A Esperança – Parte 1

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Filme politizado prepara terreno para o desfecho de Katniss

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: The Hunger Games: Mockingjay – Part 1

DIREÇÃO: Francis Lawrence

DURAÇÃO: 123min

GÊNERO: Ficção, Aventura

PAÍS: Estados Unidos

ANO: 2014


Ultimamente, ecoam no mundo cinematográfico críticas de leitores feitas às adaptações mal executadas de seus livros preferidos. Percy Jackson, por exemplo, é um filme horroroso tanto para aqueles que desconhecem a história original, como também para aqueles que a leram. Nesse ambiente de descontentamento, Jogos Vorazes, desde Em Chamas, é exceção: não somente é fiel aos livros, como também conta com uma excelente equipe para fazer a transição das páginas para as telas.

A primeira parte do último capítulo da franquia Jogos Vorazes encaminha a história da saga para o seu fim. Em Chamas termina com Katniss (Jennifer Lawrence) sendo resgatada da arena do Massacre Quaternário e descobrindo que está no Distrito 13, já que o 12, seu lar, foi destruído. A Esperança narra o processo de transformação da protagonista nO Tordo, símbolo de uma revolução que alcança toda Panem, contra a elite da Capital. Da mesma forma que Katniss é a arma dos rebeldes, Peeta (Josh Hutcherson), sequestrado pelo presidente Snow (Donald Sutherland), é explorado a fim de cessar a insatisfação nos distritos. Katniss conta com a ajuda de sua irmã Prim (Willow Shields) e de Gale (Liam Hemsworth) para acatar os desejos de Alma Coin (Julianne Moore) e de Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman) na rebelião.

Esperança é um filme muito mais reflexivo do que para diversão. Ao preparar terreno para o último capítulo da franquia, Francis Lawrence opta pela falta de clímax, criando situações que o desencadearão no próximo ano. Dessa forma, o longa não é recheado de ação, como seus antecessores, estando muito mais voltado para a guerra midiática protagonizada pela Capital e o Distrito 13. A escolha foi perigosa, pois facilmente tornaria o filme exaustivo, o que não ocorre, graças à habilidade empregada na tradução do livro para o cinema.

A guerra de propaganda, que explora as imagens de Katniss e Peeta, é construída de maneira substancial e extremamente inteligente. A atmosfera do filme nos lembra uma polarização como a observada nos anos de Guerra Fria: de um lado a extrema direita, encarnada pelo fascismo e elitismo da Capital, cujo autoritarismo se reflete também no Distrito 13. Este seria a esquerda totalitária. A lembrança que Alma Coin traz do comunismo é evidente: todos em seu distrito tem uma função, usam uniformes, tem alojamentos idênticos. Todos os esforços estão concentrados em sua causa. Logo notamos as falhas existentes nos dois lados da guerra e a batalha que Katniss trava consigo mesma entre ajudar a rebelião ou rejeitá-la. Enquanto isso, as táticas panfletárias  empregadas por Snow e Coin são convincentes, puro marketing político, contando até mesmo com cineastas para sustentá-lo.

Mais uma vez, fica evidente a complexidade e inteligência da franquia Jogos Vorazes: sua qualidade vai muito além dos gritos adolescentes que a acompanham. Toda a base ideológica utilizada para a construção de Panem é brilhante. Temas como totalitarismo e organicismo estão presentes na maioria dos discursos apresentados pela série. É maravilhoso e até mesmo divertido associar as passagens de Esperança com temas políticos, traçando paralelos com a nossa própria história.

Algumas das cenas, porém, poderiam ter um pouco mais de ação e, mesmo aquelas que a tem, poderiam ser melhores. Todo o clímax de Esperança ficará a cargo da segunda parte. Justamente por isso, as cenas de drama são as que ganham destaque nesse filme. São emocionantes e inspiram um desejo de vitória até mesmo no público. As passagens em que diferentes distritos se rebelam chegam a dar calafrios de tão intensas. O diretor utilizou a música Hanging Tree, presente no livro, com maestria, transformando sua simplicidade em algo muito mais forte, emocionante. Conduziu a cena de maneira tão brilhante que fez com que esta fosse uma das melhores sequências de toda a franquia.

Mais uma vez, Jogos Vorazes prova ter uma equipe de arte extremamente competente. Mesmo sem as cores e exageros observados nos dois primeiros filmes, a criação dos ambientes frios e cinzas desse novo filme ganha destaque. Os cenários passam com facilidade a ideia de opressão tão presente no roteiro, enquanto os responsáveis pela maquiagem fazem um trabalho esplêndido. As mudanças físicas de Peeta ao longo da trama são de uma veracidade impressionante. A trilha sonora também é boa, conciliando com facilidade as cenas de ação e de drama.

Um dos destaques mais importantes de toda a franquia Jogos Vorazes é seu elenco. Em Esperança, Jennifer Lawrence está, mais uma vez, maravilhosa em sua encarnação de Katniss Everdeen. A atriz é capaz de transitar entre os momentos de confiança e insegurança com naturalidade. Elizabeth Banks, que com sua interpretação destacou a personagem Effie Trinket, confere graça e leveza à trama, enquanto Donald Sutherland comanda seu presidente e toda a Panem com braço de ferro. Ao lado de atores já consolidados no cinema, Sam Claflin consegue fazer um trabalho incrível com seu Finnick Odair. Enquanto em Em Chamas o ator precisou vender a imagem segura e atraente do tributo, em Esperança ele convence ao apresentar o lado perturbado e melancólico da personagem. O longa ainda dá as boas vindas à talentosa Natalie Dormer e à incrível Julianne Moore, que cria uma Alma Coin substancial e fiel ao livro. A perda que a morte de Philip Seymour Hoffman foi para o cinema, graças à sua brilhante interpretação, também é destaque no longa.

Diferente de seus antecessores, A Esperança é muito mais reflexivo, tendo uma narrativa lenta, com pouca ação. Esse é o preço que o estúdio paga por querer dividir um livro com uma história bem delineada e ininterrupta. Um grande erro. Apesar disso, enquanto Em Chamas foi essencial para consolidar a franquia, Mockingjay é responsável por manter sua qualidade e evidenciar ainda mais o caráter político da obra. É justamente por ser construído sobre uma base ideológica sólida que A Esperança tem suas qualidades muito mais ressaltadas e é hábil em tensionar o público para o seu capítulo final.


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