A Culpa é das Estrelas

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Uma história de amor que encara com coragem sua dura realidade

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: The Fault In Our Stars
DIREÇÃO: Josh Booner
DURAÇÃO: 125min
GÊNERO: Drama, Romance
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2014


“Mais um romance adolescente piegas” foi a frase, acompanhada por um suspiro de impaciência, pensada por muitos daqueles que não leram o livro de John Green e não esperavam com otimismo a estreia de A Culpa é das Estrelas. Esses espectadores, provavelmente, ficaram frustrados ao deixarem as salas de cinema, após assistirem a um filme muito mais apaixonante que os clichês cinematográficos juvenis de hoje em dia.

A Culpa é das Estrelas narra a história do casal Hazel Lancaster (Shailene Woodley) e Augustus Waters (Ansel Elgort), ambos vítimas de câncer. A primeira, que foi obrigada a utilizar aparelhos respiratórios devido à doença, que atacou seus pulmões, começa a trama como uma adolescente sozinha, cética e que enfrenta sua condição de forma dura e pessimista. O segundo, cuja doença foi responsável pela perda de uma das pernas, apresenta um caráter otimista, extrovertido e bastante carismático. Uma vez juntos, os jovens desenvolvem um amor e uma amizade puros, mas cautelosos, que são freados pelo medo de que um perca o outro.

Àqueles que se preocuparam com a vasta disponibilidade de clichês não somente para histórias de amor juvenis, mas também para filmes que tratam de doenças terminais, não se preocupem, pois A Culpa é das Estrelas utiliza desse artifício, mas tem o grande mérito de fazê-lo de forma a caçoar seu próprio uso, o que confere certa graciosidade à sua trama. Momentos como a espera de Hazel por uma ligação de Gus ou seu sonho infantil de conhecer a Disney são velhos conhecidos da cinematografia, mas que, nesse caso, tomam uma forma espirituosa e são acompanhados por um contexto capaz de sustentá-los, sendo muitas vezes também o responsável por debochá-los.

O interessante da trama é que, em nenhum momento, o espectador esquece a condição na qual os protagonistas se encontram, sendo lembrado, de tempos em tempos, da gravidade da doença da qual sofrem. Mesmo assim, a leveza de seu roteiro, acompanhado de cenas de uma comicidade sagaz e atenuante, colore a relação de Hazel e Gus, fazendo com que tudo aquilo pareça eterno, por mais singelo que seja o amor ali retratado. É justamente essa simplicidade que agracia a relação dos dois, tornando-os uma dupla carismática e harmoniosa.

Parte do sucesso do longa deve ser creditado à ótima performance de Shailene Woodley e Ansel Elgort, que, além de terem uma perfeita sincronia em cena, são convincentes em seus papeis de jovens apaixonados e de portadores de uma doença grave como é o câncer. Da mesma maneira, o amigo Isaac (Nat Wolff), que perde os olhos devido à fragilidade de sua saúde, é o grande responsável por cenas de humor que aliviam a tensão envolvida na trama, demonstrando também uma ótima interpretação.

Alguns pontos do roteiro poderiam ter sido mais elaborados. Fica impreciso para o espectador o exato significado dos “Gênios”, uma organização que realiza sonhos de pacientes terminais, mas cuja explicação não fica evidente no filme. A limusine contratada para levar as personagens ao aeroporto, por exemplo, deturpa o real objetivo da entidade, concedendo certa imprecisão à seu alcance e suas possibilidades. Da mesma forma, as “metáforas” utilizadas constantemente por Augustus contam com uma explicação rápida e pouco convincente.

Outro ponto negativo é o caráter grosseiro e amargo do autor do livro preferido de Hazel, interpretado por Willem Defoe, que é explicado de maneira efêmera, sem importância, ao final da trama. Da mesma maneira, a imprecisão do objetivo de sua assistente, Lidewij (Lotte Verbeek), ao tratar o casal protagonista com tamanha simpatia, se passando pelo próprio patrão em primeiro momento, causa confusão.

Vale destacar a cena na qual o primeiro beijo de Hazel e Gus é trocado, no esconderijo da judia Anne Frank, em Amsterdam, morta durante a Segunda Guerra Mundial. Em primeiro momento, a situação e o ambiente no qual a troca de afeto ocorre pode parecer incomoda e constrangedora, mas, ao acompanhar as frases da jovem ditas ao longo da narrativa, assim como a mensagem deixada em seu diário, percebemos que o beijo ocorre de forma diferente e inteligente. Anne Frank, quase tão terminal quanto Hazel e Gus, inspira sentimentos de harmonia, generosidade e afeto, que são belamente incorporados pelo casal. A cena apenas não satisfaz por completo por encerrar com aplausos vindos dos visitantes do museu, uma ação desnecessária e forçada.

Acompanhar a jornada dos protagonistas, apesar de triste, é encantador. As mudanças nas personalidades de ambos aumentam o alcance de seu roteiro e permitem um sentimento de solidariedade do público para com o casal. A bravura com a qual Hazel enfrenta seu câncer e, de maneira mais geral, que o filme enfrenta todos os empecilhos para um final feliz, são inspiradores e colocam em pauta assuntos que remetem à todos, como a efemeridade da vida e a infinidade de sentimentos como o amor.

O roteiro de A Culpa é das Estrelas e sua direção são excelentes por sua natureza surpreendente, mas atenta à casualidade e espontaneidade das situações que cria. A harmonia e o carisma da história são sustentados justamente pela realidade, mesmo que cruel, e, de certa forma, pela frieza, utilizados na abordagem de um tema tão sensível. A Culpa é das Estrelas tinha de tudo para ser um “Sessão da Tarde”, mas consegue reverter seu quadro, sendo muito mais universal, apostando na delicadeza e no equilíbrio presentes de forma constante no longa. A emotividade da obra se distancia do piegas, conquistando e sendo bem acolhida pelo público, que acaba por buscar os sentimentos vividos de forma tão intensa em cena, imergindo completamente na trama, uma bonita e delicada história de amor.

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4 comentários sobre “A Culpa é das Estrelas

  1. Wagner Sécolo

    Leo Sanchez, boa noite!

    Fico muito feliz em observar sua evolução.
    Lembro de você ainda menor, atuando em pequenos projetos teatrais no Colégio Samiar, e hoje elaborando textos de excelente qualidade.

    Desejo que tenha muito sucesso em seus estudos e projetos futuros.

    Um grande abraço,
    Wagner Secolo (pai da Gabriela Sécolo)

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