A Lenda de Tarzan

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Rei da selva é só músculos em adaptação superficial e desnecessária

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: The Legend of Tarzan
DIREÇÃO: David Yates
DURAÇÃO: 110min
GÊNERO: Aventura, Ação
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2016

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Concebido pelo estadunidense Edgar Rice Burroughs para uma revista de ficção em 1912, Tarzan se tornou, ao longo do século XX, uma das personagens literárias mais conhecidas e retratadas do mundo. Muitos se lembram do rei da selva graças à animação de 1999 produzida pela Disney, que fez com que toda uma geração reservasse um espaço especial para Tarzan em sua memória. Esse apelo pode muito bem ter motivado a Warner Bros. a levar a personagem às telas mais uma vez, mas, no fim, acaba deixando A Lenda de Tarzan uma experiência ainda mais desconfortável.

Em meio à modernidade de Londres, John Clayton (Alexander Skarsgard) é persuadido por George Washington Williams (Samuel L. Jackson) a retornar às suas origens de Tarzan em uma viagem pela África. Mas a ambição do diplomata belga Leon Rom (Christoph Waltz) em conseguir diamantes preciosos guardados por uma tribo no Congo colocam a vida do rei da selva e de sua esposa, Jane (Margot Robbie), em perigo.

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A história de Tarzan não é novidade. Pelo menos aqui no Brasil, todos conhecem alguma coisa sobre a vida do rei da selva. A Lenda de Tarzan, porém, começa sua narrativa em plena Londres, mostrando o protagonista – agora chamado John Clayton – como um membro da aristocracia britânica, adaptado aos luxos do continente europeu e relutante em voltar à África, onde cresceu.

Desde o começo o roteiro do filme de David Yates parece sem rumo. Logo de cara descaracteriza o rei da selva, e, mesmo que lentamente reconstrua sua imagem de “selvagem”, nunca ficamos plenamente convencidos da sintonia que Tarzan tem com a África. Jane, por outro lado, parece muito mais integrada aos costumes e à alma do continente.

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Sendo assim, o Tarzan dessa nova adaptação acaba sendo uma personagem extremamente rasa. Seja por assumir que o público já conhece sua história ou por pura falta de cuidado com o texto, David Yates não explica de forma coerente os motivos que levaram Tarzan a abraçar a “civilidade” de Londres. Essa preferência seria explicada pela obsessão do líder de uma tribo congolesa em matar o protagonista, mas o desfecho para a rixa entre as duas personagens é tão rápido e tosco que não justifica a falta de desenvolvimento.

Para driblar a “masculinidade” presente na lenda de Tarzan, a saída encontrada pelo filme foi fazer de Jane uma personagem muito mais forte e importante do que em outras adaptações da história. Pena que a tentativa não vinga. Em uma das primeiras cenas do longa, a personagem é sequestrada por Leon Rom, que a força a gritar – “como uma donzela” – para que Tarzan a salve.

Ela se recusa, cospe na cara do vilão e, nos próximos 90 minutos de filme, encarna justamente o papel da mocinha indefesa. Margot Robbie tem alguns bons momentos de coragem e personalidade, mas que não compensam sua situação imutável de donzela em apuros.

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Se Tarzan e Jane decepcionam, podemos esperar que pelo menos o vilão Leon Rom, interpretado pelo oscarizado Christoph Waltz, compense a mediocridade das outras personagens, certo? Errado. O vilão belga é extremamente caricato e carrega consigo uma espécie de “terço indestrutível” que ele usa para intimidar seus inimigos.

Tarzan pode derrotar animais selvagens e mercenários armados, mas é derrubado justamente pelo acessório de Christoph Waltz, um homem que claramente não tem a menor afinidade com armas e lutas. Mais um furo gigantesco em um roteiro que decididamente não preza pela coerência. Enquanto isso, Samuel L. Jackson é reduzido a um alívio cômico forçado e idiotizado e Jim Broadbent é vergonhosamente subutilizado.

LEGEND OF TARZAN

O Tarzan de David Yates é, em resumo, o resultado de uma geração cada vez mais bombardeada por filmes de heróis. A maneira como o protagonista é montado nesta versão cinematográfica remete aos filmes inspirados nos quadrinhos, com suas personagens indestrutíveis e poderosas. Tarzan pode ser arremessado de penhascos e ter suas costas arrebentadas por um gorila, mas continua em frente, com a mesma energia e força.

Não há licença poética que justifique tamanha falta de criatividade por parte da equipe de A Lenda de Tarzan. O rei da selva acaba reduzido a uma espécie de “Branca de Neve da Marvel”, graças à rídicula e inexplicável habilidade de se comunicar com os animais e usá-los para salvar o dia em cenas carregadas de exagero e que, no máximo, provocam risadas, como é o caso do desfecho do filme.

A sensação que fica é de que temos uma ótima personagem desperdiçada pela ambição de se dar bem nas bilheterias mundiais. É um filme feito puramente de músculos: não tem cabeça nem coração, já que peca pela falta de coerência e não proporciona qualquer momento verdadeiramente emocionante. A história segue os impulsos de suas personagens, mesmo que eles não façam muito sentido. É uma versão completamente dispensável de Tarzan.


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