Trash: A Esperança Vem do Lixo

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Britânico Stephen Daldry denuncia problemas sociais em longa ambientado no Brasil

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Trash

DIREÇÃO: Stephen Daldry

DURAÇÃO: 115min

GÊNERO: Drama, Ação, Aventura

PAÍS: Reino Unido, Brasil

ANO: 2014


O britânico Stephen Daldry, apesar de ter dirigido poucos filmes, sempre que o fez foi ousado, tratando de temas delicados de maneira completamente diferente. Em Billy Elliot, o cineasta apresentou a história de um menino cujo sonho era ser bailarino, questionando bravamente as noções do que é feminino e masculino em nossa sociedade. Em O Leitor, um adolescente se envolve sexual e amorosamente com uma mulher muito mais velha, que trabalhou para o regime nazista na Alemanha. A trama de Tão Forte e Tão Perto é desenvolvida a partir do acidente com as Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. Em seu novo longa, Trash, Daldry é mais uma vez audaz: dirige um roteiro centrado nas desigualdades sociais do Brasil, sem abrir mão da qualidade de seu elenco, como em seus outros trabalhos.

Trash conta a história de três garotos: Raphael (Rickson Tevez), Gardo (Gabriel Weinstein) e Rato (Eduardo Luis), que são catadores de lixo no Rio de Janeiro. Um dia, o primeiro dos meninos encontra uma carteira, que contém informações importantes sobre o candidato à prefeitura Santos (Stepan Nercessian). Por meio de vertentes corruptas da polícia militar, o político e seu braço direito Frederico (Selton Mello), vão atrás do trio, que resiste em entregar as provas comprometedoras coletadas por José Angelo (Wagner Moura) e deixadas na carteira. As crianças precisarão contar com a ajuda dos missionários americanos Padre Julliard (Martin Sheen) e Olivia (Rooney Mara) para descobrir os segredos guardados pelo objetivo que acharam.

O roteiro de Trash é inspirado em um livro homônimo e apresenta temas delicados de maneira verdadeiramente corajosa. São raras as produções que abordam a corrupção entre as classes política e policial brasileiras de forma tão real e destemida. Daldry não hesita em denunciar o descumprimento das leis e dos direitos humanos tão recorrentes entre as autoridades do país. Essa apresentação é feita de maneira convincente e espelha com veracidade o preconceito sofrido em especial pelos moradores da periferia, principalmente negros, quando se trata de justiça. Em ano de eleição e de violenta repressão em manifestações contra a Copa do Mundo, a desmilitarização da polícia é assunto recorrente na mídia nacional e estrangeira, nas campanhas presidenciais e no dia a dia da população. A Esperança Vem do Lixo não podia ter sido lançado em melhor hora.

A cena em que Raphael é torturado em um carro policial espelha a barbaridade com a qual alguns setores da população são tratados. Choca e serve de lição para aqueles que sustentam bandeiras opressoras, que clamam pelo uso de violência por parte dos órgãos de segurança nacionais, estes cujo principal papel é proteger, jamais intimidar. Stephen Daldry passa essa dura realidade para as telas com maestria, sendo autêntico e ousado.

A principal qualidade de Trash é seu roteiro forte e corajoso. Alguns de seus principais problemas, porém, estão justamente em seu texto. Algumas passagens são um tanto forçadas, falhando quanto à lógica em determinados momentos. Chega a ser difícil de acreditar que o jovem Rato, ao ver uma chave genérica, laranja, daquelas de armários de aluguel, saiba exatamente a localização de sua fechadura. A carga dramática, mesmo que necessária, também é apresentada de maneira muito carregada, piegas em certos pontos. Esses problemas acabam comprometendo a fluidez e o carisma conquistado em relação ao espectador. Não estragam a trama, mas poderiam ser amenizados sem causar prejuízo para a história e sua mensagem.

O elenco do longa é outro destaque. As atuações jovens do trio protagonista são convincentes, carismáticas. Rooney Mara e Martin Sheen também fazem um bom trabalho, mas recebem um espaço limitado, com personagens sem profundidade, o que poderia ser melhorado. Wagner Moura e Selton Mello entregam excelentes performances, reafirmando suas posições entre os principais expoentes da dramaturgia brasileira atual. São talentosos e naturais, carregando a carga dramática do longa com facilidade.

Na trilha sonora, vemos um belíssimo trabalho, que apresenta com perfeição a musicalidade da cultura brasileira sem comprometer a grandiosidade sonora necessária para acompanhar algumas cenas, principalmente aquelas de tensão.

Mesmo tratando de temas fortes, A Esperança Vem do Lixo é também um ótimo entretenimento. Tem cenas de ação bem coordenadas e que harmonizam com a emoção de sua história. A trama transita com simplicidade dos momentos de ansiedade para aqueles de sorriso ou comoção. A fotografia capta com engenhosidade as diferentes sequências e auxiliam o roteiro em sua busca por cativar o público. Na aparentemente infindável busca por um país melhor, menos desigual e mais justo, o Brasil tem seu otimismo renovado em produções artísticas como Trash. A esperança do povo brasileiro também vem do cinema.


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