Logan

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Violência e sentimentalismo marcam despedida de Hugh Jackman

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Logan
DIREÇÃO: James Mangold
DURAÇÃO: 137min
GÊNERO: Drama, Ficção, Ação
PAÍS: EUA
ANO: 2017

5


Por 17 anos, Hugh Jackman viveu o mutante Wolverine nos cinemas. Sua atuação é certamente uma das mais icônicas – ou talvez a mais icônica – da história dos filmes de heróis. Foram anos de desenvolvimento do personagem, um dos mais completos do gênero, e o ator australiano não deixou a desejar, se mostrando cada vez mais maduro no papel. Para se despedir deste marco do cinema, Hugh Jackman protagoniza Logan, um dos filmes mais interessantes do mundo dos heróis e com performances emocionantes.

Em 2029, os mutantes se tornam raridade após uma série de mortes, aliada ao fim do nascimento de novos humanos superdotados. Logan (Hugh Jackman) vive recluso, cuidando de um já debilitado e doente professor Xavier (Patrick Stewart). Quando uma mulher pede sua ajuda, os dois precisam pegar a estrada para levar Laura (Dafne Keen), uma menina com as mesmas habilidades de Wolverine, para um lugar seguro.

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Logan é um filme bastante incomum. O subgênero dos super-heróis têm sido marcado, nos últimos anos, por uma abordagem divertida e jovial – resultado do comando da Disney sobre a Marvel. Além disso, os filmes desse hall raramente dão espaço a uma trama que tende ao sentimentalismo. Mas a despedida de Hugh Jackman da saga mutante vai na contramão de tudo isso: é extremamente violenta, mas cheia de momentos realmente profundos e emocionantes, capazes de levar até o mais durão dos fãs às lágrimas.

X-Men já é uma franquia que se destaca por trazer muito mais do que ação e aventura à história de seus heróis. Enquanto filmes como Capitão América e Homem-Formiga se concentram em roteiros fictícios, muitas vezes sem qualquer ambição, a jornada dos mutantes no cinema é marcada por uma história que traça diversos paralelos com a nossa realidade. É uma trama muito mais madura, que antes de qualquer coisa, busca falar sobre intolerância e aceitação.

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Logan não podia ser diferente. Mais uma vez os mutantes aparecem como uma raça fadada à extinção, graças ao preconceito e ao medo do desconhecido que os humanos têm. O longa explora isso de uma maneira diferente, mostrando do que o ser humano é capaz de fazer por poder, em sua ridícula obsessão por armas e controle. Em uma sequência que incomoda e choca, o público é apresentado a um projeto científico que retrata a dureza do ambiente ao qual os X-Men – e todos os marginalizados que eles representam – estão destinados.

É justamente essa mistura entre o contexto bruto e impiedoso no qual Wolverine cresceu e sua personalidade que fazem de Logan um filme genial. O filme apresenta a última etapa do desenvolvimento de Wolverine – uma espécie de redenção. A violência do longa pode parecer exagerada, mas ela é fundamental para tornar sua mensagem eficaz. Afinal, como pode um mutante tratado com tanta agressividade ser solidário e carinhoso? É essa questão que Logan tenta responder – e faz isso muito bem.

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Sem exageros no que diz respeito ao drama de sua história, Logan tem ótimas cenas de ação, com uma trilha sonora e fotografia que complementam o dualismo do filme. O destaque no elenco é a pequena Dafne Keen, que atua em inglês, em espanhol e em silêncio, se mostrando talentosa o suficiente para passar todo o poder e a carga dramática de sua personagem com excelência.

Patrick Stewart está mais uma vez incrível e Hugh Jackman encerra sua participação no universo mutante com maestria. O australiano soube inovar e se superar todas as vezes em que entrou na pele de Wolverine. Em Logan, Jackman entrega uma atuação fantástica, talvez a melhor de sua carreira.

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Com uma história bastante centrada no principal herói dos X-Men, Logan não se dá ao trabalho de explicar minuciosamente o contexto no qual se passa. O público tem que deduzir e até mesmo imaginar o que terá acontecido aos outros personagens da saga e ao mundo no qual o protagonista vive.

A linha temporal totalmente confusa da franquia também não ajuda, mas Logan é um trabalho isolado. Apesar de estar conectado a seus antecessores, o foco aqui é exclusivamente a relação de Wolverine e Laura com o mundo que os cerca – e, lógico, um com o outro. É um filme forte, extremamente bonito e que será lembrado pela originalidade e ousadia com a qual foi conduzido. É realmente a história que Hugh Jackman precisava para aposentar suas garras de adamantium.


A Chegada

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Ficção científica surpreende ao se afastar de aliens e tomar rumo muito mais sensível

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Arrival
DIREÇÃO: Denis Villeneuve
DURAÇÃO: 116min
GÊNERO: Drama, Ficção, Suspense
PAÍS: EUA
ANO: 2016

5


Vez ou outra um filme de ficção científica chama a atenção durante o ano e acaba parando na lista de indicados ao Oscar de Melhor Filme. Foi assim com Perdido em Marte e Gravidade, por exemplo. O gênero, que tende a ser esquecido por muitas premiações, tem se reinventado e conquistado justamente seus votantes. Com roteiros cada vez mais desenvolvidos e efeitos especiais sempre mais inovativos, esses filmes têm apostado em sua parte dramática tanto quanto na parte ficcional, como é o caso de A Chegada.

Doze espaçonaves aparecem em pontos misteriosos ao redor do mundo, comprovando assim a existência de vida fora da terra. Para tentar fazer contato com seus tripulantes, o governo estadunidense contrata a linguista Louise Banks (Amy Adams) e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) para desvendarem o idioma dos extraterrestres, até que a missão começa a afetar as vidas pessoais dos dois.

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Como a tendência sugere, A Chegada alcançou o Oscar ao se desprender de sua face mais ficcional em direção a um arco dramático complexo e que é o verdadeiro motor da história. Muitos vão se surpreender – e até mesmo se frustrar – ao descobrir que o filme de Denis Villeneuve é qualquer coisa, menos um filme sobre aliens. O que há de mais inventivo e carismático em A Chegada é justamente a relação humana sobre a qual o filme fala.

O público é levado a acreditar que as doze naves posicionadas em cantos específicos do planeta estão ali para iniciar uma guerra, roubar recursos terráqueos ou qualquer outro objetivo mais previsível em filmes de ficção científica. Mas na verdade A Chegada é, do começo ao fim, um filme que discute o que há de mais intrínseco à raça humana. Louise Banks serve como o fio condutor para que se discuta noções exclusivamente nossas, como amor, coragem e afeição.

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Com uma linha do tempo não linear – algo que só fica claro no fim da trama – , A Chegada é um filme difícil de discutir sem entregar muito de sua história. A graça do longa está justamente nas descobertas que o público faz, todas elas chocantes e muito bem trabalhadas.

Um dos assuntos mais pertinentes para a história é a comunicação. O filme escancara como, em um mundo onde tudo é tão efêmero, violento e insensível, o simples ato de conversar pode gerar soluções e um convívio muito mais pacífico e inteligente. Em tempos de Trump, A Chegada prega temas como solidariedade e cooperação, condenando o egoísmo e a concorrência que marcam o mundo capitalista atual. O próprio filme se comunica com seu público de uma maneira diferente.

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É essa parte humana que faz de A Chegada uma ficção científica diferente. O roteiro faz com que o público reflita sobre diversos temas enquanto busca entender também sua complexa trama. A mensagem que fica é a de que, afinal, devemos viver com medo de nos arriscarmos, de sermos felizes? Ou devemos nos jogar nos acontecimentos, “colher o dia”? É uma temática bonita, extremamente delicada, que é positiva, apesar de um final que parece – mas de maneira alguma é – infeliz. A vida é feita de momentos, de lembranças.

A Chegada é ambição do começo ao fim. Denis Villeneuve faz um belíssimo trabalho de direção, enquanto Amy Adams brilha ao dar vida a uma história tão misteriosa. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas merece ser condenada para todo o sempre por não ter indicado a atriz ao Oscar. É sem dúvida uma das melhores atuações do ano e uma das maiores da carreira de Amy Adams, que já é repleta de performances de tirar o fôlego, apesar de nunca ter sido reconhecida com a estatueta dourada de Hollywood. É, no mínimo, vergonhoso não vê-la indicada.

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Ao entregar o jogo de sua trama, Villeneuve faz com que o público sinta uma verdadeira confusão de emoções. Seu existencialismo aborda temas muito mais pertinentes para o agora do que para a origem ou o pós-vida. Nem por isso o filme deixa de ter tensão. Se há uma coisa presente do começo ao fim em A Chegada, ela é justamente o suspense e a incerteza.

Arrival surpreende por ser um dos filmes mais humanos dos últimos tempos. Ao fim da sessão, somos atingidos por um sentimento de, primeiro, incompreensão, segundo, emoção, para, enfim, sermos inspirados pela beleza por trás de uma aparente invasão alienígena. É um filme carregado de interpretações e significados, abordando sua narrativa de uma maneira sensível, sutil e muito emocionante.


Moonlight – Sob a Luz do Luar

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Poeticidade e leveza marcam história sobre ambiente violento e marginalizado

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Moonlight
DIREÇÃO: Barry Jenkins
DURAÇÃO: 111min
GÊNERO: Drama
PAÍS: EUA
ANO: 2016
4

A disputa pela estatueta mais cobiçada de Hollywood está acirrada. Manchester à Beira-Mar esteve forte até pouco tempo, mas a briga acabou ficando entre o escapismo e delicadeza de La La Land e a atualidade e política por trás de Moonlight. Na era de Trump, fica difícil saber quem será o escolhido para receber o Oscar de Melhor Filme, mas os candidatos deste ano estão equilibrados, provando que houve uma ótima safra de produções em 2016.

Moonlight acompanha a vida de um jovem negro, homossexual, da periferia de Miami. De sua infância até os primeiros anos como adulto, Chiron (Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes) luta contra um ambiente violento, preconceituoso e marginalizado, buscando sua própria identidade enquanto tem sua vida tocada pelos mais variados incidentes e pessoas.

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Não há filme mais importante na temporada de premiações do que Moonlight. Uma obra extremamente política, o longa discute questões bastante pertinentes, mas que ainda precisam de visibilidade. Enquanto reflexo de seu tempo e força-motor para mudanças, Moonlight é impecável. Ao tratar de assuntos tão problemáticos, mas que ainda precisam de atenção – da questão racial à sexualidade, do bullying às drogas – , Barry Jenkins escancara uma realidade sofrida, mas indiscutivelmente atual.

Apesar de todo o horror do contexto no qual Chiron vive, Barry Jenkins consegue, com maestria, tornar sua jornada extremamente delicada. O que o diretor faz com Moonlight é algo difícil e arriscado: ele torna prazerosa a experiência de assistir a um filme com discussões pesadas, e nem por isso faz com que seu público deixe de refletir e se revoltar com uma história que nada mais é do que um espelho da atualidade. Se existe algo que se sobressai no longa, é sem dúvida a visão e o cuidado de Jenkins.

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O leque de assuntos debatidos em Sob a Luz do Luar é gigantesco. De temáticas mais frequentes no cinema atual, como a questão racial, a outras menos abordadas, o filme dá conta de promover reflexões profundas e inteligentes, integrando-as à sua narrativa com perfeição. Mas o tema que se sobressai talvez seja a masculinidade. Moonlight expõe o qual frágil e ultrapassada essa noção é. Não somente devido à homossexualidade de seu protagonista, mas por todo o ambiente agressivo e autoritário no qual todas as personagens estão inseridas, sejam elas homens ou mulheres, adultos ou crianças, hétero ou homossexuais.

Enquanto isso, Moonlight conta com um ótimo elenco. Os três atores que interpretam Chiron são bons, mas suas atuações nem se comparam ao maravilhoso grupo de coadjuvantes formado por Mahershala Ali, Janelle Monáe e Naomie Harris.

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O primeiro tem pouco tempo de tela – pouco demais – , mas consegue entregar uma performance cativante como figura paterna do protagonista. Janelle, por sua vez, saiu do mundo da música para brilhar também nas telas e está encantadora como Teresa. Já Naomie escancara uma realidade deprimente, como a mãe viciada em crack de Chiron. É uma atuação completa e tocante, que merece muito mais atenção do que a que tem recebido.

Tecnicamente o filme também não deixa nada a desejar. Sua trilha sonora é incisiva, original e sabe alternar com precisão entre os momentos de leveza e de peso do roteiro de Moonlight. Já a fotografia, acompanhada por uma paleta de cores muito bem pensada, é responsável por imagens equilibradas, mas que também são capazes de passar a tranquilidade e a euforia, conforme esses dois elementos são necessários para a trama.

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Moonlight sofre um pouco por causa de seu roteiro. Ele é ousado, importante e original, mas ao se preocupar demasiadamente com suas nuances políticas, acaba negligenciando um pouco a narrativa. O problema não está no final abrupto – esta é uma das grandes sacadas do filme – , mas em pequenos detalhes no decorrer da trama.

Muitos pontos ficam soltos no roteiro. O Juan de Mahershala Ali, tão importante no primeiro ato, some misteriosamente. É fato que tornar o fim da personagem algo expositivo e visual comprometeria a delicadeza da trama, mas falta espaço para o desenvolvimento de Juan. O mesmo vale para Paula, mãe de Chiron, que vai do (quase) céu ao inferno de maneira muito súbita.

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É curioso pensar nesses pontos como problemas, já que grande parte da originalidade de Moonlight se deve à falta de cenas explicativas demais. É interessante ver como a história consegue se manter forte sem precisar expor tudo o que acontece na vida de Chiron, deixando muitas passagens subentendidas. Ainda assim, alguns ajustes seriam bem-vindos.

Moonlight é um filme extremamente necessário, que não compromete a beleza de sua história ao passar para o público suas ideias. Há questionamento e debate em todos os momentos, mas de forma extremamente sutil e não por isso menos eficiente. Muito bem executado e politizado na medida certa, Sob a Luz do Luar é um filme que fica fresco na memória e, da mesma forma, entra para a história do cinema por sua narrativa cativante e ao mesmo tempo revolucionária.


Lion: Uma Jornada Para Casa

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Sentimentalismo atrapalha roteiro de filme inspirado em história real

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Lion
DIREÇÃO: Garth Davis
DURAÇÃO: 118min
GÊNERO: Drama
PAÍS: Austrália, EUA, Reino Unido
ANO: 2016
3

Histórias de superação inspiradas em fatos reais muitas vezes são sucesso de público. Vez ou outra, uma delas se destaca também na temporada de premiações. Seguindo os passos de filmes como Filomena, indicado ao Oscar em 2014, Lion é um filme bem feito, mas que parece deslocado na categoria de Melhor Filme da Academia. Apoiado em atuações fortes, é o tipo de longa que sensibiliza o público, mas não tem nada de muito novo a oferecer.

Aos cinco anos de idade, Saroo (Sunny Pawar e Dev Patel) se perde de seu irmão mais velho nas ruas de Calcutá, na Índia. Longe de casa e sem saber o idioma local, o menino vai parar em um abrigo para crianças de rua, e mais tarde é adotado por John (David Wenham) e Sue Brierley (Nicole Kidman), um casal australiano. Depois de 25 anos, Saroo decide que é hora de procurar sua família indiana.

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Lion é o tipo de filme que aposta pesado no melodrama. Não podia ser diferente, afinal, sua trama é movida a sentimento do começo ao fim. Ao contrário de muitas histórias que fazem do sentimentalismo algo totalmente negativo, porém, Uma Jornada Para Casa consegue fugir de alguns clichês do subgênero, sendo bastante interessante em certos momentos.

Mesmo assim, o diretor estreante Garth Davis pesa a mão em certos aspectos do filme. Ao dedicar espaço demais ao sentimentalismo, acaba comprometendo outros pontos do roteiro, que são sub-explorados.

Lion pode ser dividido em duas partes: a infância de Saroo e sua vida adulta, quando o personagem de Dev Patel parte em busca de sua família biológica. Na primeira delas, a abordagem do filme é bastante lenta se comparada à segunda metade. Isso permite ao diretor explorar com maestria o medo, o abandono e os perigos pelos quais seu protagonista, ainda criança, passa. O público fica facilmente aflito ao acompanhar o jovem Saroo pelas ruas de Calcutá, sozinho e conhecendo um mundo muito mais oportunista do que ele jamais poderia imaginar.

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É na segunda metade de Lion que a trama começa a perder força. A narrativa passa muito rapidamente, deixando várias pontas do roteiro soltas. É nítido que seu elenco se esforça para acompanhar o que acontece na tela, tentando deixar também o público inteirado dos problemas que martelam a cabeça de Saroo. Mas nem os talentos de Nicole Kidman são capazes de ajudar, enquanto Davis parece perder as rédeas de seu próprio filme.

Em determinada cena, Saroo é um jovem estudante, apaixonado pela colega Lucy (Rooney Mara) – uma personagem porcamente explorada – , até que experimenta um prato indiano que o faz lembrar da família perdida há 25 anos. A partir daí, a vida do protagonista muda radicalmente e sem qualquer sutileza. Na cena seguinte, ele rompe seu relacionamento. Depois, briga com a família. Pede demissão. Se isola de todos.

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Isso por causa de sua obsessão em achar o endereço onde se perdeu usando uma plataforma do Google. Há potencial na premissa, mas tudo ocorre tão rápido e com tão pouca explicação e cuidado, que o público se perde em uma história antes tão profunda e agora tão rasa.

Por outro lado, essa segunda metade do filme é interrompida em momentos cruciais pelos devaneios de Dev Patel, que passa a se sentir deslocado. Afinal, ele ainda é aquela criança pobre indiana ou se transformou totalmente em um estudante australiano cheio de potencial?

São essas reflexões entre vida passada e vida presente que mantém o filme funcionando. Existe uma discussão sobre sua identidade que é bem feita. Em determinada cena, Saroo diz a colegas que é australiano. Quando eles ficam surpresos, ele muda e diz que é indiano, mas sem muita convicção quanto à sua real origem.

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Apesar do sentimentalismo ser seu principal motor, ele compromete o clímax de Lion. Durante todo o filme, o público espera ansioso pelo reencontro de Saroo com sua família biológica. Quando ele finalmente chega, porém, a cena parece um tanto contida. Isso não seria problema, caso Lion não criasse para si próprio a tarefa de emocionar seu público exageradamente.

O que há de realmente precioso no longa, além da ótima fotografia, é seu elenco. Nicole Kidman está irreconhecível, abalando o público como a mãe adotiva de Saroo. Rooney Mara, apesar de pouco explorada, adiciona graça e leveza ao filme. O jovem Sunny Pawar surpreende, assim como Dev Patel, que entrega uma performance esforçada, emocionante e muito convincente. Mal parece o adolescente que surgiu nas telas no controverso seriado britânico Skins.

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Lion é um filme light, que apesar do tema choroso, não vai a fundo nas discussões que se propõe a fazer. O reencontro entre Saroo e sua família, mais uma vez, é problemático ao se reduzir a abraços e lágrimas. Não é mostrada qualquer conversa substancial entre ele e os parentes indianos, o que dá a sensação de que Davis fugiu de debates importantes que poderiam ser feitos.

O filme realmente peca por essa ausência de ousadia, de inventividade. Acaba caindo em um lugar comum, sendo somente mais um longa de auto-descoberta. As incertezas e aflições que certamente encheram a cabeça do Saroo da vida real são poupadas nessa versão dramatizada, o que é uma pena. Lion funciona muito bem como um entretenimento pautado na emoção, mas há potencial em sua história para algo mais.


Jackie

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Natalie Portman discute luto e legado em performance memorável

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Jackie
DIREÇÃO: Pablo Larraín
DURAÇÃO: 100min
GÊNERO: Drama
PAÍS: EUA, Chile, França
ANO: 2016

5


Os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas adoram atores que encarnam personagens históricas – principalmente se forem bastiões da cultura norte-americana. Daniel Day-Lewis levou seu último Oscar graças a seu papel como Abraham Lincoln, e Meryl Streep pela performance como a britânica Margaret Thatcher. Agora é a vez da já oscarizada Natalie Portman calçar os sapatos de uma das figuras mais icônicas do último século, Jacqueline Kennedy, papel que a rendeu mais uma indicação à estatueta de ouro.

Após o trágico assassinato do presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy (Caspar Phillipson), a então primeira-dama Jacqueline Kennedy (Natalie Portman) trava uma batalha com a classe política e consigo mesma, oscilando entre luto e fé, na tentativa de preservar o legado de seu marido.

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Assim como seu companheiro de Oscar Manchester à Beira-Mar, Jackie é um filme que lida com o luto, embora de uma perspectiva diferente. A biografia está centrada no morto, ao contrário de Manchester. Jacqueline conduz a narrativa, mas sua dor e preocupações estão estritamente conectados ao falecido marido. O que está em jogo em Jackie é o que sobra de Kennedy após sua morte.

Lento, Jackie abre portas para diversas reflexões. A que está mais presente é aquela relacionada ao legado. O que será de nós e daquilo que fizemos em vida depois que morrermos? Essa é uma das questões que martelam a cabeça da protagonista, que quer ver seu marido sendo lembrado pelo mundo não como um presidente qualquer, mas com toda a glória que ela acredita merecer.

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Jacqueline acaba decidindo que um grande funeral, que chame a atenção do mundo, é o caminho mais fácil para preservar o legado de John F. Kennedy, e precisa batalhar com a classe política ao seu redor para garantir a grandiosidade do evento – mesmo que isso inclua colocar não somente ela em risco, mas também líderes mundiais e até mesmo seus filhos.

Jackie discute a efemeridade da vida. Não da maneira simplista que a frase sugere, mas de uma forma muito mais complexa. Pouco importa o que será de seu futuro ou do futuro de seu país. As energias de Jacqueline estão totalmente concentradas no show que deveria se tornar o funeral do marido, feito à imagem do de Abraham Lincoln, para, quem sabe dessa forma, Kennedy ser igualmente alçado ao status de um dos maiores líderes da nação.

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Apesar de se tratar de uma figura pública e mundialmente conhecida, Pablo Larraín dirige um filme bastante intimista. O espectador é colocado dentro da cabeça de Jacqueline e, em todos os momentos de solidão da protagonista, se sensibiliza, se solidariza e até mesmo se incomoda com o que vê.

Das lembranças ressuscitadas por Jacqueline até os momentos em que ela esfrega, desesperadamente, o sangue já seco de suas roupas após o assassinato do marido, o espectador tem a sensação de estar vivenciando aquele turbilhão de emoções junto com ela. Da mesma forma que a personagem oscila em relação à sua fé, o público também questiona o que fazer frente a tamanha tragédia.

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A fotografia e a trilha sonora contribuem para o sentimento de intimidade. Várias imagens de Jackie propiciam um retrato solitário de Jacqueline, vagando sozinha pela opulência dos cômodos da Casa Branca, enquanto a música de Mica Levi é reducionista, servindo como um necessário apoio para os sentimentos que o filme busca passar. Ela invade o individualismo e o sofrimento da protagonista de forma bastante pontual e eficiente.

Com uma performance visceral, sensível e extremamente forte, Natalie Portman é a chave para o sucesso de Jackie. Se no primeiro momento sua performance parece caricatural demais, seguindo à risca os maneirismos de Jacqueline Kennedy, ao longo do filme fica claro que o realismo da atuação é essencial para mergulhar na cabeça da personagem. Portman entrega um trabalho memorável e é razoável dizer que, não fosse por seu talento, o filme não funcionaria tão bem ou nem mesmo seria fácil de ser assistido.

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Há certa artificialidade em Jackie, mas isso não serve como ponto negativo, como seria em muitas outras biografias. Essa característica funciona muito bem nesse caso justamente pelo que o filme se propõe a discutir. As aparências que Jacqueline precisa manter e até mesmo a grandiosidade que ela quer para o funeral do marido jogam com essa questão, tornando a artificialidade outro tema dissecado pelo roteiro de Noah Oppenheim.

O sentimento que fica ao fim de Jackie é o de perda. Assim como o assassinato de John F. Kennedy é lembrado como o fim de uma possível era de ouro para os Estados Unidos, graças ao modernismo não somente do presidente, mas, claro, também de sua esposa, Jackie deixa uma mensagem de desilusão e incerteza em relação à morte e o que vem depois dela. É um filme ousado e de uma qualidade absurda.


Até o Último Homem

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Mel Gibson volta à direção com ótimo drama de guerra

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Hacksaw Ridge
DIREÇÃO: Mel Gibson
DURAÇÃO: 139min
GÊNERO: Drama, Ação
PAÍS: EUA, Austrália
ANO: 2016
4

Mel Gibson já era um ator renomado antes de conseguir seu primeiro Oscar, em 1996. O prêmio, porém, não foi o de Melhor Ator, mas pela direção e produção de Coração Valente, que Gibson também protagonizou. Seu último trabalho como diretor foi em 2006, em Apocalypto. Uma década depois, o estadunidense retorna à cadeira de direção e, mais uma vez, é aplaudido pelos membros da Academia, que indicaram Até o Último Homem para seis Oscar.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o médico de combate Desmond Doss (Andrew Garfield) se recusa a carregar armas e precisa convencer o exército estadunidense que seus ideais não permitem que ele mate, nem mesmo no campo de batalha.

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Dramas de guerra tendem a agradar todo o tipo de público – eles misturam drama, ação e, em alguns casos, até mesmo romance. Mas isso não quer dizer que todos eles são substanciais. Muitos diretores confiam cegamente na tragicidade inerente à guerra, sem a preocupação de desenvolver uma história realmente interessante para sustentar um filme desses – como aconteceu com Invencível, de Angelina Jolie.

Outros, como A Lista de Schindler e Apocalypse Now, esses sim verdadeiras obras-primas, usam a guerra como meio para compartilhar história emocionantes, inspiradoras e até mesmo universais. Esse é o caso de Até o Último Homem, que tem uma narrativa interessante e que vai muito mais além do campo de batalha.

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O longa de Mel Gibson debate temas importantes e que impactam qualquer indivíduo. Muito mais que um filme de guerra, Até o Último Homem fala sobre até onde alguém está disposto a ir para seguir seus ideais. Desmond Doss é humilhado, apanha, vai preso e quase morre na batalha de Okinawa, mas se mantém fiel à sua crença de não-violência.

Apesar do patriotismo exagerado, Até o Último Homem é bastante diversificado, aplicando sua mensagem não somente ao contexto cultural norte-americano. Em determinada cena – muito bem editada, por sinal – , enquanto Doss salva seus colegas no campo de batalha, um comandante japonês comete o seppuku, um ritual suicida destinado àqueles que falham com seus deveres. É a premissa de não trair seus ideais, um tema comum a qualquer cultura.

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Até o Último Homem também comete deslizes. Além do nacionalismo, outro problema é a incerteza quanto ao seu posicionamento em relação à guerra. O filme parece ter uma mensagem anti-violência, mas às vezes parece flertar com o belicismo tão típico dos estadunidenses.

A personagem de Garfield é justamente um contraponto à cultura militarista que sempre tomou conta do mundo, mas acaba sendo papel do público interpretar se o filme realmente acredita no pacifismo de Doss.

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Andrew Garfield, por sua vez, está excelente. É uma das maiores surpresas do filme, com uma performance profunda, extremamente convincente e cativante. O último intérprete de homem-aranha deixa o universo dos quadrinhos e mergulha de cabeça em um drama difícil, que se apoia inteiramente em seu protagonista. Garfield carrega o filme com naturalidade e entrega um dos melhores trabalhos de atuação do ano.

Mel Gibson acertou em Até o Último Homem. Não exagera no sentimentalismo – como o material que serve de base para o filme sugere – e é movido não somente por um drama interessante, mas também por ótimas cenas de ação, capazes de emocionar e causar suspense. É um longa que faz refletir, agradando qualquer um, com uma narrativa rica, comovente e muito bem explorada.


Manchester à Beira-Mar

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Elenco brilha em drama devastador sobre dor e perda

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Manchester by the Sea
DIREÇÃO: Kenneth Lonergan
DURAÇÃO: 137min
GÊNERO: Drama
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2016

5


A Amazon deixou a Netflix para trás e se tornou, nesta terça-feira, o primeiro serviço de streaming a emplacar uma produção na corrida pelo Oscar de Melhor Filme. Ainda é difícil saber se a empresa tem chances de levar a estatueta – a disputa está extremamente acirrada, e Manchester à Beira-Mar tem La La Land e Moonlight para derrotar se quiser receber a honraria máxima do cinema hollywoodiano. Mas qualidade e força são duas coisas que não faltam para o filme, que ainda pode surpreender.

Após a morte de seu irmão Joe (Kyle Chandler), Lee Chandler (Casey Affleck) precisa voltar para a cidade de Manchester para cuidar de seu sobrinho, Patrick (Lucas Hedges). Antes, ele precisará enfrentar seu próprio passado.

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Manchester à Beira-Mar é um filme simples. Ele se resume a um grande elenco dando vida a uma história cheia de potencial. Não há nada de espetacular em seu design, fotografia ou trilha sonora. Todas as suas energias estão direcionadas para a narrativa, o que acaba resultando em uma direção e atuações totalmente comprometidas com a carga dramática do filme, o que a potencializa.

Lidando com temas sensíveis, mas de maneira extremamente profunda e séria, Manchester à Beira-Mar se propõe a discutir os motivos e consequências para a dor, enquanto tece um bonito e devastador retrato sobre perda. É interessante descobrir, aos poucos, o passado de Lee e entender os motivos pelos quais ele é, à primeira vista, uma personagem tão antipática. Gradualmente, o público se desarma, e quando menos espera, já faz parte da montanha-russa emocional pela qual Lee passa, compreendendo e se solidarizando.

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Ancorado em atuações ao mesmo tempo sensíveis e arrebatadoras, Manchester à Beira-Mar é um filme de diálogos. Graças a um elenco formidável, o filme funciona muito bem. Casey Affleck é capaz de transpor toda a dor e solidão de sua personagem com naturalidade. Michelle Williams, apesar do (infelizmente) curto tempo de tela, entrega uma performance visceral, que faz o público refletir sobre as escolhas de sua personagem. Lucas Hedges concilia a jovialidade com o peso de seu papel com perfeição.

É graças à ótima sincronia em tela que as personagens de Manchester à Beira-Mar são capazes de alcançar os objetivos do filme. A partir de um roteiro intimista, Kenneth Lonergan consegue universalizar a discussão em torno do significado do luto, tornando os problemas que suas personagens enfrentam fortes e realistas o bastante para proporem um debate também fora das telas.

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Manchester à Beira-Mar não é um filme para qualquer um. Sua temática forte pode se tornar não enfadonha, mas exageradamente pesada para algumas audiências. Nem por isso deixa de ser um filme excelente, ao mesmo tempo forte e sutil, com um final que não cerceia a discussão do público. É um longa que demora para ser digerido, mas depois do sentimento de desesperança deixado ao seu fim, Manchester à Beira-Mar cresce o suficiente para se tornar um filme memorável, muito bem executado e interessante.