Trapaça

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Retrato da criminalidade na década de 1970 se apoia em grandes atuações

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: American Hustle
DIREÇÃO: David O. Russell
DURAÇÃO: 138min
GÊNERO: Drama, Policial
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2013

Dois bons filmes sobre o submundo da costa leste americana concorrem ao grande prêmio do Academy Awards desse ano. O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, retrata a verídica ascensão e queda de Jordan Belfort, corretor da bolsa de valores na década de 1980. Também baseado em fatos reais, Trapaça, de David O. Russell, explica a investigação ABSCAM, ocorrida no fim da década de 1970, responsável pelo flagrante de corrupção de importantes políticos norte-americanos. Enquanto O Lobo é mais ousado, utilizando as imagens como grande aliado na apresentação da sujeira do mercado financeiro nova-iorquino, Trapaça se prende aos diálogos cautelosamente elaborados e requer uma maior atenção de seu espectador.

Ambientado na incrivelmente bem retratada década de 1970, American Hustle acompanha a jornada da dupla romântica – e golpista – Irving Rosenfeld (Christian Bale) e Sydney Prosser (Amy Adams) pela criminalidade dos Estados Unidos. Da venda de peças de arte falsificadas à inexistentes rendimentos bancários, o casal é surpreendido quando o investigador Richie DiMaso (Bradley Cooper) desmascara sua rede de ilegalidade, deixando-os com uma única saída: ajudar o FBI a prender o prefeito corrupto de Camden, Carmine Polito (Jeremy Renner).

Por meio de uma narrativa bem-humorada – muitas das vezes graças à nova queridinha de Hollywood, Jennifer Lawrence, que interpreta a esposa de Irving, Rosalyn – o filme oscila entre o drama e o humor. Com grandes atuações de todo o elenco, as transições emotivas pela temática ocorrem de maneira sutil. Tais mudanças ficam evidentes em cenas como a dança espalhafatosa de Jennifer Lawrence ao som de Live And Let Die, momentos depois da personagem derramar lágrimas ao entregar informações sigilosas de seu marido como forma de vingança. Do flagelo sentimental à caricata comicidade: é por meio dessa colcha de retalhos emotivos que o filme ganha vivacidade e sustância. Falamos aqui de um trabalho de extrema competência, onde os artistas tiveram grande espaço para desenvolver suas interpretações, formando um dos melhores elencos de 2013. O brilhantismo das atuações de Amy Adams e Christian Bale só não ofusca os atores secundários devido ao semelhante talento apresentado por estes.

Destaque merecido para a trilha sonora, que embala o longa com sua áurea vintage, recheada de célebres e imortalizados sucessos. Tão saudosista quanto, a direção de arte faz um memorável trabalho, retratando a era da Discocom elegantes figurinos e penteados extremamente caprichados. A década de 1970 não poderia ser melhor representada.

Quando nos aproximamos de sua reta final, porém, a história vacila ao acrescentar mais informações do que o roteiro é capaz de absorver. Com uma imensa complexidade, a trama abandona as bases sólidas nas quais se apoia em seu começo, deixando as reviravoltas de sua segunda parte frágeis e sem a devida contextualização. Esse é talvez o único erro cometido por David O. Russell, além da falta de espaço concedida à Jennifer Lawrence, que funciona basicamente como um elemento para agregar humor à obra. Apesar disso, a atriz é habilidosa o suficiente para destacar suas aparições em meio à tantas notáveis performances.

Preso aos detalhes tanto da trama quanto da parte artística, Trapaça é uma excelente reunião de talentos. David O. Russell iguala – ou até supera – a qualidade obtida em seu último trabalho, O Lado Bom Da Vida, também indicado ao Oscar, com semelhante dedicação e cautela. American Hustle nos apresenta à uma realidade existente até os dias de hoje, não quanto à forma, mas quanto à essência, frisando a incessante busca do ser humano por prestígio e como ele pode ser facilmente corrompido. Afinal, a qualquer momento, quem você menos espera pode se tornar um verdadeiro trapaceiro.

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