O Regresso

Padrão

DiCaprio ‘volta dos mortos’ em filme que pode render seu primeiro Oscar

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: The Revenant
DIREÇÃO: Alejandro González Iñárritu
DURAÇÃO: 156min
GÊNERO: Drama, Aventura
PAÍS: EUA
ANO: 2015
3

Desde que ganhou seu Oscar de Melhor Direção e Melhor Filme por Birdman, em 2015, o mexicano Alejandro G. Iñárritu tem passeado por Hollywood com um ego bastante inflado. Recordista de indicações do próximo Academy Awards (12), O Regresso pode não entrar para a história como o grande vencedor da noite – ou nem mesmo como um grande filme -, mas provavelmente será o responsável por algo que o queridinho de todos, Titanic, nem chegou perto de conseguir: garantir o tão aguardado Oscar de Leonardo DiCaprio.

Guia de uma expedição que consegue seu sustento vendendo a pele dos animais que caça, Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) é ferido gravemente por um urso em um local isolado, enquanto o inverno e uma tribo de índios inimiga se aproximam. O chefe da companhia, Andrew Henry (Domhnall Gleeson), designa John Fitzgerald (Tom Hardy) e Bridger (Will Poulter) para cuidar de Glass até que a hora de sua morte chegue. Mas “Fitz” resolve abandonar o companheiro e mata seu filho Hawk (Forrest Goodluck). Glass então se recupera e começa uma jornada de sobrevivência e vingança.

the-revenant-leo-dicaprio-2

O Regresso é um filme indeciso. Resolve contemplar vários temas – muito distintos – e não se aprofunda em nenhum deles. Seu objetivo flutua entre a relação nativo/colonizador, a busca por vingança, o instinto de sobrevivência, a relação do homem com a natureza e até mesmo religião e existencialismo. Graças a essa mistura, o roteiro de Revenant, que já é relativamente simples, acaba sofrendo pela superficialidade de muitos momentos.

Isso abre espaço para Iñárritu mostrar sua vontade de tornar O Regresso a obra prima que não é. Diversas passagens conduzidas pelo mexicano soam falsas, inexplicáveis e evidenciam uma tentativa de tornar o longa um “filme de arte”, sério, mas que na realidade não consegue tratar de temas profundos e existenciais com a sutileza de Alex Garland, por exemplo, que concorre ao Oscar pelo roteiro de Ex-Machina. O encontro imaginário de Glass com seu filho em uma igreja é um exemplo dessas cenas, que carecem de real significado.

O grande inimigo de O Regresso é, portanto, seu próprio diretor, pretensioso demais para não sobrecarregar o magro roteiro de seu filme. Não que a simplicidade do texto seja algo negativo. Temos um explorador, ferido gravemente, em busca de vingança. É isso. Não existe motivo para lotar a história com ideias mirabolantes que buscam nada além de reconhecimento.

therevenanttomhardy

Dessa forma, O Regresso acaba se tornando muito mais um filme sobre imagens, desde a beleza da fotografia do brilhante Emmanuel Lubezki – que provavelmente ganhará seu terceiro Oscar seguido no fim do mês – até a escatologia (ou o “gore”) presente nos desafios que Hugh Glass precisa enfrentar, como comer carne crua ou dormir dentro da carcaça de um cavalo. É um longa disposto a surpreender tanto por sua beleza quanto pela violência.

Fica claro que Iñárritu quer chocar. Mas não consegue fazer seus personagens “sangrarem” com a mesma personalidade e graça de Tarantino. O filme inteiro parece muito mais preocupado em testar os limites de Hugh Glass – e do próprio DiCaprio. É como se Iñárritu criasse seu Kill Bill. Todos os elementos estão lá: a experiência de quase morte, a sede por vingança, as memórias de um filho perdido e o sangue. Mas falta o brilhantismo e sutileza de Quentin Tarantino.

Não fosse pela maneira como algumas de suas cenas são executadas, O Regresso seria muito melhor e talvez até conseguisse alcançar o título de “filme cabeça” que Iñárritu tanto procura. A relação entre colonizador e nativo, por exemplo, é pintada de forma interessante pelo filme, que desconstrói a noção de selvageria criada pelo colonizador europeu e mais tarde adotada pelo americano. Mas todo o papo de “vida e morte” acaba ofuscando as qualidades de O Regresso.

The-Revenant

Uma delas, inclusive, é seu elenco. Tom Hardy e Domhnall Gleeson fazem ótimos trabalhos e são raros os atores que conseguiriam carregar a pesada trama de O Regresso tão bem quanto DiCaprio. Quando o ator subir ao palco do Dolby Theatre no fim do mês para buscar seu tão aguardado Oscar, será por total merecimento.

Mas O Regresso é, no geral, desperdiçado. Se tivesse se comprometido com seu gênero e deixasse para trás as tentativas de se tornar um 2001: Uma Odisseia no Espaço do velho oeste, alcançaria um resultado melhor. Não que o filme seja ruim, pois não é. Com suas duas horas e meia de duração, ele é capaz de prender a atenção, além de proporcionar momentos de incrível tensão. Mas nada que justifique o ego cada vez mais inflado de Iñárritu.


Anúncios

Um comentário sobre “O Regresso

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s