O Jogo da Imitação

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Filme com Benedict Cumberbatch mostra a guerra além dos campos de batalha

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: The Imitation Game

DIREÇÃO: Morten Tyldum

DURAÇÃO: 114min

GÊNERO: Drama, Biografia

PAÍS: Reino Unido, Estados Unidos

ANO: 2014

5


Talvez Alan Turing seja uma das mais intrigantes representações de preconceito existentes na história. Durante a Segunda Guerra Mundial, o matemático britânico se dedicou à criação de uma máquina capaz de decifrar as mensagens militares nazistas. Tal feito foi essencial para a vitória dos Aliados – ou dos “bonzinhos” – na batalha. Com o reestabelecimento da paz em solo inglês, o governo se voltou contra Turing e sua homossexualidade, algo considerado crime no país até 1967.

Focado na vida de Alan Turing (Benedict Cumberbatch) durante os anos de guerra, O Jogo da Imitação apresenta o inglês tanto na forma profissional quanto pessoal. Junto com Hugh (Matthew Goode), John (Allen Leech), Peter (Matthew Beard) e Joan Clarke (Keira Knightley), Turing precisa decifrar uma máquina de comunicação nazista, a fim de auxiliar os Aliados na Segunda Guerra Mundial. Enquanto isso, uma investigação de sua vida pessoal é conduzida pelo detetive Robert Nock (Rory Kinnear).

O Jogo da Imitação é certamente um dos melhores filmes de 2014. De forma simples, ele é capaz de entregar tensão, drama e romance – à sua maneira. Com inteligência, o filme desmonta a história real de Alan Turing e da decodificação da Enigma (máquina de comunicação nazista), se encaixando no gênero de guerra, mas de maneira bastante peculiar, apresentando a ação por meio das atividades mais intelectuais de um conflito bélico. A guerra é mostrada além dos campos de batalha, focando em suas partes “esquecidas”. O filme lembra o espectador daqueles que, mesmo não tendo pego em armas, participaram ativamente do combate ao nazi-fascismo, tendo semelhante influência no desfecho vitorioso. Uma verdadeira ode à ciência, O Jogo da Imitação celebra os esforços matemáticos e linguísticos essenciais para o retorno da paz.

Ainda estão em jogo no longa duas questões sociais importantíssimas, discutidas intensamente até os dias de hoje: além da homossexualidade, o feminismo também é objeto de debate em Jogo da Imitação. A personagem Joan Clarke é responsável por colocar em pauta o papel das mulheres não somente na guerra, mas na sociedade inglesa de forma geral. Sua inteligência desafia os estereótipos tão presentes na época e que, infelizmente, sobrevivem até hoje. O papel que desempenha no longa enfatiza a necessidade da quebra dos preconceitos de gênero. Todo esse debate, tanto o feminista quanto o que diz respeito à sexualidade, é feito de maneira bastante sutil, sem ser abordado agressivamente, mas ainda assim forte em sua mensagem.

Quanto ao roteiro de Jogo da Imitação, existem pequenos problemas, que podem passar despercebidos, como a falta de uma definição clara do papel de Joan Clarke no projeto da máquina de Turing, na qual a participação muitas vezes é incerta. São pequenas incoerências que certamente não atrapalham o andamento do filme, muito menos depreciam seu roteiro. Este, inclusive, é sagaz ao conciliar com perfeição o drama pessoal de Turing, o de decifrar a Enigma e o proporcionado pela própria guerra. As conspirações presentes na obra são criadas de forma inteligente, bem argumentada e contribuem para aumentar o interesse do espectador na história.

O elenco de Jogo da Imitação é esplêndido. Benedict Cumberbatch encarna com autenticidade o matemático Alan Turing, apresentando o inglês em sua forma de gênio, mas sendo hábil ao demonstrar também suas fraquezas. É construído um Turing ao mesmo tempo inseguro, embora extremamente confiante no que diz respeito ao seu intelecto. Em relação à homossexualidade do britânico, Cumberbatch faz um ótimo trabalho, sem precisar de trejeitos para exteriorizar tal particularidade da figura histórica. Keira Knightley está igualmente sublime em sua encarnação de Joan Clarke. Neste, que é provavelmente um de seus melhores trabalhos, Keira é capaz de entregar uma personagem extremamente humana, mas ao mesmo tempo capaz de lidar com a guerra  e o seu contexto de forma calculista e inteligente. A escolha da atriz para o elenco proporcionou uma forte e carismática representante do feminismo nas telas.

Musicalmente, O Jogo da Imitação é belíssimo, facilmente uma das melhores trilhas sonoras de 2014. A composição de Alexandre Desplat tem personalidade, é adequada para o contexto do filme e consegue ser igualmente misteriosa e agradável. As músicas se destacam por seus sons diferenciados, que conciliam suavidade e furor.

O Jogo da Imitação, além de ótimo entretenimento, tem não uma, mas várias mensagens importantes. Ao mostrar a Segunda Guerra Mundial a partir de um novo ângulo, o filme é capaz de cativar o espectador mesmo com seus diálogos densos. A trama é muito bem construída e os aspectos técnicos da produção são igualmente excelentes. As escolhas feitas para construir a história são interessantes e bem conduzidas, como a utilização de flashbacks, que não atrapalham a tensão da linha narrativa principal. De imitação o filme não tem nada: é extremamente original em diversos aspectos. Um dos melhores longas do ano, inteligente e emotivo.


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