Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

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Abordagem delicada e jovial marca romance inspirado no curta de 2010 

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO INTERNACIONAL: The Way He Looks
DIREÇÃO: Daniel Ribeiro
DURAÇÃO: 95min
GÊNERO: Drama, Romance
PAÍS: Brasil
ANO: 2014

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, primeiro longa de Daniel Ribeiro, é baseado em seu curta metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho. Marcando presença nas premiações cinematográficas nacionais, a sensível temática do curta de 2010 conquistou popularidade, garantindo sua adaptação em um longa metragem. Depois de um amplo trabalho de divulgação, o produto final é apresentado ao público brasileiro, semanas após seu lançamento na Mostra Berlinale Panorama, principal evento paralelo ao Festival de Berlim, onde faturou o segundo lugar de melhor filme por votação popular.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho conta a história de Leonardo (Ghilherme Lobo), um estudante cego que precisa lidar com os problemas comuns da adolescência ao lado de sua melhor amiga, Giovana (Tess Amorim). Após a chegada de Gabriel (Fabio Audi) em seu colégio, a maior aproximação entre as três personagens dá origem a uma amizade bonita, mas vítima de conflitos originados pela incerteza e impulsividade típicos de suas idades. Ao longo da trama, Leonardo passa por um processo de descoberta de sua sexualidade e também de sua personalidade, que servem como engrenagens para o curto, mas profundo roteiro.

O filme aborda uma temática importante, mas de maneira delicada e sensível. Os problemas do jovem Leonardo não se limitam à sua sexualidade: são questões que qualquer adolescente enfrenta. Rebeldia, o primeiro beijo, bullying, amadurecimento e muitos outros tópicos são decisivos para a fluidez do enredo. A cegueira é utilizada como uma alegoria, que agrava e particulariza os problemas do protagonista, embora estes independam de tal condição para sua existência. Este ponto fica explícito nos momentos em que Giovana, assim com Leonardo, sofre ridicularizações por parte de seus colegas de sala.

São inúmeros os filmes que discutem a descoberta da sexualidade. Poucos deles, porém, propõem um tratamento tão diferenciado quanto Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. A abordagem do tema pela trama, ao se laçar na cegueira de Leonardo, torna o filme muito mais poético. O protagonista nasceu cego, nunca viu um homem ou uma mulher. O afeto entre as personagens está completamente ligado a um sentimento puro e verdadeiro, que não se submete a preconceitos. O “gay” e o “hétero” aparecem aqui banalizados, sendo o amor a única força substancial da relação narrada. Para Leo, seu sentimento é completamente natural: a espontaneidade utilizada para anunciá-lo à Giovana é a principal evidência disso. “Eu acho que eu to apaixonado pelo Gabriel… Apaixonado de namorado” diz o adolescente à amiga. A reação da personagem no curta, que é omitida do longa, expõe o caráter “rotulador” existente atualmente em nossa sociedade: “Namorado gay?”, questiona.

Outro ponto interessante é o equilíbrio que se estabelece entre as personalidades de Leonardo e Gabriel ao fim da trama. No começo, a insegurança e inocência de Leo são aspectos marcantes da personagem. Já o amigo, que também apresenta certa fragilidade, mas desta vez camuflada, é uma peça fundamental para a transformação do protagonista. Ao longo do filme, suas novas experiências e questionamentos o levam à um estado muito maior de confiança e independência, que ficam evidentes na última cena da obra. Ambos amadurecem conforme os desdobramentos do roteiro, juntamente com Giovana.

Tal amadurecimento também ocorre fora da ficção: o elenco demonstra um avanço notável quando comparado ao curta metragem. Assim como os atores, a temática também se mostra muito mais desenvolvida. Enquanto o curta se baseia na inocência do trio protagonista, o longa possui uma visão muito mais comprometida das relações que se estabelecem entre as personagens.

A atuação de Ghilherme Lobo, assim como as de Tess Amorim e Fabio Audi, é bastante convincente e encarna com perfeição a problemática – mas também leve – personalidade juvenil. Este primeiro faz um excelente trabalho na incorporação de Leonardo, levando o público a questionar se sua cegueira se estende para a vida real.

A parte técnica da produção é bastante notável. A trilha sonora, jovial e balanceada, harmoniza perfeitamente o longa. A ampla utilização de canções estrangeiras, por sua vez, não deve ser condenada, pois o filme se empenha na conquista do público internacional, sendo a musicalidade importante estratégia para tal fim. A fotografia da obra também merece destaque. Os enquadramentos captam toda a tensão envolvida em cada cena, não deixando de ser esteticamente bem-elaborados. Juntamente com o roteiro, as tomadas são essenciais para uma total imersão do público na história, que não demora e nem encontra dificuldades para acontecer. Fazemos parte da trama em todos os seus momentos.

A forte carga dramática do filme é bastante abrangente e serão muitos os jovens que, ao assistirem, traçarão um paralelo com suas próprias reflexões. Os conflitos colocados em pauta não se limitam à orientação sexual ou a qualquer outro fator: são de ordem universal para adolescentes de todo o mundo.

O romance desenvolvido pelo roteiro é cativante e bonito, utilizando a inocência juvenil para a discussão de um tema de extrema importância. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é um trabalho maravilhoso, muito mais profundo do que pode parecer à primeira vista. O longa não só nos faz refletir sobre um assunto de enorme relevância, como também nos apresenta a uma história de amor que, embora simples, é problematizada por uma realidade conservadora. Observamos uma forma de amor tão pura e verdadeira quanto qualquer outra, que deveria ser encarada com igual naturalidade. A verdadeira cegueira não é aquela existente em uma condição física, mas a que está presente nos preconceitos que adotamos.


Vale a pena conferir o curta metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho, de 2010, que inspirou o filme.

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3 comentários sobre “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

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