Moonlight – Sob a Luz do Luar

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Poeticidade e leveza marcam história sobre ambiente violento e marginalizado

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Moonlight
DIREÇÃO: Barry Jenkins
DURAÇÃO: 111min
GÊNERO: Drama
PAÍS: EUA
ANO: 2016
4

A disputa pela estatueta mais cobiçada de Hollywood está acirrada. Manchester à Beira-Mar esteve forte até pouco tempo, mas a briga acabou ficando entre o escapismo e delicadeza de La La Land e a atualidade e política por trás de Moonlight. Na era de Trump, fica difícil saber quem será o escolhido para receber o Oscar de Melhor Filme, mas os candidatos deste ano estão equilibrados, provando que houve uma ótima safra de produções em 2016.

Moonlight acompanha a vida de um jovem negro, homossexual, da periferia de Miami. De sua infância até os primeiros anos como adulto, Chiron (Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes) luta contra um ambiente violento, preconceituoso e marginalizado, buscando sua própria identidade enquanto tem sua vida tocada pelos mais variados incidentes e pessoas.

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Não há filme mais importante na temporada de premiações do que Moonlight. Uma obra extremamente política, o longa discute questões bastante pertinentes, mas que ainda precisam de visibilidade. Enquanto reflexo de seu tempo e força-motor para mudanças, Moonlight é impecável. Ao tratar de assuntos tão problemáticos, mas que ainda precisam de atenção – da questão racial à sexualidade, do bullying às drogas – , Barry Jenkins escancara uma realidade sofrida, mas indiscutivelmente atual.

Apesar de todo o horror do contexto no qual Chiron vive, Barry Jenkins consegue, com maestria, tornar sua jornada extremamente delicada. O que o diretor faz com Moonlight é algo difícil e arriscado: ele torna prazerosa a experiência de assistir a um filme com discussões pesadas, e nem por isso faz com que seu público deixe de refletir e se revoltar com uma história que nada mais é do que um espelho da atualidade. Se existe algo que se sobressai no longa, é sem dúvida a visão e o cuidado de Jenkins.

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O leque de assuntos debatidos em Sob a Luz do Luar é gigantesco. De temáticas mais frequentes no cinema atual, como a questão racial, a outras menos abordadas, o filme dá conta de promover reflexões profundas e inteligentes, integrando-as à sua narrativa com perfeição. Mas o tema que se sobressai talvez seja a masculinidade. Moonlight expõe o qual frágil e ultrapassada essa noção é. Não somente devido à homossexualidade de seu protagonista, mas por todo o ambiente agressivo e autoritário no qual todas as personagens estão inseridas, sejam elas homens ou mulheres, adultos ou crianças, hétero ou homossexuais.

Enquanto isso, Moonlight conta com um ótimo elenco. Os três atores que interpretam Chiron são bons, mas suas atuações nem se comparam ao maravilhoso grupo de coadjuvantes formado por Mahershala Ali, Janelle Monáe e Naomie Harris.

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O primeiro tem pouco tempo de tela – pouco demais – , mas consegue entregar uma performance cativante como figura paterna do protagonista. Janelle, por sua vez, saiu do mundo da música para brilhar também nas telas e está encantadora como Teresa. Já Naomie escancara uma realidade deprimente, como a mãe viciada em crack de Chiron. É uma atuação completa e tocante, que merece muito mais atenção do que a que tem recebido.

Tecnicamente o filme também não deixa nada a desejar. Sua trilha sonora é incisiva, original e sabe alternar com precisão entre os momentos de leveza e de peso do roteiro de Moonlight. Já a fotografia, acompanhada por uma paleta de cores muito bem pensada, é responsável por imagens equilibradas, mas que também são capazes de passar a tranquilidade e a euforia, conforme esses dois elementos são necessários para a trama.

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Moonlight sofre um pouco por causa de seu roteiro. Ele é ousado, importante e original, mas ao se preocupar demasiadamente com suas nuances políticas, acaba negligenciando um pouco a narrativa. O problema não está no final abrupto – esta é uma das grandes sacadas do filme – , mas em pequenos detalhes no decorrer da trama.

Muitos pontos ficam soltos no roteiro. O Juan de Mahershala Ali, tão importante no primeiro ato, some misteriosamente. É fato que tornar o fim da personagem algo expositivo e visual comprometeria a delicadeza da trama, mas falta espaço para o desenvolvimento de Juan. O mesmo vale para Paula, mãe de Chiron, que vai do (quase) céu ao inferno de maneira muito súbita.

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É curioso pensar nesses pontos como problemas, já que grande parte da originalidade de Moonlight se deve à falta de cenas explicativas demais. É interessante ver como a história consegue se manter forte sem precisar expor tudo o que acontece na vida de Chiron, deixando muitas passagens subentendidas. Ainda assim, alguns ajustes seriam bem-vindos.

Moonlight é um filme extremamente necessário, que não compromete a beleza de sua história ao passar para o público suas ideias. Há questionamento e debate em todos os momentos, mas de forma extremamente sutil e não por isso menos eficiente. Muito bem executado e politizado na medida certa, Sob a Luz do Luar é um filme que fica fresco na memória e, da mesma forma, entra para a história do cinema por sua narrativa cativante e ao mesmo tempo revolucionária.


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