Ela

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Filme com Joaquin Phoenix discute muito mais que relação entre homem e máquina

Por Leonardo Sanchez
TÍTULO ORIGINAL: Her
DIREÇÃO: Spike Jonze
DURAÇÃO: 126min
GÊNERO: Drama, Romance, Ficção
PAÍS: Estados Unidos
ANO: 2013

A ficção científica já se ocupou inúmeras vezes com a previsão do futuro das máquinas. O público já se acostumou com revoluções e violências geradas pelo desenvolvimento tecnológico delas. Em Ela, porém, vemos uma outra tomada de rumo. Somos apresentados à um lado afável e sentimental das engrenagens, de maneira completamente inovadora.

Ela se passa em um futuro tecnologicamente utópico (ou seria distópico?) e conta a história de Theodore (Joaquin Phoenix), um recém-divorciado que leva uma vida rotineira e anti-social. Ao adquirir a assistente de voz inteligente Samantha (Scarlett Johansson), o protagonista acaba com a monotonia que o acompanhava até então e recheia sua existência de momentos felizes e românticos ao lado do aparelho. É com base nesse amor que o filme se desenvolve, mostrando as crises e prazeres dessa relação, enquanto Theo convive não só com as lembranças da ex-mulher Catherine (Rooney Mara), mas também com a tecnologia que envolve a nova era em que vive, contando sempre com o apoio de sua amiga da faculdade Amy (Amy Adams).

O roteiro original assinado por Spike Jonze prova-se capaz de cativar o espectador com uma abordagem diferenciada de um tema continuamente discutido: o amor. Ela é uma história pura e bonita que se desenvolve nas mais espantosas circunstâncias (quem imaginaria que um computador seria capaz de sentir e consequentemente se apaixonar?). É espetacularmente interessante acompanhar não apenas o psicológico de Theodore, mas o da própria Samantha, que assim como nós, também é capaz de sofrer.

A fotografia do filme é fantástica. A câmera capta não somente o drama particular de Theo, por meio de tomadas solitárias e focalizadas, às vezes até mesmo subjetivas, mas também é competente para demonstrar a grande revolução que a ciência causou na geração do protagonista. Apresentando imagens de homens e mulheres imersos na tecnologia, cortando as relações que poderiam existir entre eles próprios, fica clara a proposta de apresentar não um risco futuro, mas uma realidade já existente.

A trilha sonora é simples e delicada, acompanhando a sutileza da trama. The Moon Song,  que concorre ao Academy Awards por melhor canção original, é uma composição trivial, mas que capta a essência do filme e a pureza de sua temática.

Joaquin Phoenix, como em outros de seus principais trabalhos, atua com perfeição. Sua interpretação acompanha a carga sentimental do filme mesmo estando desacompanhado na maioria das cenas. Um grande desafio para um grande ator, capaz de superar as dificuldades impostas pela solidão de seu papel. Amy Adams e Rooney Mara, apesar do pouco espaço que recebem, também desempenham suas funções notavelmente, enquanto Scarlett Johansson, apenas com uso de sua voz, faz um belíssimo trabalho, sonorizando de forma atraente e delicada o computador Samantha. É digna de destaque a capacidade que Johansson tem de marcar forte presença sem se quer aparecer na tela.

Um detalhe que pode parecer estranho ao filme é a existência de cartas. O próprio protagonista trabalha em uma empresa responsável por redigi-las. Essa característica pode existir para mostrar como o avanço da tecnologia, por maior que seja, não preenche nossas carências por inteiro. A escrita, de extrema simplicidade, representa um tipo de resgate das tradições passadas, encarando-as com um tipo de importância saudosista.

Talvez o único pecado cometido por Jonze tenha sido não definir claramente os limites da tecnologia que envolve o sistema operacional do filme, o que pode causar confusão em seu público. Mesmo assim, a trama não é comprometida e esse fator pode ser relevado e considerado uma licença poética, uma vez que o papel de Samantha funciona muito mais como um simbolismo para alcançar a verdadeira essência da história.

Ambientada em uma era onde a efemeridade e o dinamismo são inevitáveis, Spike Jonze desenvolve uma narrativa desacelerada e presa aos detalhes. Desse modo, somos apresentados a temas pertinentes tanto na esfera do real quanto na do virtual. Ela não é apenas outra história de amor ou um debate sobre o futuro da ciência. Tampouco funciona como uma dissertação sobre o convívio do homem com a tecnologia. O longa nada mais é que um ensaio sobre a relação dos seres humanos com si mesmos.

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