Walt nos Bastidores de Mary Poppins

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Disney retorna à década de 1960 e relata a verdadeira história de Mary Poppins

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Saving Mr. Banks
DIREÇÃO: John Lee Hancock
DURAÇÃO: 125min
GÊNERO: Drama, Comédia, Biografia
PAÍS: Estados Unidos, Reino Unido, Austrália
ANO: 2013

Mary Poppins não é apenas um clássico dos estúdios Disney, mas de toda a história do cinema. Seja pelas canções, os efeitos especiais, as personagens ou a história, a magia que envolve o mundo da babá britânica já fascinou e continua a fascinar milhares de crianças – e até mesmo adultos – de todo o globo. Quem nunca ouviu, mesmo desconhecendo a procedência, a palavraSupercalifragilisticexpialidocious? Nem mesmo o corretor do computador no qual esta crítica é escrita ousa acusar o verbete de inexistência.

Saving Mr. Banks retorna à Disney dos anos de 1960 e apresenta a tentativa do cineasta e empresário Walt Disney (Tom Hanks) em persuadir P.L. Travers (Emma Thompson), autora de Mary Poppins, a ceder os direitos de seus livros para o que se tornaria o clássico longa-metragem protagonizado por Julie Andrews. Em paralelo com essa documentação, porém, é narrada a conflituosa infância da escritora australiana, que está em constante embate com a descontraída atmosfera do estúdio de animação.

O cativante de Saving Mr. Banks é sua capacidade de não se restringir à apresentação dos “bastidores de Mary Poppins”. Ao contrário do que pode parecer, o longa é muito mais profundo e delicado. Enquanto a complicada relação de Disney e Pamela Travers se desenrola, a infância desta última é revelada, a fim de traçar um paralelo com as páginas de sua autoria.

Existem dois planos narrativos interessantíssimos em Saving Mr. Banks e que se complementam ao longo da história. Por meio de flashbacks que retornam à sua vida na Áustralia, as frustrações e manias de Travers são explicados de forma implícita, o que requer certa atenção por parte do público. Tal fato é evidenciado na aversão de Pamela à cor vermelha, mesmo utilizando esta para colorir suas unhas, mas que tem como explicação o sangue presente nas constantes tosses de seu pai.

Para aqueles que têm lembranças frescas do filme original de 1964, é interessante reparar na apropriação que a personagem de Thompson faz do discurso do senhor Banks, patrão da babá Mary Poppins. Ambos seguem uma linha de pensamento similar, tratando com severidade tudo o que os cerca. Outro ponto a ser destacado é o fato de muitas falas de Saving Mr. Banks ecoarem exatamente as mesmas linhas pertencentes ao roteiro do musical. Até mesmo os personagens do clássico são reproduções de elementos da infância de Travers, como Katie Nanna e Tio Albert.

Apesar de relatar um drama, o humor marca presença no filme, servindo até mesmo para atenuar sua forte carga emocional. Com situações divertidas trabalhadas cautelosamente para não comprometer o objetivo da trama, o longa arranca risadas de sua platéia em diversos momentos.

A trilha sonora faz jus à indicação recebida no Oscar. Thomas Newman apresenta mais um trabalho extremamente competente, capaz de acompanhar as mudanças de humor da história. O design de produção também é outro ponto a ser considerado, devido ao cuidado utilizado na recriação da Los Angeles da década de 1960. Os figurinos, igualmente bem projetados, mostram o contraste entre a tradicional cultura britânica – representada por Travers – e a descontração da Califórnia de maneira esplêndida.

Emma Thompson e Tom Hanks fazem um trabalho louvável. Hanks personifica um Disney exibicionista e divertido, tal como realmente era, enquanto Thompson incorpora a frivolidade e os costumes de Travers de maneira extremamente convincente. É vergonhosa a falta de uma indicação da atriz britânica ao Oscar desse ano.

O filme talvez peque na exagerada rabugice de Travers, que poderia ser atenuada, apesar de ser uma das principais fontes de humor da trama. Outro aborrecimento é a falta de uniformidade nas tosses de Walt, que denunciam o câncer de pulmão que causaria sua morte. Apesar de seu vício em cigarros ser apresentado de forma sutil, tal como deveria por se tratar de uma produção da Disney, a falta de continuidade dada à essa característica não é nada convincente. Fato similar ocorre na abordagem do alcoolismo do pai de Travers, que contraria os sintomas reais de tal problema.

Outra questão é o ufanismo em relação à Disney. Ao exaltar seu império e sua capacidade de influenciar as pessoas, pode parecer exagerado o otimismo com o qual a empresa é exposta. Essa característica, porém, é esperada, afinal, estamos falando de um filme sobre a produção de um dos maiores sucessos da companhia. São poucos os estúdios que têm a chance de realizar um projeto como este, o que mostra a importância que a Walt Disney Pictures incontestavelmente tem no cenário mundial.

É interessante observar o final dado ao longa. É de comum conhecimento que P.L. não aprovou o produto final da adaptação de seus livros. Tratando-se de um filme da Disney sobre um de seus maiores clássicos, porém, era esperado que este fato não fosse contemplado. De maneira bem trabalhada, a cena final não simula uma inexistente simpatia da autora em relação ao musical, mas tampouco escancara sua desaprovação. 

Apesar de gravações e fotos originais exibidas durante os créditos, é errado acreditar que o filme tem a ambição de se tornar um documentário. Esses elementos estão lá unicamente para contemplar a produção de Poppins e engana-se quem toma a narrativa como uma verdade absoluta.

Existem aqui dois filmes a serem assistidos: Walt nos Bastidores de Mary Poppins e Saving Mr. Banks (Salvando Senhor Banks), ambos completamente diferentes. Enquanto o primeiro se limita a relatar o que está por trás da produção do clássico, o segundo é muito mais poético e bonito. Dependendo não somente da interpretação feita, mas também levando em conta o que Mary Poppins representa para o público, o espectador será apresentado a uma dessas obras, que levam a opiniões e críticas distintas. Para aqueles que não se sentem pessoalmente tocados pela história da babá britânica, o longa talvez pareça enfadonho, mas Saving Mr. Banks pode ser muito mais profundo e significativo se você acrescentar um pouco de sua individualidade à narrativa.


Para aqueles interessados em imergir ainda mais no mundo de Mary Poppins, a Disney disponibilizou, gratuitamente, um e-book com áudios, fotos e vídeos originais da produção do musical, além de informações e curiosidades a respeito de Saving Mr. Banks. O download pode ser feito na Apple Store no link abaixo:

https://itunes.apple.com/us/book/saving-mr.-banks-official/id775411203?mt=11

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3 comentários sobre “Walt nos Bastidores de Mary Poppins

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