It – A Coisa

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Adaptação da obra de Stephen King foge do terror e triunfa como filme de aventura

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: It
DIREÇÃO: Andy Muschietti
DURAÇÃO: 135min
GÊNERO: Terror, Aventura
PAÍS: EUA
ANO: 2017
4

As obras do estadunidense Stephen King já renderam várias adaptações memoráveis para o cinema. Carrie, a Estranha (1976) e O Iluminado (1980), por exemplo, são até hoje lembrados como clássicos do terror. Na televisão, a história não é diferente: o palhaço Pennywise aterrorizou muita gente na década de 1990, quando foi vivido por Tim Curry. Agora, o sádico vilão volta às telas para assustar uma nova geração, dessa vez na pele do sueco Bill Skarsgård.

Em It, pré-adolescentes que se auto-denominam o “clube dos perdedores” decidem investigar desaparições de crianças na pacata cidade de Derry. O grupo então começa a ser assombrado por um misterioso palhaço capaz de invocar seus maiores medos.

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Apesar de toda a roupagem de filme de terror, It triunfa justamente onde menos se espera: em seu lado mais aventureiro, que explora o amadurecimento dos protagonistas. A trama espelha clássicos do cinema “coming of age” —aquele que discute a passagem da infância para a vida adulta— e tem referências claras a Goonies (1985) e a E.T. (1982), por exemplo.

O que mais desperta curiosidade no longa não é a origem do macabro Pennywise, mas a maneira como o grupo de amigos precisa se unir para, juntos, contra-atacarem a criatura, em uma jornada em que enfrentam suas próprias inseguranças.

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Outro trunfo do filme é sua ambientação, mudada da década de 1950, nos livros, para a de 1980. It bebe da fonte da nostalgia —e é impossível não lembrar da série Stranger Things durante a sessão— , mas ainda assim tem personalidade própria. Referências aos filmes já citados e a tantos outros —sendo A Hora do Pesadelo (1984) talvez a mais notável— são feitas de forma sutil, deixando o saudosismo como detalhe, não permitindo que ele tome as rédeas da trama.

É dessa forma lúdica, brincando com a inocência dos protagonistas, que conhecemos o vilão da trama. Pennywise não dá medo pelos sustos, mas pela expectativa que gera, principalmente quanto às inseguranças que o palhaço explora —de forma muito inteligente, a propósito. Mesmo quando suas aparições são óbvias, é impossível não se sentir aterrorizado, graças a seu olhar sádico e irônico. É das caras e bocas do personagem que surge o único ponto de terror do filme, ancorado no incômodo que “a coisa” gera.

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Tecnicamente, o longa apresenta uma ótima reconstituição de época, com trilha sonora adequada, mas nem um pouco emblemática. A atuação dos adultos está no piloto automático —o que parece ter sido uma escolha da direção, para evidenciar ainda mais a negligência dos habitantes com a sobrenaturalidade de Derry. Em contrapartida, isso realça o trabalho das crianças, cheias de personalidade, de talento e de carisma. 

Indispensável para o funcionamento da trama, o ótimo elenco infantil apresenta personagens bem definidos, mesmo que alguns sejam pouco explorados. O hipocondríaco Eddie (Jack Dylan Grazer) diverte com naturalidade, enquanto Richie (Finn Wolfhard, de Stranger Things) gera desconforto com suas piadas sujas, mas que são aproveitadas de maneira certeira.

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Beverly (Sophia Lillis) dá ares de feminismo ao roteiro como a única garota do grupo e seus interesses amorosos, Bill (Jaeden Lieberher) e Ben (Jeremy Ray Taylor), são extremamente simpáticos graças à inocência que transmitem.

It pode ser uma frustração para quem está em busca de sustos. Mas, se a visita ao cinema for feita de forma despretensiosa, o filme pode se tornar uma ótima surpresa, como foi o caso de Invocação do Mal em 2013, outro longa que triunfa muito mais pelo clima de mistério e incerteza do que pelo terror em si. A adaptação do clássico de Stephen King é uma ótima fábula adolescente sobre amadurecimento, companheirismo e insegurança, e nem por isso deixa de atingir todos os tipos de público. Tem pitadas muito bem dosadas de perversidade, que o tornam uma ótima experiência cinematográfica.


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Homem-Aranha: De Volta ao Lar

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Marvel coloca ordem na casa depois de seis filmes do heróis em 15 anos

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Spider-Man: Homecoming
DIREÇÃO: Jon Watts
DURAÇÃO: 133min
GÊNERO: Ação, Aventura
PAÍS: EUA
ANO: 2017
4
 

Em apenas 15 anos, Homem-Aranha protagonizou seis filmes – e ainda fez uma participação especial em Capitão América: Guerra Civil. Mas, diferente de Hugh Jackman e seu Wolverine, Peter Parker teve três diferentes identidades ao longo de sua jornada cinematográfica.

Tudo estava bem na trilogia estrelada por Tobey Maguire, até que Andrew Garfield vestiu o uniforme vermelho e azul em dois filmes que deixaram o futuro da franquia incerto. A Marvel então viu que era hora de entrar no jogo e firmou uma parceria com a Sony, atual detentora dos direitos do personagem, para trazer uma versão mais jovem dele às telas. O resultado não poderia ser melhor.

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Depois de ajudar Tony Stark (Robert Downey Jr.) em Capitão América: Guerra Civil, Peter Parker (Tom Holland) volta para sua rotina como estudante em Nova York. O garoto precisa balancear sua vida de adolescente com seus poderes, enquanto espera ser chamado novamente para participar da equipe de heróis. Um dia, descobre um grupo comandado pelo vilão Abutre (Michael Keaton), que vende armas com tecnologia extraterrestre para criminosos da cidade, e decide intervir.

Jovial. Esta é a palavra ideal para descrever esse novo capítulo na saga de Homem-Aranha. O público é apresentado a um Peter Parker com obrigações no colégio, amores adolescentes, que precisa dar satisfações à sua tia May e é tratado como criança por Tony Stark. Essa combinação não podia ter um resultado melhor, gerando um longa que, além de divertido e cheio de ação, se destaca por ser, em sua essência, um filme de “coming of age”.

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O subgênero engloba aqueles longas que destacam a passagem da infância para a vida adulta, que falam sobre amadurecimento, como em O Clube dos Cinco e Curtindo a Vida Adoidado, ambos referenciados pela trama ou até mesmo pela campanha de publicidade de De Volta ao Lar.

Peter Parker está, no filme, desesperadamente buscando por sua verdadeira identidade, algo comum a qualquer adolescente, com ou sem superpoderes. A temática acaba fazendo com que Homem-Aranha se sobressaia quando comparado a outros filmes da Marvel, preocupados com cenas de luta e destruição em vez de acrescentar narrativas mais aprofundadas em seus roteiros. Tudo isso sem perder a marca registrada do estúdio: cenas bem-humoradas quando menos se espera.

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O maior desafio do filme certamente foi tornar sua história original e atraente, depois de seis incursões do Aranha nos cinemas. Mas De Volta ao Lar tira isso de letra, e em grande parte devido a seu astro. Tom Holland está perfeito no papel e foi capaz de atualizar o personagem sem fazer muito esforço.

O ator transborda carisma e, apesar dos 20 anos de idade, se encaixa com naturalidade nos dilemas adolescentes de Peter Parker, um personagem mais jovem. Holland une com maestria as diferentes faces do protagonista: ele é inocente, brincalhão, atrapalhado e bondoso, uma personalidade com muito potencial para se destacar em meio a tantos Vingadores.

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Marvel e Sony ainda acertaram em cheio no vilão do longa-metragem. Michael Keaton está excelente em um papel igualmente bom. O Abutre foge dos maniqueísmos tão comuns ao subgênero de heróis. Ele não quer dominar o mundo ou acumular poder absoluto: ele é apresentado como um homem comum que, frente às adversidades, recorre ao crime. Ele tem uma vida normal – o que fica claro em uma cena incrível, inesperada e muito bem executada – e não dava bola para os Vingadores até Peter Parker resolver se intrometer nos seus negócios.

Com esses e tantos outros personagens interessantes – o que inclui tia May, cujo passado nunca é explicado, poupando o público de uma já conhecida história de origem – , as mais de duas horas de filme voam. Cenas de ação, momentos cômicos e dramas adolescentes se alternam, deixando a trama multifacetada, rica em detalhes e com uma complexidade rara nos filmes do gênero. Resta saber se o Aranha dos cinemas continuará honrando um dos heróis mais queridos dos quadrinhos. Por enquanto, tudo indica que Peter Parker está no caminho certo.


Guardiões da Galáxia Vol. 2

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Trama espacial continua sendo o que há de mais criativo na Marvel

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Guardians of the Galaxy Vol. 2
DIREÇÃO: James Gunn
DURAÇÃO: 136min
GÊNERO: Ação, Aventura, Ficção, Comédia
PAÍS: EUA
ANO: 2017
4

Fugindo de uma fórmula segura e já cansativa seguida pela Disney desde que assumiu o controle da Marvel, Guardiões da Galáxia inovou e surpreendeu quando foi lançado em 2014. Não à toa, sua sequência gerou grande expectativa entre os fãs e, por sorte, não decepcionou, investindo significativamente em um roteiro cada vez mais bem-humorado e driblando o politicamente correto tão entediante do mundo dos heróis.

Depois de salvarem a galáxia e se firmarem como anti-heróis, Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Groot (Vin Diesel) embarcam em uma missão que levará o Senhor das Estrelas (ou Star-Lord) a descobrir a verdade sobre seus pais.

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Dar continuidade a um filme que recebeu um mar de elogios não somente dos fãs da Marvel, mas também da crítica e daqueles que torcem o nariz para a maioria das tramas de heróis é uma tarefa difícil. Por sorte, James Gunn, diretor do primeiro Guardiões da Galáxia, encabeçou também sua sequência e manteve o ritmo e o tom já vistos nas telonas em 2014. Dessa forma, a margem para erro era pequena – mas ainda assim possível.

Se o primeiro Guardiões se encarregou de introduzir o quinteto de criminosos formado pelos protagonistas, seu segundo volume retorna ao passado de Peter Quill, explorando suas origens metade terráqueas e resolvendo também um mistério criado no desfecho do filme anterior. A trama é interessante e não tende ao sentimentalismo, como muitas histórias de origem, mas peca por pequenos detalhes.

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Falta lapidar o roteiro de Guardiões. Sua primeira parte e o clímax são ótimos, mas seu terceiro ato deixa a desejar. O desfecho encontrado para o problema que acomete a equipe de anti-heróis não convence e é resolvido de forma muito simples se considerado o tamanho da ameaça. Pequenas mudanças fariam bem à história.

O que realmente importa em Guardiões, porém, são os meios, não o fim. A abordagem das aventuras de Peter Quill é o que fez com que seu primeiro filme se destacasse. Mais uma vez, é a maneira como tudo é mostrado que faz também desta sequência um diferencial em meio ao super-explorado mundo dos heróis.

Com muito bom humor, o segundo volume de Guardiões conta sua história com um visual colorido, uma trilha sonora dançante e piadas que passam despercebidas pelas crianças, mas não por seus pais. É um filme hilário, com sequências de comédia muito bem planejadas e que superam seu antecessor. James Gunn pode até achar algumas cenas mais engraçadas do que realmente são, mas isso é compensado por vários momentos de um humor bobo, mas que arranca risadas sem grande esforço.

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Todas as personagens têm uma personalidade própria, bastante distinta, que contribui para a harmonia do filme. Neste volume, o público ainda passa mais tempo com a versão baby de Groot, responsável por momentos de fofura aliados às trapalhadas da planta. Também é introduzido um planeta “coxinha”, marcado por uma ideologia fascista e por um complexo de superioridade que rende cenas de chacota geniais. Por fim, conhecemos também Mantis (Pom Klementieff), responsável por alguns dos melhores momentos da trama. Ela e Drax têm uma estranha e errada química, que funciona maravilhosamente bem.

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Mais uma vez, Guardiões se destaca porque gira em torno de anti-heróis, criminosos que aparentam ter se regenerado, mas que continuam narcisistas e ambiciosos. Algumas de suas piadas, inclusive, escancaram o quão patéticas suas personagens podem ser, apelando a comentários mais adultos e a um sentimentalismo pautado por uma atmosfera de intriga para tornar a história mais madura e envolvente.

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É ótimo ter um filme como esse para dar um alívio da ideia de bom moço dos filmes de heróis, onde protagonistas como Capitão América causam exaustão por serem perfeitos e politicamente corretos demais. A Marvel está tentando fugir desse padrão, mas ainda recorre a ele como uma aposta segura para suas tramas.

Com efeitos especiais de tirar o fôlego, um design criativo, ótimas atuações e um timing cômico ímpar, Guardiões da Galáxia ainda representa o que há de melhor em seu subgênero. Existe um universo de possibilidades imenso à frente dos anti-heróis, que podem até ter suas aventuras encerradas com um terceiro filme, mas que já deixam um ótimo legado para o que está por vir na Marvel e até na DC.


Moana: Um Mar de Aventuras

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Disney apresenta nova heroína em mais uma volta à era dos musicais

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Moana
DIREÇÃO: Ron Clements e John Musker
DURAÇÃO: 107min
GÊNERO: Aventura, Animação, Família, Musical
PAÍS: EUA
ANO: 2016
4

 O período mais fértil e bem-sucedido dos estúdios de animação Disney começou com A Pequena Sereia, em 1989, e se estendeu até o fim da década de 90.

Durante dez anos, a empresa viu a popularidade de seus filmes alcançarem níveis inimagináveis e parte desse sucesso está nas mãos dos músicos que passaram pela companhia, tornando filmes como A Bela e a Fera e O Rei Leão não somente clássicos animados, mas também musicais. Novas tentativas de produzir filmes à la Broadway vêm ocorrendo desde 2009 e Moana é o novo resultado dessa volta ao passado.

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Nas ilhas da Polinésia mora uma comunidade chefiada por Tui (Temuera Morrison), pai de Moana (Auli’i Cravalho), que logo terá que herdar as responsabilidades de cuidar de seu povo. Mas uma praga começa a tomar conta da ilha em que moram e a heroína precisa responder ao chamado do oceano e procurar o semideus Maui (Dwayne Johnson) para buscar uma solução.

Criar uma “princesa” da Polinésia foi um grande passo dado pela Disney. Mas criar uma nova protagonista feminina forte, determinada e independente foi um passo maior ainda.

Depois que Frozen provou, em 2013, que meninas não precisam de príncipes para fazer de uma história um filme popular e lucrativo, o estúdio parece ter entendido o recado de que a velha fórmula “donzela em apuros” já está ultrapassada. Só esse ano, a companhia lançou Zootopia e Moana, dois sucessos de bilheteria que têm personagens femininas fortes à frente.

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Moana até mesmo tira sarro da fórmula de princesa da Disney em uma cena engraçada e genial – “se você usa um vestido e tem um animalzinho, é uma princesa”, provoca Maui, para logo depois descobrir que havia subestimado a heroína.

Com uma mensagem feminista, de lutar pelo que deseja independente de quem você for, Moana é mais uma obra-prima da empresa de Mickey Mouse. É uma história tão contagiante quanto a de Frozen – um dos melhores filmes na história da Disney – e com personagens tão interessantes e inspiradores quanto as irmãs Anna e Elsa.

Trazer lendas antigas da Polinésia para o filme foi uma ótima decisão dos veteranos Clements e Musker, que fizeram algo parecido em Hércules. O material que ambos tinham em mãos foi muito bem aproveitado e toda a riqueza dessa cultura acabou se tornando uma animação bastante divertida e original.

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As personagens do filme também são muito bem desenvolvidas. Moana é aventureira, uma líder nata, mas que está dividida entre as responsabilidades para com a sua comunidade e seu desejo de explorar o oceano. Maui é uma personagem arrogante, mas ainda assim carismática e é interessante ver como, aos poucos, ele vai se tornando uma pessoa melhor graças à heroína do filme. Os “sidekicks” Heihei e Pua, um galo e um porquinho, são engraçados e fofos.

O filme só perde pela ausência de um vilão clássico. O carangueijo Tamatoa protagoniza um dos momentos mais aleatórios do cinema em 2016, e seu papel no filme nunca fica muito claro. Enquanto isso, a praga que atinge a ilha de Moana tem motivos pouco convincentes para acontecer e, por isso, o desfecho do filme acaba sendo o único momento em que a história perde qualidade. Nada que prejudique o filme como um todo, mas seria um ponto a melhorar.

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O grande trunfo de Moana acaba sendo sua trilha sonora, composta pelo queridinho do momento Lin-Manuel Miranda, criador do sucesso da Broadway Hamilton, e por Opetaia Foa’i e Mark Mancina. A trilha é uma ótima sucessora para Frozen e contém canções criativas, bonitas e de qualidade semelhante à dos clássicos da década de 90. O destaque fica para How Far I’ll Go, um novo Let it Go tão encantador quanto.

O estúdio de animação da Disney emplacou dois filmes incríveis no ano de 2016. Zootopia e Moana são ambos excelentes e é difícil escolher para quem torcer na temporada de premiações. Os dois são divertidos e tratam de temas importantes e maduros de forma sutil e didática, com Moana tendo a necessária renovação da linha de princesas da Disney como um de seus principais objetivos. A protagonista do filme é forte, tornando o longa uma verdadeira inspiração para as milhares de crianças que crescem assistindo às animações da companhia.


Animais Fantásticos e Onde Habitam

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J.K. Rowling abre novas possibilidades para o universo de Harry Potter

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Fantastic Beasts and Where to Find Them
DIREÇÃO: David Yates
DURAÇÃO: 113min
GÊNERO: Aventura, Fantasia
PAÍS: Reino Unido, EUA
ANO: 2016
4

 Os fãs de Harry Potter tiveram um ano agitado, cheio de novidades: de um novo parque temático em Hollywood a uma peça em Londres sobre o que acontece anos após o bruxo deixar Hogwarts. Nos cinemas, o grande acontecimento foi a estreia de Animais Fantásticos e Onde Habitam, que apesar de ter outro protagonista, é igualmente fascinante.

Newt Scamander (Eddie Redmayne) é um magizoologista inglês que viaja a Nova York, na década de 1920, com uma maleta cheia de criaturas mágicas, que acabam se perdendo pela cidade. Junto com Tina Goldstein (Katherine Waterston), que trabalha para o Congresso Mágico dos Estados Unidos da América, ele precisa recuperar os animais antes que eles exponham a comunidade bruxa estadunidense para o mundo trouxa.

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Novas histórias dentro de universos populares sempre são motivo de temor. Na maioria das vezes, diretores e produtores não acertam, fazendo dos spin-offs jogadas de marketing lucrativas, mas puramente comerciais e insatisfatórias. Foi o que aconteceu com a trilogia O Hobbit, precária frente à qualidade de O Senhor dos Anéis, apesar de também ser baseada na obra de Tolkien.

Animais Fantásticos, porém, é uma história diferente e criativa, que consegue se destacar em meio aos oito filmes da saga Harry Potter com uma narrativa original e igualmente encantadora. O protagonista Newt Scamander pode não ser tão forte quanto Harry, mas Animais Fantásticos não tem como principal objetivo narrar as aventuras da personagem.

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O propósito por trás da história de J.K. Rowling é justamente expandir seu universo e dar uma ideia geral da situação da comunidade bruxa não somente em outras épocas, mas também em outros países e culturas. Os bruxos estadunidenses têm uma forma diferente de governo, chamam os trouxas por outro nome e ainda têm leis rígidas que ecoam momentos históricos do país – das Bruxas de Salem às leis segregacionistas e racistas em vigor até poucos anos atrás.

Ambientar um filme da mente de J.K. Rowling em um lugar que não o Reino Unido parecia uma heresia, mas o resultado é fascinante e faz com que o público tenha uma ideia mais completa e real do funcionamento do universo bruxo.

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A narrativa aborda os mesmos temas já presentes em Harry Potter – autoritarismo, intolerância, amizade – mas faz isso de forma original. Não somente por se passar nos Estados Unidos, mas também pelo carisma e pelas personalidades distintas de suas novas personagens.

Eddie Redmayne faz um ótimo papel como Newt Scamander, passando para o público a excentricidade e timidez do protagonista com facilidade. Alison Sudol traz charme à narrativa com sua gentil Queenie, enquanto Dan Fogler arranca risadas com o divertido Kowalski. Katherine Waterson, por sua vez, é a grande surpresa do filme e está perfeita como Tina. Ezra Miller e Colin Farrell fazem trabalhos igualmente bons.

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Em termos técnicos, o filme é acompanhado de uma trilha sonora que faz constantes menções aos temas de Harry Potter, trazendo frescor ao filme sem fazê-lo perder sua parte nostálgica. Os figurinos e cenários são incríveis, mesclando o visual à la Grande Gatsby da década de 1920 com o estilo próprio do universo de J.K. Rowling. Os efeitos especiais são de primeira e todas as criaturas apresentadas no filme impressionam.

O único problema de Animais Fantásticos é que ele pode parecer confuso em alguns momentos. Sua trama não é das mais fáceis e um bom conhecimento da saga Harry Potter é necessário para entender o novo filme por completo.

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Ainda assim, uma das coisas mais fascinantes da história de Newt Scamander é justamente a sutileza com a qual ela se conecta com os livros de Harry Potter. Passagens menores, rapidamente mencionadas pela autora – como a ideia por trás dos Obscuros – ganham novo significado e dimensão neste lançamento. Enquanto isso, personagens como Grindelwald e Dumbledore devem receber histórias interessantes nas sequências desta nova série cinematográfica.

Animais Fantásticos e Onde Habitam abre uma porta de possibilidades para o universo mágico de J.K. Rowling. Com criatividade, a nova história fascina tanto quanto seus predecessores e deve explicar melhor os eventos que antecipam o nascimento de Harry Potter e a ascensão de Lorde Voldemort. É uma nova série de filmes que promete ser realmente fantástica.


Meu Amigo, O Dragão

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Disney traz personagem de volta às telas em conto de fadas moderno

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Pete’s Dragon
DIREÇÃO: David Lowery
DURAÇÃO: 103min
GÊNERO: Aventura, Família, Fantasia
PAÍS: EUA
ANO: 2016
4

A onda de live-actions da Disney não sobrevive somente de princesas. Depois de lançar o incrível Mogli – O Menino Lobo e mais uma versão decepcionante de Alice no País das Maravilhas, o estúdio emplaca mais uma adaptação em seu 2016. Dessa vez são as personagens de Meu Amigo o Dragão, de 1977, que voltaram às telas, para recontar uma história que já caiu no esquecimento de muita gente.

Depois que seus pais morrem em um acidente de carro, Pete (Oakes Fegley) se vê sozinho no meio de uma floresta no Oregon, Estados Unidos. Anos se passam até que o garoto é descoberto pela guarda florestal Grace (Bryce Dallas Howard), que teve a infância marcada pelas histórias de seu pai, Meacham (Robert Redford), que jura já ter visto um dragão naquele mesmo local. Pete pode ser a prova de que a criatura realmente existe.

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Meu Amigo, O Dragão se apoia em um tipo de encantamento típico dos filmes de Steven Spielberg, capazes de dialogar tanto com os pequenos, quanto com os adultos. Coincidência ou não, o diretor estadunidense lançou há poucos meses, em parceria com a própria Disney, seu 30º filme, O Bom Gigante Amigo. Os dois títulos são parecidos em diversos momentos. Ambos falam sobre a inocência e a criatividade da infância e têm efeitos visuais de tirar o fôlego. Mas pelo incrível que pareça, David Lowery é quem sucede ao transformar um roteiro familiar em um verdadeiro conto de fadas moderno.

A história de Pete e seu dragão faz o que Spielberg não conseguiu alcançar com sua releitura da obra de Roald Dahl. É inteligente e divertida, apela para o público infantil e para o adulto e ainda ecoa a obra prima de Spielberg, E.T. – O Extraterrestre, de uma maneira bastante autêntica e nostálgica. O filme somente ajuda o público a ver o tamanho do desastre que O Bom Gigante Amigo é.

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No começo de Pete’s Dragon, o público tem a impressão de que está para ver mais um filme caça-níqueis da Disney, cujos executivos parecem não querer abandonar a onda de live-actions tão cedo. Mas não é preciso muito tempo de tela para notarmos que o filme é uma bonita história sobre amizade.

É impossível não fazer a conexão entre os meninos Elliott e Pete e as criaturas E.T. e – veja só! – Elliot. A versão original para o dragão da Disney chegou aos cinemas cinco anos antes de Spielberg debutar sua obra prima, mas é difícil não sentir estranhamento pela similaridade no nome das duas personagens.

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O roteiro de Meu Amigo, O Dragão faz de uma história relativamente simples uma narrativa que combina aventura, drama e fantasia. É um filme que definitivamente tem alma e sabe equilibrar bem seu sentimentalismo para não cair no exagero. Existe uma discussão bonita sobre infância e amadurecimento, executada com a maestria de E.T. ou Peter Pan. O texto, porém, não é à prova de balas.

Alguns deslizes são cometidos. A falta de explicação e aprofundamento na história dos irmãos interpretados por Wes Bentley e Karl Urban é um deles. Da mesma forma, existe uma temática interessante sobre desmatamento escondida e subutilizada no filme e, em uma época em que questões ecológicas são e precisam ser amplamente discutidas, é uma pena não ver a Disney abordar o assunto com comprometimento para sua jovem audiência – é a ela que o futuro do planeta pertence, afinal.

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No geral, David Lowery faz um maravilhoso trabalho e Pete’s Dragon é diversão garantida para todos os tipos de público. É inevitável não se emocionar com a bonita mensagem presente na história – não estranhe uma lágrima ou outra caindo durante a sessão. A impressão que fica é que a Disney tem melhorado cada vez mais sua habilidade para traduzir seus clássicos para o live-action. No caso de Meu Amigo, O Dragão, o desafio era ainda maior, já que a história não é mais um de seus exuberantes épicos fantasiosos, como Cinderela ou A Bela e a Fera.

É exatamente isso que faz de Pete’s Dragon único. É um filme que se passa na atualidade, não está perdido no espaço-tempo, e, mesmo assim, provoca encantamento como poucas obras são capazes de fazer. É um envolvente e delicado conto de fadas moderno, que merece um lugar ao lado dos sucessos da empresa de Mickey Mouse.


Star Trek: Sem Fronteiras

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Saga intergalática perde J.J. Abrams, mas não o brilho

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO: Star Trek Beyond
DIREÇÃO: Justin Lin
DURAÇÃO: 122min
GÊNERO: Aventura, Ficção Científica
PAÍS: EUA
ANO: 2016
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J.J. Abrams já pode ser considerado um dos principais nomes da ficção científica atual. Seu incrível trabalho em Star Trek e Além da Escuridão: Star Trek permitiram que o americano ganhasse a honra – e a difícil tarefa – de reviver a franquia Star Wars nos cinemas. O Despertar da Força foi um sucesso, mas fez com que Abrams deixasse a direção da saga de Kirk e Spock.

Sem Fronteiras é dirigido por Justin Lin, conhecido por Velozes e Furiosos. Com a franquia no currículo, é difícil imaginar que o terceiro filme da retomada de Jornada nas Estrelas poderia se aproximar de seus antecessores – tanto em termos de qualidade quanto em criatividade. Mas Justin Lin faz um ótimo trabalho, além de dar um novo tom à saga intergalática.

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Ao tentar ajudar a tripulação de uma outra nave, os membros da USS Enterprise são atraídos para uma armadilha e acabam caindo em um planeta governado por uma espécie hostil, que quer destruir a Federação. Para impedir seus planos, Capitão Kirk (Chris Pine) e Spock (Zachary Quinto) precisam se unir a Jaylah (Sofia Boutella), que há anos vive escondida no planeta.

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Star Trek: Sem Fronteiras segue um rumo completamente diferente de seus antecessores. Enquanto os filmes dirigidos por J.J. Abrams dão atenção ao papel da USS Enterprise nas missões de Kirk, Justin Lin começa seu longa explodindo a icônica nave. Assim, de uma hora para outra, os trekkers vêem o principal símbolo da franquia sendo destruído, no melhor estilo Titanic. Ao fazer isso, Lin abre espaço para novas possibilidades para a saga.

Ao invés de focar em tecnologia e nas perseguições espaciais, Sem Fronteiras joga seus personagens no solo e, a partir daí, precisa reinventar seus heróis. Essa escolha pode acabar frustrando os fãs mais fiéis, mas abre um leque de possibilidades que inclui Kirk usando uma moto para libertar prisioneiros e cenas de ação dignas de filmes de espionagem.

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É justamente no imprevisível que o filme se apoia e, mesmo que seu roteiro não seja dos mais complexos, Sem Fronteiras conta com momentos suficientemente tensos e emocionantes para prender a atenção do público. Um dos pontos altos é uma discreta homenagem a Leonard Nimoy, intérprete original de Spock, morto em fevereiro de 2015 aos 83 anos. O ator havia aparecido nos dois antecessores de Sem Fronteiras.

O terceiro capítulo da retomada de Star Trek nos cinemas ainda tem a seu favor o incrível elenco reunido em 2009 por J.J. Abrams. Zachary Quinto, Chris Pine, Zoe Saldana, Karl Urban, Simon Pegg e Anton Yelchin – morto em um trágico acidente em junho – continuam ótimos e carismáticos em seus papeis, enquanto Sofia Boutella encarna uma Jaylah poderosa e interessante.

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Sem Fronteiras pode não se igualar a Star Trek (2009) e Além da Escuridão (2013), mas é suficientemente bom para comemorar os 50 anos da franquia, em setembro deste ano. Se o filme perde por ter uma história relativamente rasa, ganha por bons momentos espalhados pela trama, que juntam com maestria o bom humor e o encantamento característicos da saga. Só podemos desejar que Star Trek continue tendo uma vida longa e próspera nos cinemas.