A Chegada

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Ficção científica surpreende ao se afastar de aliens e tomar rumo muito mais sensível

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Arrival
DIREÇÃO: Denis Villeneuve
DURAÇÃO: 116min
GÊNERO: Drama, Ficção, Suspense
PAÍS: EUA
ANO: 2016

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Vez ou outra um filme de ficção científica chama a atenção durante o ano e acaba parando na lista de indicados ao Oscar de Melhor Filme. Foi assim com Perdido em Marte e Gravidade, por exemplo. O gênero, que tende a ser esquecido por muitas premiações, tem se reinventado e conquistado justamente seus votantes. Com roteiros cada vez mais desenvolvidos e efeitos especiais sempre mais inovativos, esses filmes têm apostado em sua parte dramática tanto quanto na parte ficcional, como é o caso de A Chegada.

Doze espaçonaves aparecem em pontos misteriosos ao redor do mundo, comprovando assim a existência de vida fora da terra. Para tentar fazer contato com seus tripulantes, o governo estadunidense contrata a linguista Louise Banks (Amy Adams) e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) para desvendarem o idioma dos extraterrestres, até que a missão começa a afetar as vidas pessoais dos dois.

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Como a tendência sugere, A Chegada alcançou o Oscar ao se desprender de sua face mais ficcional em direção a um arco dramático complexo e que é o verdadeiro motor da história. Muitos vão se surpreender – e até mesmo se frustrar – ao descobrir que o filme de Denis Villeneuve é qualquer coisa, menos um filme sobre aliens. O que há de mais inventivo e carismático em A Chegada é justamente a relação humana sobre a qual o filme fala.

O público é levado a acreditar que as doze naves posicionadas em cantos específicos do planeta estão ali para iniciar uma guerra, roubar recursos terráqueos ou qualquer outro objetivo mais previsível em filmes de ficção científica. Mas na verdade A Chegada é, do começo ao fim, um filme que discute o que há de mais intrínseco à raça humana. Louise Banks serve como o fio condutor para que se discuta noções exclusivamente nossas, como amor, coragem e afeição.

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Com uma linha do tempo não linear – algo que só fica claro no fim da trama – , A Chegada é um filme difícil de discutir sem entregar muito de sua história. A graça do longa está justamente nas descobertas que o público faz, todas elas chocantes e muito bem trabalhadas.

Um dos assuntos mais pertinentes para a história é a comunicação. O filme escancara como, em um mundo onde tudo é tão efêmero, violento e insensível, o simples ato de conversar pode gerar soluções e um convívio muito mais pacífico e inteligente. Em tempos de Trump, A Chegada prega temas como solidariedade e cooperação, condenando o egoísmo e a concorrência que marcam o mundo capitalista atual. O próprio filme se comunica com seu público de uma maneira diferente.

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É essa parte humana que faz de A Chegada uma ficção científica diferente. O roteiro faz com que o público reflita sobre diversos temas enquanto busca entender também sua complexa trama. A mensagem que fica é a de que, afinal, devemos viver com medo de nos arriscarmos, de sermos felizes? Ou devemos nos jogar nos acontecimentos, “colher o dia”? É uma temática bonita, extremamente delicada, que é positiva, apesar de um final que parece – mas de maneira alguma é – infeliz. A vida é feita de momentos, de lembranças.

A Chegada é ambição do começo ao fim. Denis Villeneuve faz um belíssimo trabalho de direção, enquanto Amy Adams brilha ao dar vida a uma história tão misteriosa. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas merece ser condenada para todo o sempre por não ter indicado a atriz ao Oscar. É sem dúvida uma das melhores atuações do ano e uma das maiores da carreira de Amy Adams, que já é repleta de performances de tirar o fôlego, apesar de nunca ter sido reconhecida com a estatueta dourada de Hollywood. É, no mínimo, vergonhoso não vê-la indicada.

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Ao entregar o jogo de sua trama, Villeneuve faz com que o público sinta uma verdadeira confusão de emoções. Seu existencialismo aborda temas muito mais pertinentes para o agora do que para a origem ou o pós-vida. Nem por isso o filme deixa de ter tensão. Se há uma coisa presente do começo ao fim em A Chegada, ela é justamente o suspense e a incerteza.

Arrival surpreende por ser um dos filmes mais humanos dos últimos tempos. Ao fim da sessão, somos atingidos por um sentimento de, primeiro, incompreensão, segundo, emoção, para, enfim, sermos inspirados pela beleza por trás de uma aparente invasão alienígena. É um filme carregado de interpretações e significados, abordando sua narrativa de uma maneira sensível, sutil e muito emocionante.


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