Boyhood: Da Infância à Juventude

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Filme gravado em 12 anos celebra a vida

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Boyhood
DIREÇÃO: Richard Linklater
DURAÇÃO: 165min
GÊNERO: Drama
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2014

5


Fazer um filme demora muito tempo. Às vezes, ao ver o produto final, é difícil acreditar que aqueles poucos minutos levaram dois, três anos para chegarem até as salas de cinema. O que surpreende no projeto de Richard Linklater é justamente isso: o tempo. As filmagens de Boyhood demoraram 12 anos para serem finalizadas e o resultado é uma obra fascinante.

Boyhood acompanha a personagem Mason (e também o ator Ellar Coltrane, seu intérprete) dos 6 aos 18 anos. Por meio de passagens cotidianas, o espectador é apresentado ao protagonista e sua relação com os amigos, com sua família e consigo mesmo. Enquanto isso, sua mãe (Patricia Arquette) luta para criar Mason e sua irmã Samantha (Lorelei Linklater), tentando conciliar as obrigações com sua vida amorosa e profissional. O pai (Ethan Hawke) busca superar a precoce separação com a personagem de Arquette e estar cada vez mais presente no amadurecimento dos filhos.

O longa de Linklater foge de muitas das regras hollywoodianas. Não somente a maneira como foi produzido é exceção na indústria, como também sua estrutura, que quebra com o perfil de três atos da grande maioria dos filmes (introdução, problematização e conclusão). Dessa maneira, a obra acaba sendo plana, mantendo um mesmo ritmo durante suas quase três horas. Não há clímax e reviravoltas explícitas ou de grandes proporções, conferindo certa sutileza ao longa.

Essa escolha, sem dúvida ousada, funciona muito bem, mesmo que, em determinados momentos, deixe a trama cansativa. A falta de tensão pode incomodar alguns espectadores, que acham o filme monótono e parado. Ele realmente é, mas é justamente essa trivialidade que está em jogo na história de Boyhood: o filme tenta explicitar quão pacata e simples a vida é. Essa simplicidade permite uma aproximação entre o público e os vários elementos do longa. O bullying na escola ou a ida para a faculdade são apenas algumas das passagens que comprovam isso.

Quando o filme é levado para o contexto estadunidense, algumas de suas cenas podem ser mais significativas e autênticas, embora isso não impeça o longa de se tornar universal. A rebeldia de Mason quando alcança o nível da bebida e do cigarro, por exemplo, parece precipitada, mas sem esforço confere um retrato coeso da juventude de forma geral.

Enquanto isso, o espectador se depara com interessantíssimas menções à cultura pop e seu desenvolvimento ao longo da última década: o sucesso de Harry Potter está fielmente retratado, assim como a revolução que o Nintendo Wii trouxe para o mundo dos games. Star Wars e Britney Spears também participam de cenas engraçadas e interessantes.

A trama, além de abrir um vasto leque de interpretações (muitas delas pessoais), mostra como as histórias de cada indivíduo estão conectadas, direta ou indiretamente: fazemos todos parte de um ciclo. Enquanto isso, as passagens de tempo de Boyhood são rápidas, quase imperceptíveis, não fosse pela mudança física das personagens. Tudo isso para escancarar com certa frieza a efemeridade da vida.

Quando refletimos sobre as mudanças no pai de Mason – antes descompromissado e democrata mas que termina o longa caçando no sul dos Estados Unidos, logo após assistir à missa – fica evidente como o tempo e as pessoas que encontramos são essenciais para a construção de nossa personalidade.

Boyhood é um filme que brinca com a realidade e a ficção, flertando com ambas de forma bastante equilibrada. A grande sacada de Richard Linklater foi perceber em algo tão pequeno e rotineiro o potencial para uma grande história. O público se surpreende por isso: um roteiro comum, focado no cotidiano, simples, mas ao mesmo tempo extraordinário. Boyhood é poético, mesmo aparentando ser tão banal. A vida é uma caixa de surpresas.


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3 comentários sobre “Boyhood: Da Infância à Juventude

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