Lion: Uma Jornada Para Casa

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Sentimentalismo atrapalha roteiro de filme inspirado em história real

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Lion
DIREÇÃO: Garth Davis
DURAÇÃO: 118min
GÊNERO: Drama
PAÍS: Austrália, EUA, Reino Unido
ANO: 2016
3

Histórias de superação inspiradas em fatos reais muitas vezes são sucesso de público. Vez ou outra, uma delas se destaca também na temporada de premiações. Seguindo os passos de filmes como Filomena, indicado ao Oscar em 2014, Lion é um filme bem feito, mas que parece deslocado na categoria de Melhor Filme da Academia. Apoiado em atuações fortes, é o tipo de longa que sensibiliza o público, mas não tem nada de muito novo a oferecer.

Aos cinco anos de idade, Saroo (Sunny Pawar e Dev Patel) se perde de seu irmão mais velho nas ruas de Calcutá, na Índia. Longe de casa e sem saber o idioma local, o menino vai parar em um abrigo para crianças de rua, e mais tarde é adotado por John (David Wenham) e Sue Brierley (Nicole Kidman), um casal australiano. Depois de 25 anos, Saroo decide que é hora de procurar sua família indiana.

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Lion é o tipo de filme que aposta pesado no melodrama. Não podia ser diferente, afinal, sua trama é movida a sentimento do começo ao fim. Ao contrário de muitas histórias que fazem do sentimentalismo algo totalmente negativo, porém, Uma Jornada Para Casa consegue fugir de alguns clichês do subgênero, sendo bastante interessante em certos momentos.

Mesmo assim, o diretor estreante Garth Davis pesa a mão em certos aspectos do filme. Ao dedicar espaço demais ao sentimentalismo, acaba comprometendo outros pontos do roteiro, que são sub-explorados.

Lion pode ser dividido em duas partes: a infância de Saroo e sua vida adulta, quando o personagem de Dev Patel parte em busca de sua família biológica. Na primeira delas, a abordagem do filme é bastante lenta se comparada à segunda metade. Isso permite ao diretor explorar com maestria o medo, o abandono e os perigos pelos quais seu protagonista, ainda criança, passa. O público fica facilmente aflito ao acompanhar o jovem Saroo pelas ruas de Calcutá, sozinho e conhecendo um mundo muito mais oportunista do que ele jamais poderia imaginar.

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É na segunda metade de Lion que a trama começa a perder força. A narrativa passa muito rapidamente, deixando várias pontas do roteiro soltas. É nítido que seu elenco se esforça para acompanhar o que acontece na tela, tentando deixar também o público inteirado dos problemas que martelam a cabeça de Saroo. Mas nem os talentos de Nicole Kidman são capazes de ajudar, enquanto Davis parece perder as rédeas de seu próprio filme.

Em determinada cena, Saroo é um jovem estudante, apaixonado pela colega Lucy (Rooney Mara) – uma personagem porcamente explorada – , até que experimenta um prato indiano que o faz lembrar da família perdida há 25 anos. A partir daí, a vida do protagonista muda radicalmente e sem qualquer sutileza. Na cena seguinte, ele rompe seu relacionamento. Depois, briga com a família. Pede demissão. Se isola de todos.

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Isso por causa de sua obsessão em achar o endereço onde se perdeu usando uma plataforma do Google. Há potencial na premissa, mas tudo ocorre tão rápido e com tão pouca explicação e cuidado, que o público se perde em uma história antes tão profunda e agora tão rasa.

Por outro lado, essa segunda metade do filme é interrompida em momentos cruciais pelos devaneios de Dev Patel, que passa a se sentir deslocado. Afinal, ele ainda é aquela criança pobre indiana ou se transformou totalmente em um estudante australiano cheio de potencial?

São essas reflexões entre vida passada e vida presente que mantém o filme funcionando. Existe uma discussão sobre sua identidade que é bem feita. Em determinada cena, Saroo diz a colegas que é australiano. Quando eles ficam surpresos, ele muda e diz que é indiano, mas sem muita convicção quanto à sua real origem.

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Apesar do sentimentalismo ser seu principal motor, ele compromete o clímax de Lion. Durante todo o filme, o público espera ansioso pelo reencontro de Saroo com sua família biológica. Quando ele finalmente chega, porém, a cena parece um tanto contida. Isso não seria problema, caso Lion não criasse para si próprio a tarefa de emocionar seu público exageradamente.

O que há de realmente precioso no longa, além da ótima fotografia, é seu elenco. Nicole Kidman está irreconhecível, abalando o público como a mãe adotiva de Saroo. Rooney Mara, apesar de pouco explorada, adiciona graça e leveza ao filme. O jovem Sunny Pawar surpreende, assim como Dev Patel, que entrega uma performance esforçada, emocionante e muito convincente. Mal parece o adolescente que surgiu nas telas no controverso seriado britânico Skins.

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Lion é um filme light, que apesar do tema choroso, não vai a fundo nas discussões que se propõe a fazer. O reencontro entre Saroo e sua família, mais uma vez, é problemático ao se reduzir a abraços e lágrimas. Não é mostrada qualquer conversa substancial entre ele e os parentes indianos, o que dá a sensação de que Davis fugiu de debates importantes que poderiam ser feitos.

O filme realmente peca por essa ausência de ousadia, de inventividade. Acaba caindo em um lugar comum, sendo somente mais um longa de auto-descoberta. As incertezas e aflições que certamente encheram a cabeça do Saroo da vida real são poupadas nessa versão dramatizada, o que é uma pena. Lion funciona muito bem como um entretenimento pautado na emoção, mas há potencial em sua história para algo mais.


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