Amantes Eternos

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Filme prova que ainda podemos utilizar o vampirismo e a inteligência ao mesmo tempo

Por Leonardo Sanchez

TÍTULO ORIGINAL: Only Lovers Left Alive
DIREÇÃO: Jim Jarmusch
DURAÇÃO: 123min
GÊNERO: Drama, Romance
PAÍS: Reino Unido, Alemanha
ANO: 2014


Os vampiros são seres que impressionam as pessoas há séculos. Desde a publicação de Dracula, do irlandês Bram Stoker, em 1897, sua presença na cultura popular se torna cada vez mais evidente. Há alguns anos, porém, a exploração comercial em torno dessa lenda se tornou tão forte que deu margem para uma verdadeira “idiotização” não somente dos vampiros, mas de toda a temática sobrenatural. Histórias que banalizam o que já foi a temida raça vampírica insistem em adaptá-la de maneira esdrúxula e superficial. Amantes Eternos chega para honrar o terror que envolve os bebedores de sangue e mostrar que é possível explorar o sub-gênero sobrenatural com qualidade.

Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton) são vampiros apaixonados, mas que vivem em lados diferentes do mundo. O primeiro, em Detroit, nos Estados Unidos. A segunda, em Tânger, no Marrocos. Os longos anos de vida dos dois serviram para que  eles acumulassem um imenso conhecimento científico e cultural, do qual usufruem na vida civilizada e discreta que levam. Quando Adam passa por uma crise existencial, Eve vai a seu encontro a fim de ajuda-lo. Os amantes, porém, acabam vendo a calmaria de suas rotinas desaparecer, quando a irmã mais nova da protagonista, Ava (Mia Wasikowska), surge inesperadamente.

Amantes Eternos é o tipo de filme feito muito mais para contemplar e refletir do que para divertir. É verdade que o longa se apoia em um ótimo conjunto de roteiro, equipe técnica e elenco, mas sua verdadeira essência está no debate e nos questionamentos que levanta. Poético e sério, o roteiro encontra no vampirismo uma alegoria para contestar a humanidade dos dias atuais.

Se os vampiros sofrem pela necessidade de sangue – que é cautelosamente fornecido à Eve pelo também mordedor Marlowe (John Hurt) e a Adam pelo médico Watson (Jeffrey Wright) – a raça humana é igualmente apresentada junto de suas fraquezas. Conflitos relacionados à escassez de água e o esgotamento do petróleo são incisivamente citados na trama como perigos aos humanos. Da mesma forma, a quase extinta raça vampírica é envolvida por um manto de vulnerabilidade composto por elementos tradicionais, embora reinventados (esse é o caso da estaca sendo adaptada em uma bala de madeira) e também de originalidade (como o sangue contaminado, que, se ingerido, pode matar um vampiro). Amantes Eternos trata esses problemas com tamanha maturidade e consistência que chega a debochar até mesmo da obra de Bram Stoker: “você ainda tem medo de alho?”, pergunta Eve em uma das cenas.

Outro ponto interessante do longa é a ideia de que, tendo vivido por séculos, os vampiros seriam uma raça intelectualmente superior. Essa lógica é refletida nas peças musicais de Adam, compositor de uma das obras de Franz Schubert, e também em Marlowe, que seria o responsável pela produção literária de William Shakespeare. A teoria, porém, desmorona quando o público é apresentado ao descaso e infantilidade da personagem de Mia Wasikowska. Da mesma maneira, a crise existencial do protagonista masculino se dá, em parte, por sua desesperança com a raça humana, que cria, mas deprecia seus gênios, como Edgar Allan Poe ou Albert Einstein, todos contemplados em uma parede da casa do vampiro. “Eles ainda reclamam de Darwin. Ainda!”, diz um perturbado e surpreendido Adam. A decadência cultural é o que está em constante discussão no longa.

Se por um lado a civilidade, superioridade e elegância dos protagonistas surpreendem, descobrimos que o instintivo e a barbárie, às vezes, são inevitáveis, fato que fica evidente ao final da trama.

Por meio de suas bem tecidas sutilezas, o filme de Jim Jarmusch ganha forma e qualidade. É interessante reparar nos nomes falsos adotados pelos protagonistas, todos de clássicos da ficção, como é o caso de Daisy Buchanan, do romance O Grande Gatsby. Até mesmo seus nomes originais, Adam e Eve, Adão e Eva, não são coincidências.

O contraste criado entre os protagonistas, que mesmo compartilhando uma paixão incontestável moram a quilômetros de distância, é fascinante. Eve se veste sempre com tons claros, é leve, ponderada, enquanto Adam está sempre com cores escuras, sendo melancólico e extremo. É justamente nessa obscuridade que se desenvolve o romance do longa. Os vampiros se complementam de uma maneira formidável e sombria. Estão apaixonados para toda a eternidade.

O roteiro é sim cansativo, maçante. Facilmente aborrece aqueles espectadores mais impacientes. Esses elementos, porém, são indispensáveis para passar sua mensagem. Mais uma vez, falamos aqui de um filme contemplativo, quase que exclusivamente uma análise da vida e civilização humanas. É justamente sua lentidão que nos permite estar atentos aos detalhes mais ocultos e inteligentes da trama.

Abandonando o conteúdo de Amantes Eternos – que transborda das telas – vale destacar a belíssima parte técnica do longa. A trilha sonora é realmente encantadora. Combina perfeitamente com a melancolia e sobriedade do roteiro, além de ser tão obscura quanto as lendas vampíricas. Original e complexa, beira o exotismo e certamente está entre uma das melhores sonorizações cinematográficas do ano.

A direção de arte também é responsável por um trabalho excelente, que verdadeiramente enche os olhos do espectador. Combinada à fotografia, faz com que o filme esbanje cenas visualmente prazerosas, mas que ao mesmo tempo denunciam aspectos importantes da trama. Todos os componentes estéticos empregados para retratar os ambientes opostos de Adam e Eve funcionam harmoniosamente e fazem jus ao cerco cultural e artístico que contorna a vida dos protagonistas.

O elenco é outro acerto do diretor Jim Jarmusch. Tilda Swinton e Tom Hiddleston estão brilhantes em seus papéis. Convencem o espectador de seus gênios opostos e igualmente sombrios com maestria, além de encantar o público. Mia Wasikowska, brilhante, mostra que é uma atriz talentosa, que cresce a cada papel que faz. Quando nos deparamos com Ava na tela, somos surpreendidos pela maravilhosa interpretação da australiana.

Amantes Eternos, com toda a sua atmosfera alternativa e excêntrica, prova para a indústria que sim, é possível produzir um bom filme com elementos sobrenaturais. Sem apelar para clichês ou outros ingredientes comerciais, o longa enfatiza questionamentos pertinentes sem perder sua poeticidade ou romantismo. O vampirismo do qual faz uso é bem estruturado, realista e conta com diversas passagens que o sustentam. O misticismo não é simplesmente “jogado” no enredo, como vemos em tantas outras produções. Com uma moral interessante, Amantes Eternos esbanja realidade justamente através de seus devaneios e fantasias.

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