Homem-Aranha: De Volta ao Lar

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Marvel coloca ordem na casa depois de seis filmes do heróis em 15 anos

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Spider-Man: Homecoming
DIREÇÃO: Jon Watts
DURAÇÃO: 133min
GÊNERO: Ação, Aventura
PAÍS: EUA
ANO: 2017
4
 

Em apenas 15 anos, Homem-Aranha protagonizou seis filmes – e ainda fez uma participação especial em Capitão América: Guerra Civil. Mas, diferente de Hugh Jackman e seu Wolverine, Peter Parker teve três diferentes identidades ao longo de sua jornada cinematográfica.

Tudo estava bem na trilogia estrelada por Tobey Maguire, até que Andrew Garfield vestiu o uniforme vermelho e azul em dois filmes que deixaram o futuro da franquia incerto. A Marvel então viu que era hora de entrar no jogo e firmou uma parceria com a Sony, atual detentora dos direitos do personagem, para trazer uma versão mais jovem dele às telas. O resultado não poderia ser melhor.

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Depois de ajudar Tony Stark (Robert Downey Jr.) em Capitão América: Guerra Civil, Peter Parker (Tom Holland) volta para sua rotina como estudante em Nova York. O garoto precisa balancear sua vida de adolescente com seus poderes, enquanto espera ser chamado novamente para participar da equipe de heróis. Um dia, descobre um grupo comandado pelo vilão Abutre (Michael Keaton), que vende armas com tecnologia extraterrestre para criminosos da cidade, e decide intervir.

Jovial. Esta é a palavra ideal para descrever esse novo capítulo na saga de Homem-Aranha. O público é apresentado a um Peter Parker com obrigações no colégio, amores adolescentes, que precisa dar satisfações à sua tia May e é tratado como criança por Tony Stark. Essa combinação não podia ter um resultado melhor, gerando um longa que, além de divertido e cheio de ação, se destaca por ser, em sua essência, um filme de “coming of age”.

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O subgênero engloba aqueles longas que destacam a passagem da infância para a vida adulta, que falam sobre amadurecimento, como em O Clube dos Cinco e Curtindo a Vida Adoidado, ambos referenciados pela trama ou até mesmo pela campanha de publicidade de De Volta ao Lar.

Peter Parker está, no filme, desesperadamente buscando por sua verdadeira identidade, algo comum a qualquer adolescente, com ou sem superpoderes. A temática acaba fazendo com que Homem-Aranha se sobressaia quando comparado a outros filmes da Marvel, preocupados com cenas de luta e destruição em vez de acrescentar narrativas mais aprofundadas em seus roteiros. Tudo isso sem perder a marca registrada do estúdio: cenas bem-humoradas quando menos se espera.

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O maior desafio do filme certamente foi tornar sua história original e atraente, depois de seis incursões do Aranha nos cinemas. Mas De Volta ao Lar tira isso de letra, e em grande parte devido a seu astro. Tom Holland está perfeito no papel e foi capaz de atualizar o personagem sem fazer muito esforço.

O ator transborda carisma e, apesar dos 20 anos de idade, se encaixa com naturalidade nos dilemas adolescentes de Peter Parker, um personagem mais jovem. Holland une com maestria as diferentes faces do protagonista: ele é inocente, brincalhão, atrapalhado e bondoso, uma personalidade com muito potencial para se destacar em meio a tantos Vingadores.

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Marvel e Sony ainda acertaram em cheio no vilão do longa-metragem. Michael Keaton está excelente em um papel igualmente bom. O Abutre foge dos maniqueísmos tão comuns ao subgênero de heróis. Ele não quer dominar o mundo ou acumular poder absoluto: ele é apresentado como um homem comum que, frente às adversidades, recorre ao crime. Ele tem uma vida normal – o que fica claro em uma cena incrível, inesperada e muito bem executada – e não dava bola para os Vingadores até Peter Parker resolver se intrometer nos seus negócios.

Com esses e tantos outros personagens interessantes – o que inclui tia May, cujo passado nunca é explicado, poupando o público de uma já conhecida história de origem – , as mais de duas horas de filme voam. Cenas de ação, momentos cômicos e dramas adolescentes se alternam, deixando a trama multifacetada, rica em detalhes e com uma complexidade rara nos filmes do gênero. Resta saber se o Aranha dos cinemas continuará honrando um dos heróis mais queridos dos quadrinhos. Por enquanto, tudo indica que Peter Parker está no caminho certo.


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Mulher-Maravilha

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Em sua estreia como protagonista no cinema, heroína salva o universo da DC

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Wonder-Woman
DIREÇÃO: Patty Jenkins
DURAÇÃO: 121min
GÊNERO: Ação
PAÍS: EUA
ANO: 2017
4

Quando percebeu que tinha ficado para trás no desbravamento do mundo dos super-heróis nos cinemas, a DC Comics tratou de se apressar. Anunciou um universo estendido com filmes como Batman vs Superman e Esquadrão Suicida.

O resultado não foi exatamente o esperado: ambos renderam duras críticas e a nova empreitada da DC se tornou motivo de piada, principalmente frente à bem-sucedida Marvel. Mas eis que chega Mulher-Maravilha, há 76 anos aguardando um filme só seu, e decide salvar o dia.

Se uma protagonista feminina em um filme de heróis era motivo de desconfiança até ontem, agora a heroína aparece para dar esperança aos fãs dos quadrinhos, mostrando que este universo também é lugar de mulher.

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No filme, Diana Prince (Gal Gadot) vive em uma ilha habitada por uma tribo de mulheres guerreiras, as amazonas. Elas permanecem longe dos olhares humanos até que o avião do americano Steve Trevor (Chris Pine) cai nas águas que beiram o local. Daiana então descobre que a Primeira Guerra Mundial está em curso e decide se envolver no conflito para restabelecer a paz.

Com a Disney à frente da Marvel, os filmes da marca ganharam o selo de aprovação para toda a família. Em tramas aventureiras e bem-humoradas, seus heróis conquistaram um público diversificado.

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A DC decidiu tomar o caminho inverso e seu Batman vs Superman ficou marcado pela fotografia escura, personagens sombrios e uma trama que se esforça para parecer madura, mas que na verdade limita seus protagonistas a problemas tontos e que não se sustentam. Para não cometer o mesmo erro em Esquadrão Suicida, a DC tentou injetar uma pitada de ironia na história, mas falhou miseravelmente.

Talvez por isso a diretora Patty Jenkins tenha dado a Mulher-Maravilha uma roupagem totalmente diferente. O filme tem cores, momentos de riso e seriedade bem definidos e está muito mais preocupado em apresentar e empoderar sua protagonista do que fazer dela parte de um universo maior.

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Toda a ação deste longa tem como pano de fundo a Primeira Guerra, mas isso não é motivo para fazer a Mulher-Maravilha das telas a personagem patriota que habita nosso imaginário. Diana é uma entidade grega e, apesar das cores de seu uniforme, nunca deveria ser associada à imagem de tesouro nacional dos Estados Unidos, como o enfadonho e imperialista Capitão América.

A escolha da israelense Gal Gadot é outro acerto que corrobora para universalizar o filme. A atriz surpreende e está fantástica no papel, juntando determinação e força com originalidade e sagacidade, fazendo da protagonista o ícone feminino tão necessário no cinema de super-heróis. E não é por estar em um posto normalmente dedicado aos homens que sua Mulher-Maravilha perde a feminilidade. Muito pelo contrário: sua força advém justamente de sua condição enquanto mulher.

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O filme deixa a desejar em dois aspectos. O primeiro é o dos efeitos especiais, que em determinados momentos parecem cenas de videogames. Mas o que incomoda mesmo é a solução para a problemática da trama de Mulher-Maravilha. Seu vilão é derrotado de forma pouco convincente, sem muito esforço. Faltou lapidar a parte final do enredo.

Mas nada é capaz de derrotar a heroína. Estes dois problemas se tornam irrelevantes, já que todos os outros aspectos da trama estão em harmonia e colaboram para destacar a importância dos ideais e da origem de Diana Prince. Há equilíbrio no longa, que traça um perfil da personagem de forma dinâmica, fazendo o filme voar, sem nunca perder o ritmo.

Depois de esperar 76 anos para chegar à telona, Mulher-Maravilha o faz em grande estilo. É um filme divertido, com ótimas cenas de ação, uma boa trama e, o mais importante, empoderado: na frente e por trás das câmeras. Se Gal Gadot e sua heroína simbolizam a força feminina tão necessária nesse universo, a diretora Patty Jenkins faz um trabalho admirável e determinante para o sucesso de um filme verdadeiramente maravilhoso.


Guardiões da Galáxia Vol. 2

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Trama espacial continua sendo o que há de mais criativo na Marvel

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Guardians of the Galaxy Vol. 2
DIREÇÃO: James Gunn
DURAÇÃO: 136min
GÊNERO: Ação, Aventura, Ficção, Comédia
PAÍS: EUA
ANO: 2017
4

Fugindo de uma fórmula segura e já cansativa seguida pela Disney desde que assumiu o controle da Marvel, Guardiões da Galáxia inovou e surpreendeu quando foi lançado em 2014. Não à toa, sua sequência gerou grande expectativa entre os fãs e, por sorte, não decepcionou, investindo significativamente em um roteiro cada vez mais bem-humorado e driblando o politicamente correto tão entediante do mundo dos heróis.

Depois de salvarem a galáxia e se firmarem como anti-heróis, Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Groot (Vin Diesel) embarcam em uma missão que levará o Senhor das Estrelas (ou Star-Lord) a descobrir a verdade sobre seus pais.

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Dar continuidade a um filme que recebeu um mar de elogios não somente dos fãs da Marvel, mas também da crítica e daqueles que torcem o nariz para a maioria das tramas de heróis é uma tarefa difícil. Por sorte, James Gunn, diretor do primeiro Guardiões da Galáxia, encabeçou também sua sequência e manteve o ritmo e o tom já vistos nas telonas em 2014. Dessa forma, a margem para erro era pequena – mas ainda assim possível.

Se o primeiro Guardiões se encarregou de introduzir o quinteto de criminosos formado pelos protagonistas, seu segundo volume retorna ao passado de Peter Quill, explorando suas origens metade terráqueas e resolvendo também um mistério criado no desfecho do filme anterior. A trama é interessante e não tende ao sentimentalismo, como muitas histórias de origem, mas peca por pequenos detalhes.

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Falta lapidar o roteiro de Guardiões. Sua primeira parte e o clímax são ótimos, mas seu terceiro ato deixa a desejar. O desfecho encontrado para o problema que acomete a equipe de anti-heróis não convence e é resolvido de forma muito simples se considerado o tamanho da ameaça. Pequenas mudanças fariam bem à história.

O que realmente importa em Guardiões, porém, são os meios, não o fim. A abordagem das aventuras de Peter Quill é o que fez com que seu primeiro filme se destacasse. Mais uma vez, é a maneira como tudo é mostrado que faz também desta sequência um diferencial em meio ao super-explorado mundo dos heróis.

Com muito bom humor, o segundo volume de Guardiões conta sua história com um visual colorido, uma trilha sonora dançante e piadas que passam despercebidas pelas crianças, mas não por seus pais. É um filme hilário, com sequências de comédia muito bem planejadas e que superam seu antecessor. James Gunn pode até achar algumas cenas mais engraçadas do que realmente são, mas isso é compensado por vários momentos de um humor bobo, mas que arranca risadas sem grande esforço.

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Todas as personagens têm uma personalidade própria, bastante distinta, que contribui para a harmonia do filme. Neste volume, o público ainda passa mais tempo com a versão baby de Groot, responsável por momentos de fofura aliados às trapalhadas da planta. Também é introduzido um planeta “coxinha”, marcado por uma ideologia fascista e por um complexo de superioridade que rende cenas de chacota geniais. Por fim, conhecemos também Mantis (Pom Klementieff), responsável por alguns dos melhores momentos da trama. Ela e Drax têm uma estranha e errada química, que funciona maravilhosamente bem.

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Mais uma vez, Guardiões se destaca porque gira em torno de anti-heróis, criminosos que aparentam ter se regenerado, mas que continuam narcisistas e ambiciosos. Algumas de suas piadas, inclusive, escancaram o quão patéticas suas personagens podem ser, apelando a comentários mais adultos e a um sentimentalismo pautado por uma atmosfera de intriga para tornar a história mais madura e envolvente.

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É ótimo ter um filme como esse para dar um alívio da ideia de bom moço dos filmes de heróis, onde protagonistas como Capitão América causam exaustão por serem perfeitos e politicamente corretos demais. A Marvel está tentando fugir desse padrão, mas ainda recorre a ele como uma aposta segura para suas tramas.

Com efeitos especiais de tirar o fôlego, um design criativo, ótimas atuações e um timing cômico ímpar, Guardiões da Galáxia ainda representa o que há de melhor em seu subgênero. Existe um universo de possibilidades imenso à frente dos anti-heróis, que podem até ter suas aventuras encerradas com um terceiro filme, mas que já deixam um ótimo legado para o que está por vir na Marvel e até na DC.


Logan

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Violência e sentimentalismo marcam despedida de Hugh Jackman

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Logan
DIREÇÃO: James Mangold
DURAÇÃO: 137min
GÊNERO: Drama, Ficção, Ação
PAÍS: EUA
ANO: 2017

5


Por 17 anos, Hugh Jackman viveu o mutante Wolverine nos cinemas. Sua atuação é certamente uma das mais icônicas – ou talvez a mais icônica – da história dos filmes de heróis. Foram anos de desenvolvimento do personagem, um dos mais completos do gênero, e o ator australiano não deixou a desejar, se mostrando cada vez mais maduro no papel. Para se despedir deste marco do cinema, Hugh Jackman protagoniza Logan, um dos filmes mais interessantes do mundo dos heróis e com performances emocionantes.

Em 2029, os mutantes se tornam raridade após uma série de mortes, aliada ao fim do nascimento de novos humanos superdotados. Logan (Hugh Jackman) vive recluso, cuidando de um já debilitado e doente professor Xavier (Patrick Stewart). Quando uma mulher pede sua ajuda, os dois precisam pegar a estrada para levar Laura (Dafne Keen), uma menina com as mesmas habilidades de Wolverine, para um lugar seguro.

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Logan é um filme bastante incomum. O subgênero dos super-heróis têm sido marcado, nos últimos anos, por uma abordagem divertida e jovial – resultado do comando da Disney sobre a Marvel. Além disso, os filmes desse hall raramente dão espaço a uma trama que tende ao sentimentalismo. Mas a despedida de Hugh Jackman da saga mutante vai na contramão de tudo isso: é extremamente violenta, mas cheia de momentos realmente profundos e emocionantes, capazes de levar até o mais durão dos fãs às lágrimas.

X-Men já é uma franquia que se destaca por trazer muito mais do que ação e aventura à história de seus heróis. Enquanto filmes como Capitão América e Homem-Formiga se concentram em roteiros fictícios, muitas vezes sem qualquer ambição, a jornada dos mutantes no cinema é marcada por uma história que traça diversos paralelos com a nossa realidade. É uma trama muito mais madura, que antes de qualquer coisa, busca falar sobre intolerância e aceitação.

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Logan não podia ser diferente. Mais uma vez os mutantes aparecem como uma raça fadada à extinção, graças ao preconceito e ao medo do desconhecido que os humanos têm. O longa explora isso de uma maneira diferente, mostrando do que o ser humano é capaz de fazer por poder, em sua ridícula obsessão por armas e controle. Em uma sequência que incomoda e choca, o público é apresentado a um projeto científico que retrata a dureza do ambiente ao qual os X-Men – e todos os marginalizados que eles representam – estão destinados.

É justamente essa mistura entre o contexto bruto e impiedoso no qual Wolverine cresceu e sua personalidade que fazem de Logan um filme genial. O filme apresenta a última etapa do desenvolvimento de Wolverine – uma espécie de redenção. A violência do longa pode parecer exagerada, mas ela é fundamental para tornar sua mensagem eficaz. Afinal, como pode um mutante tratado com tanta agressividade ser solidário e carinhoso? É essa questão que Logan tenta responder – e faz isso muito bem.

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Sem exageros no que diz respeito ao drama de sua história, Logan tem ótimas cenas de ação, com uma trilha sonora e fotografia que complementam o dualismo do filme. O destaque no elenco é a pequena Dafne Keen, que atua em inglês, em espanhol e em silêncio, se mostrando talentosa o suficiente para passar todo o poder e a carga dramática de sua personagem com excelência.

Patrick Stewart está mais uma vez incrível e Hugh Jackman encerra sua participação no universo mutante com maestria. O australiano soube inovar e se superar todas as vezes em que entrou na pele de Wolverine. Em Logan, Jackman entrega uma atuação fantástica, talvez a melhor de sua carreira.

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Com uma história bastante centrada no principal herói dos X-Men, Logan não se dá ao trabalho de explicar minuciosamente o contexto no qual se passa. O público tem que deduzir e até mesmo imaginar o que terá acontecido aos outros personagens da saga e ao mundo no qual o protagonista vive.

A linha temporal totalmente confusa da franquia também não ajuda, mas Logan é um trabalho isolado. Apesar de estar conectado a seus antecessores, o foco aqui é exclusivamente a relação de Wolverine e Laura com o mundo que os cerca – e, lógico, um com o outro. É um filme forte, extremamente bonito e que será lembrado pela originalidade e ousadia com a qual foi conduzido. É realmente a história que Hugh Jackman precisava para aposentar suas garras de adamantium.


Até o Último Homem

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Mel Gibson volta à direção com ótimo drama de guerra

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Hacksaw Ridge
DIREÇÃO: Mel Gibson
DURAÇÃO: 139min
GÊNERO: Drama, Ação
PAÍS: EUA, Austrália
ANO: 2016
4

Mel Gibson já era um ator renomado antes de conseguir seu primeiro Oscar, em 1996. O prêmio, porém, não foi o de Melhor Ator, mas pela direção e produção de Coração Valente, que Gibson também protagonizou. Seu último trabalho como diretor foi em 2006, em Apocalypto. Uma década depois, o estadunidense retorna à cadeira de direção e, mais uma vez, é aplaudido pelos membros da Academia, que indicaram Até o Último Homem para seis Oscar.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o médico de combate Desmond Doss (Andrew Garfield) se recusa a carregar armas e precisa convencer o exército estadunidense que seus ideais não permitem que ele mate, nem mesmo no campo de batalha.

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Dramas de guerra tendem a agradar todo o tipo de público – eles misturam drama, ação e, em alguns casos, até mesmo romance. Mas isso não quer dizer que todos eles são substanciais. Muitos diretores confiam cegamente na tragicidade inerente à guerra, sem a preocupação de desenvolver uma história realmente interessante para sustentar um filme desses – como aconteceu com Invencível, de Angelina Jolie.

Outros, como A Lista de Schindler e Apocalypse Now, esses sim verdadeiras obras-primas, usam a guerra como meio para compartilhar história emocionantes, inspiradoras e até mesmo universais. Esse é o caso de Até o Último Homem, que tem uma narrativa interessante e que vai muito mais além do campo de batalha.

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O longa de Mel Gibson debate temas importantes e que impactam qualquer indivíduo. Muito mais que um filme de guerra, Até o Último Homem fala sobre até onde alguém está disposto a ir para seguir seus ideais. Desmond Doss é humilhado, apanha, vai preso e quase morre na batalha de Okinawa, mas se mantém fiel à sua crença de não-violência.

Apesar do patriotismo exagerado, Até o Último Homem é bastante diversificado, aplicando sua mensagem não somente ao contexto cultural norte-americano. Em determinada cena – muito bem editada, por sinal – , enquanto Doss salva seus colegas no campo de batalha, um comandante japonês comete o seppuku, um ritual suicida destinado àqueles que falham com seus deveres. É a premissa de não trair seus ideais, um tema comum a qualquer cultura.

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Até o Último Homem também comete deslizes. Além do nacionalismo, outro problema é a incerteza quanto ao seu posicionamento em relação à guerra. O filme parece ter uma mensagem anti-violência, mas às vezes parece flertar com o belicismo tão típico dos estadunidenses.

A personagem de Garfield é justamente um contraponto à cultura militarista que sempre tomou conta do mundo, mas acaba sendo papel do público interpretar se o filme realmente acredita no pacifismo de Doss.

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Andrew Garfield, por sua vez, está excelente. É uma das maiores surpresas do filme, com uma performance profunda, extremamente convincente e cativante. O último intérprete de homem-aranha deixa o universo dos quadrinhos e mergulha de cabeça em um drama difícil, que se apoia inteiramente em seu protagonista. Garfield carrega o filme com naturalidade e entrega um dos melhores trabalhos de atuação do ano.

Mel Gibson acertou em Até o Último Homem. Não exagera no sentimentalismo – como o material que serve de base para o filme sugere – e é movido não somente por um drama interessante, mas também por ótimas cenas de ação, capazes de emocionar e causar suspense. É um longa que faz refletir, agradando qualquer um, com uma narrativa rica, comovente e muito bem explorada.


Inferno

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Livro de Dan Brown perde inventividade em versão hollywoodiana

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Inferno
DIREÇÃO: Ron Howard
DURAÇÃO: 121min
GÊNERO: Ação, Suspense
PAÍS: Estados Unidos, Hungria
ANO: 2016

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Dan Brown é um autor que causa controvérsias. Apesar dos milhares de exemplares vendidos e da popularidade de seus livros, muita gente não gosta da obra do autor por considerá-la comercial. No cinema, O Código da Vinci e Anjos e Demônios funcionaram bem, atraindo a atenção do público. Mas nem Tom Hanks consegue salvar o terceiro filme da série, Inferno.

Após acordar em um hospital em Florença, na Itália, com amnésia, o professor universitário Robert Langdon (Tom Hanks) precisa fugir do que parece ser um complô envolvendo governos e organizações para matá-lo. Junto com a médica Sienna Brooks (Felicity Jones), ele precisa seguir pistas para impedir uma arma biológica de ser ativada.

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Inferno é uma decepção. Para aqueles que leram o livro de Dan Brown, a decepção é ainda maior. Depois do tenso e interessante Anjos e Demônios, lançado há sete anos, é triste ver Robert Langdon voltando às telas em um filme tão pobre.

Não há nada de errado em alterar uma história quando ela passa das páginas – ou do palco – para o cinema. O problema, porém, é quando a adaptação é para pior. Ron Howard fez exatamente isso em Inferno: pegou um material riquíssimo e o empobreceu, comprometendo pontos centrais da trama.

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O grande problema do filme estrelado por Tom Hanks está justamente em sua necessidade de se adaptar a padrões hollywoodianos do gênero de ação. Ao invés de investir no suspense e no cérebro de Langdon para solucionar seus problemas, o longa-metragem decide se encaixar em uma fórmula clichê, despida de inventividade.

O Langdon de Inferno não é testado tanto quanto em seus dois primeiros filmes e suas especialidades, história da arte e simbologia, não são peças chaves para solucionar a ameaça biológica do filme.

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Da mesma forma, o desfecho credível e questionador do livro é descartado em prol de um final feliz que não convence. Um romance para Langdon também é criado e as coincidências que o envolvem beiram o ridículo.

É uma pena que um livro tão cheio de suspense e detalhes acabe se tornando só mais um filme de ação, sem nenhum brilhantismo que o faça se destacar entre os lançamentos do ano.

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Ainda assim, Inferno é ótimo entretenimento. Se os clichês e soluções fáceis são ignorados, o público pode sim ter uma experiência agradável no cinema. É um longa que prende a atenção com facilidade e as ótimas atuações de Tom Hanks e Felicity Jones conduzem a saga com maestria.

É bem verdade que as mudanças de trama e personagens empobrecem o material criado por Dan Brown, mas, como filme de ação e suspense, Inferno é decente. Seu roteiro pode ser bruto e confuso muitas vezes, mas não é ruim o suficiente para comprometer a obra em sua totalidade. É uma pena ver os pontos mais intrigantes e inteligentes do livro serem cortados na versão hollywoodiana, demasiadamente caricata e maniqueísta. Pelo menos é uma boa diversão – mas nada além disso.


Esquadrão Suicida

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DC tem seus dois filmes de 2016 entre os piores do ano

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Suicide Squad
DIREÇÃO: David Ayer
DURAÇÃO: 123min
GÊNERO: Ação
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2016
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Já é público e notório que a DC Comics está correndo atrás do tempo perdido e tentando alcançar a Marvel na construção de um universo cinematográfico aclamado por público e crítica e que, ao mesmo tempo, encha os cofres da Warner Bros. Mas apesar do vanguardismo e da qualidade de filmes do passado, como os Batmans de Tim Burton e Christopher Nolan, a DC ainda está muito atrás de sua concorrente controlada pela Disney, e seus dois lançamentos de 2016 não geram grandes expectativas para o futuro.

Com medo de que super heróis usem seus poderes contra a humanidade, Amanda Waller (Viola Davis) consegue autorização do governo dos Estados Unidos para montar um grupo de elite formado por alguns dos maiores vilões da humanidade. Junto com o soldado Rick Flag (Joel Kinnaman), ela recruta Pistoleiro (Will Smith), Arlequina (Margot Robbie), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), El Diablo (Jay Hernandez), Amarra (Adam Beach) e Katana (Karen Fukuhara), que juntos precisam deter Magia (Cara Delevingne), uma entidade poderosa.

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A característica mais marcante do roteiro de Esquadrão Suicida é o gigantesco número de furos. Procurar incoerências e absurdos ao longo do filme acaba se tornando sua parte mais divertida. A ideia geral do grupo de super vilões por si só já é exagerada. Em nenhum momento Amanda Waller cogita montar uma equipe formada por heróis preocupados em salvar a humanidade, um caminho que certamente seria mais fácil. Encaremos a falha como uma licença poética, para não estragar a premissa do filme.

Ainda assim, o esquadrão vilanesco é completamente desequilibrado: tanto no tempo de tela e destaque dados a cada personagem, quanto na contribuição deles para o grupo. Enquanto El Diablo pode incendiar qualquer coisa, Arlequina tem… um taco de baseball. Crocodilo é forte e parece indestrutível, mas Capitão Bumerangue sabe… fazer comentários machistas. Em sua ambição de partir para a porrada e mostrar que vilões também são legais, David Ayer acaba tornando suas personagens – que estão cheias de potencial – em figuras rasas e desequilibradas. O ápice é alcançado com Amarra, que foi colocado na trama para morrer, literalmente.

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Outro aspecto irritante em Esquadrão Suicida é sua necessidade de esfregar na cara do público que vilões podem ser gente boa. É interessante quebrar com o maniqueísmo do mundo dos heróis, mas não há qualquer tipo de sutileza na abordagem desse aspecto da trama. Existe uma insistência em escancarar a incerteza sobre quem representa o “mal” na história que faz com que o espectador pareça burro, incapaz de chegar à qualquer interpretação sem ajuda. A vontade de deixar essa dúvida em evidência é tanta que muitas das ações da personagem Amanda Waller acabam sendo aleatórias, sem fazer qualquer sentido.

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Da mesma forma, a abordagem do romance de Coringa (Jared Leto) e Arlequina é totalmente desconexa. Fica evidente o medo do diretor em mostrar a relação abusiva que as duas personagens mantêm no mundo dos quadrinhos. Dessa forma, a dupla acaba sendo romantizada, mesmo que não haja explicação suficiente para entender seu relacionamento. Faltou coragem à equipe de Esquadrão Suicida na hora de colocar um problema tão sério e recorrente em pauta.

Enquanto isso, o Coringa de Jared Leto fica entre o ridículo e o vergonhoso. Depois de toda a publicidade em torno da escolha do ator para o papel, Leto entrega bem menos do que promete. Sabemos que muitas de suas cenas foram cortadas do longa, mas mesmo assim, o que vemos é suficiente para não termos qualquer empatia por seu Coringa. Diferente da excentricidade e do brilhantismo demonstrados por Jack Nicholson e Heath Ledger em suas encarnações do inimigo do Batman, Jared Leto mais parece um drogado. Seu Coringa não tem qualquer tom de loucura, que é tão importante para a personagem, e passa uma constante sensação de alguém que simplesmente está bêbado. É exageradamente forçado.

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Nada realmente faz sentido em Esquadrão Suicida. Entre a sexualização exagerada e desnecessária de Arlequina e suas péssimas cenas de ação, o filme acaba confirmando o medo com o futuro do universo cinematográfico da DC. Tudo parece ser feito às pressas e suas melhores cenas já foram apresentadas ao público nos trailers do filme. A real ameaça que surge na história é boba e acaba sendo solucionada de uma hora para a outra, sem qualquer tipo de emoção. O resultado é, em resumo, triste. Depois de tanta expectativa, o que resta é a frustração em relação a um filme com um material rico e original em mãos, mas que não aprendeu nada com o desastre de Batman v Superman.