Perdido em Marte

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Ridley Scott volta a surpreender após uma série de trabalhos medianos

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: The Martian
DIREÇÃO: Ridley Scott
DURAÇÃO: 141min
GÊNERO: Drama, Ficção
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2015
5

Ridley Scott nos deu alguns sustos nos últimos anos. Sua versão para Robin Hood, de 2010, foi somente mais um daqueles blockbusters vazios, que embarcam em alguma aventura fantasiosa do passado. Êxodo, de 2014, deixava muitas questões em aberto e não soube aproveitar uma boa história. Prometheus, de 2012, era só mais uma ficção caça-níqueis sem sentido. Não foi à toa que Perdido em Marte, mesmo com uma boa campanha de divulgação, levantou muitas dúvidas. No fim, não esperarmos muito dele somente ajudou a engrandecer a belíssima história de um diretor que volta a fazer jus aos clássicos que criou no passado.

Durante uma missão mal sucedida a Marte, o astronauta Mark Watney (Matt Damon) é deixado sozinho no planeta vermelho por sua equipe, liderada por Melissa Lewis (Jessica Chastain), que acha que o companheiro morreu durante uma tempestade. O protagonista precisa achar maneiras de se manter vivo até que a Nasa consiga enviar uma missão de resgate para trazê-lo de volta para a Terra, algo que pode levar anos.

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Em primeiro momento, a trama de Perdido em Marte pode parecer forçada, afinal, sobreviver no planeta vermelho é uma loucura grande demais para ser lançada em meio a filmes tão racionais como Gravidade. Esse, talvez, seja o elemento surpresa da obra: quando você menos espera, lá está Mark Watney, ensinando ciência para o público e usando também a imaginação para sobreviver à hostilidade do local.

Quando achamos ser impossível cultivar comida fora da Terra, o botânico nos surpreende e dá ao público uma plantação de batatas. Quando questionamos a falta de água, Watney entrega à plateia uma fórmula química capaz de produzir o elemento. Quando tudo parece perdido, Matt Damon senta na frente de seu computador, conversa com o diário de viagem eletrônico, surta e acaba achando uma solução. Mais impressionante que a inteligência de Mark é vermos como a ciência, misturada a um pouco de esperança, pode fazer “milagres”.

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Do começo ao fim, por meio de suas inúmeras reviravoltas, Perdido em Marte prende a atenção do público, mesmo com seus diálogos um tanto complexos. A escolha de narrar a história por meio do diário de viagem de Mark é excelente, impedindo que o filme se torne um grande monólogo – ou até mesmo um silêncio absoluto. Enquanto isso, as inserções do que está acontecendo na sede da Nasa ou na nave onde está a antiga equipe de Mark são igualmente bem feitas, deixando o filme dinâmico e envolvente.

Bem humorado na medida certa, Perdido em Marte concilia ciência e drama com facilidade, tendo alívios cômicos bem planejados e nos momentos certos. Isso, em parte, devido ao carisma de Matt Damon, que encarna seu astronauta com perfeição. Um ator menos talentoso talvez não fosse capaz de suportar, sozinho, o peso dramático das mais de duas horas de filme. Mas Damon está brilhante, se entregando ao desespero de Watney e migrando facilmente para seus momentos de epifania, dando veracidade e graça ao papel.

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O filme ainda tem como mérito frear os ufanismos normalmente presentes em grandes produções do gênero. Em sua mensagem de esperança, Perdido em Marte se destaca por solucionar o seu problema através de uma cooperação que envolve a China, pintada aqui como uma nova potência e que acaba, eventualmente, salvando a pele do governo estadunidense.

É um filme que, apesar da ficção, tem um lado humano muito forte e se compromete demais com a sua mensagem para permitir exageros ou maniqueísmos. Por exemplo: não existem vilões. As ações de todas as personagens são explicadas cuidadosamente e o público pode ver que elas, mesmo que tenham consequências ruins, tiveram um motivo justo e compreensível. É o caso de Lewis, que, muito racional, deixa Watney para trás e acaba se remoendo pelo resto do longa, sendo que em nenhum momento a vemos como uma pessoa má.

Perdido em Marte é diversão garantida. Faz rir, nos deixa tensos, emociona e carrega uma visão bonita de otimismo quanto ao futuro. Do roteiro aos efeitos especiais, nada decepciona na ficção científica, que consegue se destacar mesmo em meio à crescente onda de filmes no estilo “sozinho no espaço”. Depois de alguns trabalhos de qualidade questionável, Ridley Scott não parece mais perdido.


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4 comentários sobre “Perdido em Marte

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