Transcendence – A Revolução

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Johnny Depp estrela filme que transcende os limites da incoerência

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Transcendence
DIREÇÃO: Wally Pfister
DURAÇÃO: 119min
GÊNERO: Drama, Ficção, Suspense
PAÍS: China, EUA, Reino Unido
ANO: 2014

Todos os anos as salas de cinema são bombardeadas com novas ficções científicas, todas com ambição em excesso e poucas com real qualidade. Em 2013, as telas tiveram a felicidade de receber Gravidade, filme certamente responsável por levantar a moral do gênero. Em 2014, em compensação, um dos mais aguardados lançamentos da categoria, Transcendence, prova-se não somente um grande fracasso de crítica, mas um verdadeiro atentado ao gênero científico.

Transcendence inicia sua história momentos antes da morte de Will Caster (Johnny Depp), um cientista responsável por um dos maiores laboratórios de inteligência artificial do planeta. Envenenado por um grupo radical – e com uma pitada de fundamentalismo religioso – que se opõe ao desenvolvimento de tais tecnologias, Caster auxilia sua esposa e parceira de trabalho Evelyn (Rebecca Hall), juntamente com seu amigo Max (Paul Bettany), a transportar sua mente e suas lembranças para um computador de tecnologia avançada. Max logo percebe que as ambições da plataforma não correspondem à personalidade de Will, mas Evelyn acredita cegamente que a máquina realmente é seu marido. Determinada a ajudá-lo, a personagem conecta Will à internet, permitindo que ele controle todos os dados da rede e, mais tarde, também o mundo material. Max então se junta ao grupo de “terroristas” responsável pela morte do amigo e, com a ajuda do FBI e do cientista Joseph Tagger (Morgan Freeman), tenta cessar a influência de Caster na esfera virtual e material.

Com roteiro e direção absurdamente fracos, Transcendence é irritante do começo ao fim. Não consegue cativar o público em nenhum momento, fazendo com que suas duas horas pareçam nunca acabar. Ao roteiro, falta objetividade. O longa começa com o foco no desenvolvimento de inteligência artificial, mas no desenrolar da trama, temas como nanotecnologia e regeneração de células tornam-se prioritários, causando confusão e resumindo toda a obra em uma longa e cansativa orgia tecnológica, que tenta abordar diversos segmentos científicos sem entrelaça-los ou contextualiza-los. Colabora para a desorientação do espectador a terminologia do roteiro, que, em sua busca por falsos termos técnicos, camufla a superficialidade do enredo.

Um grave problema é a incoerência da trama, característica que acompanha o filme do começo ao fim. Se o roteiro já confunde o público em seus momentos iniciais, que deveriam ser introdutórios e, portanto, claros, o espectador fica muito mais perdido a partir do momento em que Will se transforma em máquina. Começa então uma verdadeira sucessão de possibilidades absurdas e nada convincentes, como a construção de um laboratório de alta tecnologia no meio do deserto, que passa despercebido pelas autoridades por pelo menos dois anos.

A falta de definição dos alcances da máquina que Will Caster incorpora é um dos grandes problemas do filme. Preso na rede, o protagonista é capaz de interagir e dar ordens ao cidadãos da cidade que compra e possui até mesmo uma extensão indefinida no mundo físico, que fica clara quando Evelyn é presenteada com um vinil. Em seus momentos finais, o controle que Caster adquire sobre o meio ambiente extrapola os limites da ficção científica, por não contar com explicações, e enche o filme de um surrealismo ridículo e frágil.

Pelo incrível que pareça, nem o elenco de Transcendence se salva. Johnny Depp, ao longo de toda a trama, atua como se tentasse parecer um pirata alcoolizado, com uma fala arrastada e irritante, que nos dá uma vaga lembrança de um Jack Sparrow moderno e civilizado. A atuação de Depp não sofre qualquer tipo de alteração ao longo da narrativa, mesmo interpretando uma personagem que passa por mudanças tão brutais. O Dr. Caster do ator, quando doente, apresenta a mesma aparência cansada, tediosa e apática presente no resto do filme. Da mesma forma, Rebecca Hall incorpora uma personagem insossa, graças a uma atuação pouco convincente e que poderia ser facilmente superada por um grupo de teatro escolar.

Nem mesmo o veterano Morgan Freeman merece elogios. Sua personagem, Dr. Tagger,  assim como o resto da classe científica do enredo, provavelmente coleciona graduações, pois aparenta ter conhecimentos nas áreas de biologia, tecnologia, medicina, engenharia, empresarial e até mesmo na policial, vide a inexplicável subordinação do FBI à personagem. Para complementar essa lógica absurda, destaca-se o trabalho inexpressivo de Freeman. O vazio psicológico não somente de Tagger, mas de todas as personagens, é vergonhoso.

O único ponto que poderia salvar parcialmente Transcendence é o interessante questionamento sobre a humanidade do computador incorporado por Will Caster. Tal dúvida, porém, é sanada de forma insignificante e nada eloquente nos minutos finais da trama. Teria sido muito mais interessante sustentar a dúvida para além das duas horas de filme, permitindo uma aproximação do público com a história. O questionamento também sofre por ter um papel secundário, cujo potencial não é reconhecido pela péssima direção de Wally Pfister. O estreante diretor deveria continuar na indústria como cinegrafista, papel que desempenha bem, e nunca mais se aventurar no comando de um longa metragem.

A cinematografia do filme agrada, mas não é o suficiente para sustentar toda a asneira e incoerência do conjunto. A direção de arte, do mesmo modo, é boa e propõe um interessante contraste entre a modernidade presente nos laboratórios e o aconchego dos ambientes domésticos.

Transcendence revela-se um dos piores trabalhos de ficção científica dos últimos anos, mesmo com uma concorrência acirrada. Diversos são os aspectos do filme que merecem destaque por seu amadorismo e sua falta de inteligência. A maneira como a incoerência acompanha todo o longa cansa e afasta qualquer possibilidade de divertimento por parte do público. Tão aborrecedor quanto, é a tentativa pretensiosa e inconveniente de estender a trama para os gêneros de drama e romance. Tudo em Transcendence incomoda.

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