Êxodo: Deuses e Reis

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História faraônica é prejudicada pela superficialidade de seu roteiro

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Exodus: Gods and Kings

DIREÇÃO: Ridley Scott

DURAÇÃO: 150min

GÊNERO: Ação, Aventura, Drama

PAÍS: Estados Unidos, Reino Unido, Espanha

ANO: 2014


Entre todas as histórias bíblicas existentes, uma das mais exploradas e mais interessantes é, sem dúvida, a de Moisés, o profeta que libertou os hebreus da escravidão no Antigo Egito. Os 10 Mandamentos, de 1956, permanece até hoje um dos maiores clássicos do cinema. O Príncipe do Egito, animação da DreamWorks, marcou a infância de muitas pessoas, que assistiam fascinados à narrativa religiosa. A história, com o imenso potencial que tem, pode parecer difícil de ser desperdiçada. A versão de Ridley Scott, porém, não faz qualquer esforço para aproveitar o tesouro que tinha em mãos.

Moisés (Christian Bale) cresceu em meio à aristocracia egípcia, como irmão adotivo de Ramsés (Joel Edgerton). Quando este se torna faraó, os abusos cometidos contra o povo hebreu chegam a um estado insustentável, até que o ancião Nun (Ben Kingsley) conta a Moisés a verdade sobre sua origem e profetiza que ele será o responsável por libertar os escravos do Antigo Egito. O protagonista então recebe a visita de Deus (Isaac Andrews), que confirma os relatos de Nun, desencadeando uma batalha entre Ramsés e seu irmão.

A história de Moisés é brilhante: facilmente cativa o público e, aliada ao alto orçamento da versão de Ridley Scott, torna-se verdadeiramente épica. O problema de tal característica, porém, é que ela funciona muito mais como uma consequência do aspecto visual da produção. Com o investimento que tinha em mãos, o diretor acreditou não ser preciso um roteiro profundo, confiando cegamente nos efeitos especiais e na nudez da história original, o que, infelizmente, comprometeu imensamente a qualidade do filme. Ridley Scott mostra ambição ao tentar construir a história a partir de um ponto de vista mais realista, mas falha ao conduzir tais planos, uma vez que, apesar das quase três horas de filme, não existe espaço para diálogos inteligentes ou minimamente densos em seu roteiro.

Os nomes de seu elenco são outros grandes desperdícios. Absolutamente nenhum personagem tem profundidade psicológica, nem mesmo Moisés. Todos são rasos, pouco explorados, diminuindo os talentos de artistas como Ben Kingsley e Sigourney Weaver, sendo que a presença desta última só é notada na ficha técnica do filme. Christian Bale e Joel Edgerton desempenham bem seus papéis, mas dentro dos limites impostos a eles: mais do mesmo. O faraó tirano e narcisista versus o profeta humilde e em conflito. Nenhuma novidade.

Do ponto de vista técnico, o filme é impecável. Os efeitos especiais e a direção de arte são sofisticados, bonitos e enchem os olhos do espectador. São os responsáveis por levantar a moral do filme. O problema, porém, é mais uma vez a falta de inventividade. Ainda assim, cenas como as das pragas geram tensão e são muito bem coordenadas, mesmo que rápidas. A passagem dos hebreus pelo mar, por outro lado, causa aflição e expectativa, que são logo quebradas pela mudança de cena: em um momento vemos o mar, em seguida ele não está mais lá, simplesmente some, ignorando a grandiosidade que seria uma divisão perceptível das águas. Ponto negativo também para a edição.

Enquanto isso, a trilha sonora de Alberto Iglesias ameaça acertar, mas surpreende nos momentos em que entrega uma sonorização demasiadamente carregada, que quebra a harmonia estabelecida com a trama. A trilha mítica entra em confronto com a tentativa de abordar a história de maneira mais humana e racional. Esse caminho escolhido pela direção, inclusive, desaponta. Ridley Scott  tenta embasar os fatos bíblicos no realismo, mas o filme não conta com um roteiro competente para suportar tal escolha. Passagens de tempo também se apresentam como problemas: são repentinas e imperceptíveis, se alongando quando não deveriam, mas se apressando nos melhores momentos.

Algumas cenas, principalmente a final, são frutos da já conhecida reticência de Ridley Scott, que, ao contrário do que pode parecer, não abre espaço para reflexões ou interpretações, mas apenas evidencia a falta de acabamento de determinadas passagens.

Êxodo tinha tudo para ser um filme tão monumental quanto sua fonte de inspiração. A falta de sincronia e refinamento de sua equipe, porém, impedem que isso se concretize. Temos um Moisés apresentado muito mais como um herói do que uma figura divina, o que poderia enriquecer o filme, mas acaba tornando-o clichê e superficial. Tudo isso é consequência da má exploração da profundidade bíblica de sua história. Ainda assim, Deuses e Reis facilmente diverte e sua longa duração definitivamente não é um problema.  A trama e seu visual não deixam de impressionar o espectador. Seu grande pecado é realmente a falta de aprofundamento: o longa peregrina durante duas horas e meia e chega a lugar nenhum, ao contrário dos hebreus.


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