Jackie

Padrão

Natalie Portman discute luto e legado em performance memorável

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Jackie
DIREÇÃO: Pablo Larraín
DURAÇÃO: 100min
GÊNERO: Drama
PAÍS: EUA, Chile, França
ANO: 2016

5


Os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas adoram atores que encarnam personagens históricas – principalmente se forem bastiões da cultura norte-americana. Daniel Day-Lewis levou seu último Oscar graças a seu papel como Abraham Lincoln, e Meryl Streep pela performance como a britânica Margaret Thatcher. Agora é a vez da já oscarizada Natalie Portman calçar os sapatos de uma das figuras mais icônicas do último século, Jacqueline Kennedy, papel que a rendeu mais uma indicação à estatueta de ouro.

Após o trágico assassinato do presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy (Caspar Phillipson), a então primeira-dama Jacqueline Kennedy (Natalie Portman) trava uma batalha com a classe política e consigo mesma, oscilando entre luto e fé, na tentativa de preservar o legado de seu marido.

bn-ra551_jackie_m_20161201101817

Assim como seu companheiro de Oscar Manchester à Beira-Mar, Jackie é um filme que lida com o luto, embora de uma perspectiva diferente. A biografia está centrada no morto, ao contrário de Manchester. Jacqueline conduz a narrativa, mas sua dor e preocupações estão estritamente conectados ao falecido marido. O que está em jogo em Jackie é o que sobra de Kennedy após sua morte.

Lento, Jackie abre portas para diversas reflexões. A que está mais presente é aquela relacionada ao legado. O que será de nós e daquilo que fizemos em vida depois que morrermos? Essa é uma das questões que martelam a cabeça da protagonista, que quer ver seu marido sendo lembrado pelo mundo não como um presidente qualquer, mas com toda a glória que ela acredita merecer.

natalie-portman-jackie-peter-sarsgaard-bobby-kennedy

Jacqueline acaba decidindo que um grande funeral, que chame a atenção do mundo, é o caminho mais fácil para preservar o legado de John F. Kennedy, e precisa batalhar com a classe política ao seu redor para garantir a grandiosidade do evento – mesmo que isso inclua colocar não somente ela em risco, mas também líderes mundiais e até mesmo seus filhos.

Jackie discute a efemeridade da vida. Não da maneira simplista que a frase sugere, mas de uma forma muito mais complexa. Pouco importa o que será de seu futuro ou do futuro de seu país. As energias de Jacqueline estão totalmente concentradas no show que deveria se tornar o funeral do marido, feito à imagem do de Abraham Lincoln, para, quem sabe dessa forma, Kennedy ser igualmente alçado ao status de um dos maiores líderes da nação.

jackie-natalie-portman-movie-jackie-17

Apesar de se tratar de uma figura pública e mundialmente conhecida, Pablo Larraín dirige um filme bastante intimista. O espectador é colocado dentro da cabeça de Jacqueline e, em todos os momentos de solidão da protagonista, se sensibiliza, se solidariza e até mesmo se incomoda com o que vê.

Das lembranças ressuscitadas por Jacqueline até os momentos em que ela esfrega, desesperadamente, o sangue já seco de suas roupas após o assassinato do marido, o espectador tem a sensação de estar vivenciando aquele turbilhão de emoções junto com ela. Da mesma forma que a personagem oscila em relação à sua fé, o público também questiona o que fazer frente a tamanha tragédia.

ht_jackie-movie-cf-161201_12x5_1600

A fotografia e a trilha sonora contribuem para o sentimento de intimidade. Várias imagens de Jackie propiciam um retrato solitário de Jacqueline, vagando sozinha pela opulência dos cômodos da Casa Branca, enquanto a música de Mica Levi é reducionista, servindo como um necessário apoio para os sentimentos que o filme busca passar. Ela invade o individualismo e o sofrimento da protagonista de forma bastante pontual e eficiente.

Com uma performance visceral, sensível e extremamente forte, Natalie Portman é a chave para o sucesso de Jackie. Se no primeiro momento sua performance parece caricatural demais, seguindo à risca os maneirismos de Jacqueline Kennedy, ao longo do filme fica claro que o realismo da atuação é essencial para mergulhar na cabeça da personagem. Portman entrega um trabalho memorável e é razoável dizer que, não fosse por seu talento, o filme não funcionaria tão bem ou nem mesmo seria fácil de ser assistido.

jackie-natalie-portman-movie-jackie-5

Há certa artificialidade em Jackie, mas isso não serve como ponto negativo, como seria em muitas outras biografias. Essa característica funciona muito bem nesse caso justamente pelo que o filme se propõe a discutir. As aparências que Jacqueline precisa manter e até mesmo a grandiosidade que ela quer para o funeral do marido jogam com essa questão, tornando a artificialidade outro tema dissecado pelo roteiro de Noah Oppenheim.

O sentimento que fica ao fim de Jackie é o de perda. Assim como o assassinato de John F. Kennedy é lembrado como o fim de uma possível era de ouro para os Estados Unidos, graças ao modernismo não somente do presidente, mas, claro, também de sua esposa, Jackie deixa uma mensagem de desilusão e incerteza em relação à morte e o que vem depois dela. É um filme ousado e de uma qualidade absurda.


Anúncios

Um comentário sobre “Jackie

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s