade da Rainha de Copas. Com isso, ela perde excentricidade e desequilíbrio, suas melhores características.

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Não há muito o que falar de Alice Através do Espelho. Ele acerta nos mesmos pontos nos quais Tim Burton foi bem sucedido, mas comete os mesmos pecados de seu antecessor, como a precariedade da história. O longa acaba se limitando a mais um conto de fadas de estética excepcional, com um elenco de primeira – é o último trabalho do falecido Alan Rickman -, mas que fica subutilizado. É uma história pouco original ambientada em um mundo de infinitas possibilidades.


Mogli – O Menino Lobo

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Live-action do clássico de 1967 faz jus ao último trabalho de Walt Disney

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: The Jungle Book
DIREÇÃO: Jon Favreau
DURAÇÃO: 106min
GÊNERO: Aventura, Fantasia, Família
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2016

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A mania da Disney em transformar seus clássicos animados em live-actions pode ser irritante, dependendo dos filmes escolhidos e do produto final das adaptações. Mas às vezes, ao conhecer as crianças de hoje e descobrir que muitas delas nunca assistiram Dumbo ou Aristogatas, podemos muito bem chegar à conclusão de que versões modernas, pensadas para a infância atual, podem ser uma maneira inteligente de dar sobrevida a alguns dos clássicos que já encantaram tantas gerações no passado. Esse é o caso de Mogli – O Menino Lobo, cujo original foi o último longa-metragem do visionário Walt Disney.

Encontrado ainda bebê no meio da selva indiana pela pantera Bagheera (Ben Kingsley), Mogli (Neel Sethi) foi criado como um lobo pelos carinhosos Raksha (Lupita Nyong’o) e Akela (Giancarlo Esposito). Enquanto ele cresce, porém, a ira de Shere Khan (Idris Elba) por humanos também aumenta e a selva deixa de ser um lugar seguro para Mogli. Ele então precisa contar com a ajuda de Bagheera e Baloo (Bill Murray) para voltar à aldeia de humanos, mas antes deve passar por animais perigosos, como Kaa (Scarlett Johansson) e o rei Louie (Christopher Walken).

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Mogli, de 1967, é uma das animações mais encantadoras da Disney, graças ao carisma de suas personagens. A história, por outro lado, não é das mais complexas e talvez já não tenha apelo algum para as gerações atuais, menos inocentes e acostumadas com a tecnologia e a violência de nossos blockbusters. Um menino, criado por lobos, precisa voltar para os humanos: essa é a trama, bastante simples, do filme original, inspirado no livro de Rudyard Kipling.

Quando a Disney anunciou um live-action do Menino Lobo, era difícil acreditar que ele seria uma experiência realmente empolgante. Mas as coisas mudaram quando as primeiras imagens do filme foram divulgadas, revelando um visual de tirar o fôlego. Logo, a ideia de recriar Mogli parecia interessante, devido à tecnologia e ao elenco de estrelas anunciados para o projeto.

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Esses dois pontos provaram ser o que faz de Mogli uma experiência fora do comum. Das árvores até as cenas de luta entre Bagheera e Shreke Kan, todo o ambiente no qual o filme é ambientado parece ser, de fato, a selva indiana. É difícil acreditar que todas as cenas foram gravadas em um estúdio na Califórnia. Mogli é de um realismo fascinante, com uma estética, além de bonita, bastante imaginativa e perfeccionista.

Já o elenco de vozes é, sem dúvida, um dos melhores dos últimos anos. Assim como Ave, César!, que estreou uma semana antes da aventura da Disney e também tem Scarlett Johansson no elenco, Mogli é a prova da importância que o casting exerce em uma filme. Se Bill Murray está divertidíssimo, Idris Elba é assustador em sua encarnação do tigre Shere Khan. Todos fazem trabalhos excepcionais e o novato Neel Sethi ainda esbanja talento ao lado das celebridades que vivem seus companheiros animais.

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Murray e Walken ainda receberam a difícil tarefa de cantar algumas das músicas mais queridas por aqueles que tiveram sua infância tocada pelo mundo de Walt Disney. De forma sutil, nostálgica e divertida, as canções Bare Necessities e I Wanna Be Like You foram inseridas no longa com brilhantismo. Da mesma forma, a pouco conhecida Trust In Me, cantada pela cobra Kaa, ganha vida em uma versão muito melhor feita por Scarlett Johansson para os créditos finais.

A única coisa que pode gerar descontentamento nos fãs mais fiéis da animação é o rumo que a adaptação toma em seu final. Mas a moral do filme de 2016 acaba sendo muito mais bonita e forte que aquela de 1967 e é ajudada pela maior participação da matilha de lobos que cuida de Mogli, o que moderniza a trama e a deixa muito mais delicada e emocionante.

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Mogli – O Menino Lobo é um grande acerto da Disney e já pode ser considerado a melhor versão live-action dos contos de fada que têm sido adaptados pela companhia nos últimos anos. Se Cinderela foi capaz de superar o bilionário Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, Mogli abre caminho para que A Bela e a Fera, de 2017, e tantos outros live-actions já anunciados pela Disney, alcancem semelhante sucesso. Desde que, claro, a companhia de Mickey Mouse use o bom senso na hora de escolher seus próximos projetos.