Interestelar

Padrão

Novo filme de Christopher Nolan se perde em sua própria complexidade

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Interstellar

DIREÇÃO: Christopher Nolan

DURAÇÃO: 169min

GÊNERO: Ficção, Aventura, Drama

PAÍS: Estados Unidos, Reino Unido

ANO: 2014


Christopher Nolan é hoje um diretor com uma base de fãs bastante fiel. A notoriedade veio após sucessos como A Origem, Amnésia e a trilogia O Cavaleiro das Trevas. Uma de suas marcas registradas, portanto, são os altos orçamentos de suas produções, todas responsáveis também por grandes lucros. O investimento em Interestelar não foi diferente: filmes de ficção científica sempre custam caro, principalmente quando falamos de um projeto tão ambicioso quanto esse. Pensando que a sofisticação de sua obra e sua credibilidade enquanto diretor seriam suficientes para que o público digerisse qualquer coisa, Christopher Nolan apresenta um filme confuso e recheado de falhas.

Interestelar é protagonizado por Cooper (Matthew McConaughey), um antigo empregado da NASA que, em um futuro apocalíptico onde a tecnologia é rejeitada a fim de concentrar esforços na produção de alimentos, torna-se fazendeiro e pai de dois filhos. Um dia, Cooper recebe um sinal gravitacional que o guia até o esconderijo da Agência Espacial, que o escolhe para participar de sua última missão, a fim de encontrar um planeta habitável para os humanos. McConaughey então deixa para trás a filha Murph (Mackenzie Foy e Jessica Chastain) e se junta à doutora Brand (Anne Hathaway) na missão coordenada pelo personagem de Michael Caine.

Com um roteiro bastante complexo, Interestelar é interessante por se pautar em temáticas com forte apelo científico e também emocional: um dos pontos sensíveis do filme é o pouso feito por Cooper em um planeta onde uma hora equivale a sete anos terrestres. A passagem não somente faz o espectador refletir um conceito astronômico, como também problematiza o enredo, uma vez que a personagem de McConaughey se mantém jovem, ao contrário de seus filhos. São muitos os aspectos da história que conquistam o espectador por sua profundidade e novidade. O roteiro, porém, tem falhas significativas.

Os diálogos trocados entre os cientistas da trama são demasiadamente densos, de difícil compreensão e, por isso, acabam se tornando cansativos. O foco dado às falas acaba por tirar o encantamento presente nas imagens. Existem também vários problemas de lógica, como a repentina escolha de Cooper para chefiar a última missão espacial da NASA. Sem qualquer preparação ou burocracia, a personagem sai do planeta dez anos após abandonar sua carreira e, ainda assim, não encontra dificuldades para operar equipamentos de alta tecnologia ou para se adaptar às condições extremas presentes fora da Terra. A incoerência também está presente na travessia de um milharal em alta velocidade com um pneu furado e no aspecto rudimentar dado aos softwares dos computadores da NASA.

Na mesma semana em que os europeus aterrissam um robô na superfície de um cometa – algo histórico – a relevância das agências espaciais mundiais é ignorada. Mesmo em um futuro apocalíptico, onde não há verba para a ciência, a supremacia estadunidense se faz presente ao manter o monopólio daquela que seria a última ida ao espaço, tomando um rumo oposto a Gravidade, que salientou a importância da China, da Rússia e da União Europeia no campo espacial. Esse é um aspecto que incomoda em Interestelar: o caos parece restrito ao sul dos Estados Unidos e o espectador não sabe se aquele futuro apocalíptico se repete em outras regiões.

O grande ponto negativo de Interestelar é que, ao se apoiar em uma séries de eventos complexos, a solução para todos os problemas levantados pela trama é justamente a criação de um novo problema. Ao final do filme, temos a sensação de que a história é um ciclo, sem começo ou fim definidos. O longa tem um desfecho confuso, mal explicado e que abandona toda a racionalidade com a qual sua primeira parte foi construída.

Ainda assim, o projeto é ambicioso e justamente por isso tem aspectos realmente bons. O conceito de criação ou de “deus” dado ao longa é bonito e original e algumas de suas passagens causam um tipo de tensão pautada por pontos bem desenvolvidos do roteiro. Os erros da obra estão concentrados em cenas específicas, o que não compromete a história em sua totalidade. São diversas as passagens interessantes, com ênfase naquelas em que Nolan soube, com maestria, conciliar o científico com o emocional. A enorme capacidade de entreter de Interestelar é algo que releva muitos de seus erros e, apesar de quase três horas de duração, o espectador continua atento ao desenrolar dos fatos, com interesse, sendo habilmente cativado pela história de Cooper.

O elenco, com grandes nomes, acaba se concentrando na incrível interpretação de Matthew McConaughey. O ator encarna Cooper de forma consistente e carismática. Anne Hathaway e Michael Caine também entregam boas atuações, mas seus papeis são muito rasos e pouco desenvolvidos para permitir performances realmente grandes. Jessica Chastain mostra seu talento cada vez mais reconhecido, embora sua personagem sofra do mesmo problema.

Hans Zimmer faz, como é costume, um maravilhoso trabalho de sonorização. A trilha de Interestelar é intensa e acompanha com naturalidade a trama. Aliada à equipe de edição, a alternância entre a tensão das músicas e o silêncio do espaço é feita de maneira sublime. Ainda quanto aos aspectos técnicos, é importante ressaltar a ambiguidade de sua fotografia. Algumas das cenas são enquadradas de forma bonita e prática, mas a escolha por manter o foco nas personagens e diálogos diminui o número de cenas amplas, que abririam espaço para a equipe de efeitos especiais mostrar sua criações. Essa parte gráfica, inclusive, é excelente, pecando apenas em sua ilustração de Saturno, que passa uma sensação de artificialidade.

De maneira geral, Interestelar cumpre seu papel de entreter com facilidade. Prende a atenção do público e é bem elaborado em diversos aspectos. Os problemas levantados no caminho para o desfecho, porém, mostram uma certa desorientação por parte de Christopher Nolan. É uma boa história, mas de uma complexidade e ambição que acabam encaminhando o roteiro para um fim irregular, que poderia ser evitado com um pouco mais de cautela. O tom realista dado à ficção científica encanta, mas não é o suficiente para salvá-la. A ideia em si é fascinante, pena que mal acabada.


Anúncios

Um comentário sobre “Interestelar

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s