Guardiões da Galáxia Vol. 2

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Trama espacial continua sendo o que há de mais criativo na Marvel

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Guardians of the Galaxy Vol. 2
DIREÇÃO: James Gunn
DURAÇÃO: 136min
GÊNERO: Ação, Aventura, Ficção, Comédia
PAÍS: EUA
ANO: 2017
4

Fugindo de uma fórmula segura e já cansativa seguida pela Disney desde que assumiu o controle da Marvel, Guardiões da Galáxia inovou e surpreendeu quando foi lançado em 2014. Não à toa, sua sequência gerou grande expectativa entre os fãs e, por sorte, não decepcionou, investindo significativamente em um roteiro cada vez mais bem-humorado e driblando o politicamente correto tão entediante do mundo dos heróis.

Depois de salvarem a galáxia e se firmarem como anti-heróis, Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Groot (Vin Diesel) embarcam em uma missão que levará o Senhor das Estrelas (ou Star-Lord) a descobrir a verdade sobre seus pais.

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Dar continuidade a um filme que recebeu um mar de elogios não somente dos fãs da Marvel, mas também da crítica e daqueles que torcem o nariz para a maioria das tramas de heróis é uma tarefa difícil. Por sorte, James Gunn, diretor do primeiro Guardiões da Galáxia, encabeçou também sua sequência e manteve o ritmo e o tom já vistos nas telonas em 2014. Dessa forma, a margem para erro era pequena – mas ainda assim possível.

Se o primeiro Guardiões se encarregou de introduzir o quinteto de criminosos formado pelos protagonistas, seu segundo volume retorna ao passado de Peter Quill, explorando suas origens metade terráqueas e resolvendo também um mistério criado no desfecho do filme anterior. A trama é interessante e não tende ao sentimentalismo, como muitas histórias de origem, mas peca por pequenos detalhes.

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Falta lapidar o roteiro de Guardiões. Sua primeira parte e o clímax são ótimos, mas seu terceiro ato deixa a desejar. O desfecho encontrado para o problema que acomete a equipe de anti-heróis não convence e é resolvido de forma muito simples se considerado o tamanho da ameaça. Pequenas mudanças fariam bem à história.

O que realmente importa em Guardiões, porém, são os meios, não o fim. A abordagem das aventuras de Peter Quill é o que fez com que seu primeiro filme se destacasse. Mais uma vez, é a maneira como tudo é mostrado que faz também desta sequência um diferencial em meio ao super-explorado mundo dos heróis.

Com muito bom humor, o segundo volume de Guardiões conta sua história com um visual colorido, uma trilha sonora dançante e piadas que passam despercebidas pelas crianças, mas não por seus pais. É um filme hilário, com sequências de comédia muito bem planejadas e que superam seu antecessor. James Gunn pode até achar algumas cenas mais engraçadas do que realmente são, mas isso é compensado por vários momentos de um humor bobo, mas que arranca risadas sem grande esforço.

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Todas as personagens têm uma personalidade própria, bastante distinta, que contribui para a harmonia do filme. Neste volume, o público ainda passa mais tempo com a versão baby de Groot, responsável por momentos de fofura aliados às trapalhadas da planta. Também é introduzido um planeta “coxinha”, marcado por uma ideologia fascista e por um complexo de superioridade que rende cenas de chacota geniais. Por fim, conhecemos também Mantis (Pom Klementieff), responsável por alguns dos melhores momentos da trama. Ela e Drax têm uma estranha e errada química, que funciona maravilhosamente bem.

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Mais uma vez, Guardiões se destaca porque gira em torno de anti-heróis, criminosos que aparentam ter se regenerado, mas que continuam narcisistas e ambiciosos. Algumas de suas piadas, inclusive, escancaram o quão patéticas suas personagens podem ser, apelando a comentários mais adultos e a um sentimentalismo pautado por uma atmosfera de intriga para tornar a história mais madura e envolvente.

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É ótimo ter um filme como esse para dar um alívio da ideia de bom moço dos filmes de heróis, onde protagonistas como Capitão América causam exaustão por serem perfeitos e politicamente corretos demais. A Marvel está tentando fugir desse padrão, mas ainda recorre a ele como uma aposta segura para suas tramas.

Com efeitos especiais de tirar o fôlego, um design criativo, ótimas atuações e um timing cômico ímpar, Guardiões da Galáxia ainda representa o que há de melhor em seu subgênero. Existe um universo de possibilidades imenso à frente dos anti-heróis, que podem até ter suas aventuras encerradas com um terceiro filme, mas que já deixam um ótimo legado para o que está por vir na Marvel e até na DC.


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Caça-Fantasmas

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Clássico dos anos 80 ganha versão feminista e cheia de humor

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Ghostbusters
DIREÇÃO: Paul Feig
DURAÇÃO: 116min
GÊNERO: Comédia, Fantasia
PAÍS: EUA
ANO: 2016
3

Diversos estúdios cinematográficos começaram a apostar na nostalgia como uma fonte de renda lucrativa. Enquanto a Disney traduz seus clássicos animados para o live-action (como Cinderela e Mogli) e dá continuidade ao universo de Star Wars, outras companhias buscam ressuscitar antigas histórias, não somente dando continuidade às suas personagens, como também reaproveitando seus universos. É o caso de Jurassic Park e também de Caça-Fantasmas, duas franquias que criaram legiões de fãs e surgiram como apostas seguras na cota de blockbusters de seus estúdios.

Em Caça-Fantasmas, um grupo de cientistas que pesquisa o sobrenatural decide fundar uma empresa especializada no extermínio de fantasmas. Na nova versão, dirigida por Paul Feig, as amigas Erin Gilbert (Kristen Wiig) e Abby Yates (Melissa McCarthy) são as responsáveis por formar o grupo, depois de esbarrarem em um espírito. Com a ajuda da inventora Jillian Holtzmann (Kate McKinnon) e da antiga funcionária do metrô Patty Tolan (Leslie Jones), elas precisam parar uma ameaça sobrenatural na cidade de Nova York.

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A trama sem dúvida traz o filme original, lançado em 1984, à mente. Isso porque as histórias são extremamente parecidas. Diferente de Jurassic World, que continua a narrativa da trilogia Jurassic Park, o novo Caça-Fantasmas ignora seus dois capítulos originais. O filme acompanha uma nova equipe de caçadoras sobrenaturais, sem conexão com aquela formada por Bill Murray, Dan Aykroyd, Harold Ramis e Ernie Hudson.

Essa característica tanto ajuda quanto atrapalha nessa retomada da clássica franquia de comédia. Se por um lado Paul Feig consegue um leque muito mais amplo de possibilidades para suas personagens, por outro o roteiro deste Caça-Fantasmas exagera ao se espelhar em seu antecessor. A trama, além de parecida, não decide se quer prestar uma homenagem ao filme original ou criar algo inteiramente novo a partir dele.

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Ao contar com o sentimento de nostalgia do público, Paul Feig não se preocupa com alguns detalhes de seu filme: seu vilão tem uma motivação fraca, enquanto a solução para derrota-lo é pitoresca demais. Enquanto isso, alguns dos “easter eggs” do longa-metragem forçam a barra. A aparição dos ghostbusters originais ao longo da trama é divertida, mas alguns elementos de 1984 ficam perdidos na história, como é o caso do fantasma Slimer e do homem marshmallow Stay Puft. Ambos parecem cair de paraquedas no filme e, apesar de ganharem destaque na tela, não acrescentam nada à trama.

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O grande trunfo deste novo Caça-Fantasmas, porém, é a maneira como zomba de si próprio por meio de suas quatro protagonistas feministas. Se o filme de 1984 tratava as mulheres como elementos periféricos, aqui temos uma inversão de valores: o girl power se manifesta com brilhantismo e rege a trama do começo ao fim. Muitas das piadas se apoiam justamente nesse empoderamento feminino e, ao mesmo tempo, a franquia conta com a forte personalidade das caça-fantasmas para se reinventar.

Talvez até mais capaz de arrancar risadas do público do que o original de 1984, Caça-Fantasmas tem a seu favor um roteiro afiado e um elenco de ponta. Wiig, McCarthy, McKinnon e Jones têm um timing cômico perfeito e se complementam muito bem. Praticamente não há personagens principais e secundárias na equipe, como acontecia no original, e isso graças ao talento de suas atrizes e às suas personalidades, ao mesmo tempo distintas e marcantes.

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Não pode passar batida a atuação de Chris Hemsworth como o hilário Kevin. Uma clara provocação ao papel normalmente destinado às mulheres nos filmes de grande orçamento do passado, sua personagem é atraente e simpática, mas extremamente burra. A excelente performance de Hemsworth como o secretário tapado é uma das principais fontes de humor do filme e, aliado à engenhosidade das quatro atrizes principais, garante alguns dos melhores momentos de toda a franquia paranormal.

Caça-Fantasmas está longe da perfeição e poderia estar mais atento aos detalhes de seu roteiro, mas, no geral, cumpre o prometido. Paul Feig entrega uma comédia divertidíssima, equilibrando piadas no melhor estilo pastelão a outras mais refinadas e inteligentes. É o tipo de humor voltado para toda a família e certamente deixaria o quarteto fantasmagórico original orgulhoso. Acaba sendo uma ótima maneira de manter a memória do clássico da década de 80 viva.


Ave, César!

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Risada é garantida em filme ambientado na Hollywood dos anos 50

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Hail, Caesar!
DIREÇÃO: Ethan Coen & Joel Coen
DURAÇÃO: 106min
GÊNERO: Comédia
PAÍS: Reino Unido, EUA
ANO: 2016

5


A comédia é um dos gêneros mais difíceis de se fazer, mas foi graças a ela que os irmãos Coen fizeram seu nome em Hollywood. Por meio dos bem sucedidos Fargo e O Grande Lebowski, eles criaram uma marca na indústria e, agora, retornam à comédia com Ave, César!, filme que acerta em todos os momentos e é sem dúvida um dos lançamentos mais engraçados dos últimos anos.

Durante a década de 50, Eddie Mannix (Josh Brolin), um executivo de Hollywood, precisa solucionar os problemas e escândalos gerados pelas estrelas de seu estúdio para manter a boa imagem da indústria cinematográfica. Entre atores de talento duvidoso, como Hobie Doyle (Alden Ehrenreich), e atrizes que colecionam casamentos, como DeeAnna Moran (Scarlett Johansson), Eddie precisa encontrar Baird Whitlock (George Clooney), astro envolvido em uma produção caríssima, mas que desaparece no meio das gravações.

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Ave, César! é o tipo de filme recheado de bons momentos. Você sai da sessão e tem vontade de rever várias de suas cenas, seja pela piada, pela desenvoltura do elenco ou por ambos, como é o caso do ótimo número musical protagonizado por Channing Tatum. O longa é completo, apresentando desde o humor escrachado até aquele mais sutil.

Ao mesmo tempo em que faz rir, a trama se preocupa em dar um recado: não confie nas instituições. O roteiro debocha da constante necessidade humana de criar “clubes” para reunir seus similares. Faz isso por meio de suas críticas políticas e religiosas, que destroem de comunistas a capitalistas e de ateus a muçulmanos. Tudo isso, claro, de forma muito bem humorada. Ave, César! apresenta uma história aparentemente descomprometida, mas que se propõe a desconstruir toda a nossa sociedade.

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O novo filme dos irmãos Coen ainda é uma paródia brilhante dos anos dourados de Hollywood. Da latina Carlotta Valdez (Veronica Osorio), que brinca com a personagem de Carmen Miranda, até o diretor inglês Laurence Laurentz (Ralph Fiennes), uma clara alusão a Laurence Olivier, passando pelo auge do western com Holbie Doyle e pela caça aos comunistas que contou com a ajuda da colunista Hedda Hopper, satirizada pelas irmãs Thacker encarnadas por Tilda Swinton, há diversas menções a personagens do passado.

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Ave, César! é um ótimo exemplo do peso que o casting exerce na qualidade dos filmes. O elenco do longa conta com nomes de talento inquestionável, como Tilda Swinton, George Clooney e Ralph Fiennes, e ainda encontra nos jovens Channing Tatum, Scarlett Johansson e Alden Ehrenreich uma fonte de humor inesgotável. É um dos melhores trabalhos de elenco dos últimos anos, com todos os atores e atrizes encaixando perfeitamente no papel para o qual foram designados. Não fosse por essa sincronia perfeita existente entre os membros do elenco, talvez o longa nem causasse tantas risadas.

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Ave, César! é, resumidamente, diversão garantida. Não há chance de sair da sessão sem dar ao menos uma risada. Seus personagens são caricaturas que funcionam muito bem para contar sua história e são tão bem trabalhadas que não sofrem pela falta de profundidade dada às vidas de cada um deles. O humor, claro, é ancorado a ótimos trabalhos de direção e roteiro, e consegue surpreender o público mesmo quando os rumos da trama parecem óbvios.

Da ótima canção e coreografia interpretadas por Channing Tatum à tentativa de Alden Ehrenreich em se tornar um ator de filmes sofisticados, são várias as cenas que foram montadas de forma brilhante e fica difícil pensar em maneiras de deixar a trama melhor: ela já é perfeita. Ave, César! é uma comédia cinematográfica em sua forma mais criativa e inteligente e tem tudo para ser um dos melhores lançamentos de 2016.


Deadpool

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Filme vai na contramão do humor familiar e “certinho” da Marvel

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Deadpool
DIREÇÃO: Tim Miller
DURAÇÃO: 108min
GÊNERO: Comédia, Ação
PAÍS: EUA, Canadá
ANO: 2016
3

Quando a Marvel estava mal das perna há alguns anos, precisou vender os direitos de alguns de seus principais heróis para outros estúdios de Hollywood. É por isso que, enquanto o pessoal da iniciativa Vingadores têm seus filmes produzidos pela Disney, Homem Aranha e os X-Men são lançados pela Sony e a Fox. Com isso, acabam havendo diferenças na abordagem que cada herói recebe nas telas. Mas para algumas pessoas, essas diferenças só conseguiram ser notadas com o lançamento de Deadpool pela Fox, em um filme que recebeu classificação para maiores de 18 anos nos Estados Unidos. Politicamente incorreto, o longa vai na contramão do humor familiar adotado pela Marvel em seus anos mais recentes.

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Após ser diagnosticado com um câncer terminal, Wade (Ryan Reynolds) é selecionado para participar de uma série de experimentos que têm como objetivo despertar genes mutantes em pessoas comuns. Depois de várias sessões de tortura, Wade adquire a capacidade da regeneração e embarca em uma jornada em busca de vingança.

Os primeiros segundos de Deadpool já denunciam que ele será completamente diferente de qualquer outro filme de herói. Seus créditos de abertura, sozinhos, já valem o ingresso e deixam o público pronto para gargalhar do começo ao fim. De forma divertida e inesperada, a abertura tira sarro dos clichês desse subgênero, mas deixa claro que a trama de Deadpool não será das mais originais.

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A grande sacada está na maneira de contar a história. Por mais previsível que ela seja, o tom sarcástico distancia Deadpool de qualquer filme de herói já feito. De maneira inteligente, o personagem do título interage com o público e todo o universo exterior a seu próprio filme, fazendo pausas nas cenas de ação para também deixa-las engraçadas.

Em um dos pontos altos do longa, Deadpool brinca com as diferentes linhas temporais dos filmes dos X-Men, questionando se o atual diretor da escola de mutantes da saga é Patrick Stewart ou James McAvoy, ambos atores que viveram o Professor Xavier na franquia. Essas são as melhores piadas de Deadpool, que surgem de maneira espontânea e interagem com o público de forma divertidíssima.

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Talvez o único grande problema do longa seja justamente sua opção por seguir os clichês de seu gênero. Com exceção das sacadas de humor, a trama segue uma linha de eventos óbvia e sem originalidade. Tudo acontece no momento e da maneira que esperamos e inclui o já cansativo resgate da “donzela em apuros”.

Sofre também por focar exageradamente no herói. As outras personagens são completamente rasas, desde a namorada de Deadpool até seu rival. Seus parceiros mutantes Colossus e  Míssil Adolescente Megassônico também são pouco aproveitados e servem apenas como – mais um – alívio cômico em meio às cenas de luta e violência do filme.

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No geral, Deadpool é uma ótima comédia. Não há piada que não faça o público rir e o estilo politicamente incorreto do herói é um balde de água fria no jeitão certinho – e cansativo – de Capitão América, outro personagem dos quadrinhos que ganhará um filme em 2016. Com a abordagem mais adulta de Deadpool, a Fox abre uma nova porta para os filmes de heróis, que agora podem fugir do gênero familiar sem medo, graças ao rápido e inesperado sucesso do filme nas bilheterias.


Os Oito Odiados

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Tarantino volta para um velho oeste cheio de sangue e sarcasmo

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: The Hateful Eight
DIREÇÃO: Quentin Tarantino
DURAÇÃO: 187min
GÊNERO: Western, Comédia, Suspense
PAÍS: EUA
ANO: 2015
5

Tarantino é uma das maiores grifes do cinema atual. Com uma marca registrada – manchada de muito sangue -, o diretor sempre imprimiu em seus filmes sua personalidade bastante distinta. Com violência e humor ácido, Os Oito Odiados se junta às outras sete produções do cineasta como mais uma evidência da imaginação fértil – e ousada – do antigo balconista de locadora.

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Em meio a um inverno rigoroso no oeste dos Estados Unidos, o caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell) precisa levar a criminosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) à justiça. No caminho, ele encontra o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), seu colega de profissão, e também o futuro xerife Chris Mannix (Walton Goggins).

Presos em uma estalagem após uma tempestade de neve, o quarteto se junta aos misteriosos Oswaldo Mobray (Tim Roth), Joe Gage (Michael Madsen), General Smithers (Bruce Dern) e ao mexicano Bob (Demián Bichir).

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 O grande problema de Os Oito Odiados é sua duração. As mais de três horas de filme já assustam antes mesmo do começo da sessão. Isso faz com que a primeira metade do filme seja bem lenta. Ocupando boa parte do começo do longa, o detalhismo dos diálogos e a trilha de Ennio Morricone são excelentes, mas não evitam o cansaço.

Já a segunda parte, quando o sangue enfim começa a jorrar da tela, passa voando. O roteiro é construído com cuidado, permitindo diversas surpresas ao longo da história e, mesmo que exista um narrador um pouco deslocado ou uma personagem mal explorada, o texto é interessante e tem personalidade.

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Além da escrita de Tarantino, outro ponto forte de Os Oito Odiados é, como de praxe, o elenco. O destaque da vez não é Tim Roth ou Samuel L. Jackson – que ao lado de Bruce Dern protagoniza uma cena incômoda, cruel e muito bem conduzida. Quem rouba os holofotes é Jennifer Jason Leigh, extremamente divertida em sua encarnação da criminosa Domergue.

Ambientada poucos anos após o fim da Guerra Civil estadunidense, a trama deixa bem claro que os ânimos de sulistas e yankees continuaram à flor da pele por um bom tempo (ou seria até os dias de hoje?). Pode muito bem parecer que Tarantino está interessado unicamente na violência, mas existem reflexões interessantes e sutis sobre racismo e justiça enfiados por entre os litros de sangue que jorram do roteiro.

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No geral, Os Oito Odiados não chega ao brilhantismo de Django Livre ou Bastardos Inglórios, últimos dois longas de Tarantino. Mas, ainda assim, é muito melhor que a maioria dos lançamentos por aí. Seu estilo sangrento está presente, mas existe também uma ótima história por trás de toda a violência.

Os Oito Odiados é mais uma prova de que Tarantino continua sendo um dos melhores, com uma assinatura única, por mais politicamente incorretas que suas obras possam parecer.


A Escolha Perfeita 2

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Barden Bellas voltam mais divertidas e abrem caminho para a franquia

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Pitch Perfect 2
DIREÇÃO: Elizabeth Banks
DURAÇÃO: 115min
GÊNERO: Comédia, Musical
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2015
4

O grupo de a capella mais engraçado do cinema está de volta. Depois do sucesso do primeiro filme, A Escolha Perfeita retorna às telas em uma continuação que marca a estreia de Elizabeth Banks, que ainda interpreta Gail, na direção de um longa-metragem. Combinação entre humor e música, Pitch Perfect tem um elenco que garante risadas do começo ao fim.

Após se tornarem tricampeãs de a capella nos Estados Unidos, as Barden Bellas recebem a honra de se apresentar para o presidente, em seu aniversário. As coisas saem do controle quando Fat Amy (Rebel Wilson) fica acidentalmente nua no palco, causando a expulsão do grupo de todas as cerimônias e campeonatos dos quais fariam parte no país. Lideradas por Beca (Anna Kendrick), a equipe musical, que ainda conta com a repetente Chloe (Brittany Snow) e a novata Emily (Hailee Steinfeld), precisa vencer os alemães do Das Sound Machine no campeonato mundial para serem aceitas de volta pela associação americana de a capella.

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Assim como seu antecessor, este Escolha Perfeita sofre alguns tropeços – os clichês às vezes são muito carregados, algumas personagens são muito planas e o roteiro pega alguns atalhos por pura preguiça. De qualquer forma, a continuação cumpre a proposta de divertir e fica no mesmo patamar de seu primeiro capítulo, mantendo um nível de qualidade que esperamos ver até o fim da franquia (lembrando que um terceiro longa já tem lançamento previsto para 2017).

Se o primeiro Escolha Perfeita peca principalmente por ter vilões – Bumper (Adam DeVine) e seus Troublemakers – fracos e que são facilmente jogados para escanteio, a continuação da comédia surge com o ótimo Das Sound Machine, grupo alemão que rivaliza com as Barden Bellas. A equipe, além de funcionar muito bem como o lado antipático da trama, ainda é terreno fértil para boas sequências musicais – que são em inglês, mas fazem questão de deixar evidente um sotaque escrachado e divertido – e para algumas risadas decorrentes do constrangimento das Bellas quando estão perto dos inimigos. “Seu suor cheira como… canela!”, diz uma Beca confusa e frustrada, que não consegue caçoar da aparente perfeição das personagens germânicas.

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Kendrick está mais uma vez ótima em seu papel. Diferente do primeiro Pitch Perfect, quando precisou encarnar uma Becca rebelde e às vezes sem graça, a atriz agora protagoniza cenas engraçadíssimas, além de transbordar carisma. Banks e John Michael Higgins voltam a interpretar a dupla de apresentadores preconceituosos e, pelo incrível que pareça, conseguem se superar. Brittany Snow, Birgitte Hjort Sørensen e Flula Borg (os dois últimos do Das Sound Machine) também se saem muito bem em seus papeis cômicos, mas é Rebel Wilson que rouba a cena sempre que está presente. Suas piadas, trejeitos e até o olhar são peças chave para o sucesso de Escolha Perfeita enquanto comédia.

É uma pena, porém, vermos o potencial musical de Pitch Perfect tão pouco explorado. Faltam sequências de música e dança que realmente empolguem. As que já estão no filme são boas, mas não seria nada mal vermos um pouco mais de cantoria. Afinal, Kendrick tem uma voz bonita demais para mostrá-la tão pouco. Outro pequeno problema é a incoerência que algumas cenas têm entre si. O espectador, por exemplo, pode ficar perdido quanto às regras e à cultura do a capella.

Investindo um pouco demais na ridicularização dos clubes de canto, mas por outro lado apresentado um tipo de humor bem bolado e ao mesmo tempo escrachado, Escolha Perfeita 2 é uma ótima comédia. Ao abraçar sua condição de ‘besteirol’, o filme abre espaço para momentos que surpreendem, seja pela bonita mensagem de amizade ou pelo enfoque dado ao feminismo. As Bellas são personagens que representam muito bem um tipo de girl power jovial, carismático e divertido. É a escolha perfeita para quem quer dar boas risadas.


O Grande Hotel Budapeste

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Casamento entre cinema e arte resulta em novo filme de Wes Anderson

Por Leonardo Sanchez 
TÍTULO ORIGINAL: The Grand Budapest Hotel
DIREÇÃO: Wes Anderson
DURAÇÃO: 100min
GÊNERO: Comédia, Aventura
PAÍS: Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos
ANO: 2014
5

Quando as primeiras imagens de Grande Hotel Budapeste começaram a ser divulgadas, muita gente ficou de olho no que seria o próximo filme de Wes Anderson. Mesmo com toda aquela aparência bizarra, o estilo colorido e vintage do filme chamou atenção. Além disso, seu elenco repleto de estrelas foi outro fator essencial para fazer do longa um dos filmes mais aguardados – e curiosos – do ano.

Gustave (Ralph Fiennes) é o famoso gerente do Grande Hotel Budapeste, localizado na fictícia Zubrowka, um país no leste europeu, entre as duas guerras mundiais. Ao treinar um novo funcionário, Zero (Tony Revolori), Gustave acaba recebendo um valioso quadro que pertenceu à sua amante Madame D. (Tilda Swinton). O filho da falecida, Dmitri (Adrien Brody), se revolta com a situação e promove uma perseguição ao gerente, comandada por seu capanga Jopling (Willem Dafoe). Zero e Gustave precisam escapar das garras do ricaço enquanto traçam um retrato da Europa no período entreguerras.

O Grande Hotel Budapeste é um filme exótico. Não somente por sua história e ambientação, mas também pela parte técnica. Seu aspecto colorido, debochado e caricatural enche o filme de personalidade. A marca ‘Wes Anderson’ está nitidamente impressa em todas as cenas de seu novo longa. A parte visual é, sem dúvidas, o que chama mais atenção e o que há de mais interessante no filme.

Apesar do aspecto artístico ser o chamariz de Grande Hotel, não podemos ignorar seu roteiro. Wes Anderson criou uma história extremamente original. O diretor é capaz de compor cenas divertidíssimas a partir de elementos simples. A comicidade acompanha a obra do começo ao fim e proporciona momentos de riso mesmo nas situações que, em outros filmes, seriam dramáticas. O jeito aparentemente “bobinho” de Hotel Budapeste esconde uma história muito interessante e bem trabalhada, traçando um panorama criativo do velho continente e as mudanças pelas quais passou no começo do século passado. Os costumes e valores europeus que entraram em extinção após a Grande Guerra são retratados com desenvoltura, mesmo que tal objetivo esteja escondido atrás da estética do filme.

O elenco reune grandes nomes de Hollywood e todos, sem exceção, fazem ótimos trabalhos. Ralph Fiennes está impecável em sua interpretação de Gustave: o ator é divertido, caricato e protagoniza com maestria o longa. Adrien Brody e Willem Dafoe fazem vilões propositalmente debochados, que conferem leveza até mesmo às suas maldades. Tilda Swinton, Bill Murray, Edward Norton, Jason Schwartzman, Léa Seydoux e tantos outros estão em sintonia com a trama de Wes Anderson, sendo responsáveis por parte da beleza da produção.

Não há o que reclamar sobre o aspecto técnico do filme. Sua trilha sonora é exótica assim como Zubrowka, diferente e agradável, enquanto a fotografia é espetacular: a simetria das cenas faz com que o filme pareça uma obra de arte, fixada na parede de um museu. Figurino, cabelo e maquiagem também são ótimos, principalmente ao criar a aparência de terceira idade de Tilda Swinton. A direção de arte é espetacular, um dos melhores trabalhos já feitos nesse campo. A paleta de cores do filme é atraente e tudo o que aparece em frente da câmera é meticulosamente trabalhado para entrar em sintonia com o jeito caricatural do longa. A obra fica marcada na memória, não somente pelos elementos esteticamente fortes, mas por sua qualidade.

Grande Hotel Budapeste é uma produção alternativa, diferente de todos os outros filmes lançados ao longo do ano. Não é ousado dizer que o longa está entre os melhores trabalhos de 2014: ele é perfeito desde a concepção de sua história até a finalização de seu visual, passando pelas ótimas escolhas de elenco que Wes Anderson fez. É diversão garantida e com conteúdo. Grande Hotel Budapeste não é somente um grande filme, mas é também uma grande obra de arte.